J. K. ROWLING

MORTE SBITA

Traduo e edio Izabel Aleixo Maria Helena Rouanet

EDITORA NOVA FRONTEIRA
2012

Para Neil

Parte Um

     6.11  Ser declarada a vacncia do mandato de um conselheiro:
     quando este deixar de tomar posse no cargo dentro do prazo regulamentar;
     quando este entregar o seu pedido formal de renncia; ou
     em caso de morte sbita do titular (...)

Charles Arnold-Baker 
Administrao dos Conselhos Locais 
7a edio


Domingo
     
     Barry Fairbrother no estava com a mnima vontade de sair para jantar. Passou o fim de semana praticamente todo tendo que agentar uma dor de cabea latejante 
e lutando para redigir a matria de capa do jornal local.
     Na hora do almoo, porm, a sua esposa estava meio emburrada e sem dizer palavra, e Barry deduziu que o carto que lhe mandou pelo aniversrio de casamento 
no havia conseguido atenuar o crime que ele cometeu passando a manh inteira trancado no escritrio. E, ainda por cima, escrevendo sobre Krystal, de quem Mary no 
gostava absolutamente, embora fingisse o contrrio.
     - Estava pensando em lev-la para jantar, Mary - mentiu ele, numa tentativa de quebrar o gelo. - Dezenove anos, meninos! Dezenove anos, e a sua me nunca me 
pareceu to linda...
     Mary se desarmou e sorriu. Barry, ento, ligou para o clube de golfe, que ficava perto de casa e onde conseguiriam uma mesa sem problemas. Tentava agradar a 
esposa com essas pequenas bobagens, porque chegara  concluso, depois de quase duas dcadas de convivncia, de que geralmente a desapontava quanto s coisas mais 
importantes. Nunca de propsito. Simplesmente, os dois tinham noes muito diferentes com relao ao que devia ocupar mais espao nas suas vidas.
     Os quatro filhos do casal j tinham passado da idade de precisar de uma bab. Estavam vendo televiso quando se despediram dos pais pela ltima vez, e s Declan, 
o caula, se virou para olhar para o pai e lhe deu um tchau com a mo.
     A cabea de Barry continuava latejando num ponto atrs da orelha quando ele saiu com o carro pelas ruas do lindo vilarejo de Pagford, onde moravam desde que 
tinham se casado. Seguiram pela Church Row, a ladeira ngreme onde as casas mais luxuosas se erguiam em toda a sua solidez e a sua extravagncia vitoriana. Dobraram 
a esquina da igreja em estilo que imitava o gtico, onde tinham ido assistir  pea Jos e seu manto technicolor, em que as filhas gmeas trabalharam, e cruzaram 
a praa de onde se via o esqueleto negro das runas da abadia que, do topo de uma colina, dominava a cidade, mesclando seus contornos ao cu violeta.
     A nica coisa em que Barry conseguia pensar ali, s voltas com o volante do carro, navegando por aquelas curvas to conhecidas, era nos erros que certamente 
havia cometido tentando terminar s pressas o artigo que acabava de enviar por e-mail para a Gazeta de Yarvil e Adjacncias. Encantador e extrovertido pessoalmente, 
tinha a maior dificuldade em expressar a prpria personalidade numa folha de papel.
     O clube de golfe ficava a apenas quatro minutos da praa, pouco alm do ponto em que o vilarejo ia se extinguindo num ltimo suspiro de velhos chals. Barry 
estacionou a caminhonete diante do Birdie, o restaurante do clube, e ficou parado por um instante ao lado do veculo enquanto Mary retocava o batom. Achou gostoso 
sentir no rosto o arzinho frio da noite. Olhando os contornos do campo de golfe que iam se desintegrando na escurido, ficou se perguntando por que continuava a 
ser scio daquele clube. Era mau jogador: o seu swing era irregular, e o seu handicap, bem alto. Tinha tantas outras preocupaes na vida... As pontadas na cabea 
estavam cada vez mais fortes.
     Mary desligou a luz interna e fechou a porta do carona. Barry apertou o boto da chave para acionar o alarme. Ouviu os saltos do sapato da mulher batendo no 
cho, o apito do sistema de segurana do carro, e se perguntou se o enjo que sentia ia melhorar depois que comesse alguma coisa.
     De repente, uma dor como jamais havia sentido antes atravessou o seu crebro como se tivesse sido atingido por uma daquelas bolas de demolio. Mal sentiu os 
joelhos quando eles bateram no cho frio; o seu crnio estava inundado de fogo e sangue; a agonia era insuportvel, mas precisou suport-la, j que o desfalecimento 
s veio um minuto depois.
     Mary gritou. E continuou gritando. Vrios homens vieram correndo do bar. Um deles voltou s pressas l para dentro para ver se algum dos mdicos aposentados 
que eram scios do clube estava no local. Percebendo toda aquela comoo, um casal, que Barry e Mary conheciam, abandonou a refeio malcomeada e correu para ver 
se podia ser de alguma ajuda. O marido pegou o celular e ligou para o servio de emergncia.
     A ambulncia tinha que vir de Yarvil, a cidade vizinha, e levou vinte e cinco minutos para chegar. Quando a luz azulada se aproximou piscando, Barry estava 
deitado numa poa do prprio vmito, imvel e sem qualquer reao. Mary estava agachada ao seu lado, com a meia-cala rasgada nos joelhos, segurando a sua mo, aos 
prantos e sussurrando o seu nome.

Segunda-feira

I

     - Coragem! - disse Miles Mollison, de p na cozinha de um dos casares da Church Row.
     Esperou dar seis e meia da manh para telefonar. A noite tinha sido terrvel, cheia de longos perodos em claro pontuados por alguns momentos de um sono agitado. 
s quatro da manh, percebeu que a sua mulher tambm estava acordada e conversaram baixinho no escuro. Mesmo ali, enquanto os dois falavam sobre o que haviam sido 
obrigados a presenciar, cada qual tentando rechaar vagos sentimentos de medo e choque, a simples idia de dar a notcia ao seu pai provocava em Miles ondas de empolgao. 
Decidiu esperar at as sete horas, mas o medo de que algum pudesse ser mais rpido o fez telefonar mais cedo.
     O que houve? - indagou Howard, com aquele seu vozeiro que tinha um leve toque spero. Miles ligou o viva-voz para Samantha poder ouvir a conversa. A mulher, 
vestida num robe rosa-claro, havia aproveitado o fato de terem acordado cedo para passar mais um pouco de autobronzeador na pele de um moreno jambo, que j estava 
comeando a recuperar a sua palidez habitual. A cozinha estava impregnada da mistura dos cheiros de caf instantneo e coco sinttico.
     Fairbrother morreu. Foi ontem  noite, l no clube de golfe. Sam e eu estvamos jantando no Birdie.
     Fairbrother morreu? - bradou Howard.
     Pelo seu jeito de falar, dava para ver que ele esperava alguma mudana dramtica no estado de Barry Fairbrother, mas que nem mesmo ele imaginara a sua morte.
     Ele caiu no estacionamento - disse Miles.
     Meu Deus! - exclamou Howard. - Ele tinha o qu, pouco mais de quarenta, no ? Meu Deus...
     Miles e Samantha ouviam Howard respirar como um cavalo ofegante. Ele sempre tinha a respirao mais difcil pela manh.
     O que foi? Corao?
     Parece que foi alguma coisa no crebro. Acompanhamos Mary at o hospital e...
     Mas Howard j no estava prestando ateno. Miles e Samantha ouviram-no dizer, afastando o fone:
     Barry Fairbrother morreu!  Miles!
     Os dois ento tomaram uns goles de caf esperando que ele voltasse. Quando Samantha se sentou  mesa da cozinha, o seu robe se entreabriu revelando os contornos 
dos seios grandes apoiados nos seus antebraos. Assim pressionados, eles pareciam mais cheios e suaves que quando pendiam sem qualquer suporte. Da fenda entre eles, 
naquela pele crestada, surgiam umas linhas midas que j no desapareciam nem mesmo quando no havia presso alguma. Mais jovem, ela fora usuria assdua das cmaras 
de bronzeamento artificial.
     O qu? - indagou Howard, voltando ao telefone. - O que voc estava dizendo sobre o hospital?
     Sam e eu fomos na ambulncia - disse Miles, falando com toda a clareza. - Com Mary e o corpo.
     Samantha percebeu que a segunda verso de Miles enfatizava o que se poderia chamar de aspecto mais comercial da histria. Mas no o culpava por isso. A nica 
recompensa que teriam com aquela terrvel experincia era o direito de contar a todos o que tinha acontecido. Ela mesma achava que jamais se esqueceria daquilo: 
Mary chorando; os olhos de Barry ainda entreabertos, surgindo acima da mscara que parecia uma focinheira; ela e Miles tentando ler a expresso do paramdico; os 
solavancos naquele espao reduzido; as janelas escuras; o terror.
     Meu Deus! - exclamou Howard pela terceira vez, ignorando o interrogatrio de Shirley, com a ateno inteiramente voltada para Miles. - Ele simplesmente caiu 
morto no estacionamento?
     Exatamente - replicou Miles. - Assim que o vi tive a certeza de que no havia mais nada a fazer.
     Foi a sua primeira mentira, e ele evitou olhar para a esposa quando disse aquilo. Ela se lembrava muito bem do seu brao grande e protetor sobre os ombros trmulos 
de Mary: Ele vai ficar bom... Ele vai ficar bom...
     Mas, afinal de contas, pensou Samantha, fazendo justia ao marido, como saber se vai acontecer isso ou aquilo com aquela gente ali colocando mscaras e enfiando 
agulhas? Parecia que estavam tentando salvar Barry, e nenhum deles ficou sabendo que era tudo em vo at que a jovem mdica veio andando na direo de Mary l no 
hospital. Samantha ainda podia ver com uma nitidez assustadora, o rosto vulnervel, petrificado de Mary e a expresso da moa de culos, cabelo liso e jaleco branco: 
tranqila, embora um tanto cautelosa... Aquele tipo de coisa vive aparecendo nos seriados da televiso, mas quando  de verdade...
     De jeito nenhum - dizia Miles. - Gavin s jogava squash com ele s quintas-feiras.
     E, aparentemente, estava tudo bem com ele?
     Claro! Ele arrasou com Gavin!
     Meu Deus! Isso  para voc ver, sabe? Para voc ver... Espere um pouco, a sua me quer lhe dar uma palavrinha.
     Depois de uma pancada e de um outro barulhinho, ouviu-se a voz suave de Shirley na linha.
     Que coisa horrvel, Miles - disse ela. - Voc est bem?
     Samantha foi tomar um gole de caf, mas se atrapalhou um pouco: a bebida lhe escorreu pelos cantos da boca e ela enxugou o rosto e o peito com a manga do robe. 
Miles j estava com aquela voz que geralmente usava quando falava com a me: mais profunda que de costume, uma voz do tipo nada-me-abala, vigorosa e pragmtica. 
s vezes, especialmente quando bebia, Samantha imitava as conversas entre me e filho. "No se preocupe, mame. Miles est aqui. O seu soldadinho." "Voc  maravilhoso, 
querido: to grande, to corajoso, to inteligente." Recentemente, ela tinha feito essa imitao uma ou duas vezes na frente de outras pessoas, deixando o marido 
chateado e na defensiva, embora fingisse achar graa. Da ltima vez, tiveram at uma briga no carro, voltando para casa.
     Vocs foram junto com Mary para o hospital? - indagou Shirley ao telefone.
     No, pensou Samantha. No meio do caminho ficamos de saco cheio e pedimos para saltar.
     Era o mnimo que podamos fazer. Gostaria de poder ter feito mais.
     Samantha se levantou e foi at onde estava a torradeira.
     Tenho certeza de que Mary ficou muito agradecida - disse Shirley. Samantha fez um barulho pegando o po e enfiando quatro pedaos nas fendas do aparelho. A 
voz de Miles j estava praticamente normal.
     Bom, quando os mdicos vieram dizer... ou melhor, confirmar que ele estava morto, Mary quis chamar Colin e Tessa Wall. Sam ligou para eles. Esperamos at que 
chegassem e, s ento, viemos embora.
     Que sorte a dela vocs estarem l - disse Shirley. - Papai quer falar mais uma coisa, Miles. Vou passar o telefone para ele. Nos falamos mais tarde.
     Nos falamos mais tarde - murmurou Samantha, dirigindo-se  chaleira e balanando a cabea. No reflexo distorcido, via o prprio rosto inchado, depois da noite 
em claro, e os olhos castanho-escuros estavam vermelhos. Na pressa de estar presente quando Miles desse a notcia a Howard, ela tinha se descuidado e passado a loo 
auto-bronzeadora nas plpebras tambm.
     Por que voc e Sam no vm at aqui hoje  noite? - indagou Howard aos brados. - No, espere a... Mame est dizendo que vamos jogar bridge com os Bulgen. 
Amanh, ento. Venham jantar. L pelas sete.
     Pode ser - disse Miles, dando uma olhada para a mulher. - Tenho que ver se Sam j marcou alguma coisa.
     Ela no deu qualquer sinal indicando se queria ir ou no. Uma estranha sensao de anti-clmax se espalhou pela cozinha quando Miles desligou.
     Eles no conseguem acreditar - observou ele, como se Samantha no tivesse ouvido a conversa toda.
     Comeram as torradas e tomaram uma caneca de caf fresco em silncio. Parte da irritabilidade de Samantha foi desaparecendo enquanto ela mastigava. Lembrou que 
tinha acordado sobressaltada, pulando da cama no quarto ainda escuro quela hora da manh, e que tinha se sentido absurdamente aliviada e agradecida por ver Miles 
ali ao seu lado, grandalho e barrigudo, com cheiro de vetiver e rano de suor. Depois, se imaginou contando aos fregueses da loja que um homem tinha cado morto 
bem na sua frente, e falando tambm da corrida desabalada na ambulncia at o hospital. Pensou em vrias maneiras de descrever os detalhes daquele trajeto e a cena 
apotetica com a mdica. A juventude daquela mulher to segura de si fazia tudo aquilo parecer ainda pior. Eles tinham que encarregar algum mais velho de dar uma 
notcia como aquela... Depois, para melhorar ainda mais o seu nimo, lembrou que tinha um encontro com o representante de vendas da Champtre no dia seguinte e que 
o sujeito tinha sido bem agradvel, meio que flertando com ela por telefone.
 melhor eu ir andando - disse Miles, tomando um ltimo gole de caf e com os olhos pregados no cu, que ia ficando mais claro do outro lado da vidraa. Soltou um 
profundo suspiro e deu uns tapinhas no ombro da mulher quando passou junto dela para levar a caneca e o prato vazios at a lava-loua. - Deus do cu! Isso faz a 
gente repensar um monte de coisas, no  mesmo? - disse ele. E saiu da cozinha balanando a cabea com aquele cabelo curtinho que comeava a ficar grisalho.
     As vezes, Samantha achava o marido absurdamente e cada vez mais idiota. De quando em quando, porm, gostava daquele seu ar pomposo exatamente como gostava, 
nas ocasies mais formais, de usar chapu. Afinal de contas, assumir um ar solene e um tanto nobre era a atitude mais adequada para aquela manh. Terminou de comer 
a torrada e guardou as coisas do caf da manh aperfeioando mentalmente a histria que pretendia contar  moa que trabalhava com ela.

II

     - Barry Fairbrother morreu - exclamou Ruth Price, ofegante.
     Tinha subido o glido caminho do jardim quase correndo para ter mais alguns minutos com o marido antes de ele sair para o trabalho. Nem parou para tirar o casaco 
na varanda: ainda de luvas e cachecol, entrou na cozinha onde Simon e os filhos adolescentes estavam tomando caf.
     O marido ficou imvel, com a torrada a caminho da boca, e, depois, tornou a bot-la no prato com uma lentido teatral. Os dois garotos, ambos de uniforme, olharam 
para o pai e para a me, no muito interessados.
     Acham que foi aneurisma - disse Ruth, ainda meio sem flego, tirando as luvas dedo a dedo, desenrolando o cachecol do pescoo e desabotoando o casaco. Era uma 
mulher magra, de cabelo castanho-escuro, com uns olhos cansados e melanclicos. Aquele uniforme de enfermeira todo azul lhe caa muito bem. - Foi l no estacionamento 
do clube de golfe. Sam e Miles Mollison o levaram para o hospital. Depois, Colin e Tessa Wall chegaram...
     As pressas, foi at a entrada da casa para pendurar as suas coisas e voltou bem a tempo de responder  pergunta que Simon tinha feito aos gritos.
     O que  uma aneurisma?
     Um aneurisma.  o rompimento de uma artria no crebro.
     Com movimentos sempre rpidos, aproximou-se da chaleira, ligou o fogo e comeou a limpar os farelos de po espalhados pela bancada da pia e em torno da torradeira, 
falando sem parar.
     Deve ter tido uma hemorragia cerebral fortssima. Coitadinha da mulher dele... Est absolutamente arrasada...
     Abalada, Ruth ficou olhando a brancura irregular do seu gramado coberto de geada, a abadia do outro lado do vale, aquele esqueleto que se erguia abrupto contra 
o cu de um rosa e de um cinza desbotados, a viso panormica que era a glria de Hilltop House e que se tinha da janela da sua cozinha. Pagford, que  noite no 
passava de um punhado de luzinhas piscando l embaixo no escuro, estava agora emergindo  claridade glida do sol. Ruth no via nada daquilo: a sua cabea ainda 
estava no hospital, vendo Mary sair do quarto onde Barry estava deitado e de onde j haviam sido removidos todos aqueles aparelhos, tentativas inteis de salvar 
a sua vida. A piedade de Ruth Price flua mais espontnea e mais sincera com relao queles que acreditava serem como ela mesma. "No, no, no, no", gemia Mary, 
e aquela negao instintiva ecoou l dentro de Ruth, porque a cena representava uma viso de si mesma em situao idntica...
     Mal conseguindo agentar aquela lembrana, voltou os olhos para Simon. O cabelo castanho-claro do marido ainda era espesso, o seu porte era quase to rijo quanto 
fora aos vinte anos, e as rugas nos cantos dos olhos ainda tinham l o seu charme, mas, para Ruth, a retomada do trabalho como enfermeira depois de uma longa pausa 
voltou a confront-la com as mil e uma maneiras pelas quais o corpo humano pode deixar de funcionar direito. Envolvia-se menos quando era mais moa; agora compreendia 
a sorte que tinham de estar todos vivos.
     No deu para fazer nada? - perguntou Simon. - No podiam, sei l, dar uns pontos?
     Havia frustrao na sua voz, como se achasse que a medicina tinha vindo, mais uma vez, atrapalhar tudo, recusando-se a fazer as coisas mais simples e bvias.
     Andrew estremeceu com um prazer selvagem. Ultimamente, vinha reparando que o pai estava com mania de contestar a mulher: sempre que ela usava termos mdicos, 
l vinha ele com sugestes broncas, ignorantes. Hemorragia cerebral. Dar uns pontos. A sua me no se dava conta do que o marido estava fazendo. Como sempre, alis. 
E Andrew continuou a comer o seu cereal, morrendo de dio.
     Quando ele deu entrada no hospital j era tarde demais - replicou Ruth, pondo uns saquinhos de ch dentro do bule. - Ele morreu na ambulncia, pouco antes de 
chegarem.
     Que merda! - exclamou Simon. - Que idade ele tinha? Quarenta?
     Mas Ruth no estava prestando ateno.
     Paul - disse ela -, o seu cabelo est todo embaraado na parte de trs. Voc se penteou?
     Tirou uma escova da bolsa e a ps na mo do filho caula.
     Ele no teve nenhum sintoma? Nada? - perguntou Simon, enquanto Paul escovava o cabelo rebelde.
     Parece que vinha tendo dor de cabea h uns dois dias.
     Ah! - exclamou Simon, mastigando uma torrada. - E no deu bola?
     Claro. No achou que fosse nada grave.
     Simon engoliu a torrada.
     Est vendo s? - disse ele, com ares de quem sabe das coisas. - Voc precisa se cuidar.
     Ah, quanta sabedoria, pensou Andrew com o maior desprezo, quanta profundidade. Quer dizer que a culpa era toda de Barry Fairbrother se o crebro dele tinha 
estourado... Seu babaca pretensioso, disse ele, xingando o pai alto e bom som dentro da prpria cabea.
     Ah, e por falar nisso - acrescentou Simon, apontando com a faca para o filho mais velho -, ele vai comear a trabalhar. O nosso amigo Cara de Pizza.
     Atnita, Ruth se voltou para o filho. As espinhas se destacavam, lvidas e lustrosas, no rosto todo vermelho do garoto, que olhava fixo para a tigela cheia 
daquela papa bege.
 isso mesmo - prosseguiu Simon - Esse merdinha preguioso vai comear a ganhar algum dinheiro. Se quer fumar, tem que arcar com as prprias despesas. Acabou essa 
histria de mesada.
     Andrew! - exclamou Ruth em tom de lamento. - Voc no andou...?
     Andou, sim. Peguei ele l no galpo de lenha - disse Simon, com uma expresso que destilava desprezo.
     Andrew!
     Da gente, ele no tem mais um tosto. Quer cigarro? Pois que compre... - provocou o pai.
     Mas tnhamos decidido... - principiou Ruth, chorosa. - Tnhamos decidido... Os exames esto chegando...
     Pelo jeito como ele se ferrou no simulado, j vai ser uma sorte se conseguir passar. Talvez seja melhor passar antes pelo McDonald's, para ir ganhando experincia 
- disse Simon, levantando-se, empurrando a cadeira, deliciando-se com a viso do filho sentado ali de cabea baixa, deixando ver apenas o contorno do rosto inchado 
pela acne. - Porque ns  que no vamos ficar sustentando um repetente, viu, cara? E agora ou nunca!
     Ah, Simon - disse Ruth, em tom de reprovao.
     O que foi? - perguntou Simon, aproximando-se da mulher com passadas fortes. Ruth se encolheu de encontro  pia. A escova de plstico rosa caiu da mo de Paul. 
- No vou ficar financiando o vcio desse babaca! Que cara de pau, porra! Fumando l na merda do meu galpo!
     E bateu no prprio peito ao dizer a palavra "meu". Ao ouvir o rudo surdo daquela pancada, Ruth fez uma careta.
     Quando tinha a idade desse merdinha, j trazia um salrio para casa. Se ele quer fumar, que compre os seus prprios cigarros, certo? Certo?
     O rosto de Simon estava agora a uns quinze centmetros do de Ruth.
     Certo, Simon - disse ela bem baixinho.
     Parecia at que as entranhas de Andrew tinham se derretido. Menos de dez dias atrs, havia feito um juramento; ser que tinha chegado a hora? Assim to cedo? 
Mas o seu pai se afastou da sua me e saiu da cozinha, rumo  porta da rua. Ruth, Andrew e Paul ficaram ali, praticamente imveis. Era como se tivessem prometido 
no se mexer na ausncia dele.
     Encheu o tanque? - gritou Simon, como sempre fazia quando a mulher dava planto no turno da noite.
     Enchi - respondeu ela, tambm gritando, louca por um pouco de leveza, de normalidade.
     A porta da frente fez um barulho metlico e bateu.
     Ruth tratou de se ocupar com o bule, esperando que aquele clima inflado murchasse at voltar s propores normais. S falou quando Andrew estava quase saindo 
da cozinha para ir escovar os dentes.
     Ele est preocupado com voc, Andrew. Com a sua sade.
     Preocupado o cacete! Esse babaca!
     Mentalmente, Andrew rebatia com palavres os palavres que o pai dizia. Mentalmente, enfrentava Simon de igual para igual.
     Em voz alta, para a me, disse:
     Claro...
     
     III
     
     O Evertree Crescent era uma meia-lua de chals dos anos 1930, que ficava a dois minutos da praa principal de Pagford. No nmero trinta e seis, numa casa alugada 
h muito mais tempo que qualquer outra da rua, Shirley Mollison estava na cama, recostada nos travesseiros, tomando o ch que o marido havia lhe trazido. O reflexo 
que a encarava das portas espelhadas do armrio embutido era um tanto esfumado, o que se devia em parte ao fato de ela no estar de culos, em parte  claridade 
branda que penetrava no quarto atravs das cortinas com estampa floral. A essa luz lisonjeira, enevoada, o rosto enrugado, em tons de rosa e branco, que surgia sob 
o cabelo curto bem grisalho era como o de um querubim.
     No quarto, mal cabiam a cama de solteiro de Shirley e a de casal de Howard, juntas, meio entulhadas, como gmeas no idnticas. O colcho de Howard, que ainda 
trazia a vigorosa marca do seu corpo, estava vazio. Dava para ouvir o barulhinho do chuveiro dali de onde Shirley e o seu reflexo rosado estavam sentados, uma defronte 
do outro, saboreando a notcia que ainda parecia efervescer no ar como champanhe borbulhante.
     Barry Fairbrother tinha morrido. Batido as botas. Acabado. Nenhum acontecimento de importncia nacional, nem guerra, nem crise do mercado financeiro ou ataque 
terrorista teria sido capaz de deixar Shirley naquele estado de espanto, de vido interesse e de especulao febril que agora a consumia.
     Detestava Barry Fairbrother. Ela e o marido, que em geral concordavam inteiramente quanto a amizades e inimizades, divergiam um pouco nesse caso. Por vezes, 
Howard se confessou cativado pelo homenzinho barbudo que lhe fazia uma oposio to ferrenha nas mesas compridas e arranhadas do salo da igreja. Ela, porm, no 
fazia diferena alguma entre o aspecto poltico e o pessoal. Barry tinha enfrentado Howard naquilo que o seu marido mais desejou na vida, o que bastou para fazer 
dele, aos olhos de Shirley, o pior dos inimigos.
     A lealdade ao marido era o principal motivo daquela averso apaixonada, mas no o nico. Os instintos de Shirley com relao s pessoas eram apuradssimos numa 
nica direo, como um cachorro treinado para farejar drogas. Estava sempre pronta para detectar condescendncia, e h muito havia sentido o seu cheiro nas atitudes 
de Barry Fairbrother e dos seus comparsas no Conselho. Os Fairbrother da vida partiam do pressuposto de que, por terem formao universitria, eram melhores que 
pessoas como ela e Howard; que as suas opinies eram mais importantes. Pois bem, a sua arrogncia tinha sofrido um duro golpe hoje. A morte sbita de Fairbrother 
veio reforar uma convico que Shirley nutria h tempos: independentemente do que ele e os seus seguidores pudessem pensar, Fairbrother sempre foi uma criatura 
inferior ao seu marido, e mais fraca, pois Howard, alm de todas as outras virtudes que possua, tinha conseguido sobreviver a um ataque cardaco sete anos atrs.
     (Em momento algum Shirley achou que Howard fosse morrer, nem mesmo quando ele estava na sala de cirurgia. Para ela, a presena de Howard neste mundo era um 
fato inquestionvel, como a luz do sol e o oxignio. Disse isso inmeras vezes, depois desse episdio, quando amigos e vizinhos falavam de gente que escapava como 
que por milagre, da sorte que tinham por contar com uma unidade cardiolgica assim to pertinho, em Yarvil, e comentavam como ela devia ter ficado terrivelmente 
preocupada.
     - Sempre soube que ele ia se safar - dizia ela, na maior tranqilidade. - Nunca duvidei disso.
     E l estava ele, to saudvel como sempre, ao passo que Fairbrother estava no necrotrio. Dito e feito.)
     No entusiasmo daquelas primeiras horas da manh, Shirley se lembrou do dia seguinte ao nascimento do filho Miles. Tinha se sentado na cama, anos e anos atrs, 
exatamente como estava agora, com a luz entrando pela janela da enfermaria, segurando uma xcara de ch que algum tinha preparado para ela, esperando que lhe trouxessem 
o seu lindo beb para mamar. Nascimento e morte: era a mesma conscincia de existncia iluminada e do destaque da sua prpria importncia. A notcia da morte sbita 
de Barry Fairbrother jazia no seu colo como um recm-nascido rechonchudo a ser exibido para todos os seus conhecidos. E ela seria a fonte, por ter sido a primeira, 
ou quase, a ficar sabendo.
     Nada daquele prazer que fervia e borbulhava dentro dela tinha se manifestado enquanto Howard estava no quarto. Antes de ele ir tomar banho, os dois se limitaram 
a fazer os comentrios adequados nesses casos de morte sbita.  claro que, enquanto ficaram passando aquelas palavras e frases-padro de um lado para o outro, como 
se fossem as contas de um baco, Shirley sabia perfeitamente que o marido devia estar to perto do xtase quanto ela prpria. No entanto, expressar tais sentimentos 
em voz alta, quando a notcia da morte ainda estava fresquinha, pairando ali no ar, teria sido praticamente como danar nu e gritar obscenidades, e tanto Howard 
quanto Shirley estavam sempre envergando uma camada invisvel de decoro da qual nunca se desfaziam.
     De repente, outra idia feliz lhe passou pela cabea. Shirley deixou a xcara e o pires na mesinha de cabeceira, levantou da cama, vestiu o robe de chenile, 
ps os culos e saiu descala pelo corredor para bater  porta do banheiro.
     Howard?
     A resposta foi um som interrogativo que suplantou o rudo regular do chuveiro.
     Acha que eu devia postar alguma coisa no site? Sobre Fairbrother?
     Boa idia - gritou ele, l de dentro, depois de refletir por um instante. - Excelente idia.
     E l se foi a mulher para o escritrio. O cmodo havia sido antes o menor quarto da casa e estava vazio h tempos, desde que a sua filha Patrcia foi para Londres 
e raras vezes voltou a ser mencionada.
     Shirley se orgulhava imensamente das suas habilidades na internet. Tinha feito um curso noturno em Yarvil, dez anos atrs, sendo uma das alunas mais velhas 
da turma e a mais lenta. Mesmo assim, perseverou, decidida a ser a administradora do novo site do Conselho Distrital de Pagford, que estava empolgando a todos. Fez 
o login e abriu a pgina da instituio.
     A breve declarao saiu com tanta facilidade que parecia at que os seus dedos estavam redigindo aquilo por conta prpria.
     
     Conselheiro Barry Fairbrother
 com grande pesar que comunicamos o falecimento do conselheiro Barry Fairbrother. Voltamos os nossos pensamentos para a sua famlia nesse momento to difcil.
     
     Releu as poucas frases com todo o cuidado, teclou "Enter" e viu o texto aparecer na rea de mensagens.
     A Rainha mandou que a bandeira fosse hasteada a meio mastro no Palcio de Buckingham quando a princesa Diana morreu. Sua Majestade ocupava um lugar bem especial 
na vida interior de Shirley. Contemplando a mensagem ali na tela, ficou satisfeita e feliz por ter feito a coisa certa. Seguir o exemplo dos melhores...
     Saiu da rea de mensagens da pgina do Conselho e entrou no seu site de medicina favorito. Escrupulosamente, digitou as palavras "crebro" e "morte" na caixa 
de pesquisa.
     Havia inmeras sugestes. Shirley foi passando aquelas diversas possibilidades, com os olhos plcidos percorrendo as pginas de alto a baixo, perguntando-se 
a qual daquelas condies fatais, algumas de nomes impronunciveis, devia a felicidade que sentia agora. Tinha adquirido algum interesse por assuntos mdicos desde 
que comeou a trabalhar como voluntria no Hospital Geral South West e, s vezes, chegava mesmo a fazer diagnsticos para os amigos.
     Mas hoje de manh era impossvel se concentrar naquelas palavras compridas e naqueles sintomas: a sua cabea s pensava em continuar a espalhar a notcia, e, 
a essa altura, ela j estava reunindo e remanejando toda uma lista de nmeros de telefone. Ser que Aubrey e Julia j estavam sabendo? E o que diriam? Ser que Howard 
deixaria que ela desse a notcia a Maureen ou ia querer ter ele mesmo esse prazer?
     Tudo aquilo era imensamente empolgante.

IV
     
     Andrew Price fechou a porta da casa, que era pequena e branca, e foi atrs do irmo, descendo a rampa do jardim, que hoje estalava por causa do gelo, e que 
ia dar no porto de metal gelado alm do qual ficava a rua. Nenhum dos garotos se dignou a olhar para a vista j to conhecida que se estendia mais abaixo: o minsculo 
vilarejo de Pagford encravado no espao contido entre trs colinas, uma das quais encimada pelo que restava da abadia do sculo XII. Um riozinho estreito serpenteava 
ao p da colina e cortava o vilarejo, onde era atravessado por uma ponte de pedra que parecia at de brinquedo. Aquilo tudo era to sem graa quanto um cenrio pintado 
para os dois irmos. Andrew achava o fim do mundo o jeito como o seu pai, nas raras ocasies em que recebiam visitas, parecia se vangloriar da paisagem, como se 
ele prprio a tivesse planejado e construdo. Recentemente, o garoto percebera que preferiria mil vezes um cenrio de asfalto, janelas quebradas e grafites. Sonhava 
com Londres e com uma vida que fizesse algum sentido.
     Os dois irmos foram andando at o fim da rua e pararam na esquina da estrada mais larga. Andrew enfiou a mo pelos arbustos da cerca viva, tateou por alguns 
instantes e tirou dali um mao de Benson & Hedges pela metade e uma caixa de fsforos ligeiramente mida. Depois de algumas tentativas inteis, j que a cabea do 
fsforo se desmanchava sempre que ele riscava um, o garoto conseguiu acender o cigarro e deu duas ou trs tragadas profundas. O rudo do motor do nibus escolar 
veio romper aquela quietude. Com todo o cuidado, Andrew apagou o cigarro e enfiou o que tinha sobrado no mao.
     Quando chegava quela esquina de Hilltop House, o nibus j vinha trazendo dois teros dos seus ocupantes, pois passava antes pelas fazendas e pelas casas dos 
arredores. Como sempre, os dois irmos sentaram em lugares separados, cada um deles com um assento vago ao seu lado, e se viraram para olhar pela janela enquanto 
o veculo ia descendo, ruidoso e cambaleante, a caminho de Pagford.
     Ao p da colina onde moravam, havia uma casa com um jardim triangular. Em geral, os quatro Fairbrother ficavam esperando no porto da frente, mas hoje no tinha 
ningum ali. Todas as cortinas estavam fechadas. Por que ser que as pessoas tm o hbito de ficar sentadas no escuro quando algum morre?, perguntou-se Andrew.
     Umas semanas atrs, ele tinha sado com Niamh Fairbrother, uma das filhas gmeas de Barry, para ir a uma festa no auditrio da escola. Depois disso, a garota 
passou um tempo com a mania de andar atrs dele. Os pais de Andrew mal conheciam os Fairbrother. Alis, Simon e Ruth praticamente no tinham amigos, mas pareciam 
simpatizar um pouquinho com Barry, que tinha sido gerente da minscula filial do nico banco que ainda resistia no vilarejo. Vira e mexe, o sobrenome Fairbrother 
aparecia ligado a coisas como o Conselho Distrital, peas encenadas no teatro local e a corrida anual da igreja. Mas Andrew no se interessava a mnima por esses 
assuntos, e os seus pais tambm no participavam de nada disso, a no ser comprando uma rifa vez por outra.
     Quando o nibus virou  esquerda e comeou a descer a Church Row, passando pelos casares vitorianos que iam formando uns patamares ladeira abaixo, Andrew se 
deu ao luxo de criar toda uma fantasia em que seu pai caa morto, atingido pelos disparos de um atirador invisvel. O rapaz se via dando uns tapinhas nas costas 
da me, que soluava, e telefonando para a funerria. Cigarro na boca, encomendava o caixo mais barato que existia.
     Os trs Jawanda - Jaswant, Sukhvinder e Rajpal - pegaram o nibus no final da Chureh Row. Andrew tinha feito questo de escolher um lugar atrs de um banco 
vazio e torceu para que Sukhvinder viesse sentar  sua frente, no pela garota (Bola, o seu melhor amigo, a chamava de P&B, forma reduzida de "Peito & Bigode"), 
mas porque Ela quase sempre escolhia sentar ao lado de Sukhvinder. E fosse porque os seus poderes telepticos estivessem particularmente afiados naquela manh ou 
por qualquer outro motivo, Sukhvinder veio mesmo se sentar no banco da frente. Radiante, Andrew ficou olhando para o vidro sujo da janela e ajeitou bem a mochila 
no colo para esconder a ereo provocada pelos solavancos regulares do nibus.
     A sua ansiedade ia aumentando a cada novo sacolejar, enquanto o veculo grandalho abria caminho pelas ruelas estreitas, fazendo curvas fechadas para contornar 
a praa do vilarejo e rumando para a esquina da rua Dela.
     Andrew nunca tinha sentido um interesse assim to grande por uma garota. Ela tinha acabado de chegar. Que hora estranha para mudar de escola: no ltimo trimestre, 
j to perto dos exames finais... Chamava-se Gaia, um nome perfeito, pois o garoto nunca o tinha ouvido antes, assim como nunca tinha visto algum como ela. Pegou 
o nibus, certa manh, parecendo uma simples declarao dos pncaros sublimes que a natureza pode alcanar, e veio sentar dois bancos  sua frente. E ele ficou fascinado, 
olhando para a perfeio daqueles ombros e da parte de trs daquela cabea.
     O seu cabelo comprido, de um castanho-acobreado, descia em ondas largas e lhe batia pouco abaixo dos ombros; o nariz, absolutamente certinho, era pequeno e 
fino, destacando ainda mais a boca clara, de lbios cheios, provocadores; os olhos, bem separados, com clios espessos, eram de um castanho-claro com umas manchinhas 
esverdeadas, lembrando uma daquelas mas golden. Andrew nunca a tinha visto maquiada, e a sua pele no tinha nenhuma mancha ou sarda. O rosto de Gaia era uma sntese 
de perfeita simetria e proporo fora do comum; podia passar horas e horas olhando para ela, tentando descobrir por que era to fascinante... Ainda na semana passada, 
ele voltou para casa depois de dois tempos de aula de biologia, quando, por uma divina disposio aleatria de carteiras e de cabeas, conseguiu olhar para a garota 
quase o tempo todo. Mais tarde, a salvo no seu quarto, escreveu (depois de meia hora olhando para a parede e de um tempo se masturbando) "beleza  geometria". Rasgou 
a folha de papel imediatamente e, sempre que se lembrava disso, sentia-se um idiota. Mesmo assim, no deixava de ser verdade. A beleza de Gaia era uma questo de 
pequenos ajustes com relao a um padro, e dessa operao resultava uma harmonia de tirar o flego!
     Ela ia entrar no nibus a qualquer momento e, se viesse sentar ao lado daquela chata e mal-humorada da Sukhvinder, como geralmente fazia, ia ficar to perto 
que poderia at sentir que ele cheirava a nicotina. Andrew gostava de ver objetos inanimados reagirem ao corpo dela; gostava de ver o assento do banco ceder um pouco 
quando Gaia atirava o seu peso sobre ele, e adorava ver aquela massa castanha-acobreada fazer uma curva ao encostar na barra de ferro do alto do banco.
     O motorista reduziu a velocidade, e Andrew desviou os olhos da porta, fingindo estar perdido em pensamentos. S ia olhar depois que ela entrasse, como se tivesse 
acabado de perceber que o nibus havia parado. A, sim, olharia para ela; talvez at a cumprimentasse com um aceno de cabea. Ficou esperando ouvir as portas se 
abrindo, mas a vibrao suave do motor no foi interrompida por aquele barulho to conhecido.
     Andrew olhou ento pela janela e no viu nada alm da Hope Street, uma rua pequena e feiosa, com duas fileiras de casinhas geminadas. O motorista se inclinou 
para a frente, buscando ver se a garota estaria vindo. O garoto teve vontade de mandar que ele esperasse, j que, ainda na semana passada, ela saiu s pressas de 
uma daquelas casinhas e veio correndo pela calada (pde observar a cena sem problemas porque todos ali dentro tambm estavam olhando). A viso de Gaia correndo 
era o bastante para ocupar os seus pensamentos por horas a fio, mas o motorista manejou o grande volante e o nibus seguiu o seu caminho. Andrew voltou a olhar o 
vidro sujo da janela, sentindo uma dor no corao e no saco.

V
     
     No passado, a Hope Street havia sido uma vila operria. No banheiro da casa de nmero dez, Gavin Hughes se barbeava lentamente, com um cuidado desnecessrio. 
Ele era to claro e tinha uma barba to rala que esse ritual s precisava mesmo ser feito duas vezes por semana. Mas aquele banheiro gelado e meio sujo era o seu 
nico refgio. Se ficasse enrolando ali dentro at as oito horas, poderia perfeitamente dizer que precisava sair correndo para o trabalho. Estava morrendo de medo 
de ter de conversar com Kay.
     Ontem  noite, conseguiu evitar qualquer conversa comeando a transa mais longa e criativa que os dois haviam tido desde os primeirssimos dias da relao. 
Kay reagiu imediatamente e com um entusiasmo que chegava a dar nervoso: passava de uma posio a outra; abria as pernas fortes e rolias; contorcia-se como uma acrobata 
eslava, o que ela alis bem poderia ser, com aquela pele dourada e o cabelo escuro cortado bem curtinho. J era tarde demais quando Gavin percebeu que ela estava 
interpretando aquela sua atitude to pouco usual como uma confisso tcita de tudo aquilo que ele estava decidido a no dizer. Ela o beijou com avidez. Quando comearam 
a ficar juntos, ele achou os seus beijos molhados e profundos muito erticos; agora, achava-os levemente repulsivos. Demorou muito para chegar ao clmax, pois o 
horror que sentia pelo que havia comeado estava sempre ameaando atrapalhar a sua ereo. E at isso acabou conspirando contra ele: Kay pareceu considerar aquele 
vigor nada comum uma verdadeira demonstrao de virtuosismo.
     Quando enfim terminaram, ela se aninhou bem junto dele, no escuro, e acariciou os seus cabelos por alguns instantes. Infeliz, Gavin ficou s olhando para o 
nada, consciente de que, depois de fazer tantos planos vagos para afrouxar aquelas amarras, tinha acabado por refor-las involuntariamente. Kay adormeceu, e ele 
ficou ali deitado, com um dos braos preso sob o corpo dela, sentindo a desagradvel sensao do lenol mido grudando na sua coxa, naquele velho colcho de molas 
todo irregular. Tudo o que queria era ter coragem de ser um filho da puta, sair de fininho e nunca mais voltar.
     O banheiro de Kay tinha cheiro de mofo e esponjas molhadas. Havia um bolinho de cabelos num dos cantos da pequena banheira. A tinta das paredes estava descascando.
     - Isso est precisando de uma obra - disse ela.
     Gavin teve o cuidado de no se oferecer para ajudar. As coisas que no tinha lhe dito eram o seu talism, a sua salvaguarda. Armazenou todas elas na cabea 
e vivia repassando aquilo tudo, como se desfiasse as contas de um rosrio. Nunca tinha dito a palavra "amor". Nunca tinha falado em casamento. Nunca tinha lhe pedido 
que fosse morar em Pagford. Apesar de tudo, porm, ela estava ali e, sabe-se l como, fazia com que ele se sentisse responsvel.
     O seu rosto tambm o encarou do espelho manchado. Tinha umas sombras arroxeadas debaixo dos olhos, e o cabelo louro que comeava a rarear estava quebradio 
e ressecado. A lmpada sem luminria que pendia do teto iluminava aquele rosto frgil e comprido com uma crueldade fria e meticulosa.
     Trinta e quatro anos, pensou ele, e pareo ter no mnimo uns quarenta.
     Ergueu a lmina e, com todo o cuidado, raspou aqueles dois pelos mais grossos que nasciam de ambos os lados do seu proeminente pomo de ado.
     Esmurraram a porta. A mo de Gavin escorregou, e o sangue comeou a escorrer do seu pescoo magro, indo manchar a camisa branca limpinha.
     O seu namorado ainda t no banheiro - berrou uma voz feminina. - Vou chegar atrasada!
     J acabei! - gritou o rapaz.
     O corte estava doendo, mas e da? Agora tinha uma desculpa perfeita: Veja s o que a sua filha fez! Vou ter que dar um pulinho em casa para trocar de camisa 
antes de ir para o trabalho. Quase contente, passou a mo na gravata e no palet que tinha pendurado no cabide atrs da porta e abriu o ferrolho.
     Gaia entrou s pressas, bateu a porta e a trancou, visivelmente furiosa. Parado ali no minsculo patamar, de onde se sentia um cheiro de borracha queimada, 
Gavin se lembrou da cabeceira da cama batendo na parede na noite anterior, dos rangidos do mvel de pinho vagabundo, dos gemidos e dos gritos de Kay. s vezes chegava 
a esquecer que a filha dela estava em casa...
     Desceu correndo. Kay disse que estava planejando mandar lixar e lustrar aquela escada sem carpete, mas ele duvidava muito que ela pusesse esse plano em prtica... 
O apartamento dela em Londres era bem cado e em pssimo estado de conservao. De qualquer forma, Gavin estava convencido de que a moa pretendia ir morar com ele 
logo, logo, coisa que no ia permitir. Aquele era o ltimo bastio, e nesse ponto, se preciso fosse, ia resistir com todas as suas foras.
     O que aconteceu? - gritou ela, vendo a mancha de sangue na camisa. Estava usando aquele quimono vermelho vagabundo que Gavin tanto detestava, mas que lhe caa 
muito bem.
     Gaia esmurrou a porta e me assustei. Tenho que passar em casa para trocar de camisa.
     Ah, mas j preparei o seu caf! - replicou ela mais que depressa.
     Gavin se deu conta de que o tal cheiro de borracha queimada vinha, na verdade, dos ovos mexidos. Eles pareciam anmicos e cozidos demais.
     No d, Kay. Preciso trocar de camisa. Logo cedo, tenho...
     Mas a moa j estava pondo aquela maaroca nos pratos.
     Cinco minutos no vo fazer diferena...
     No bolso do palet, o celular tocou bem alto, e ele o pegou imediatamente perguntando-se se teria a sorte de poder alegar algum chamado urgente.
     Meu Deus! - exclamou, genuinamente horrorizado.
     O que foi?
     Barry. Barry Fairbrother! Ele... Que merda! Ele... morreu! E uma mensagem de Miles. Meu Deus! Que merda, meu Deus!
     Kay soltou a colher de pau.
     Quem  Barry Fairbrother?
     Um cara com quem jogo squash. Ele s tinha quarenta e quatro anos! Meu Deus!
     Leu mais uma vez a mensagem. Kay ficou olhando, sem entender nada. Sabia que Miles era scio de Gavin no escritrio de advocacia, mas ela nunca tinha sido apresentada 
a ele. Para ela, Barry Fairbrother era apenas um nome.
     Ouviu-se um barulho vindo l da escada: era Gaia, descendo a toda.
     Ovos! - exclamou a garota, parada na porta da cozinha. - Toda manh  a mesma coisa! No, obrigada. E, graas a ele - acrescentou, lanando um olhar furioso 
para a nuca de Gavin -, com certeza j perdi a droga do nibus.
     Bom, se no ficasse tanto tempo se penteando... - gritou Kay para a filha, que j estava indo embora. Gaia nem respondeu. Disparou pelo corredor, esbarrando 
nas paredes com a mochila, e saiu batendo a porta da frente.
     Tenho que ir, Kay - disse Gavin.
     Mas j est tudo pronto. Voc pode tomar o seu caf antes...
     Preciso trocar de camisa. E... Merda! Fui eu que preparei o testamento de Barry. Vou ter que cuidar disso. No, sinto muito, mas preciso ir mesmo. No d para 
acreditar - acrescentou, relendo a mensagem de Miles. - No d para acreditar. Ns dois jogamos squash nessa quinta-feira agora! No d... Meu Deus!
     Um homem tinha morrido. No havia nada que ela pudesse dizer; no sem acabar se sentindo culpada. Gavin deu um beijo rpido naquela boca que no reagiu e foi 
embora, atravessando o corredor estreito e escuro.
     Vamos nos ver...?
     Ligo mais tarde - gritou ele, fingindo que no tinha ouvido nada.
     Atravessou a rua correndo para pegar o carro, engolindo aquele ar glido e levando na cabea a idia da morte de Barry como se fosse um frasco de algum lquido 
voltil que ele no ousava sacudir. Quando virou a chave na ignio, pensou nas gmeas de Barry chorando, deitadas de bruos na cama-beliche. J as tinha visto deitadas 
ali, uma em cima, a outra embaixo, jogando Nintendo DS, quando passou pela porta do quarto na ltima vez que tinha ido jantar l.
     Os Fairbrother eram o casal mais unido que jamais vira. Nunca voltaria a comer naquela casa. Vivia dizendo a Barry que ele era um homem de sorte. Mas, pelo 
visto, nem tanto...
     Algum vinha pela calada na sua direo; apavorado, achando que fosse Gaia vindo brigar com ele ou lhe pedir carona, deu marcha a r com tanta pressa que bateu 
no carro estacionado atrs: era o velho Vauxhall Corsa de Kay. Quando a tal pessoa chegou diante da janela do carro, Gavin viu que era uma velha esqulida e meio 
manca com uns chinelinhos de pano. Suando, girou o volante e saiu em disparada. Enquanto pisava no acelerador, deu uma olhada pelo retrovisor e viu Gaia entrando 
de volta na casa de Kay.
     No estava conseguindo pr ar suficiente nos pulmes. Sentia um aperto no peito. S ento percebeu que Barry Fairbrother era o seu melhor amigo.
     
VI
     
     O nibus chegou a Fields, o bairro que crescia nos arredores da cidade de Yarvil. Eram umas casas de um cinza sujo, algumas com iniciais e obscenidades pichadas 
na fachada. Aqui e ali, uma janela vedada com tbuas; vrias antenas parablicas e mato crescido: nada que merecesse, por parte de Andrew, mais ateno do que ele 
dedicava s runas da abadia de Pagford reluzindo com os cristais de gelo. De incio, o garoto havia ficado intrigado e intimidado por aquele bairro popular, mas 
h muito que a familiaridade tinha transformado tudo aquilo em algo banal.
     As caladas estavam repletas de crianas e adolescentes a caminho da escola, muitos usando s camisetas, apesar do frio. Andrew avistou Krystal Weedon. L ia 
ela, saltitante, dando gargalhadas escandalosas, no meio de um grupo de adolescentes de ambos os sexos. Tinha vrios brincos em cada orelha, e, por cima do cs da 
cala de moletom usada bem abaixo da cintura, dava para ver perfeitamente o elstico da calcinha. Andrew conhecia Krystal desde a escola primria, a garota protagonizou 
vrias das mais vivas lembranas da sua infncia. Um dia, por exemplo, ela voltou do recreio com o uniforme molhado e os meninos comearam a gritar: "Krystal fez 
xixi! Krystal fez xixi!" Em vez de chorar, como fariam quase todas as meninas, a garotinha de cinco anos entrou na dana, rindo e gritando tambm: "Krystal fez xixi!" 
Ento, baixou a cala, na frente da turma toda, e fingiu que estava fazendo mesmo. Andrew tinha a ntida lembrana daquela vulva rosada e sem pelos. Parecia at 
que o Papai Noel tinha se materializado no meio da turma. E ele tambm lembrava que a srta. Oates, vermelha como um pimento, foi levando a menina para fora da sala.
     Quando tinha uns doze anos e foi para a escola secundria, Krystal j era a garota mais desenvolvida da sua srie. Um dia, ficou l no fundo da sala, onde os 
alunos deviam deixar o exerccio de matemtica j feito e pegar a nova folha. Como tudo aquilo comeou, Andrew (um dos ltimos a acabar o exerccio, como sempre) 
no fazia a mnima idia, mas, quando chegou perto das pastas que continham as folhas de exerccios, cuidadosamente empilhadas em cima dos armrios que ficavam l 
atrs, viu que Rob Calder e Mark Richards estavam se revezando para segurar e apertar os seios da garota. A maioria dos outros garotos estava s olhando, eletrizada, 
com o rosto escondido atrs do livro posto de p em cima da carteira; j as garotas, muitas delas vermelhas de vergonha, fingiam que no estavam vendo nada. Andrew 
percebeu que metade dos alunos da turma j tinha tido a sua vez e que todos esperavam que ele entrasse na brincadeira, coisa que queria e no queria fazer. No eram 
os peitos de Krystal que o assustavam, mas o ar ousado, desafiador que havia no rosto da garota... Ficou morrendo de medo de fazer tudo errado. Quando o sr. Simmonds, 
o professor desligado e ineficaz, finalmente ergueu os olhos e disse "Vai ficar a para sempre, Krystal? Pegue logo um exerccio e volte para o seu lugar", Andrew 
sentiu um alvio quase absoluto.
     Embora andassem com pessoas diferentes h muito tempo, continuavam a ser da mesma turma na escola, portanto Andrew sabia que Krystal s aparecia nas aulas de 
vez em quando, faltava muito e estava quase sempre metida em alguma confuso. No sabia o que era medo, como os garotos que chegavam  escola com tatuagens que eles 
prprios haviam feito, lbios cortados, cigarros e mil casos de drogas, de sexo fcil e de confrontos com a polcia.
     A Escola Winterdown ficava bem no centro de Yarvil. Era um prdio grande e feio, de trs andares, com uma fachada cheia de janelas intercaladas com painis 
pintados de azul-turquesa. Quando as portas do nibus se abriram, Andrew se juntou aos grupos cada vez maiores de gente usando blazers pretos e suteres que cruzavam 
o estacionamento, dirigindo-se s duas entradas principais. J chegando ao afundamento que se formava para passar pela porta de duas folhas, reparou num Nissan Micra 
que vinha parando e se afastou daquela massa para esperar pelo melhor amigo.
     Fofo, Elefa, Wally, Wallah, Gordo, Bolota, Bola: ningum naquela escola tinha mais apelidos que Stuart Wall. O seu jeito de andar, com umas passadas bem largas, 
a sua magreza, o rosto fino e chupado, as orelhas avantajadas e um ar de eterno sofrimento j bastariam para fazer dele um sujeito bem diferente dos demais. Mas 
eram o seu humor sarcstico, o seu ar distante e a sua pose que faziam dele um caso  parte. Sabe-se l como, Stuart sempre conseguia se desvincular de qualquer 
coisa que se poderia definir como um carter menos flexvel, desvencilhando-se do embarao de ser filho de um vice-diretor muito impopular e ridicularizado, e de 
ter uma me que, alm de gorda e cafona, era a orientadora educacional da escola. Stuart era acima de tudo e exclusivamente ele mesmo: Bola, celebridade e ponto 
de referncia na Winterdown. At os alunos l de Fields riam das suas piadas e, diante da frieza e da crueldade com que o garoto retribua qualquer deboche, raramente 
se davam o trabalho de fazer gozaes com os seus infelizes laos familiares.
     Nesta manh, a confiana de Bola permaneceu intacta quando, na frente daquelas hordas libertas dos pais que passavam pelo ptio, teve de saltar do Nissan em 
companhia no apenas da me, mas tambm do pai, que, em geral, vinha para a escola em horrio diferente. Enquanto Bola trotava na sua direo, Andrew voltou a se 
lembrar de Krystal Weedon com a calcinha aparecendo.
     Tudo certo, Arf? - perguntou o recm-chegado.
     Oi, Bola.
     Foram se juntar  multido, com as mochilas penduradas no ombro, dando uns encontres nas crianas menores, abrindo algum espao no seu rastro.
     Pombinho andou chorando - disse Bola, enquanto iam subindo as escadas abarrotadas de alunos.
     O qu?
     Barry Fairbrother morreu ontem  noite.
     , fiquei sabendo - replicou Andrew.
     Bola lhe deu aquela olhada de esguelha que adotava quando outras pessoas tentavam se mostrar, fingindo que sabiam mais do que efetivamente sabiam, que eram 
mais do que efetivamente eram.
     A minha me tava no hospital quando trouxeram ele - acrescentou Andrew, irritado. - Ela trabalha l, lembra?
     Ah, claro - disse Bola, j sem aquele ar desconfiado. - Bom, sabe que Pombinho e ele tinham um caso... E  Pombinho que vai dar a notcia. A coisa vai ficar 
feia, Arf.
     No alto da escada, os amigos se separaram, e cada um foi para uma sala. Quase todos os colegas de Andrew j estavam l dentro, sentados nas carteiras, balanando 
as pernas, ou apoiados nos armrios que ficavam nas paredes laterais. As mochilas estavam debaixo das cadeiras. Como sempre, nas segundas de manh, o falatrio era 
mais alto e descontrado que de costume, porque, quando desse o sinal, iam sair da sala e atravessar o ptio para chegar ao ginsio de esportes. A professora estava 
sentada  sua mesa, assinalando a presena de quem ia entrando. Ela nunca se dava o trabalho de fazer a chamada: esse era um dos tantos expedientes que usava para 
tentar cativar a turma, e os alunos a desprezavam por isso.
     Krystal chegou quando o sinal tocou.
     T aqui, fessora! - gritou l da porta e voltou a sumir. Todos a seguiram, falando sem parar. Andrew e Bola se encontraram no alto da escada e, no meio daquela 
multido, saram pela porta dos fundos e foram andando at o outro lado do imenso ptio de cimento cinza.
     O ginsio de esportes cheirava a suor e a tnis usado. O tumulto provocado por mil e duzentos adolescentes que no paravam de falar ecoou pelas paredes caiadas. 
Um tapete grosso, cinza-chumbo, todo manchado, cobria o cho e trazia, em diferentes cores, os traados das quadras de badminton e de tnis, os gols do hquei e 
do futebol. Aquele troo esfolava a pele toda se algum casse ali sem estar de cala comprida para se proteger. Mas, para os traseiros, ainda era melhor que a madeira 
dura onde tinham que ficar sentados at o final da reunio de todas as turmas da escola. Andrew e Bola j tinham conquistado o privilgio das cadeiras de ps tubulares 
e encosto de plstico que ficavam no fundo do ginsio para os alunos das ltimas sries.
     L na frente, virado para os alunos, havia um daqueles velhos plpitos de madeira e, junto dele, estava a diretora, a sra. Shawcross. O pai de Bola, Colin "Pombinho" 
Wall, veio ocupar o seu lugar ao lado dela. Era um sujeito muito alto, com uma testa larga, entradas pronunciadas e um andar que pedia para ser imitado: saltitando 
mais que o necessrio para se deslocar para a frente, com os braos bem colados ao corpo. Todos o chamavam de Pombinho por causa da sua clebre mania de vigiar, 
esvoaando feito um pombo, os escaninhos que ficavam junto  porta do seu escritrio, zelando para que estivessem sempre na mais perfeita ordem. As folhas de chamada 
eram depositadas em alguns deles depois de prontas, enquanto outras eram remetidas a departamentos especficos. "Veja l se no vai pr isso no escaninho errado, 
Ailsa!" "No deixe a folha pendurada desse jeito ou ela vai acabar caindo, Kevin!" "Cuidado, garota! Pegue isso do cho e me d aqui. Essa folha tem que ficar nesse 
escaninho!"
     E at os outros professores acabaram chamando os tais escaninhos de "pombal". Todos achavam que eles faziam isso para deixar claro que no eram como Pombinho.
     - Cheguem para l, cheguem para l - disse o sr. Meacher, professor de marcenaria. Isto porque Andrew e Bola tinham deixado uma cadeira vazia entre eles e Kevin 
Cooper.
     Pombinho tomou o seu lugar atrs do plpito. Os alunos no se aquietaram to depressa quanto teriam feito se fosse a diretora. No exato momento em que a ltima 
voz se calou, uma das portas duplas do lado direito se abriu, e Gaia entrou no ginsio.
     Deu uma olhada ao seu redor (Andrew se permitiu virar para v-la, j que metade dos presentes estava fazendo o mesmo. Ela estava atrasada, no conhecia quase 
ningum, era linda e, afinal, era apenas Pombinho que estava falando) e, com passos rpidos, mas sem correr (porque, como Bola, ela tinha o dom da confiana), foi 
para trs dos alunos j instalados. A essa altura, Andrew j no podia se virar para continuar olhando, mas uma idia lhe passou pela cabea com tamanha fora que 
os seus ouvidos chegaram a zumbir: ao obedecer  ordem do sr. Meacher, ele tinha deixado um lugar vago bem ao seu lado.
     Ouviu uns passos leves e rpidos que se aproximavam e, de repente, ali estava ela. Veio sentar exatamente ao seu lado. Empurrou um pouco a cadeira, o corpo 
esbarrando no dele. As narinas de Andrew captaram um ligeiro perfume. Todo o lado esquerdo do seu corpo ardia com a conscincia da presena dela, e o garoto ficou 
feliz da vida porque justamente daquele lado o seu rosto tinha menos espinhas que do outro. Nunca tinha estado assim to perto de Gaia e ficou se perguntando se 
teria coragem de olhar para ela, de dar algum sinal de que a reconhecia. Logo, porm, concluiu que tinha ficado paralisado por tanto tempo que j no dava para fazer 
isso de uma forma natural.
     Coou a tmpora esquerda para esconder o rosto. Revirou ento os olhos e olhou para aquelas mos juntas, pousadas no colo da garota. As unhas eram curtas, limpas 
e sem esmalte. Num dos dedos mindinhos, ela tinha um anelzinho de prata.
     Discretamente, Bola lhe deu uma cotovelada.
     E por ltimo... - disse Pombinho, e Andrew percebeu que j tinha ouvido o professor dizer aquelas palavras duas vezes. E que a quietude que reinava no ginsio 
tinha se tornado um slido silncio: todo o movimento havia cessado, e o ar ficou impregnado de curiosidade, animao e embarao.
     E por ltimo... - repetiu Pombinho, e a sua voz tremeu sem que ele pudesse control-la. - Tenho uma notcia... Uma notcia muito triste para lhes dar. O sr. 
Fairbrother... que foi treinador da nossa to... vitoriosa equipe feminina de remo durante os ltimos dois anos... - Nesse ponto, ele como que engasgou, e passou 
uma das mos pelos olhos, -...morreu...
     Pombinho Wall estava chorando diante de todos. A sua careca cheia de protuberncias pendeu para a frente. Ouviram-se, simultaneamente, murmrios de espanto 
e risinhos pela platia, e muitos rostos se viraram para Bola, que continuou ali sentado, com um ar sublime de quem no tinha nada a ver com aquilo. Parecia um tanto 
intrigado, mas, a no ser por isso, estava impassvel.
     ...morreu... - disse Pombinho, soluando, e a diretora se levantou, parecendo aborrecida. - ...morreu... ontem  noite.
     De repente, um som estridente brotou de algum lugar l no meio das cadeiras do fundo do ginsio.
     Quem riu? - rosnou Pombinho, e o ar ali dentro chegou a estalar de tanta tenso. - COMO SE ATREVE?! Quem foi a menina que riu? Quem foi?
     O sr. Meacher j estava de p, gesticulando furioso para algum no meio da fileira bem atrs de Andrew e Bola. A cadeira de Andrew balanou novamente porque 
Gaia tinha se virado, como todos os demais, para ver o que estava acontecendo. Andrew tinha a impresso de que o seu corpo inteiro era agora hipersensitivo: dava 
para sentir que o corpo de Gaia estava meio debruado na sua direo. Caso se virasse para o outro lado, o seu peito esbarraria no dela.
     Quem foi que riu? - repetiu Pombinho, erguendo-se absurdamente na ponta dos ps, como se pudesse descobrir o culpado l do lugar onde estava. Meacher esbravejava 
e gesticulava febrilmente dirigindo-se  pessoa que decidira acusar.
     Quem , sr. Meacher? - gritou Pombinho.
     O professor pareceu relutar em responder. No estava conseguindo convencer o culpado a se levantar da cadeira. Mas, como Pombinho j dava sinais de que ia sair 
l da frente para investigar pessoalmente, Krystal Weedon se ps de p de um salto, inteiramente vermelha, e foi saindo da fileira de cadeiras onde estava.
     Passe no meu escritrio assim que terminarmos aqui - gritou Pombinho. -  absolutamente lamentvel! Uma completa falta de respeito! Saia j daqui!
     Mas Krystal parou na ponta da fila de cadeiras, ergueu o dedo mdio para Pombinho e berrou:
     FIZ NADA NO, SEU BABACA!
     Por todo lado ouviram-se risos e murmrios excitados. Os professores tentavam em vo impor silncio aos alunos, e um ou dois deles chegaram mesmo a se levantar, 
procurando intimidar as turmas pelas quais eram responsveis.
     As portas duplas se fecharam atrs de Krystal e do sr. Meacher.
     Quietos! - gritou a diretora, e um silncio precrio, cheio de sussurros e movimentos, voltou a se instalar no ginsio. Bola olhava fixo para a frente, e, pela 
primeira vez, havia um qu de forado naquela indiferena e um ligeiro rubor na sua pele.
     Andrew sentiu Gaia se endireitando na cadeira. Armou-se de coragem, olhou para o lado esquerdo e sorriu. Ela retribuiu o seu sorriso.

VII
     
     Embora a delicatssen de Pagford s abrisse s nove e meia, Howard Mollison j tinha chegado ao local. Era um homem de sessenta e quatro anos, de uma obesidade 
extravagante. A barriga avantajada formava uma prega que lhe caa diante das coxas e, assim que batia os olhos nele, a maioria das pessoas logo pensava no seu pnis: 
quando o teria visto pela ltima vez, como conseguia lav-lo, como conseguia realizar qualquer dos atos para os quais serve o pnis? Em parte porque o seu porte 
fsico provocava esse tipo de pensamento, em parte por causa da sua baixa tolerncia a brincadeiras, Howard conseguia deixar as pessoas sem jeito e desarm-las quase 
na mesma medida. Talvez por isso fosse to comum os fregueses comprarem mais do que pretendiam na primeira visita que faziam  loja. Trabalhando, Howard conversava 
o tempo todo, enquanto a mo de dedos curtos ia acionando o cortador de frios para l e para c, e as fatias fininhas e sedosas de presunto iam caindo no celofane 
colocado ali para receb- las, com os olhos redondos e azuis sempre prontos para uma piscadela, a papada balanando com o riso fcil.
     Ele tinha idealizado um uniforme de trabalho: camisa branca, avental de lona verde-escuro, calas de veludo e um daqueles chapus estilo Sherlock Holmes no 
qual havia enfiado vrias moscas de pescaria. Se algum dia o tal chapu tinha sido uma brincadeira, h tempos que deixara de ser: toda manh, antes de abrir a loja, 
ele o posicionava com a maior preciso sobre os bastos cachos grisalhos com o auxlio de um espelhinho instalado no banheiro dos funcionrios.
     Para Howard, era sempre um prazer abrir a delicatssen de manh. Adorava circular pela loja vazia, numa hora em que s se ouvia o barulhinho constante das geladeiras. 
Deliciava-se em ir trazendo tudo de volta  vida - acender as luzes, subir as persianas, tirar as tampas para deixar  mostra os tesouros do balco-frigorfico: 
as plidas alcachofras de um verde-acinzentado, as azeitonas pretas como nix, os tomates secos enroscados como cavalos-marinhos vermelhos boiando naquele azeite 
temperado com ervas.
     Hoje, porm, esse prazer vinha mesclado de impacincia. A sua scia j estava atrasada e, como acontecera mais cedo com Miles, Howard temia que algum pudesse 
passar  sua frente e contar primeiro aquela notcia sensacional, uma vez que Maureen no tinha celular.
     Parou junto do arco recm-aberto na parede que separava a sua loja da velha sapataria que em breve ia se tornar o mais novo caf do vilarejo, e verificou se 
estava tudo certo com o plstico grosso que fazia as vezes de cortina para proteger a delicatssen da poeira da obra. Estavam planejando abrir o caf antes da Semana 
Santa, a tempo de atrair turistas que seguiam todo ano para a regio do West Country e cuja bagagem Howard enchia de sidra local, queijo e peas de artesanato em 
palha de milho.
     A sineta tocou s suas costas. Howard se virou com o corao remendado e reforado batendo mais forte de tanta empolgao.
     Maureen, a viva do scio original de Howard, era uma mulher de sessenta e dois anos, magra e meio encurvada. A sua postura a fazia aparentar muito mais idade, 
embora ela fizesse os mais diversos esforos para manter um p na juventude: pintava o cabelo de preto retinto, usava roupas coloridas e se equilibrava em cima de 
imprudentes saltos altos, que tirava ao chegar na loja para calar uns tamancos Dr. Scholl.
     Bom dia, Mo - disse Howard.
     Tinha decidido no estragar a revelao fazendo as coisas atabalhoadamente, mas logo, logo os clientes comeariam a chegar, e ele tinha muito para contar.
     J soube?
     Maureen o encarou, franzindo as sobrancelhas, com um ar inquiridor.
     Barry Fairbrother morreu.
     A mulher ficou de boca aberta.
     No! - exclamou ela. - Como?
     Alguma coisa arrebentou - disse o seu scio, dando um tapinha na lateral da cabea. - Por aqui. Miles estava l. Viu tudo. Foi no estacionamento do clube de 
golfe.
     No! - repetiu Maureen.
     Mortinho - disse Howard, como se houvesse graus diferentes de morte e Barry Fairbrother tivesse sido vtima de um particularmente srdido.
     A boca de Maureen, pintada com um batom forte, pendia frouxa. Ela fez o sinal da cruz. O seu catolicismo sempre dava um toque pitoresco a momentos como aquele.
     Miles estava l? - indagou ela, e Howard percebeu, naquela voz meio rouca e profunda de ex-fumante, o desejo de saber de tudo, nos mnimos detalhes.
     No quer pr a chaleira no fogo, Mo?
     Pelo menos podia prolongar a agonia da sua scia por mais alguns instantes. Na pressa de voltar, Maureen respingou ch fervente na mo. Os dois ento sentaram 
juntos, atrs do balco, nos bancos altos de madeira que Howard havia posto ali para as horas de menos movimento, e Maureen apanhou um punhado de raspas de gelo 
da bandeja das azeitonas para aliviar a queimadura. Juntos, desfiaram todos os aspectos convencionais da tragdia: a viva ("vai ficar perdida; ela vivia para Barry"); 
os filhos ("quatro adolescentes; no vai ser fcil cri-los sem um pai"); a relativa juventude do morto ("ele no era muito mais velho que Miles, no  mesmo?"); 
e, por fim, chegaram ao verdadeiro ponto de partida, com relao ao qual tudo o mais no passava de vagos rodeios.
     E agora? - indagou Maureen num tom vido.
     Ah - replicou Howard. - Bom, e agora? A  que est! Temos uma vacncia, Mo, e isso pode fazer toda a diferena.
     Temos uma o qu? - perguntou a mulher, temendo ter deixado passar algo absolutamente crucial.
     Vacncia - repetiu Howard. -  o que acontece quando uma cadeira do Conselho fica vaga por morte do seu titular.  o termo legal - acrescentou ele, didaticamente.
     Howard era o presidente do Conselho e o representante mximo de Pagford. Esta posio se fazia acompanhar de um colar com uma insgnia em ouro e esmalte que 
agora descansava no minsculo cofre que Shirley e ele haviam mandado instalar no fundo do armrio embutido feito sob medida. Se ao menos o distrito de Pagford houvesse 
sido elevado  categoria de municpio, ele poderia se intitular prefeito... Apesar de tudo, porm, para todos os efeitos, era isso que ele era. Shirley tinha deixado 
as coisas bem claras no site do Conselho, onde, sob uma reluzente foto colorida de Howard envergando o colar com a sua insgnia, lia-se com todas as letras que ele 
receberia de bom grado convites para participar de quaisquer eventos cvicos e comerciais do vilarejo. Poucas semanas atrs, ele tinha entregado os certificados 
de concluso do curso de ciclismo da escola primria local.
     Veja bem, Mo, Fairbrother era um safado - disse Howard, tomando um gole do seu ch e esboando um sorrisinho para atenuar a afirmao que fazia. - Ele sabia 
ser um grandessssimo safado.
     Sei disso - replicou a mulher. - Sei disso.
     Eu ia ter que cham-lo s falas se no tivesse morrido. Pergunte s a Shirley. Ele sabia ser um vigarista safado!
     Ah, eu sei.
     Bom, agora, veremos. Veremos. Isso deve pr um ponto final nessa histria. Veja bem,  claro que eu no queria vencer assim - prosseguiu Howard, com um profundo 
suspiro -, mas, pensando no bem de Pagford... na comunidade... at que no  nada mau... - E, olhando o relgio, acrescentou: - J so quase nove e meia, Mo.
     Aqueles dois nunca se atrasavam para abrir a loja e nunca fechavam mais cedo: administravam o seu comrcio com a regularidade e os rituais de um templo.
     Meio cambaleando, Maureen foi at a porta, subiu as persianas, e recortes do exterior foram se revelando progressivamente: uma praa pitoresca e bem-cuidada, 
graas, em boa parte, aos esforos coordenados daqueles cujas propriedades davam para o local. Por todo canto, viam-se jardineiras, cestos pendurados e vasos com 
flores coloridas que, por combinao dos moradores, variavam de ano para ano. O Black Canon (um dos pubs mais antigos da Inglaterra) ficava defronte da Mollison 
& Lowe, do outro lado da praa.
     Howard se apressou a ir algumas vezes aos fundos da loja para buscar umas bandejas retangulares com pat fresco e deposit-las, com os seus adornos de rodelas 
de limo e frutas vermelhas reluzentes, no balco envidraado. Um tanto ofegante pelo esforo extra exigido por toda aquela conversa matinal, ele ajeitou o ltimo 
pat e parou um pouquinho, observando o monumento aos mortos da guerra, que ficava bem no meio da praa.
     Pagford estava linda como sempre assim pela manh, e Howard experimentou um sublime instante de exultao tanto na prpria existncia quanto na daquela cidade 
 qual se sentia ligado como um corao pulsante. Estava ali para se impregnar de tudo aquilo - os bancos pretos luzidios, as flores vermelhas e roxas, o sol brilhando 
no alto da cruz de pedra -, e Barry Fairbrother tinha desaparecido. Era difcil no ter a sensao de estar diante de um desgnio maior, revelado por essa sbita 
alterao ocorrida no que Howard via como um campo de batalha em que ele e Barry haviam se enfrentado por tanto tempo.
     Howard - exclamou Maureen bruscamente. - Howard!
     Algum vinha atravessando a praa a passos largos. Era uma mulher
     magra, morena, de cabelos pretos, que usava uma gabardine e, com ar aborrecido, olhava as prprias botas enquanto andava.
     Acha que...? Ser que ela j sabe? - sussurrou Maureen.
     No fao idia - respondeu Howard.
     Maureen, que ainda no tinha tido tempo de calar os tamancos Dr. Scholl, quase torceu o tornozelo ao recuar s pressas, afastando-se da janela e correndo para 
ficar atrs do balco. Lentamente, com toda a majestade, como um canhoneiro dirigindo-se ao seu posto, Howard foi ocupar o seu lugar diante da caixa registradora.
     A sineta soou, e a dra. Parminder Jawanda empurrou a porta da delicatssen, sempre com aquele ar aborrecido. Agiu como se os donos no estivessem ali e foi 
direto para a prateleira dos azeites. Os olhos de Maureen a seguiram com o xtase e a concentrao de um falco espreitando um rato-do-mato.
     Bom dia! - disse Howard, quando Parminder se aproximou do balco segurando uma garrafa.
     Bom dia.
     A dra. Jawanda raramente o encarava, fosse nas reunies do Conselho, fosse quando se encontravam fora do salo da igreja. Howard achava engraada a incapacidade 
que ela tinha de disfarar o seu desagrado: aquilo o tornava jovial, extravagantemente galante e corts.
     No foi trabalhar hoje?
     No - respondeu Parminder, remexendo na bolsa.
     Maureen no conseguiu se conter.
     Que coisa horrvel - disse, com aquela sua voz rouca. - Barry Fairbrother, no ?
     Hmmm -- resmungou a outra, mas acabou perguntando: - O qu?
     Barry Fairbrother - repetiu Maureen.
     O que houve com ele?
     Mesmo depois de dezesseis anos morando em Pagford, ela ainda tinha um forte sotaque de Birmingham. Uma linha vertical profunda entre as sobrancelhas lhe dava 
um ar eternamente tenso, parecendo s vezes raiva, s vezes concentrao.
     Morreu - respondeu Maureen, olhando vida para aquele rosto contrado. - Ontem  noite. Howard acabou de me contar.
     Parminder ficou praticamente imvel, com a mo enfiada na bolsa. Voltou ento os olhos na direo do comerciante.
     Caiu morto no estacionamento do clube de golfe - disse ele. - Miles estava l e presenciou tudo.
     Mais alguns segundos se passaram.
     Por acaso isso  uma piada? - perguntou Parminder, e a sua voz soou dura e meio esganiada.
     Claro que no - retrucou Maureen, saboreando a prpria coragem. - Quem faria uma piada dessas?
     Parminder botou a garrafa de azeite em cima do balco de vidro com toda a fora e saiu da loja.
     Ora, ora... - exclamou Maureen, num xtase de desaprovao. - isso  uma piada? Que simpatia!
     Choque! - replicou Howard com muita sensatez, observando Parminder, que atravessava a praa quase correndo, com a gabardine esvoaando s suas costas. - Essa 
a ficou to transtornada quanto a viva. Olhe, vai ser interessante... - acrescentou, coando a prega da barriga que geralmente comichava - ver o que ela...
     Deixou a frase inacabada, mas isso no tinha a mnima importncia: Maureen sabia exatamente o que ele estava pensando. Vendo a conselheira Jawanda desaparecer 
numa esquina, ambos estavam contemplando a tal vacncia, e, a seus olhos, ela no era um espao vazio, mas a cartola de um mgico, cheinha de possibilidades.

VIII
     
     A antiga casa paroquial era a ltima e a mais imponente das casas vitorianas da Church Row. Ficava bem na esquina, num grande jardim triangular, em frente  
Igreja de So Miguel e Todos os Santos.
     Parminder, que tinha feito os ltimos metros correndo, teve alguma dificuldade em abrir o ferrolho da porta da frente e finalmente entrou. No ia acreditar 
naquela histria at ouvir a notcia dada pela boca de outra pessoa, qualquer uma. Mas o telefone j estava tocando furiosamente na cozinha.
     - Al?
     Sou eu, Vikram.
     O marido de Parminder era cirurgio cardiovascular. Trabalhava no Hospital Geral South West, em Yarvil, e no costumava lhe telefonar do trabalho. A mulher 
segurou o fone com tanta fora que os seus dedos chegaram a ficar doloridos.
     Fiquei sabendo por acaso. Parece que foi um aneurisma. Pedi a Huw Jeffries que passasse a autpsia dele na frente das outras. F melhor que Mary fique sabendo 
do que o marido morreu. Talvez estejam trabalhando nisso agora mesmo.
     Est certo - disse Parminder num sussurro.
     Tessa Wall estava l - acrescentou o marido. - Ligue para ela.
     Est bem - replicou Parminder. - Vou fazer isso.
     Mas, quando ps o fone no gancho, deixou-se cair numa cadeira e ficou olhando pela janela da cozinha, sem ver o jardim dos fundos, apertando com os dedos a 
prpria boca.
     Tudo tinha desmoronado. As coisas continuavam ali - as paredes, as cadeiras, os retratos das crianas nas paredes -, mas isso no queria dizer absolutamente 
nada. Cada tomo de todas aquelas coisas tinha explodido e se reconstitudo num instante, e a sua aparncia de permanncia e solidez era ridcula; aquilo se desmancharia 
ao mnimo toque, pois, de repente, tudo tinha se tornado quebradio, fino como papel.
     Parminder no tinha controle sobre os prprios pensamentos; eles tambm haviam se estilhaado, e alguns fragmentos aleatrios de lembranas vinham  tona para, 
depois, voltar a afundar: ela danando com Barry na festa de Ano-Novo dos Wall, e a conversa boba que os dois tiveram saindo da ltima reunio do Conselho.
     A sua casa parece uma cabea de vaca - disse ela.
     Cabea de vacai O que quer dizer com isso?
 mais estreita na frente que nos fundos. Isso  sinal de sorte. Mas ela d para uma interseo em T. O que  sinal de azar.
     Ento, somos neutros em termos de sorte - replicou Barry.
     A tal artria na cabea dele talvez estivesse inflando perigosamente j naquela ocasio, e nenhum dos dois poderia desconfiar disso.
s cegas, Parminder saiu da cozinha e entrou na sala de estar eternamente na penumbra, fizesse chuva ou fizesse sol, por causa do gigantesco pinheiro-da-esccia 
que havia no jardim. Detestava aquela rvore, mas ela continuava ali porque Parminder e o marido sabiam perfeitamente que iam arrumar briga com os vizinhos se mandassem 
derrub-la.
     No conseguia parar quieta. Passou pelo corredor, voltou  cozinha, pegou o telefone e ligou para Tessa Wall, mas ningum atendeu. Devia estar no trabalho. 
Trmula, Parminder voltou a se sentar na cadeira da cozinha.
     A dor que sentia era to grande, to selvagem que chegava a assust-la, como se um monstro maligno tivesse surgido das tbuas do assoalho. Barry, baixinho, 
barbudo; Barry, seu amigo, seu aliado.
     Foi exatamente assim que o seu pai morreu. Ela tinha quinze anos, e, ao voltarem da cidade, deram com ele cado de bruos no gramado, o cortador de grama ao 
seu lado, o sol quente lhe batendo na nuca. Parminder tinha horror de mortes sbitas. O definhar prolongado que muita gente tanto teme era, para ela, uma perspectiva 
reconfortante; ter tempo para arrumar e organizar as coisas, tempo para se despedir...
     Continuava pressionando a boca com ambas as mos. Observou o rosto doce e grave do Guru Nanak preso no quadro de cortia.
     (Vikram no gostava daquela foto.
     O que isso est fazendo a?
     Gosto dela - respondeu, enfrentando-o.)
     Barry, morto.
     Reprimiu a terrvel vontade de chorar com aquela ferocidade que a sua me sempre condenava, especialmente no dia seguinte  morte do seu pai, quando as outras 
filhas, bem como as tias e as primas, gemiam e batiam no peito. "Logo voc, que era a favorita dele!" Mas Parminder guardou aquelas lgrimas no derramadas muito 
bem-trancadas dentro de si, e, aparentemente, elas sofreram uma transformao alqumica, voltando ao mundo exterior sob a forma de jorros de lava de raiva despejados 
periodicamente sobre os prprios filhos e as recepcionistas do trabalho.
     Ainda podia ver Howard e Maureen atrs do balco, ele, imenso, ela, magricela, e, na imagem mental que fazia, os dois a encaravam do alto ao lhe dizer que o 
seu amigo tinha morrido. Num mpeto quase reconfortante de fria e de dio, Parminder pensou: Aqueles dois esto felizes da vida. Esto achando que, agora, vo vencer.
     Mais uma vez, pulou da cadeira, foi at a sala de estar e tirou, l da prateleira de cima, um volume dos Sainchis, o livro sagrado que acabara de comprar. Abrindo-o 
ao acaso, leu, no surpreendida, mas antes com a sensao de estar olhando num espelho o prprio rosto arrasado:
     O mente, o mundo  um poo escuro e profundo. Por todo lado, a Morte lana a sua rede.

IX
     
     A sala destinada ao servio de orientao educacional da Winterdown dava para a biblioteca da escola. No tinha janelas e era iluminada por uma nica daquelas 
lmpadas fluorescentes bem compridas.
     Tessa Wall, chefe do setor e esposa do vice-diretor, entrou na sala s dez e meia, atordoada de tanto cansao e trazendo na mo uma xcara de caf bem forte 
que tinha apanhado no refeitrio dos funcionrios. Era baixinha e gorda, com um rosto largo sem atrativos e uma franja quase sempre meio torta, j que ela cortava 
o prprio cabelo, que estava comeando a embranquecer. Usava umas roupas que davam a impresso de serem feitas em casa e adorava bijuterias de contas e madeira. 
Hoje estava com uma saia comprida que mais parecia de juta, combinando com um casaquinho verde-claro, largo e grosso. Raramente se olhava num espelho de corpo inteiro 
e boicotava as lojas em que isso fosse inevitvel.
     Tessa havia tentado amenizar a semelhana daquela sala com uma cela pendurando na parede um pan do Nepal que tinha desde os seus tempos de estudante: sobre 
um fundo com as cores do arco-ris, um reluzente sol amarelo e uma lua estilizados emitiam os seus raios ondulantes. De resto, o que se via ali eram cartazes contendo 
dicas para estimular a autoestima ou telefones de grupos annimos de apoio para diversas questes de sade fsica ou emocional. Na ltima vez que entrou naquela 
sala, a diretora havia feito uma observao ligeiramente sarcstica a respeito desses cartazes.
     - Pelo que estou vendo, se nada disso funcionar  s ligar para a Fundao de Amparo  Criana e ao Adolescente - disse ela, apontando para o mais destacado 
deles, que continha o nome e o telefone de uma organizao.
     Tessa afundou na cadeira com um gemido abafado, tirou o relgio de pulso que estava beliscando o seu brao e o deixou em cima da mesa, junto de vrios formulrios 
e notas. Duvidava que conseguisse dar conta do que havia sido previsto para aquele dia; duvidava at que Krystal Weedon fosse aparecer por l. Em geral, a garota 
ia embora da escola quando ficava chateada, zangada ou aborrecida. As vezes, era apanhada antes de cruzar o porto e trazida de volta  fora, xingando e gritando, 
mas tambm acontecia de ela conseguir driblar a vigilncia, escapar dali e passar dias matando aula. J eram dez e quarenta. A sineta tocou, e Tessa ficou esperando.
s dez e cinqenta e um, Krystal entrou feito uma bala, batendo a porta atrs de si. Jogou-se na cadeira diante de Tessa, com os braos cruzados sobre os seios avantajados 
e os brincos vagabundos balanando nas orelhas.
     Diz pro seu marido - principiou ela, com voz trmula - que eu no ri porra nenhuma, viu?
     Por favor, Krystal, nada de palavres na minha frente - replicou a orientadora.
     Eu no ri coisa nenhuma... ok? - gritou a garota.
     Um grupo de alunos do ltimo ano entrou na biblioteca carregando umas pastas. Todos espiaram pela vidraa da porta. Um deles sorriu ao ver a cabea de Krystal 
ali dentro. Tessa se levantou, baixou a persiana e voltou para o seu lugar, defronte do sol e da lua.
     Tudo bem, Krystal. Por que no me conta o que aconteceu?
     O seu marido disse alguma coisa sobre o sr. Fairbrother, ok? E eu no ouvi o que ele disse, entendeu? A, Nikki me contou, e eu no consegui acreditar na merda 
que...
     Krystal!
     No dava para acreditar naquilo, t? A eu gritei. Mas no ri porra nenhuma!
     Krystal!
     Eu no ri, entendeu? - repetiu a garota, aos berros, com os braos cruzados diante do peito e as pernas tambm cruzadas.
     Est certo, Krystal.
     Tessa estava acostumada  raiva dos alunos que vinham com mais freqncia  sua sala. Muitos no tinham a mnima educao: quase sempre mentiam, faziam baguna 
e colavam nas provas. Mesmo assim, quando injustamente acusados, a sua fria era infinita e genuna. A orientadora se julgava capaz de distinguir essa atitude autntica 
daquela outra, fingida, que Krystal era perita em adotar. De todo modo, o que ouviu l no ginsio tinha lhe parecido mais um grito de espanto e tristeza que uma 
gozao, e tomou um susto quando o marido identificou aquilo como uma risada.
     Tava vendo Pombinho...
     Krystal!
     Disse pra porra do seu marido...
     Krystal, pela ltima vez: nada de palavres...
     Eu disse pra ele que eu no ri coisa nenhuma. Eu disse! E, mesmo assim, ele me ferrou com uma deteno!
     Os olhos pintadssimos da garota brilhavam com lgrimas de raiva. O sangue lhe subiu ao rosto e, vermelha como um pimento, ela ficou encarando a orientadora, 
pronta para fugir, xingar, exibir tambm para Tessa o dedo mdio. Uma confiana muito tnue, laboriosamente construda entre as duas durante quase dois anos, estava 
agora to esgarada que podia arrebentar a qualquer momento.
     Acredito em voc, Krystal. Acredito que no riu, mas, por favor, no diga palavres quando fala comigo.
     De repente, uns dedos curtinhos estavam esfregando aqueles olhos j borrados. Tessa tirou da gaveta da escrivaninha um punhado de lenos de papel e os ofereceu 
 garota, que, sem dizer obrigada, se apoderou deles, enxugou os olhos e assoou o nariz. As mos de Krystal eram o que havia nela de mais tocante: as unhas, malpintadas, 
eram curtas e largas, e todos os gestos que aquelas mos faziam eram ingnuos e diretos como os de uma criana pequena.
     Tessa esperou at Krystal parar de fungar.
     D para perceber que voc ficou chateada com a notcia da morte do sr. Fairbrother...
     Fiquei, sim! - replicou a garota, com boa dose de agressividade. - E da?
     Sem mais nem menos, passou pela cabea de Tessa a idia de Barry ouvindo aquela conversa. Podia at ver o seu sorriso tristonho; podia ouvido dizer, bem nitidamente, 
"ela  uma garota bacana". Incapaz de falar, a orientadora fechou os olhos, que lhe ardiam. Percebeu que Krystal se remexia na cadeira; contou at dez e voltou a 
abrir os olhos. A garota a estava encarando, sempre de braos cruzados, com o rosto vermelho e aquele ar desafiador.
     Tambm fiquei muito triste - disse Tessa. - Na verdade, ele era um velho amigo da famlia.  por isso que o sr. Wall est meio...
     Eu disse pra ele que no...
     Deixe eu acabar, Krystal. O sr. Wall est muito chateado hoje. Provavelmente, foi por isso que... interpretou mal o que voc fez. Vou conversar com ele.
     Ele no vai desistir da porra da...
     Krystal!
     T, mas ele no vai, no - disse ela. E comeou a chutar o p da escrivaninha num ritmo acelerado.
     Tessa tirou os cotovelos da mesa, para no sentir a vibrao do mvel, e repetiu:
     Vou conversar com o sr. Wall.
     Assumiu o que julgava ser uma expresso neutra e, com toda a pacincia, ficou esperando que a garota fizesse alguma coisa. Krystal, porm, continuava sentada 
ali, mergulhada num silncio truculento, chutando o p da escrivaninha, engolindo em seco com alguma regularidade.
     Que que aconteceu com o sr. Fairbrother? - perguntou ela enfim.
     Acham que uma artria do crebro dele se rompeu - respondeu Tessa.
     Por qu?
     Ele nasceu com um problema, mas no sabia disso - foi a resposta da orientadora.
     Tessa sabia que Krystal estava muito mais familiarizada com mortes sbitas do que ela prpria. Os seus parentes por parte de me morriam assim com tanta freqncia 
que parecia at que estavam envolvidos numa guerra que o resto do mundo ignorava por completo. Uma vez Krystal lhe contou que, quando tinha seis anos, encontrou 
o cadver de um rapaz desconhecido no banheiro da me. Foi o que precipitou uma das suas tantas remoes para viver sob os cuidados da av Cath. A velha senhora 
era uma presena constante em vrias das histrias que Krystal contava sobre a sua infncia; um estranho misto de carrasco e tbua de salvao.
     Agora, a nossa equipe vai se foder - disse a garota.
     No vai, no - replicou Tessa. - E, por favor, Krystal, sem palavres.
     Vai, sim.
     Tessa teve vontade de contradiz-la, mas esse impulso foi vencido pelo cansao. De certa forma, a garota tinha razo, dizia uma parte racional, uma parte independente 
do seu crebro. A equipe no ia sobreviver. Ningum, a no ser Barry, conseguiria integrar Krystal Weedon a qualquer grupo que fosse e mant-la ali. Ela ia largar 
tudo, como Tessa bem sabia; e provavelmente Krystal tambm sabia disso. Ficaram sentadas por alguns instantes, em silncio. A orientadora estava cansada demais para 
encontrar palavras que talvez pudessem alterar o clima que se instalara entre as duas. Sentia-se trmula, exposta, inteiramente desprotegida. Fazia vinte e quatro 
horas que no dormia.
     (Samantha Mollison tinha ligado s dez da noite, exatamente quando Tessa estava saindo de um banho demorado e ia ver o noticirio da BBC. Voltou a se vestir, 
s pressas, enquanto o marido fazia uns rudos incompreensveis e tropeava nos mveis. Do trreo, gritaram avisando ao filho que estavam indo para o hospital e 
correram para o carro. Colin dirigiu a toda at Yarvil, como se pudesse trazer Barry de volta se conseguisse fazer o trajeto em tempo recorde, passar  frente da 
realidade e convenc-la a se modificar.)
     Se no vai falar comigo, vou embora - disse Krystal.
     No seja grosseira, por favor - replicou Tessa. - Estou muito cansada hoje. O sr. Wall e eu passamos a noite inteira no hospital com a esposa do sr. Fairbrother. 
Somos muito amigos.
     (Mary desmontou completamente quando a viu chegar. Abraou-a e enterrou o rosto no seu pescoo, com um choro agudo e assustador. Mesmo quando as suas prprias 
lgrimas comearam a escorrer pelas costas estreitas de Mary, Tessa continuou pensando muito claramente que o barulho que a outra estava fazendo era o que se chamaria 
de carpir. O corpo mignon e esguio que Tessa tantas vezes invejara tremia nos seus braos, sem conseguir conter a dor que lhe havia sido imposta.
     No se lembrava de ter visto Miles e Samantha irem embora. No os conhecia muito bem. Com certeza ficaram bem contentes por poder sair dali.)
     J vi a mulher dele - disse Krystal. - Uma loura. Ela veio ver a gente competir.
     Isso mesmo.
     Krystal estava mordendo as pontas dos dedos.
     Ele disse que era pra eu falar com o jornal - disse ela, abruptamente.
     Fazer o qu? - perguntou Tessa, sem entender nada.
     O sr. Fairbrother disse que era pra eu dar uma entrevista. Falando sobre mim.
     Uma vez, saiu uma matria no jornal local sobre o oito com timoneiro da Escola Winterdown, que tinha se classificado em primeiro lugar para a final regional. 
Krystal, que lia mal e porcamente, trouxe o exemplar do peridico para mostrar  orientadora, e Tessa leu o texto em voz alta, introduzindo exclamaes de contentamento 
e admirao. Tinha sido a melhor sesso de orientao que j havia feito na vida.
     Iam fazer uma entrevista com voc por causa do remo? - perguntou Tessa. - A equipe toda?
     No - respondeu a garota. - Era outra coisa. O enterro vai ser quando?
     Ainda no sabemos.
     Krystal ficou roendo as unhas, e Tessa no conseguiu encontrar foras para romper o silncio que tinha se instalado  sua volta.

X
     
     A notcia da morte de Barry no site do Conselho Distrital no chegou exatamente a provocar alguma comoo, mais parecendo uma pedrinha atirada no oceano imenso. 
Mesmo assim, nessa segunda-feira, as linhas telefnicas de Pagford ficaram mais ocupadas que de costume, e grupinhos de transeuntes se formavam nas caladas estreitas 
para conferir, com ar chocado, a exatido das prprias informaes.
 medida que a notcia foi se espalhando, ocorreu uma estranha transmutao. A assinatura de Barry, que estava nos documentos do escritrio e nos e-mails que enchiam 
a caixa de entrada da imensa quantidade de gente que ele conhecia, assumiu o carter pattico da trilha de migalhas de po deixada por um menino perdido na floresta. 
Aqueles rabiscos apressados, os pixels combinados por dedos que, de agora em diante, nunca mais voltariam a se mexer, adquiriram o macabro aspecto de cascas ocas. 
Gavin j estava sentindo certa repugnncia pelas mensagens de texto que o amigo morto havia enviado para o seu celular, e uma das garotas da equipe de remo, que 
vinha voltando do ginsio ainda chorando, quase teve um ataque histrico quando encontrou na mochila um formulrio assinado por Barry.
     A jornalista de vinte e trs anos que trabalhava na Gazeta de Yarvil e Adjacncias nem desconfiava que o crebro outrora to ativo de Barry era agora um punhado 
de tecido esponjoso dentro de uma gaveta metlica no Hospital Geral South West. Leu o texto que ele tinha lhe mandado por e-mail uma hora antes de morrer e ligou 
para o seu celular, mas ningum atendeu. O aparelho, que Barry tinha desligado, a pedido da mulher, antes de sair para o clube, estava agora na cozinha, em silncio, 
ao lado do micro-ondas, junto com o restante das coisas que o hospital tinha entregado para Mary levar para casa. Ningum tocou em nada. Aqueles objetos to conhecidos 
- o chaveiro, o celular, a velha carteira bem usada - pareciam pedaos do prprio morto; poderiam perfeitamente ser os seus dedos, os seus pulmes...
     Pelos quatro cantos, a notcia da morte de Barry foi se espalhando, irradiando-se como um halo a partir daqueles que estiveram no hospital. Pelos quatro cantos, 
inclusive em Yarvil, onde chegou aos ouvidos de quem s o conhecia de vista, de nome ou de ouvir falar. Pouco a pouco, os fatos foram perdendo forma e foco; em certos 
casos, acabaram distorcidos. Em alguns lugares, o prprio Barry desapareceu por trs da natureza do seu fim, tornando-se apenas uma irrupo de vmito e urina, uma 
pilha contorcida de catstrofe, e parecia absurdo, at mesmo grotescamente cmico, que um homem pudesse morrer de uma morte assim to nojenta naquele pequeno clube 
de golfe to elegante.
     Foi assim que Simon Price, um dos primeiros a saber da morte de Barry, ainda na sua casa construda no topo da colina de onde se via toda Pagford, deparou com 
uma outra verso da histria na Grfica Harcourt- -Walsh, em Yarvil, onde trabalhava desde que saiu da escola. Ela lhe chegou pela boca de um rapazinho que mascava 
chicletes e dirigia uma empilhadeira. Simon topou com ele matando trabalho perto da porta da sua sala quando voltava do banheiro, j mais para o fim da tarde. E, 
diga-se de passagem, o tal garoto nem estava ali para falar de Barry.
     Aquele negcio que voc disse que talvez interessasse... - balbuciou o jovem, entrando no escritrio atrs de Simon e vendo que o outro tinha fechado a porta. 
- Posso ver isso na quarta, se voc ainda tiver a fim.
 mesmo? - indagou Simon, sentando diante da escrivaninha. - Achei que voc tinha dito que j estava tudo em cima.
     E t mesmo, mas no d pra conseguir marcar a entrega pra antes da quarta.
     Quanto mesmo que voc disse que era?
     Oitentinha. Em dinheiro.
     O garoto mastigava com tanta fora que Simon podia ouvir a sua saliva em ao. Mascar chicletes era uma das tantas coisas com que ele implicava loucamente.
     Mas  coisa boa, no ? - perguntou ele. - No  uma dessas porcarias pirateadas.
     Vem direto do depsito - respondeu o outro, mexendo um pouco o p e o ombro. - Coisa fina. Na embalagem.
     Ento est combinado - disse Simon. - Pode trazer na quarta.
     O qu?! Pra c? - exclamou o garoto, revirando os olhos. - De jeito nenhum, cara! Pro trabalho, no... Onde  que voc mora?
     Em Pagford.
     Mas onde em Pagford?
     Simon detestava a idia de falar da prpria casa: era uma averso que beirava a superstio. Alm de no gostar de visitantes - invasores da sua privacidade 
e possveis saqueadores da sua propriedade -, via Hilltop House como algo inviolado, imaculado, um mundo  parte com relao a Yarvil e quelas mquinas de impresso 
incansveis e barulhentas.
     Passo ento para pegar depois do trabalho - disse Simon, ignorando a pergunta do rapaz. - Onde ?
     O outro no pareceu gostar nada da idia. Simon o encarou.
     Vou precisar da grana adiantada - retrucou ele ento.
     Dou o dinheiro quando receber a mercadoria.
     No  assim que a gente trabalha, cara!
     Simon achou que estava comeando a ficar com dor de cabea. No conseguia se livrar da terrvel idia sugerida hoje de manh por aquela descuidada da sua mulher: 
que uma minscula bomba pode passar muito tempo armada no crebro de um homem sem que ningum saiba da sua existncia. O bate que bate das mquinas do outro lado 
da porta decerto no ajudava em nada; aquela barulheira incessante devia vir afinando as paredes das suas artrias h anos.
     Est bem - resmungou e se virou na cadeira para apanhar a carteira, que estava no bolso de trs da cala. O menino chegou mais perto, com a mo estendida.
     Voc mora perto do clube de golfe de Pagford? - perguntou, enquanto Simon ia botando as notas de dez libras na palma daquela mo. - Um amigo meu tava por l 
ontem  noite e viu um sujeito cair duro. Do nada, o cara comeou a vomitar, desabou no cho e morreu no estacionamento.
, ouvi dizer... - disse Simon, passando os dedos pela ltima das notas antes de entreg-la, para ter certeza de que no havia ali duas delas grudadas.
     Sujeito corrupto, o tal conselheiro que morreu. Andava levando propina. Os Gray tavam pagando uma grana pra ele pra continuarem como fornecedores.
     Ah, ? - disse Simon, como quem no quer nada. Mas, no fundo, estava interessadssimo.
     Barry Fairbrother, hein? Quem diria?
     Ento eu passo aqui, falou? - disse o rapaz, enfiando as oitenta libras bem no fundo do bolso da cala. - E ns dois vamos l na quarta.
     A porta do escritrio se fechou. De to fascinado pela revelao da vigarice de Barry Fairbrother, Simon chegou a esquecer a dor de cabea, que, na verdade, 
no passava de um ligeiro incmodo. Barry Fairbrother, sempre to ocupado e socivel, to popular e entusiasmado: e, o tempo todo, s embolsando as propinas que 
levava dos Gray...
     Aquela notcia no deixou Simon to abalado quanto deixaria praticamente qualquer outro que conhecesse Barry, nem desmereceu o conselheiro a seus olhos; muito 
pelo contrrio, ele passou a respeitar ainda mais o falecido. Sabia perfeitamente que qualquer pessoa com um mnimo de inteligncia vivia batalhando, por baixo dos 
panos, para abocanhar o mximo que pudesse conseguir. Ficou parado ali, com os olhos fixos na planilha aberta na tela do computador, mas sem a enxergar, e, mais 
uma vez, deixou de ouvir o barulho das mquinas do outro lado da vidraa empoeirada.
     Quando se tem famlia, no h outra opo seno trabalhar das nove s cinco, mas Simon sempre soube que existiam alternativas melhores que esta. Sempre soube 
que uma vida de conforto e fartura pairava sobre a sua cabea como uma daquelas imensas pinhatas das festas infantis, repleta de boas surpresas, e que ele poderia 
arrebentar desde que conseguisse um basto grande o bastante e soubesse exatamente em que ponto devia bater. Como uma criana, Simon acreditava que o resto do mundo 
existia como palco para o desenrolar da sua prpria histria pessoal; que o destino estava sempre planando ao seu redor, lanando pistas e indcios no seu caminho, 
e tinha a ntida sensao de haver sido aquinhoado com um sinal, com uma piscadela celestial.
     Essas dicas sobrenaturais estavam por trs de vrias decises aparentemente quixotescas que Simon tomou no passado. H alguns anos, quando ainda era um simples 
aprendiz na grfica, estava s voltas com uma hipoteca que mal podia pagar e uma esposa que acabava de engravidar, apostou cem libras em "Beb de Ruthie", um cavalo 
muito bem-cotado para vencer o Grande Prmio Nacional, mas que acabou perdendo na reta final. Pouco depois de comprar Hilltop House, Simon aplicou mil e duzentas 
libras - dinheiro que Ruth tinha esperanas de usar para comprar tapetes e cortinas - numa espcie de fundo de investimento administrado por um sujeito que conhecia 
l de Yarvil. O tal dinheiro sumiu juntamente com o diretor da empresa, mas, apesar de ter esbravejado, xingado e chutado o filho caula escada abaixo s porque 
ele estava no caminho, Simon no procurou a polcia. Afinal, antes mesmo de investir o seu dinheiro, tinha ficado sabendo de certas irregularidades nas operaes 
da firma e previu a possibilidade de algumas perguntas embaraosas.
     Em contraste com essas calamidades, porm, havia golpes de sorte, expedientes lucrativos, palpites que davam certo, e era a eles que Simon acabava atribuindo 
um peso maior sempre que fazia um balano dos prs e dos contras. Era graas a eles que mantinha a f na boa estrela, que reforava a sua convico de que o universo 
lhe havia reservado muito mais do que aquela histria de ficar trabalhando para ganhar um salrio modesto at se aposentar ou morrer. Golpes ou jeitinhos, uma mozinha 
aqui, um favorzinho ali: era o que todos faziam, at mesmo, como tinha acabado de descobrir, o baixinho Barry Fairbrother.
     Ali, naquele minsculo escritrio, Simon Price vislumbrava com olhos cobiosos a possibilidade de vir a integrar um espao onde o dinheiro estava sendo agora 
despejado em cima de uma cadeira vazia, sem que houvesse um colo para receb-lo.
     
(Velhos Tempos)

     Invasores
     
     12.43 Com relao aos invasores (que, em princpio, devem se apoderar da propriedade alheia e de seus ocupantes, se houver algum no local)...

Charles Arnold-Baker
Administrao dos Conselhos Locais
7a edio
     
     I
     
     Pelo seu tamanho, o Conselho Distrital de Pagford era uma fora considervel. Reunia-se uma vez por ms no gracioso salo paroquial vitoriano, e qualquer tentativa 
de reduzir o seu oramento, incorporar algum dos seus poderes ou integr-lo a um desses rgos modernos vinha sendo exaustivamente combatida, e com sucesso, h dcadas. 
De todos os conselhos locais submetidos  autoridade do Conselho Municipal de Yarvil, Pagford se orgulhava de ser o mais rebelde, o que tinha mais voz ativa, o mais 
independente.
     At domingo  noite, ele se compunha de dezesseis homens e mulheres residentes no vilarejo. Uma vez que os eleitores de Pagford tendiam a presumir que a vontade 
de integrar o Conselho Distrital implicava competncia para fazer isso, todos os conselheiros haviam conquistado o cargo sem ter de enfrentar qualquer tipo de oposio.
     Mesmo assim, esse grupo eleito de forma to amistosa vivia atualmente num estado de guerra civil. Um problema que vinha provocando fria e rancor em Pagford 
h uns bons sessenta anos tinha atingido o seu auge, e as faces se formaram em torno de dois lderes carismticos.
     Para entender direito a causa de tal disputa, seria preciso ter uma noo exata da profunda antipatia e da desconfiana que o vilarejo experimentava com relao 
 cidade de Yarvil, situada a alguns quilmetros mais ao norte.
     As lojas, os escritrios, as fbricas e o Hospital Geral South West, todos em Yarvil, geravam o grosso dos empregos para os moradores de Pagford. Era tambm 
nos seus cinemas e boates que rapazes e moas iam se divertir nas noites de sbado. A cidade possua uma catedral, diversos parques e dois enormes shopping centers, 
todos constituindo atrativos para quem j estivesse farto dos magnficos encantos do vilarejo. Apesar de tudo, porm, para os verdadeiros pagfordianos, Yarvil era 
pouco mais que um mal necessrio. A atitude que assumiam era bem-simbolizada pela colina encimada pela abadia de Pargetter, que bloqueava a viso da cidade e lhes 
proporcionava a doce iluso de que Yarvil estava muito mais longe deles do que efetivamente estava.
     
     II
     
     Acontece, porm, que a mesma colina Pargetter tambm tapava uma outra vista, s que, desta vez, tratava-se de um local que Pagford sempre havia considerado 
propriedade sua. Era a Sweetlove House, uma encantadora manso estilo Rainha Ana, pintada de amarelo, que ficava no meio de um imenso parque e possua ainda terras 
produtivas. Esse tesouro estava situado dentro dos limites de Pagford, a meio caminho entre o vilarejo e Yarvil.
     Por quase duzentos anos, a casa foi passando sem maiores atritos de gerao em gerao da aristocrtica famlia Sweetlove at que, em princpios do sculo XX, 
morreu o ltimo dos seus descendentes. Tudo que restava desses tempos da longa relao entre os Sweetlove e Pagford era a imponente sepultura nos jardins da igreja 
de So Miguel e Todos os Santos, alm de um punhado de brases e iniciais em prdios e documentos, como pegadas e coprlitos de criaturas j extintas.
     Aps a morte do ltimo dos Sweetlove, a propriedade mudou de mos com uma rapidez assustadora. Pagford vivia constantemente amedrontada pela perspectiva de 
alguma imobiliria comprar tudo aquilo e acabar mutilando a localidade to amada. At que, na dcada de 1950, um homem chamado Aubrey Fawley adquiriu a manso. Logo 
todos ficaram sabendo que o tal Fawley era dono de um considervel patrimnio que ele ainda suplementava na City, o centro financeiro de Londres, por alguns meios 
misteriosos. Tinha quatro filhos e desejava se instalar no local definitivamente. A aprovao do vilarejo se elevou a nveis ainda mais sublimes quando comearam 
a circular boatos que davam Fawley como descendente dos Sweetlove por afinidade. O sujeito j era nitidamente quase um deles, algum que dedicaria a sua lealdade 
a Pagford e no a Yarvil. O velho vilarejo estava convicto de que a chegada de Aubrey Fawley significava o retorno daqueles tempos encantadores. Para a localidade, 
ele seria uma verso masculina da fada madrinha, como haviam sido antes os seus antepassados, derramando graa e glamour pelas suas ruas de paraleleppedos.
     Howard Mollison ainda se lembrava de ver a me entrar toda empolgada na minscula cozinha da casa da Hope Street com a notcia de que Aubrey havia sido convidado 
para fazer parte do jri da exposio
     de jardinagem do vilarejo. Por trs anos consecutivos, o seu feijo-trepador tinha conquistado o primeiro lugar entre as leguminceas, e ela estava louca para 
receber o trofu prateado das mos de um homem que, a seu ver, j era um daqueles personagens dos romances de antigamente.

III
     
     Mas, segundo reza a lenda local, veio ento a escurido que sempre anuncia a entrada em cena da bruxa malvada.
     Justo quando Pagford andava encantada por ver que a Sweetlove House tinha cado em mos to confiveis, Yarvil estava ocupadssima construindo, ao sul do seu 
permetro urbano, uma faixa de casas que a municipalidade alugaria. As novas ruas, como Pagford descobriu compungido, estavam ocupando parte das terras que ficavam 
entre a cidade e o vilarejo.
     Ningum ignorava que, desde a guerra, a demanda por moradias baratas tinha aumentado muito, mas Pagford, cuja ateno tinha se desviado momentaneamente da chegada 
de Aubrey Fawley, comeou a desconfiar das intenes de Yarvil. O rio e a colina, barreiras naturais que, no passado, haviam garantido a soberania do vilarejo, pareciam 
ir se reduzindo no mesmo ritmo em que se multiplicavam as casas de tijolos vermelhos. Yarvil foi ocupando cada centmetro de terra como bem entendia e s parou quando 
atingiu o limite norte de Pagford.
     O vilarejo, ento, suspirou com um alvio que logo se revelou prematuro. O loteamento de Cantermill no tardou a ser considerado insuficiente para suprir as 
necessidades da populao, e o municpio partiu em busca de mais terras para ocupar.
     Foi ento que Aubrey Fawley (que, para os habitantes de Pagford, ainda era mais um mito que algum de carne e osso) tomou a deciso que desencadeou uma rixa 
virulenta que vinha se arrastando h sessenta anos.
     No vendo serventia para os poucos terrenos cobertos de mato que ficavam perto do novo loteamento, ele vendeu a terra para o Conselho Municipal de Yarvil por 
um bom preo e usou o dinheiro para restaurar os lambris de madeira que revestiam o salo da Sweetlove House.
     Pagford no podia conter a sua fria. Os campos da manso Sweetlove eram uma pea importante do seu bastio contra a cidade que vinha tentando invadi-la. Agora, 
a antiga fronteira do vilarejo estava prestes a ser comprometida por uma avalanche de yarvilianos carentes. Assemblias agitadssimas, longas cartas para o jornal 
e para o Conselho Municipal, protestos perante as autoridades competentes - nada disso foi capaz de reverter o rumo da situao.
     As tais casas recomearam a avanar, mas com uma diferena: no breve intervalo de tempo que se seguiu ao fim das obras das primeiras residncias, a municipalidade 
percebeu que podia fazer construes ainda mais baratas. Essa nova leva j no era de tijolos vermelhos, mas de concreto e estruturas metlicas. Esse novo loteamento 
era agora conhecido como Fields, em lembrana das terras onde ele havia surgido, e se distinguia de Cantermill pela arquitetura e pelo material inferior usado na 
sua construo.
     Foi numa das casas de ao e concreto de Fields, j bem desvirtuadas e deterioradas em fins dos anos 1960, que Barry Fairbrother nasceu.

IV
     
     Apesar das delicadas afirmaes do Conselho de Yarvil, insistindo que as despesas com o novo bairro ficariam exclusivamente por sua conta, Pagford - como os 
seus enfurecidos moradores haviam previsto desde o comeo - logo viu chegarem novas taxas. Se o fornecimento da maioria dos servios e a manuteno das casas cabiam 
ao municpio, havia ainda alguns encargos que, daquele seu jeito autoritrio, Yarvil resolveu delegar ao distrito: a manuteno das caladas, da iluminao e do 
mobilirio urbano, dos pontos de nibus e espaos pblicos.
     Os grafites floresceram nas pontes existentes ao longo da estrada que ligava Pagford a Yarvil, os pontos de nibus de Fields foram alvo de vandalismo, os adolescentes 
do bairro enchiam o parque infantil de garrafas de cerveja e atiravam pedras nas lmpadas dos postes. Uma calada do vilarejo onde moradores e turistas tanto gostavam 
de passear tornou-se ponto de encontro - ou at mesmo coisa pior, como dizia em tom sombrio a me de Howard Mollison - de rapazes e moas do novo bairro. Cabia ao 
Conselho Distrital de Pagford a limpeza, os consertos e a substituio do que se quebrasse, e as verbas atribudas por Yarvil eram consideradas insuficientes para 
o tempo exigido e as despesas necessrias.
     Mas, entre todos esses transtornos indesejados, nada deixava os moradores do vilarejo mais irritados e amargurados que o fato de a educao das crianas de 
Fields ser da competncia da escola primria local, a St. Thomas's Church of England. Eles tinham o direito de usar o to cobiado uniforme azul e branco, brincar 
no ptio onde ficava a pedra fundamental inaugurada por Lady Charlotte Sweetlove e fazer a maior algazarra nas minsculas salas de aula com aquele sotaque estridente 
de Yarvil.
     Em pouco tempo, todos diziam que morar em Fields tinha se tornado o objetivo de vida de todas as famlias carentes de Yarvil que tivessem filhos em idade escolar. 
Dizia-se at que havia um intenso vaivm na linha divisria entre Cantermill e Fields, mais ou menos como acontecia com os mexicanos que entravam no Texas. A sua 
linda escola, verdadeiro chamariz para profissionais vindos de fora, atrados pelas salas pequenas, pelas carteiras com tampo corredio, pelo velho prdio de pedra 
e pelo ptio com seu belssimo gramado, ficaria superlotada e infestada pela prole de pedintes, drogados e mes que tinham cada filho de um pai diferente.
     Esse roteiro de pesadelo nunca se concretizou plenamente porque, embora houvesse vantagens incontestveis na St. Thomas, havia tambm alguns problemas: a necessidade 
de comprar o uniforme ou ento preencher todos os requisitos exigidos para se qualificar como carente e ter direito a receb-lo de graa; a necessidade de conseguir 
passes de nibus e de acordar mais cedo para que os filhos chegassem na hora. Algumas famlias do novo bairro acharam esses obstculos intransponveis e mandaram 
os filhos para as grandes escolas que no exigiam uniforme e tinham sido construdas para atender  populao de Cantermill. A maioria dos alunos de Fields matriculados 
na St. Thomas se integrou perfeitamente com os colegas de Pagford. Chegou-se mesmo a admitir que alguns deles eram timas crianas. Barry Fairbrother circulava, 
pois, pela escola toda, como aluno popular e verdadeiro palhao da turma, s percebendo, de quando em quando, que o sorriso de um pai ou uma me do vilarejo murchava 
quando ele dizia onde morava.
     Mesmo assim, a St. Thomas via-se s vezes obrigada a admitir um aluno do novo bairro com ndole visivelmente questionvel. Krystal Weedon estava morando com 
a bisav, na Hope Street, quando chegou a poca de se matricular na escola. Portanto, no havia como impedir o seu ingresso, muito embora, quando ela voltou a viver 
com a me em Fields, aos oito anos de idade, os moradores de Pagford tenham nutrido esperanas de v-la deixar a St. Thomas de uma vez por todas.
     A sua lenta passagem pela escola pareceu at a passagem de um bode pelo corpo de uma jibia: absolutamente visvel e desconfortvel para ambas as partes envolvidas. 
No que Krystal estivesse sempre presente: durante boa parte da sua permanncia ali, ela recebeu aulas individuais de um professor especial.
     Por um malvolo golpe do destino, Krystal era da mesma turma que Lexie, a neta mais velha de Howard e Shirley. Houve uma ocasio em que Krystal deu um soco 
na cara de Lexie Mollison com tanta fora que lhe arrancou dois dentes, e o fato de eles j estarem moles no foi considerado uma circunstncia atenuante pelos pais 
e pelos avs da menina.
     Foi a convico de que turmas inteiras de Krystals estariam  sua espera na Escola Secundria Winterdown que acabou levando Miles e Samantha Mollison a matricular 
ambas as filhas na St. Anne, uma escola particular de Yarvil, s para meninas, onde as duas passavam a semana inteira em regime de internato. A constatao de que 
as netas haviam sido expulsas, por Krystal Weedon, do lugar que lhes cabia por direito logo se tornou o exemplo favorito de Howard para demonstrar como a influncia 
do novo bairro era nefasta para a vida de Pagford.

V
     
     Aquelas primeiras manifestaes diante da afronta experimentada por Pagford acabaram se transformando numa sensao mais discreta, embora no menos poderosa, 
de ressentimento. O bairro de Fields tinha vindo poluir e corromper um lugar de paz e de beleza, e os habitantes mais inflamados do vilarejo continuavam determinados 
a extirpar o loteamento. Revises de limites foram solicitadas e realizadas, e reformas do governo local se alastraram pela rea sem efetuar qualquer modificao 
efetiva: Fields continuava a fazer parte do distrito de Pagford. Quem chegava ao vilarejo logo descobria que detestar o novo bairro era um passaporte necessrio 
para se obter as boas graas do ncleo central de pagfordianos que mandava e desmandava nas coisas por ali.
     Mas agora, finalmente - uns sessenta anos depois que o velho Aubrey Fawley entregou aquele pedao de terra fatal a Yarvil; depois de dcadas de trabalho paciente, 
bolando estratgias, fazendo peties, coletando informaes e discutindo com subcomits -, a faco anti-Fields de Pagford se encontrava quase s portas da vitria.
     A recesso estava obrigando as autoridades a simplificar, cortar, reorganizar. No Conselho Municipal de Yarvil, havia quem vislumbrasse vantagens para as prximas 
eleies caso o pequeno bairro caindo aos pedaos - e provavelmente destinado a ficar  mngua em funo das medidas de austeridade impostas pelo governo nacional 
- fosse simplesmente arrebanhado para que os pobres-diabos dos seus moradores viessem se incluir na lista dos seus eleitores.
     Pagford tinha o seu prprio representante em Yarvil: o conselheiro municipal Aubrey Fawley. No se tratava do homem que possibilitou a construo de Fields, 
mas do seu filho, o "jovem Aubrey", que havia herdado a Sweetlove House e passava a semana inteira trabalhando como agente financeiro em Londres. Havia uma leve 
dose de penitncia no envolvimento de Aubrey com as questes locais, como se ele se sentisse na obrigao de consertar o mal que o pai, num gesto to impensado, 
tinha feito ao vilarejo. Ele e a esposa, Julia, patrocinavam a exposio agrcola e entregavam os prmios aos vencedores, participavam de qualquer comit que existisse 
por ali e todo ano davam uma festa de Natal cujos convites eram cobiadssimos.
     Um dos maiores orgulhos de Howard, algo que o deixava encantado, era saber que ele e Aubrey eram aliados to prximos na incessante batalha para remover o bairro 
popular de Fields. Afinal, Aubrey circulava nas altas rodas dos negcios, o que provocava o respeito fascinado do dono da delicatssen. Toda noite, depois de fechar 
a loja, Howard pegava a gaveta da sua velha caixa registradora e contava as moedas e as notas sujas antes de guard-las no cofre. J Aubrey nunca botava a mo em 
dinheiro durante o expediente e, mesmo assim, era capaz de fazer com que quantias inimaginveis circulassem por todos os continentes. Ele administrava e multiplicava 
aquelas fortunas e, quando os pressgios eram menos auspiciosos, mantinha-se impvido, vendo-as desaparecer. Aos olhos de Howard, Aubrey tinha uma mstica que nem 
mesmo uma crise financeira mundial seria capaz de abalar. O dono da delicatssen ficava irritado com quem quer que culpasse pessoas como Aubrey pela confuso em 
que o pas se encontrava. Ningum reclamava quando tudo estava correndo bem, era a opinio tantas vezes por ele repetida. Howard concedia ao seu aliado o respeito 
devido a um general ferido numa guerra impopular.
     Nesse meio-tempo, na qualidade de membro do Conselho Municipal, Aubrey tinha acesso a todo tipo de estatsticas interessantes e estava em condies de transmitir 
a Howard uma boa dose de informaes sobre o to problemtico satlite de Pagford. Os dois homens sabiam exatamente que porcentagem dos recursos pblicos era destinada 
s ruas destrudas de Fields, sem qualquer retorno ou resultado visvel. Sabiam tambm que ningum ali era dono da casa onde morava (ao passo que quase todas as 
casas de tijolos de Cantermill eram hoje propriedade dos seus moradores e tinham passado por uma verdadeira transformao, com jardineiras nas janelas, varandas 
e gramados bem-tratados). E sabiam que quase dois teros dos habitantes de Fields viviam exclusivamente do dinheiro pblico e que um nmero considervel j tinha 
cruzado as portas da Clnica de Reabilitao e Tratamento para Dependncia Qumica Bellchapel.

VI
     
     Para Howard, a viso de Fields era algo que no lhe saa da cabea, como a lembrana de um pesadelo: janelas vedadas por tbuas repletas de obscenidades, adolescentes 
fumando dentro dos abrigos constantemente depredados dos pontos de nibus, parablicas por todo canto, viradas para o cu como corolas despetaladas de sinistras 
flores de metal. Muitas vezes perguntava - simples pergunta retrica,  claro - por que aquela gente no se organizava e transformava aquele lugar. O que os impedia 
de fazer uma vaquinha com os seus parcos recursos e comprar um cortador de grama comunitrio? Isso, porm, nunca aconteceu: Fields estava sempre esperando que os 
conselhos, distrital e municipal, limpassem, consertassem, cuidassem da manuteno. Dar isso, dar aquilo, dar aquilo outro...
     Lembrava-se ento da Hope Street da sua infncia, com os seus minsculos quintais nos fundos das casas, uns quadrados de terra pouco maiores que uma toalha 
de mesa. A maioria deles, porm, inclusive o da sua me, era inteiramente plantada com feijo-trepador e batata. Na sua opinio, no havia nada que impedisse os 
moradores de Fields de ter uma horta, nada que os impedisse de dar alguma educao quela filharada sinistra, encapuzada, sempre s voltas com latas de spray; nada 
que os impedisse de se unir e, em mutiro, dar cabo da sujeira e consertar tudo que estava caindo aos pedaos; nada que os impedisse de se lavar e procurar emprego... 
Absolutamente nada. S podia ser uma coisa, era a concluso a que chegava necessariamente: eles tinham escolhido viver daquele jeito por livre e espontnea vontade, 
e a aparncia de degradao um tanto ameaadora do local nada mais era que uma manifestao fsica de ignorncia e indolncia daquela gente.
     J Pagford reluzia com uma espcie de brilho moral, na viso de Howard. Como se a alma coletiva da comunidade se manifestasse nas suas ruas caladas de paraleleppedos, 
nas suas colinas, no seu casario pitoresco. Na sua opinio, a sua terra natal era muito mais que um conjunto de velhos prdios, um rio de guas rpidas e bordejado 
de rvores, a majestosa silhueta da abadia l no alto ou as jardineiras floridas na pracinha. Para ele, o vilarejo era um ideal, um modo de ser, uma microcivilizao 
que resistia bravamente a um declnio nacional.
     "Sou um pagfordiano legtimo", dizia Howard aos turistas que apareciam por ali no vero, "nascido e criado nesta cidade". E, quando dizia isso, estava fazendo 
a si mesmo um imenso elogio disfarado de banalidade. Nasceu em Pagford e ia morrer ali, e jamais sonhou em ir embora, nem desejou mudar de ares: bastava-lhe ver 
a passagem das estaes transformar os bosques e o rio das redondezas, a praa florescer na primavera e cintilar na poca do Natal.
     Barry Fairbrother sabia disso muito bem. Alis, foi algo que ele disse. E riu, sentado do outro lado da mesa no salo da igreja. Riu bem na cara do presidente 
do Conselho. "Sabe, Howard, para mim, voc  Pagford." E Howard, sem se abalar a mnima (pois sempre rebateu com gozaes as gozaes de Barry), respondeu: "No 
sei se foi essa a sua inteno, Barry, mas fique sabendo que acaba de me fazer um tremendo elogio."
     E riu tambm. Podia se dar ao luxo de rir. A nica ambio que ainda tinha na vida estava logo ali, ao alcance da sua mo: o retorno de Fields a Yarvil parecia 
coisa certa e iminente.
     E ento, dois dias antes de Barry Fairbrother cair morto num estacionamento, Howard ficou sabendo, de fonte mais que segura, que o seu antagonista tinha infringido 
todas as regras do jogo ao enviar para o jornal local um texto falando da bno que fora para Krystal Weedon ser educada na St. Thomas.
     A idia de ver Krystal Weedon sendo exibida aos leitores como exemplo da integrao bem-sucedida entre Fields e Pagford (nas palavras de Howard) seria cmica 
se no fosse trgica... Sem dvida alguma Fairbrother ensaiou bem a garota, e a verdade sobre a sua boca suja, as aulas tantas vezes interrompidas, as lgrimas das 
outras crianas, as constantes remoes da casa da me e as outras tantas reintegraes se perderia em meio a um monte de mentiras.
     Howard confiava no bom senso dos seus concidados; temia, porm, as invencionices jornalsticas e a interferncia de gente bem-intencionada, mas ignorante. 
A sua objeo era tanto uma questo de princpios quanto um assunto pessoal: ainda no havia esquecido a cena da neta soluando nos seus braos, com a gengiva sangrando 
no lugar dos dentes que tinham cado, e ele tentando consol-la, prometendo que a fada do dente ia lhe trazer mais de um presente.

Tera-feira
     
     I
     
     Na segunda manh depois da morte de Barry, Mary Fairbrother acordou s cinco horas. Tinha dormido na cama do casal junto com Declan, o filho de doze anos, que 
veio se enfiar ali, aos prantos, pouco depois da meia-noite. Agora que o menino dormia a sono solto, Mary saiu do quarto de mansinho e desceu para a cozinha, onde 
poderia chorar sem problemas. Cada hora que se passava s fazia aumentar a sua dor, pois a deixava cada vez mais longe do marido e era apenas uma pequena amostra 
da eternidade que teria de viver sem ele ao seu lado. Estava sempre esquecendo que Barry no ia voltar nunca mais e que no podia correr para ele em busca de consolo.
     Quando a sua irm e o seu cunhado apareceram para fazer o caf, Mary pegou o celular do marido e foi para o escritrio procurar uns telefones naquela imensa 
lista de contatos. Mal tinha comeado, porm, o aparelho tocou na sua mo.
     Al? - murmurou ela.
     Ah, bom dia! Estou procurando Barry Fairbrother.  Alison Jenkins que est falando. Da Gazeta de Yarvil e Adjacncias.
     Aos ouvidos de Mary, o tom desembaraado da voz da jovem soou alto e terrvel como uma fanfarra triunfal, um barulho estrondoso que chegou a obliterar o sentido 
das palavras.
     Como?
 Alison Jenkins, da Gazeta de Yarvil e Adjacncias. Queria falar com Barry Fairbrother. Com relao ao artigo dele sobre Fields.
     Ah! - balbuciou Mary.
     Ele no mandou nenhuma informao sobre a garota. O combinado foi que ela nos daria uma entrevista. A tal da Krystal Weedon.
     Para Mary, cada uma daquelas palavras era um verdadeiro tapa. Numa atitude um tanto perversa, ficou sentada na velha cadeira giratria do marido, quietinha, 
deixando que todos aqueles golpes a atingissem.
     A senhora est ouvindo?
     Estou - respondeu Mary, com a voz embargada. - Estou ouvindo, sim.
     Sei que o sr. Fairbrother faz questo de estar presente quando entrevistarmos a Krystal, mas o tempo est passando...
     Ele no vai poder comparecer - disse Mary, e a voz lhe saiu quase como um guincho. - Ele no vai poder falar nunca mais sobre o maldito Fields, nem sobre qualquer 
outra coisa! Nunca mais!
     Como ? - indagou a moa do outro lado da linha.
     O meu marido morreu, ok? Morreu! O que significa que agora Fields vai ter que se virar sem ele.
     As suas mos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o celular e, durante os minutos que levou at poder deslig-lo, teve certeza de que a jornalista a 
ouviu soluar. Lembrou, ento, que a maior parte do ltimo dia que Barry passou nesta terra, e que era o seu aniversrio de casamento, tinha sido dedicada  sua 
obsesso pelo bairro e por Krystal Weedon. Num acesso de raiva, atirou o telefone longe: ele foi bater no porta-retratos com a foto dos seus quatro filhos e caiu 
no cho, l do outro lado da sala. Mary comeou a chorar e gritar. Tanto a irm quanto o cunhado vieram correndo ver o que estava acontecendo.
     De incio, ela s fazia repetir:
     Fields, maldito Fields...
     Foi l que Barry e eu crescemos - murmurou o cunhado, mas resolveu no dizer mais nada, temendo que Mary ficasse ainda mais histrica.

II
     
     A assistente social Kay Bawden e a sua filha Gaia tinham vindo de Londres h quatro semanas e eram as mais novas moradoras de Pagford. Kay ignorava inteiramente 
a velha rixa envolvendo o bairro popular: para ela, Fields era apenas o lugar onde vivia a maior parte das pessoas que ela atendia. Tudo que sabia sobre Barry Fairbrother 
era que a morte desse homem tinha provocado aquela cena lamentvel na sua cozinha, quando o seu namorado, Gavin, saiu correndo, fugindo dela e dos seus ovos mexidos 
e, com isso, pondo por terra todas as esperanas surgidas quando fizeram amor na noite anterior.
     Naquela tera-feira, Kay passou a sua hora de almoo dentro do carro, num trecho do acostamento da estrada que ia de Pagford a Yarvil, comendo um sanduche 
e lendo uma pilha considervel de anotaes. Uma das suas colegas havia tirado uma licena mdica, por motivo de estresse, o que fez com que um tero dos casos sob 
a sua responsabilidade viesse cair nas costas da recm-chegada. Pouco depois da uma hora, ela tomou o caminho de Fields.
     J tinha visitado o bairro inmeras vezes, mas ainda no estava acostumada com aquele labirinto de ruas. Acabou finalmente encontrando a Foley Road e, de longe, 
identificou a casa que acreditava ser a dos Weedon. A ficha no deixava dvidas sobre o que ela devia encontrar pela frente, e,  primeira vista, tudo correspondia 
plenamente s suas expectativas.
     Junto  parede da frente, havia uma pilha de entulho: sacolas cheias de lixo misturadas com roupas velhas e fraldas sujas. Parte daquele lixo tinha cado ou 
sido jogada no minsculo canteiro coberto de mato, mas o grosso estava amontoado debaixo de uma das duas janelas do andar trreo. No meio do tal canteiro, havia 
um velho pneu careca que algum havia mudado de lugar recentemente, pois, a poucos centmetros de distncia, dava para ver um crculo meio amarelado onde a grama 
morta tinha ficado amassada. J tinha tocado a campainha, quando avistou uma camisinha usada brilhando no cho aos seus ps, parecendo at o tnue casulo de alguma 
larva gigantesca.
     Estava sentindo aquela leve apreenso que nunca conseguiu superar inteiramente, mas aquilo no era nada comparado ao estado de nervos em que ficava na hora 
de bater em casas desconhecidas quando comeou a trabalhar. Nessa poca, apesar de todo o treinamento, apesar de estar geralmente em companhia de algum colega, chegou 
a ficar mesmo com medo em certas ocasies. Cachorros bravos, homens brandindo facas, crianas com machucados esquisitssimos: encontrou tudo isso, e at coisa pior, 
nesses anos que passou entrando na casa de estranhos.
     Ningum veio atender, mas, pela janela entreaberta que ficava  sua esquerda, dava para ouvir uma criana pequena choramingando. Tentou ento bater  porta. 
Um pedacinho de tinta creme se soltou e foi cair na ponta do seu sapato. Kay se lembrou at do estado deplorvel da sua nova casa. Seria to bom se Gavin se oferecesse 
para ajudar a melhorar um pouco aquilo... Mas ele no falou nada... s vezes, repassava as coisas que ele no tinha dito ou no tinha feito, como um agiota examinando 
promissrias, e ficava chateada e furiosa, decidida a executar aquelas dvidas.
     Bateu de novo, mais cedo do que teria feito normalmente, se no estivesse querendo se livrar dos prprios pensamentos, e, desta vez, uma voz distante respondeu:
     T indo, p!
     A porta se abriu, revelando uma mulher que aparentava, a um s tempo, ser velha e criana, com uma camiseta azul-clara bem suja e calas de pijama de homem. 
Era da altura de Kay, mas extremamente mirrada. Os ossos do seu rosto e o esterno despontavam, salientes, sob a pele fina e branca; o cabelo, nitidamente pintado 
em casa, ressecado e de um vermelho vivo, parecia uma peruca no alto de um crnio; as suas pupilas eram minsculas, e ela praticamente no tinha seios.
     Ol! Voc  Terri? Sou Kay Bawden, do Servio Social. Estou substituindo Mattie Knox.
     Os braos finos e acinzentados da mulher estavam cheios de marquinhas de picadas e havia uma ferida aberta, em carne viva, na parte interna de um dos seus antebraos. 
Uma grande cicatriz, que cobria parte do seu brao direito e subia at o pescoo, dava  pele daquele local a aparncia de um plstico lustroso. Em Londres, Kay 
tinha conhecido uma dependente qumica que ps fogo na casa acidentalmente e s foi perceber o que estava acontecendo quando j era tarde demais.
     Ah, t - disse Terri aps uma pausa mais longa que o normal. Quando falava, parecia muito mais velha, pois lhe faltavam vrios dentes. Virou as costas para 
Kay e deu alguns passos trpegos pelo corredor escuro. A assistente social foi atrs dela. A casa cheirava a comida estragada, suor, lixo acumulado. Terri levou 
Kay at a primeira porta  esquerda, que se abria para uma minscula sala de estar.
     Ali dentro, no havia livros, quadros, fotos ou televiso. Havia apenas duas velhas poltronas imundas, uma estante quebrada e muito lixo pelo cho. Num canto, 
junto  parede, uma pilha de caixas de papelo novinhas em folha destoava inteiramente do ambiente.
     No meio da sala, estava um garotinho de pernas de fora, usando uma camiseta e uma fralda que j devia ter sido trocada h tempos. Pelas informaes do dossi, 
Kay sabia que ele tinha trs anos e meio. O seu choro parecia inconsciente e sem motivo, como o rudo de um motor que s servisse para indicar que ele estava ali, 
no momento atracado com uma daquelas minsculas caixinhas de cereais.
     Esse a deve ser o Robbie - disse Kay.
     Ao ouvir o prprio nome, o menino olhou para ela, mas sem parar de choramingar.
     Terri empurrou uma velha lata de biscoitos toda arranhada que tinha ficado esquecida em cima de uma das poltronas esmolambadas e se sentou, toda encolhida, 
olhando Kay por detrs das plpebras cadas. A assistente social se instalou na outra poltrona, em cujo brao se equilibrava um cinzeiro abarrotado. Algumas guimbas 
tinham cado no assento, e Kay podia senti-las sob as coxas.
     Oi, Robbie - disse ela, abrindo o dossi de Terri.
     A criana continuou choramingando e sacudindo a tal caixinha: alguma coisa estava chocalhando ali dentro.
     O que  que tem a? - indagou Kay.
     Ele no respondeu, mas sacudiu a caixa com mais fora. Um bonequinho plstico saiu voando, fez um arco no ar e foi cair atrs das tais caixas de papelo. Robbie 
comeou a chorar. Kay olhou para Terri, que observava o filho com o rosto absolutamente impassvel. Depois de algum tempo, ela finalmente murmurou:
     Que foi, Robbie?
     Ser que d pra tirar ele de l? - perguntou Kay, satisfeita da vida por ter enfim uma desculpa para levantar e tirar aquela sujeira das pernas. - Vamos ver!
     Chegou a cabea bem perto da parede, tentando espiar pela fresta atrs das caixas. A tal figurinha no tinha cado muito no fundo. Enfiou a mo pela fresta, 
pois no dava para puxar aquelas caixas de to pesadas que eram. Kay conseguiu apanhar o boneco e, quando o teve nas mos, viu que era um homenzinho atarracado, 
parecendo um Buda, inteiramente roxo.
     Pronto! - disse ela.
     Robbie parou de choramingar. Pegou o bonequinho, tornou a bot-lo dentro da caixa de cereais e recomeou a sacudi-la.
     A assistente social passou os olhos pela sala. Debaixo da estante quebrada viu dois carrinhos de brinquedo virados de cabea para baixo.
     Voc gosta de carro? - perguntou ao menino, apontando para os brinquedos.
     Robbie no acompanhou o movimento da mo de Kay, mas apertou os olhos para enxerg-la, com uma expresso meio intrigada, meio curiosa. Depois, foi apanhar um 
dos carrinhos e o trouxe para mostrar a ela.
     Vrumm - fez ele. - Calo.
     Isso mesmo - exclamou Kay. - Que legal! Um carro. Vrumm, vrumm.
     Voltou a se sentar e tirou o bloco da bolsa.
     E a, Terri, como andam as coisas?
     Tudo bem - respondeu a mulher depois de um instante de silncio.
     Bom, s para explicar o que aconteceu: Mattie entrou de licena porque est doente, e ento eu vim substitu-la. Vou precisar repassar algumas informaes que 
ela me transmitiu, para ver se no houve nenhuma mudana desde que ela veio aqui na semana passada, ok? Ento, vamos ver... Robbie est na escola, no ? Dois dias 
em meio perodo e dois em horrio integral.
     Parecia que a voz de Kay tinha de percorrer uma distncia considervel para chegar at Terri. Era como falar com algum que estivesse sentado no fundo de um 
poo.
 - disse a mulher, depois de mais alguns instantes de silncio.
     E como ele est indo? Est gostando?
     Robbie enfiou o carrinho dentro da caixa de cereais. Pegou uma das guimbas de cigarro que tinha cado da cala comprida de Kay e a esmagou tanto no carrinho 
quanto no tal Buda roxo.
     T - respondeu Terri, sonolenta.
     Mas Kay estava observando atentamente as ltimas anotaes que Mattie havia feito antes de entrar de licena.
     No era para ele estar l hoje, Terri? Tera no  dia de escola?
     A mulher parecia estar lutando contra o sono. Uma ou duas vezes chegou at a cabecear.
     A Krystal ia levar ele, mas no levou - disse ela enfim.
     Krystal  a sua filha, no ? Quantos anos ela tem?
     Quatorze - disse Terri, com ar meio vago. - E meio.
     Segundo as informaes do dossi, Krystal tinha dezesseis anos. Desta
     vez, houve um bom momento de silncio.
     Tinha duas canecas lascadas no p da poltrona de Terri. O lquido escuro dentro de uma delas parecia at sangue. Os braos da mulher estavam cruzados diante 
do peito quase liso.
     Eu vesti ele - acrescentou ela, como se tivesse de arrancar as palavras l do fundo da cabea.
     Desculpe, mas tenho que fazer essa pergunta - disse Kay. - Voc usou hoje de manh?
     Terri levou  boca a mo ossuda, que mais parecia uma garra.
     No.
     Qu coc - disse Robbie saindo porta afora.
     No vai com ele? - indagou Kay, vendo o menino desaparecer e ouvindo-o subir a escada.
     Precisa, no. Ele se vira sozinho - respondeu Terri, com voz arrastada, e deixou a cabea pender sobre o punho erguido, com o cotovelo apoiado na poltrona.
     Pta! Pta! - gritou Robbie l do andar de cima.
     E as duas ouviram as batidas na madeira. Terri no se mexeu.
     Quer que eu v ajud-lo? - perguntou Kay. 
     T.
     A assistente social subiu a escada e abriu a porta para Robbie. O lugar fedia muito. A privada era cinzenta, com vrias linhas marrons, marcando a altura da 
gua em ocasies diferentes. E no tinham dado a descarga. Kay tratou de fazer isso antes de deixar que Robbie subisse para se sentar ali. O menininho fechou a cara 
e fez muita fora, indiferente  presena daquela estranha. Ouviu-se o barulho de algo caindo na gua e o ar j ptrido daquele banheiro ganhou mais um reforo. 
Robbie ento desceu da privada e puxou a fralda para cima, sem se limpar. Kay mandou que ele voltasse e tentou convenc-lo a se limpar sozinho, mas, como aquela 
atividade lhe era aparentemente desconhecida, ela prpria decidiu faz-lo. O bumbum da criana estava ferido: todo assado, vermelho e irritado. A fralda tinha cheiro 
de amnia. A moa tentou tir-la, mas Robbie gritou, esperneou, conseguiu se desvencilhar e voltou correndo para a sala com a fralda quase caindo. Kay queria lavar 
as mos, mas no tinha sabo em lugar nenhum. Prendendo a respirao, saiu e fechou a porta do banheiro s suas costas.
     Antes de descer, deu uma olhada nos quartos. Os trs transbordavam, despejando parte do seu contedo no corredor j abarrotado. Todos ali dormiam em colches 
no cho. Aparentemente, Robbie dormia no quarto com a me, pois havia uns poucos brinquedos no meio da roupa suja espalhada pelo cho: umas coisas de plstico, bem 
vagabundas e para crianas menores que ele. Para surpresa de Kay, o edredom tinha capa e os travesseiros, fronhas.
     L na sala, Robbie tinha recomeado a choramingar, esmurrando a pilha de caixas de papelo. Terri s fazia olhar, com os olhos semicerrados. Antes de sentar, 
Kay deu umas batidinhas no assento da poltrona.
     Voc est no programa de metadona l na Clnica Bellchapel, no  mesmo, Terri?
     Hum, hum - respondeu ela, sonolenta.
     E como est indo?
     Com a caneta na mo, Kay ficou esperando, fingindo que a resposta no estava bem ali,  sua frente.
     Continua indo  clnica, Terri? - perguntou ela.
     Fui na semana passada. Vou na sexta.
     Robbie ainda estava socando as caixas.
     Sabe dizer qual a dose de metadona que est tomando?
     Cento e quinze miligramas - disse Terri.
     No era de espantar que Terri se lembrasse disso, mas no soubesse a idade da filha...
     Mattie diz aqui que a sua me estava ajudando a cuidar de Robbie e Krystal. Ainda est?
     Robbie atirou todo o peso do corpinho socado de encontro  pilha de caixas, que vacilou.
     Cuidado, Robbie - disse Kay.
     Deixa isso a - exclamou Terri, e, pela primeira vez, Kay percebeu um tom que era quase desperto naquela sua voz morta.
     Robbie recomeou a dar socos nas caixas, aparentemente s pelo prazer de ouvir aquele barulho surdo.
     A sua me continua ajudando a cuidar de Robbie, Terri?
     Me, no, v.
     Av de Robbie?
     Minha. Ela t... Ela no t legal.
     Kay voltou a olhar para Robbie, com a caneta a postos. O menino no parecia abaixo do peso: deu para notar isso quando o viu, quase nu, enquanto limpava o seu 
bumbum. A camiseta que usava estava suja, mas, quando se debruou sobre ele, sentiu, no sem surpresa, que o seu cabelo tinha cheiro de xampu. No havia nenhum machucado 
nos seus braos e pernas branqussimos, mas havia aquela fralda frouxa e encharcada. E ele j tinha trs anos e meio...
     Qu pap - gritou o menino, dando uma ltima sacudidela intil nas caixas de papelo. - Qu pap!
     Pega um biscoito - balbuciou Terri, mas no se mexeu de onde estava. Os gritos de Robbie viraram soluos ruidosos. A me no fez meno de se levantar. Era 
impossvel continuar falando com aquela gritaria.
     Quer que eu pegue um para ele? - perguntou Kay.
     T bom.
     Robbie veio correndo atrs dela at a cozinha, que era quase to suja quanto o banheiro. No havia nada ali, alm de uma geladeira, um fogo e uma mquina de 
lavar. Na bancada da pia, s se viam pratos sujos, outro cinzeiro abarrotado, sacos plsticos e po mofado. O linleo do cho estava to pegajoso que grudava na 
sola dos sapatos de Kay. A lixeira estava transbordando, e, bem no alto, uma embalagem de pizza se equilibrava precariamente.
     Aqui - disse o menino, batendo com o dedinho no armrio da parede, sem olhar para Kay. - Aqui.
     No tal armrio, havia mais comida do que Kay poderia supor: latas, um pacote de biscoito, um pote de caf instantneo. Pegou dois biscoitos do pacote e os entregou 
a Robbie. Ele os agarrou e voltou correndo para perto da me.
     Quer dizer que voc est gostando da escola, Robbie? - perguntou a assistente social, dirigindo-se ao menino, que devorava os biscoitos, sentado no cho. Mas 
ele no respondeu.
     Gosta, sim - disse Terri, ligeiramente mais desperta. - N, Robbie? Gosta, sim.
     Quando ele foi para a escola pela ltima vez, Terri?
     Ontem.
     Impossvel - retrucou Kay, fazendo umas anotaes. - Ontem foi segunda-feira, segunda no  dia de escola.
     Qu?
     Perguntei sobre a escola. Hoje era dia de Robbie estar l. Preciso saber qual foi a ltima vez que ele foi para a escola.
     J disse. A ltima vez...
     Kay ainda no tinha visto os olhos da mulher to abertos quanto naquele momento. O tom da sua voz continuava aptico, mas havia um certo antagonismo lutando 
para vir  tona.
     Voc  sapato? - perguntou ela.
     No - respondeu Kay, sem parar de escrever.
     Pois parece - observou Terri.
     Kay continuou escrevendo.
     Suco! - gritou Robbie, com o queixo todo sujo de chocolate.
     Desta vez, Kay no se moveu. Depois de um bom tempo, Terri deu um pulo da cadeira e se embrenhou pelo corredor. Debruando-se um pouco, Kay ergueu a tampa da 
caixa de biscoitos que a outra tinha empurrado para se sentar. L dentro havia uma seringa, um chumao de algodo encardido, uma colher meio enferrujada e um saco 
de polietileno. A assistente social fechou bem a tampa, vendo que Robbie a olhava. Ouviram-se uns barulhos ao longe, e, em seguida, Terri voltou trazendo uma caneca 
de suco, que empurrou na direo do filho.
     Toma - disse ela, dirigindo-se mais a Kay que ao menino. E voltou a se sentar. Desta vez, porm, se atrapalhou e bateu no brao da poltrona. Deu para ouvir 
o choque dos ossos com a madeira, mas, aparentemente, Terri no sentiu dor alguma. Recostou-se nas almofadas deformadas e ficou olhando para a visitante com uma 
vaga indiferena.
     Kay havia lido o dossi de ponta a ponta. Sabia que quase tudo que pudesse ter algum valor na vida de Terri Weedon tinha sido sugado pelo buraco negro do vcio 
em herona. Sabia que aquilo tinha lhe custado dois filhos e que ela mal se dava conta da existncia dos outros dois. Sabia que ela tinha se prostitudo para comprar 
herona, que tinha se envolvido em todo tipo de delitos e que, atualmente, estava em tratamento de reabilitao pela ensima vez.
Mas no sentir, no se preocupar... Neste exato momento, pensou Kay, ela est mais feliz que eu.

III
     
     No comeo do segundo tempo do turno da tarde, Stuart "Bola" Wall saiu da escola. No havia nada de impulsivo na sua deciso de matar aula: simplesmente tinha 
resolvido, na noite anterior, no assistir aos dois tempos de informtica que eram os ltimos do dia. Podia ter escolhido qualquer outra matria, mas acontece que 
o seu melhor amigo, Andrew Price (que Bola chamava de Arf), estava em outra turma de informtica e, apesar de todos os esforos que fez neste sentido, Bola no conseguiu 
ser transferido para ficar junto com ele.
     Provavelmente um e outro sabiam muito bem que, na sua amizade, admirao era um trao quase unilateral: mais de Andrew para Bola que vice-versa. Mas este ltimo 
era o nico que desconfiava que precisava muito mais de Andrew do que o amigo precisava dele. De uns tempos para c, vinha considerando essa dependncia uma fraqueza. 
Na noite anterior, porm, pensou que, enquanto as coisas continuassem assim, podia perfeitamente matar dois tempos de uma aula em que no tinha mesmo a companhia 
de Arf.
     Um informante de toda a confiana tinha lhe garantido que a nica maneira de conseguir sair da Winterdown sem que ningum o visse de uma janela qualquer era 
pulando o muro lateral, perto do bicicletrio. Foi exatamente o que ele fez, indo cair na ruela estreita que ficava do outro lado. Aterrissou sem maiores problemas 
e saiu andando. Logo dobrou  esquerda, dirigindo-se  rua principal, suja e movimentada.
     E l se foi ele, na maior tranqilidade. Acendeu um cigarro e seguiu em frente, passando por lojinhas decrpitas. Cinco quadras adiante, voltou a dobrar  esquerda, 
entrando pela primeira das ruas que vo dar em Fields. Sempre andando, afrouxou a gravata do uniforme com uma das mos, mas no a tirou. Qual o problema de todo 
mundo saber de cara que ele era aluno da escola? Alis, nunca lhe passou pela cabea dar um toque pessoal ao uniforme, fosse prendendo um daqueles emblemas na lapela 
ou dando, na gravata, um n que estivesse na moda. Simplesmente usava aquela roupa com o desprezo de um prisioneiro.
     Na sua opinio, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas  ter vergonha de serem quem so,  mentir a esse respeito, fingindo ser algum diferente. 
A honestidade era a sua marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas. Bola descobriu que tem gente que fica aferrada 
a constrangimentos e falsas aparncias, morrendo de medo que as suas verdades possam se espalhar. Ele, porm, gostava mesmo era das coisas nuas e cruas, de tudo 
que fosse feio, mas honesto, das coisas sujas que faziam pessoas como o seu pai se sentirem humilhadas e enojadas. Pensava muito sobre messias e prias, sobre homens 
que eram taxados de loucos ou criminosos, nobres marginais rejeitados pelas massas inertes.
     O mais difcil, a verdadeira glria era ser quem a gente realmente , mesmo quando se trata de uma pessoa cruel ou perigosa, alis, especialmente nesses casos. 
 preciso ter coragem para no tentar disfarar o animal que lhe calhou ser. Por outro lado,  preciso evitar fingir ser mais que o animal que voc : se entrar 
por esse caminho, se comear a exagerar ou aparentar outra coisa vai acabar se tornando um outro Pombinho, to mentiroso, to hipcrita quanto ele. Autntico e inautntico 
eram palavras que Bola usava com freqncia, mentalmente. Na sua opinio, esses dois termos tinham uma incrvel preciso de significado, e ele os aplicava referindo-se 
tanto a si mesmo quanto aos outros.
     Tinha chegado  concluso de que possua caractersticas autnticas que deviam, portanto, ser estimuladas e cultivadas. Alguns dos seus hbitos mentais, porm, 
eram produtos desnaturados da infeliz criao que teve e, assim, j que eram inautnticos, deviam ser eliminados. Ultimamente, vinha experimentando agir de acordo 
com o que considerava os seus impulsos autnticos e ignorar, ou reprimir, a culpa e o medo (inautnticos) que tais atos pareciam acarretar.  claro que tudo ia ficando 
mais fcil com a prtica... Bola queria se endurecer por dentro, tornar-se invulnervel, livrar-se do medo das conseqncias: libertar-se das noes esprias de 
bondade e maldade.
     Se andava irritado com essa histria de ser to dependente de Andrew era justamente porque a presena do amigo s vezes restringia e limitava a plena expresso 
do seu eu autntico. Andrew possua, dentro de si, um mapa do que era certo ou errado, e, ultimamente, Bola vinha percebendo no seu rosto um ar de desagrado, de 
espanto e de decepo que o outro no conseguia disfarar. Andrew brecava qualquer gozao ou sacanagem que considerasse excessiva, mas Bola no o censurava por 
isso: afinal, o amigo no estaria sendo autntico se entrasse na dele quando no estava efetivamente a fim... O problema era que Andrew estava se mostrando apegado 
ao tipo de moralidade contra a qual ele prprio vinha travando uma guerra cada vez mais ferrenha. Bola estava comeando a achar que o que devia fazer, que a atitude 
certa a ser tomada, friamente, visando  plena autenticidade, seria se afastar de Andrew. Acontece que continuava preferindo a companhia do amigo a qualquer outra 
que pudesse ter...
     Estava convencido de que se conhecia muitssimo bem: explorava cada cantinho, cada brecha do prprio psiquismo com uma ateno que hoje em dia no dedicava 
a nenhuma outra atividade. Passava horas se indagando sobre os seus impulsos, os seus desejos, os seus medos, tentando distinguir os que eram verdadeiros dos que 
lhe tinham sido inculcados pela educao. Examinava os prprios apegos (tinha certeza de que no conhecia ningum que fosse to honesto consigo mesmo, pois todas 
as outras pessoas se deixavam levar pela vida afora, meio entorpecidas) e tinha chegado a algumas concluses. Andrew, que conhecia desde os cinco anos de idade, 
era a pessoa por quem tinha o mais sincero afeto. Embora agora tivesse idade suficiente para compreender as atitudes da me, era apegado a ela, mas no tinha culpa 
de que as coisas fossem assim. E desprezava profundamente Pombinho, que representava o suprassumo da inautenticidade.
     Na pgina do Facebook, de que ele cuidava com um capricho que no dedicava a praticamente nenhuma outra coisa, Bola havia postado em destaque uma citao que 
encontrou na biblioteca dos pais:

No quero crentes, acho que sou maligno demais para acreditar em mim mesmo... Tenho um medo terrvel de que algum dia possam me declarar um santo... No quero ser 
santo; prefiro ser um bufo... Talvez eu seja um bufo...
     
     Andrew adorou a citao, e Bola ficou feliz da vida por ver o amigo assim to impressionado.
     Enquanto passava na frente da agncia de apostas, coisa que levou poucos segundos para fazer, Bola se lembrou de Barry Fairbrother, o amigo do seu pai que tinha 
morrido. Durante aquelas trs passadas diante dos psteres com cavalos de corrida por trs da vitrine imunda, o garoto viu o rosto barbudo e brincalho de Barry 
e ouviu Pombinho aos berros, usando o riso como desculpa, o riso que tantas vezes brotava mesmo antes de Barry contar uma daquelas suas piadas bestas, que vinha 
da simples empolgao pela sua presena. Mas o garoto no quis se aprofundar naquelas lembranas: no se perguntou por que teria se encolhido assim instintivamente, 
no quis saber se o morto era autntico ou no, simplesmente tirou da cabea tanto Barry Fairbrother quanto o ridculo sofrimento do seu pai, e seguiu em frente.
     Bola andava estranhamente tristonho nos ltimos dias, embora continuasse a fazer todos rirem  sua volta, como sempre. A deciso de se livrar de noes morais 
restritivas era uma tentativa de recuperar algo que, tinha certeza, havia sido sufocado dentro dele; algo que tinha perdido ao deixar para trs a infncia. O que 
queria recuperar era uma espcie de inocncia, e o caminho que escolheu para conseguir isso foi justamente se aproximar de tudo aquilo que seria considerado ruim. 
Paradoxalmente, Bola achava que esse era o verdadeiro caminho para a autenticidade, para uma espcie de pureza.  curioso ver como as coisas esto quase sempre invertidas, 
como so o contrrio daquilo que nos dizem que elas so. Bola estava comeando a acreditar que, se tirarmos da cabea tudo que nos ensinam, chegaremos  verdade. 
Queria circular pelos labirintos escuros e enfrentar a estranheza que se escondia ali dentro; queria escancarar os bons sentimentos e expor a hipocrisia; queria 
romper os tabus e extrair sabedoria l de dentro deles; queria atingir um estado de graa amoral e ser reintroduzido na ignorncia e na simplicidade.
     Foi por isso que resolveu infringir uma das poucas regras da escola que ainda no tinha infringido e estava indo para Fields. E no tomou essa deciso s porque 
a crua pulsao da realidade parecia mais sensvel ali do que em qualquer outro lugar que conhecia. Bola tinha tambm uma vaga esperana de topar com alguns personagens 
clebres que o deixavam curioso e, embora no tivesse l muita conscincia disso - aquele era um dos poucos desejos que ele era incapaz de expressar -, procurava 
uma porta aberta, um pequeno indcio de reconhecimento, a possibilidade de ser acolhido numa casa que no sabia que tinha.
     Passando por aquelas construes acinzentadas a p, e no no carro da me, percebeu que vrias delas no tinham grafites pelas paredes e pilhas de entulho no 
quintal. Algumas at imitavam (pelo menos, foi a impresso que ele teve) a elegncia de Pagford, com cortinas limpas nas janelas e enfeites no parapeito. Detalhes 
como esses eram menos visveis quando se estava num carro em movimento: ao passar por ali, os olhos de Bola iam irresistivelmente das janelas tapadas com tbuas 
para os quintais cheios de lixo. As casas arrumadinhas no despertavam o seu interesse. O que o atraa eram os lugares em que o caos e a anarquia eram evidentes, 
nem que fosse apenas por conta daquela exibio pueril de grafites.
     Em algum lugar por ali (Bola no sabia exatamente onde), morava Dane Tully. A famlia de Tully era famosa. O pai e os dois irmos mais velhos tinham passado 
um bom tempo na cadeia. Diziam que, da ltima vez que Dane se meteu numa briga (com um garoto de dezenove anos l de Cantermill, segundo constava), o pai o escoltou 
at o lugar marcado e entrou na confuso para enfrentar os irmos mais velhos do adversrio do filho. Tully apareceu na escola com o rosto cortado, o lbio inchado 
e o olho roxo. Todo mundo achava que ele s tinha ido  aula, coisa que raramente fazia, para exibir aqueles machucados...
     Bola tinha certeza de que a sua prpria atitude teria sido inteiramente diferente: aquela preocupao com o que os outros iam achar da sua cara quebrada no 
era nada autntica. Ele teria brigado, feliz da vida, e, depois, agido como se nada tivesse acontecido. Se algum ficasse sabendo, seria s porque o tinha visto 
por acaso.
     Ele nunca havia apanhado, apesar de viver provocando todo mundo. J tinha pensado, especialmente nos ltimos tempos, em como seria entrar numa briga. Supunha 
que o estado de autenticidade que tanto procurava implicaria violncia, ou, pelo menos, no excluiria violncia. Estar preparado para bater e para apanhar lhe parecia 
uma forma de coragem  qual devia aspirar. Nunca tinha precisado dos punhos, pois a lngua sempre tinha lhe bastado. Mas o Bola que vinha surgindo estava comeando 
a desprezar a prpria capacidade expressiva e a admirar a brutalidade autntica. A histria das facas, por exemplo, era algo que ele andava debatendo consigo mesmo 
com a maior cautela. Comprar uma faca agora mesmo e espalhar para todo mundo que andava com ela seria um ato da mais completa inautenticidade, um lamentvel arremedo 
das atitudes de gente como Dane Tully, e Bola sentia o estmago embrulhado s de pensar nisso. Se por acaso algum dia precisasse andar com uma faca, a, sim, a situao 
mudaria de figura. No exclua a possibilidade de esse dia chegar, mas admitia que a idia era assustadora: ele morria de medo de coisas que perfuram a carne, como 
agulhas e lminas em geral... Foi o nico que desmaiou quando tiveram de tomar vacina contra meningite, ainda no tempo da St. Thomas. Andrew j tinha descoberto 
que uma das poucas maneiras de tirar o amigo do srio era destampar perto dele a seringa de adrenalina injetvel que sempre trazia consigo por conta de uma alergia 
serssima a castanhas e amendoins. Bola chegava a ficar enjoado quando Andrew exibia aquela agulha ou fingia que ia espet-lo.
     Vagando pelo bairro, sem destino especfico, Bola avistou uma placa da Foley Road. Era a rua de Krystal Weedon. O garoto no sabia se Krystal estava na escola, 
e a ltima coisa que queria era que ela pensasse que ele tinha vindo at ali para procur-la.
     Tinham combinado de se encontrar na sexta  noite. Bola disse aos pais que ia  casa de Andrew porque estavam fazendo um trabalho de ingls juntos. Aparentemente, 
Krystal sabia o que eles iam fazer e, pelo visto, tambm estava a fim. At agora tinha deixado ele enfiar dois dedos naquele lugarzinho quente, firme e escorregadio. 
E abrir o seu suti para pr as mos nos seus seios quentes e pesados. No meio da festa de Natal da escola, Bola foi falar com Krystal, saiu com ela do salo, sob 
os olhares incrdulos de Andrew e dos outros garotos, e foi para os fundos da sala de teatro. A garota pareceu to surpresa quanto os demais, mas, ao contrrio do 
que ele supunha e at esperava, no ops praticamente qualquer resistncia. Aquela abordagem tinha sido um ato deliberado e, quando ele apareceu para enfrentar as 
gozaes dos colegas, j tinha, na ponta da lngua, uma resposta ousada e blase:
     Quem est querendo batatas fritas no tem nada que entrar num restaurante japons!
     Tinha refletido sobre essa analogia de antemo, mas ainda precisou explic-la aos outros.
     Vocs ficam a tocando punheta, mas eu quero mesmo  trepar...
     A sua tirada apagou o sorriso daqueles rostos. Era bvio que todos ali,
     inclusive Andrew, tinham sido obrigados a engolir as gozaes e substitu-las pela admirao ao v-lo partir assim, descaradamente, em busca do nico objetivo 
que realmente contava. Sem dvida alguma, Bola havia escolhido o caminho mais direto para chegar l. Nenhum deles tinha condies de contestar o seu esprito prtico, 
e o garoto podia jurar que cada um dos colegas estava se perguntando por que no tinha tido coragem de pensar nessa forma de resolver as coisas.
     No conta nada disso pra minha me, ok? - pediu ele a Krystal num momento em que ambos pararam para recuperar o flego entre aquelas demoradas exploraes da 
boca um do outro, mas sem que os seus polegares parassem de esfregar os mamilos da garota.
     Ela deu um risinho meio debochado e, depois, comeou a beij-lo de um jeito mais agressivo. Em momento algum perguntou por que ele a tinha escolhido; alis, 
no perguntou absolutamente nada. Como Bola, ela parecia estar achando divertido ver as reaes das respectivas tribos, to diferentes uma da outra. Parecia estar 
adorando a perplexidade de quem os viu saindo e at mesmo a cara de nojo que os amigos dele fizeram. Os dois praticamente no se falaram durante as outras trs sesses 
de exploraes e experimentos carnais. Bola tinha arquitetado todos aqueles encontros casuais, mas ela tinha facilitado as coisas, passando a circular em lugares 
onde o garoto poderia v-la sem problemas. Nessa sexta, eles tinham marcado encontro pela primeira vez. E Bola tinha comprado camisinhas.
     A perspectiva de chegar finalmente s vias de fato tinha alguma coisa  ver com a sua deciso de matar aula e vir at Fields, embora Krystal no lhe tivesse 
passado pela cabea (ao contrrio dos seus peitos maravilhosos e da sua vagina milagrosamente indefesa) at ele ver o nome da sua rua.
     Bola deu meia-volta e acendeu outro cigarro. Ver o nome da Foley Road naquela placa lhe deu a estranha sensao de ter escolhido o momento errado. Fields hoje 
era algo banal e impenetrvel, e o que ele estava buscando, aquilo que tinha a esperana de reconhecer quando encontrasse, estava escondido em algum lugar, impossvel 
de se ver. E, ento, ele voltou para a escola.

IV
     
     Ningum estava atendendo o telefone. De volta  sala do Departamento de Proteo  Criana, Kay estava tentando telefonar h quase duas horas, deixando mensagens, 
pedindo que retornassem as suas ligaes: o agente de sade encarregado dos Weedon, o seu mdico de famlia, a escola de Cantermill e a Clnica de Reabilitao Bellchapel. 
O dossi de Terri Weedon estava aberto na mesa  sua frente, volumoso e muito manuseado.
     Mais uma recada, ? - perguntou Alex, uma das assistentes sociais com quem Kay dividia o escritrio. - Desta vez, a Bellchapel no vai querer mais saber de 
ver ela por l. Ela diz que morre de medo de que lhe tirem Robbie, mas no consegue ficar longe dos picos.
 a terceira vez que ela abandona o tratamento na Bellchapel - disse Una.
     Pelo que tinha visto naquela tarde, Kay estava achando que era hora de fazerem uma reavaliao do caso, reunindo todos os profissionais responsveis pelos vrios 
setores da vida de Terri Weedon. Enquanto tratava de outro trabalho, continuava tentando telefonar. Nesse meio-tempo, l no canto do escritrio, o prprio telefone 
do servio tocou vrias vezes e entrou direto na secretria eletrnica. A sala do Departamento de Proteo  Criana era apertada, estava lotada e tinha cheiro de 
leite azedo, pois Alex e Una tinham mania de jogar o resto das suas xcaras no vaso de uma pobre ica meio murcha que ficava num canto do cmodo.
     As ltimas anotaes de Mattie eram confusas e caticas, cheias de coisas riscadas ou incompletas e com datas erradas. Faltavam diversos documentos importantes 
no dossi, inclusive uma carta enviada quinze dias antes pela clnica de reabilitao. Ficava mais fcil pedir informaes a Alex e a Una.
     A ltima reavaliao foi... - disse Alex, olhando a planta com o cenho franzido - ...mais de um ano atrs, acho eu.
     E, na poca, acharam que Robbie podia ficar com ela,  claro - observou Kay, com o fone enganchado entre o ouvido e o ombro, tentando em vo encontrar naquela 
pasta abarrotada as anotaes referentes  tal avaliao.
     A questo no era saber se ele ficava com ela ou no, mas se ele ia voltar para ela ou no. O menino tinha sido entregue a uma me substituta porque Terri foi 
espancada por um cliente e acabou parando no hospital. Conseguiu ficar limpa, saiu do hospital e estava louca para ter Robbie de volta. Entrou mais uma vez para 
o programa de reabilitao da Bellchapel, parou com a prostituio e estava fazendo tudo direitinho. A me disse que ia ajudar. O menino voltou para casa e, meses 
depois, ela recomeou a se picar.
     Mas no  a me de Terri que ajuda, ? - perguntou Kay, que j estava ficando com dor de cabea tentando decifrar a letra grande e irregular de Mattie. -  
a av dela, a bisav dos meninos. Ela j deve estar bem velha, e, hoje cedo, Terri disse alguma coisa sobre ela estar doente. Se, agora, s tem mesmo a Terri para 
cuidar...
     A filha dela j est com dezesseis anos - retrucou Una. -  ela que praticamente cuida de Robbie.
     E est deixando a desejar - disse Kay. - Ele estava num estado bem ruinzinho quando cheguei l.
     Mas j tinha visto coisas muito piores: machucados e feridas, cortes e queimaduras, manchas roxas, sarna e piolhos. Bebs deitados em tapetes cheios de coc 
de cachorro, engatinhando sobre ossos partidos e uma vez (at hoje sonhava com a cena) deparou com uma criana que tinha passado cinco dias dentro de um armrio, 
trancada pelo padrasto psictico. Esse caso virou at manchete na imprensa nacional. O perigo mais imediato que ameaava a segurana de Robbie Weedon era a tal pilha 
de caixas pesadas que ele tentou escalar quando percebeu que, com isso, conseguia chamar a ateno de Kay. Antes de sair, porm, a assistente social teve o cuidado 
de redistribuir as caixas, formando duas pilhas menores em vez de uma s. Terri no gostou nada de v-la mexer nas caixas, como tambm no gostou quando ela lhe 
disse para trocar a fralda encharcada do filho. Na verdade, apesar de ainda estar ligeiramente entorpecida, a mulher teve um ataque de fria e, aos palavres, mandou 
que Kay fosse embora e no se metesse com ela.
     O seu celular tocou. Kay atendeu. Era a responsvel pelo acompanhamento teraputico de Terri.
     H dias que venho tentando falar com voc - disse ela, visivelmente aborrecida.
     Kay levou alguns minutos para lhe explicar que no era Mattie, mas isso no alterou muito a m vontade da outra.
     Terri continua vindo, sim - disse ela -, mas, na semana passada, o teste deu positivo. Se ela voltar a usar, vai sair do programa. Agora mesmo temos vinte pessoas 
na fila de espera, gente que talvez v se beneficiar com o tratamento. J  a terceira vez que ela para...
     Kay no disse que sabia que Terri tinha usado drogas pela manh.
     Alguma de vocs tem paracetamol? - perguntou, dirigindo-se s colegas depois que a terapeuta lhe passou todos os detalhes relativos ao tratamento de Terri l 
na clnica, tratou de deixar bem claro que no estava vendo qualquer progresso e desligou o telefone.
     Sem nimo para se levantar e ir at o purificador de gua que ficava no corredor, tomou os remdios com ch morno mesmo. A sala estava abafada, pois o aquecimento 
tinha emperrado numa temperatura elevada. A medida que a claridade do dia ia se extinguindo l fora, a luz da lmpada fluorescente da sua escrivaninha ia ficando 
mais forte, deixando os papis espalhados ali em cima com um tom amarelado bem intenso, e as palavras pretas avanavam, zumbindo, em linhas interminveis.
     Vo fechar a Clnica Bellchapel, voc vai ver s - disse Una, que trabalhava no computador, de costas para Kay. - Tm que fazer cortes.  o Conselho que paga 
o salrio de um dos terapeutas. O prdio pertence ao distrito de Pagford. Ouvi dizer que esto pensando em fazer umas reformas e alugar para algum que pague um 
preo melhor. J vm implicando com a clnica h anos.
     Kay sentia as tmporas latejarem. A meno ao nome do vilarejo onde agora morava a deixou triste. Sem parar para pensar, fez o que tinha jurado no fazer depois 
que ele no telefonou na vspera: pegou o celular e ligou para o escritrio de Gavin.
     Edward Collins & Cia. - disse uma voz feminina, depois do terceiro toque. No setor privado, as pessoas atendiam o telefone imediatamente, j que o dinheiro 
podia depender daquela ligao.
     Posso falar com Gavin Hughes, por favor? - disse Kay, olhando o dossi de Terri  sua frente.
     Quem deseja falar com ele?
     Kay Bawden.
     No ergueu os olhos: no queria enfrentar o olhar de Alex ou de Una. O tempo de espera pareceu interminvel.
     (Os dois tinham se visto pela primeira vez em Londres, na festa de aniversrio do irmo de Gavin. Kay no conhecia ningum ali, a no ser o amigo que a tinha 
levado consigo para no ir sozinho. Gavin tinha acabado de se separar de Lisa. Estava meio alto, mas parecia um sujeito decente, confivel e convencional, inteiramente 
diferente do tipo de homem por quem ela em geral se interessava. Ele desabafou, contando a histria do namoro terminado e, depois, voltou com ela para o apartamento 
em Hackney. Enquanto namoraram  distncia, ele se mostrou entusiasmado: vinha v-la todo fim de semana e telefonava regularmente. Quando, porm, por um milagre, 
ela arranjou emprego em Yarvil, por um salrio menor, e ps  venda o apartamento de Hackney, ele aparentemente se apavorou...)
     O telefone dele continua ocupado. Quer esperar na linha?
     Quero, sim - respondeu Kay, infeliz.
     (Se aquela histria no desse certo... Mas tinha que dar. Ela se mudou por causa dele, trocou de emprego por causa dele, trouxe a filha para outra cidade por 
causa dele. Com toda a certeza, no deixaria tudo isso acontecer se as suas intenes no fossem srias... Deve ter pensado nas conseqncias caso viessem a se separar: 
como seria horrvel e estranho os dois viverem se encontrando pelas ruas de uma cidade to pequena quanto Pagford!)
     Ele j vai atender - disse a secretria, e as esperanas de Kay se reacenderam.
     Oi - disse Gavin. - Como  que voc est?
     Tudo bom - respondeu ela, mentindo, porque Alex e Una estavam ouvindo a conversa. - Como est sendo o seu dia?
     Ocupado - disse Gavin. - E voc?
     Tambm.
     Ficou esperando, com o telefone grudado na orelha, fingindo que ele estava falando e ouvindo aquele silncio.
     Ser que podemos nos ver hoje  noite? - perguntou ela, enfim, com o estmago embrulhado.
     H... Acho que no vai dar - replicou ele.
Como pode no saber se vai dar ou no? O que voc anda aprontando?
     Talvez tenha que fazer uma coisa...  Mary, sabe? A viva de Barry. Ela quer que eu seja uma das pessoas a carregar o caixo. Ento, pode ser que eu... Vou 
ter que descobrir o que isso envolve e tudo o mais...
s vezes, quando ela simplesmente ficava calada, deixando a inconsistncia das suas desculpas reverberar pelo ar, ele ficava com vergonha e voltava atrs.
     Mas no deve levar a noite toda - disse Gavin. - Podemos nos encontrar mais tarde, se voc quiser.
     Ok. No quer ir l para casa, j que amanh tem aula?
     H... Ah, claro.
     A que horas? - perguntou Kay, querendo que ele tomasse pelo menos uma deciso.
     Sei l... Por volta das nove?
     Depois que ele desligou, Kay ainda ficou uns instantes com o celular colado ao ouvido. Finalmente, por causa de Alex e Una, disse:
     Eu tambm. At mais tarde, querido.

V
     
     Como orientadora educacional, Tessa tinha horrios mais flexveis que o marido. Em geral, esperava as aulas acabarem para levar o filho para casa no Nissan, 
ao passo que Colin (a quem ela nunca se referia como Pombinho, embora soubesse perfeitamente que era assim que o resto do mundo o chamava, inclusive os pais de alunos, 
que acabavam adotando o apelido de tanto ouvir os filhos o repetirem) s saa uma ou duas horas mais tarde, indo embora no seu Toyota. Hoje, porm, o vice-diretor 
veio encontrar a esposa no estacionamento s quatro e vinte, quando os estudantes iam deixando o prdio para entrar no carro dos pais ou nos nibus que a escola 
fretava para transport-los.
     O cu estava de um frio cinza-chumbo, como o reverso de um escudo. Um ventinho cortante levantava a bainha das saias e sacudia as folhas das rvores ainda jovens; 
um vento glido e maroto que ia buscar os pontos fracos das pessoas, como a nuca e os joelhos, e lhes negava o consolo de sonhar, de fugir um pouco da realidade. 
Mesmo depois de bloque-lo, fechando a porta do carro, Tessa continuou sentindo-se aborrecida e irritada, como se algum tivesse esbarrado nela sem sequer pedir 
desculpas.
     Ao seu lado, no banco do carona, com os joelhos erguidos a uma altura absurda por causa das reduzidas dimenses do carro, Colin lhe contou o que o professor 
de informtica tinha vindo lhe dizer, procurando-o no escritrio uns vinte minutos atrs.
     ...no estava na sala. No apareceu durante os dois tempos de aula. Ele disse ento que achou melhor vir me contar. Amanh, todos os funcionrios vo estar 
sabendo.  exatamente o que ele quer - disse Colin, furioso, e Tessa sabia que j no estavam mais falando do professor de informtica. - Ele s est mostrando o 
dedo mdio das duas mos para mim, como sempre.
     O seu marido chegava a estar plido de to cansado. Tinha umas sombras escuras sob os olhos vermelhos, e as mos que seguravam a ala da pasta estavam ligeiramente 
trmulas. Eram umas mos bonitas, com juntas marcadas e dedos longos e finos, no muito diferentes das do seu filho. Recentemente, Tessa tinha feito essa observao, 
e nenhum dos dois demonstrou o mnimo prazer diante da perspectiva de haver a mais leve semelhana fsica entre eles.
     No acredito que ele... - principiou a mulher, mas Colin j havia recomeado a falar.
     O que significa que ele vai pegar deteno, como outro aluno qualquer, e  claro que vou me encarregar de castig-lo em casa tambm. Agora ele vai ver o que 
 bom! Ser que est achando que isso  brincadeira? Para comeo de conversa, podemos deix-lo de castigo por uma semana. Ele vai ver s como  divertido!
     Mordendo a lngua para no responder, Tessa passou os olhos pelo mar de alunos de uniforme preto, andando de cabea baixa, tremendo de frio, tentando fechar 
mais os casacos finos, com o cabelo entrando pela boca. Um estudante do primeiro ano, bochechudo e com um ar ligeiramente espantado, olhava ao seu redor procurando 
algum que ainda no tinha chegado. Quando se abriu uma brecha naquele bando, surgiu Bola, com o rosto magro todo  mostra, pois o vento soprava o seu cabelo para 
trs, e, como sempre, em companhia de Arf Price. s vezes, por certos ngulos, sob certa luz, era fcil perceber como ele seria quando ficasse velho. Por um instante, 
l do fundo do seu cansao, Tessa teve a impresso de que aquele garoto era um completo desconhecido e lhe ocorreu que era muito estranho ele estar se dirigindo 
para o seu carro, ela ter que enfrentar de novo aquele ventinho horrvel, hiper-real, para deix-lo entrar. Quando ele chegou perto, porm, e lhe deu aquele sorriso 
que mais parecia uma careta, voltou de imediato a se transformar no garoto que ela amava apesar de tudo. Tessa, ento, saiu do carro e ficou estoicamente parada 
naquele vento cortante enquanto o filho se curvava para entrar no carro onde j estava o pai, que no tinha feito meno de se mexer.
     Deixaram o estacionamento na frente dos nibus. Cruzaram Yarvil e passaram pelas construes feias e caindo aos pedaos de Fields para pegar um desvio que encurtava 
o caminho para Pagford. Tessa observava Stuart pelo retrovisor. Ele estava todo esparramado no banco de trs, olhando pela janela, como se os pais fossem duas pessoas 
que estivessem lhe dando uma carona, duas pessoas a ele ligadas apenas pelo acaso e pela proximidade.
     Colin esperou at chegarem ao tal desvio para perguntar:
     Por onde andou hoje  tarde, quando devia estar na aula de informtica?
     Tessa no resistiu ao desejo de olhar de novo pelo retrovisor. Viu o filho bocejar. s vezes, embora negasse insistentemente quando o marido aventava tal hiptese, 
ela se perguntava se Bola no estaria mesmo travando uma guerra suja e pessoal contra o pai, tendo a escola inteira por platia. Sabia de coisas a seu respeito que 
no poderia saber se no trabalhasse como orientadora educacional: tinha alunos que lhe contavam umas histrias, s vezes inocentemente, s vezes por malcia.
A senhora acha ruim o Bola fumar? Deixa ele fumar em casa?
     Guardava bem-trancada toda essa pequena coleo de atos ilcitos que reunia involuntariamente e jamais mencionava o que quer que fosse nem para o marido, nem 
para o filho, por mais que aquele fardo lhe pesasse s costas.
     Fui dar uma volta - respondeu Bola com a maior tranqilidade. - Estava precisando esticar as minhas velhas pernas...
     Lutando contra o cinto de segurana, Colin se virou no banco para encarar o filho, esbravejando, mas com os movimentos ainda mais dificultados pelo sobretudo 
e pela maleta. Quando ele perdia o controle, a sua voz atingia tons cada vez mais altos e, agora, estava gritando quase em falsete. No meio disso tudo, Bola s ficou 
sentado ali, calado, com um leve sorriso insolente a lhe recurvar a boca fina, enquanto o pai lhe dava a maior bronca, bastante amenizada alis pela averso natural 
que Colin tinha aos xingamentos e pelo constrangimento que sentia quando usava algum termo mais grosseiro.
     Voc  um egosta presunoso, seu... merdinha! - gritou ele, e Tessa, que j tinha os olhos to cheios de lgrimas que mal conseguia ver a estrada  sua frente, 
podia jurar que, j na manh seguinte, Bola ia contar aquela histria para Andrew Price, imitando o xingamento tmido e em falsete do pai.
Bola imita direitinho o jeito de Pombinho andar, professora! A senhora j viu?
     Como se atreve a falar comigo desse jeito? Como se atreve a matar aula?
     Colin continuou gritando, furioso. Tessa piscava os olhos, tentando se livrar das lgrimas ao pegar a entrada de Pagford, passar pela praa, pela Mollison & 
Lowe, pelo memorial da guerra e pelo Black Canon. Diante da Igreja de So Miguel e Todos os Santos, dobrou  esquerda, entrando pela Church Row at chegar finalmente 
 porta de casa. A essa altura, Colin j tinha ficado rouco de tanto gritar naquele tom estridente, e o rosto de Tessa estava lustroso e salgado. Quando saltaram 
do carro, Bola, cuja expresso no tinha se alterado em nada durante a longa espinafrao do pai, abriu a porta da frente com a prpria chave e subiu com a maior 
calma, sem sequer olhar para trs.
     Colin atirou a maleta no cho do vestbulo escuro e se voltou para a mulher. A nica iluminao vinha do painel envidraado da porta e dava uma colorao estranha, 
ora em tons de vermelho-sangue, ora num azul fantasmagrico, quela cabea arredondada e meio calva que o marido no parava de sacudir.
     Est vendo s? - perguntou ele aos berros, agitando os braos compridos. - Est vendo o que tenho que enfrentar?
     Estou - replicou Tessa, pegando um punhado de lenos de papel da caixa que ficava no aparador para enxugar os olhos e assoar o nariz. - Estou, sim.
     Nem sequer leva em conta o que estamos passando! - disse Colin, e comeou a soluar, uns soluos agudos, secos, parecendo at uma criana com coqueluche. Tessa 
se aproximou e passou os braos pelo peito do marido, no muito acima da cintura, pois, baixinha e atarracada como era, aquele era o ponto mais alto que conseguia 
alcanar. Ele se inclinou para abra-la. Dava para sentir o tremor que o sacudia e o sobe e desce da sua caixa torcica por baixo do casaco.
     Minutos depois, Tessa se desvencilhou daquele abrao, levou o marido para a cozinha e lhe preparou um bule de ch.
     Vou levar uma comida para Mary - disse ela, depois de ficar uns instantes sentada ao lado de Colin, acariciando a sua mo. - Ela est com metade da famlia 
hospedada em casa. Depois, vamos para a cama cedo.
     Colin assentiu, fungando, e ela lhe deu um beijo na cabea antes de se levantar para ir at o freezer. Quando voltou, trazendo uma pesada travessa congelada, 
ele estava sentado  mesa, segurando a caneca com as duas mos, de olhos fechados.
     Tessa botou a travessa embrulhada em plstico-filme nas lajotas diante da porta de entrada. Enfiou o tal cardig verde meio largo, que geralmente usava em vez 
de um casaco mais grosso, mas no calou os sapatos. P ante p, subiu a escada at o primeiro andar e, dali, j no to preocupada em no fazer barulho, subiu mais 
um lance, dirigindo-se ao sto.
     Ao se aproximar da porta, ouviu uma certa agitao, que mais parecia coisa de ratos. Bateu, dando a Bola o tempo suficiente para esconder o que quer que estivesse 
vendo na internet ou quem sabe os cigarros, pois ele ignorava que a me sabia da existncia deles.
     Que ?
     Ela empurrou a porta. O filho estava agachado sobre a mochila, numa pose estudada.
     Com tantos dias no ano, voc tinha que matar aula logo hoje?
     Bola se levantou. Alto e magro, era bem maior que a me.
     Eu fui  aula. S cheguei atrasado. Bennett nem percebeu. Ele ou nada  a mesma coisa...
     Por favor, Stuart. Por favor.
s vezes, tambm tinha vontade de gritar com os meninos na escola. Adoraria gritar: Voc tem que aceitar a realidade dos outros. Acha que a realidade se presta a 
negociaes, que achamos que ela  o que voc decidir dizer que ela . Tem que aceitar que somos to reais quanto voc. Tem que aceitar que voc no  Deus.
     O seu pai est muito chateado, Stu. Por causa de Barry. No d para entender?
     Claro.
      como voc se sentiria se Arf morresse.
     Embora ele no tenha dito nada e a expresso do seu rosto tenha se mantido praticamente inalterada, Tessa sentiu o seu desprezo, a graa que o filho achava 
naquilo tudo.
     Sei que acha que voc e Arf pertencem a uma categoria inteiramente diferente de pessoas como o seu pai e Barry...
     No - exclamou Bola.
     Tessa sabia, porm, que tudo que ele queria era pr fim quela conversa.
     Vou levar uma comida para Mary. Pelo amor de Deus, Stuart, no faa mais nada que possa aborrecer o seu pai enquanto eu estiver fora. Por favor, Stu.
     T legal - disse ele, meio rindo, meio dando de ombros.
     Mesmo antes de fechar a porta, Tessa percebeu que a ateno do filho j tinha batido asas, voltando para o que lhe interessava.
     
     
     
     VI
     
     O ventinho irritante levou embora a nuvem baixa que tinha se formado l pelo final da tarde e, ao pr do sol, ele prprio desapareceu. Trs casas depois da 
dos Wall, Samantha Mollison observava o reflexo da lmpada acesa na penteadeira e achava deprimentes aquele silncio e aquela quietude.
     Os dois ltimos dias haviam sido decepcionantes: no tinha vendido praticamente nada. O tal representante da Champtre era, na verdade, um sujeito com uma papada 
considervel, uns modos grosseiros e uma sacola cheia de sutis horrorosos. Aparentemente, reservava o seu charme para as preliminares, pois, pessoalmente, s falava 
de vendas, alm de trat-la de um jeito arrogante, criticando o seu estoque e fazendo a maior presso para ela encomendar alguma coisa. Samantha havia imaginado 
algum mais jovem, mais alto e mais sexy. Ficou louca para despachar aquele homem e as suas lingeries cafonas o mais depressa possvel.
     Na hora do almoo, comprou um daqueles cartes que dizem "Nossos sinceros psames" para mandar para Mary Fairbrother, mas ficou sem saber o que escrever, porque, 
depois daquele pesadelo que enfrentaram :untas no hospital, s assinar no lhe parecia suficiente. A relao entre eles nunca tinha sido prxima. Num lugar to pequeno 
quanto Pagford, as pessoas vivem se encontrando, mas, na verdade, ela e Miles no conheciam realmente Barry e Mary. Na melhor das hipteses, o que se poderia dizer 
 que estavam em campos opostos por causa das interminveis disputas entre Howard e Barry com relao a Fields... J ela mesma no dava a mnima para essa histria: 
mantinha-se acima da mesquinhez da poltica local.
     Cansada, chateada e inchada depois de um dia inteiro comendo bobagens, adoraria que no tivessem marcado de ir jantar na casa dos seus sogros. Olhando-se no 
espelho, ps as mos espalmadas de ambos os lados do rosto e puxou a pele com cuidado na direo das orelhas. Por alguns milmetros, surgiu ali uma Samantha mais 
jovem. Virando o rosto bem devagar para um lado e para o outro, examinou a pele assim esticada. Melhor, muito melhor. Quanto ser que custaria? Ser que doa muito? 
Ser que teria coragem? Tentou imaginar o que a sogra diria se a visse aparecer com o rosto renovado. Afinal, eles dois, como Shirley tantas vezes fazia questo 
de lembrar, estavam ajudando a pagar a educao das netas.
     Miles entrou no quarto. Samantha tirou as mos do rosto e pegou o corretivo, jogando a cabea para trs como sempre fazia para se maquiar: a pele flcida do 
maxilar ficava um pouco mais rija e as bolsas debaixo dos olhos tambm se reduziam. No contorno dos seus lbios havia umas ruguinhas pequenas e finas. Tinha lido 
que era possvel preench-las com um produto sinttico injetvel. Ser que faria alguma diferena? Com certeza era muito mais barato que uma plstica e talvez Shirley 
nem reparasse. Pelo espelho viu Miles, s suas costas, tirar a gravata e a camisa, o que fez com que a barriga avantajada despencasse sobre o cs da cala.
     Voc no ia se encontrar com algum hoje? Um representante comercial? - indagou ele. E ficou parado ali, olhando para as roupas no armrio, coando o umbigo 
peludo.
, mas no valeu a pena... - respondeu Samantha. - Era tudo um horror.
     Miles gostava do trabalho da mulher. Cresceu numa casa em que tudo girava em torno das vendas em varejo e nunca perdeu o respeito pelo comrcio que o pai havia 
lhe inculcado. Ainda por cima, no ramo de negcios de Samantha, havia mil e uma oportunidades de piadas ou at mesmo outras formas menos disfaradas de autocomplacncia. 
Aparentemente, ele nunca se cansava de fazer as mesmas piadinhas ou as mesmas insinuaes maliciosas.
     Coisa malfeita? - perguntou, com ar de entendido.
     Os modelos eram feios. E as cores, pavorosas.
     Samantha escovou o cabelo castanho grosso e ressecado e o prendeu. Pelo espelho, viu Miles botar uma cala de brim e uma camisa polo. Estava no limite, sentindo 
que podia estourar ou comear a chorar  mnima provocao.
     O Evertree Crescent ficava apenas a alguns minutos dali, mas, como a Church Row era uma ladeira bem ngreme, eles foram de carro. Aos poucos, a escurido vinha 
chegando. No alto da estrada, passaram pelo vulto sombrio de um homem que tinha o corpo e o andar de Barry Fairbrother. Samantha tomou um susto e se virou para olh-lo, 
imaginando quem seria o tal sujeito. O carro de Miles dobrou  esquerda e, nem um minuto depois, dobrou novamente  direita, entrando na meia-lua de chals dos anos 
1930.
     A casa de Howard e Shirley, uma construo baixa, de tijolos vermelhos e amplas janelas, ostentava, tanto na frente quanto nos fundos, extensos gramados, que 
Miles aparava por faixas no vero. Durante os longos anos passados ali, Howard e Shirley instalaram lampies, um porto de ferro fundido pintado de branco e vasos 
de terracota cheios de gernios de ambos os lados da porta de entrada. Puseram tambm uma plaquinha ao lado da campainha: uma tabuinha redonda e envernizada onde 
se ha a palavra "Ambleside", em letras gticas pretas e entre aspas.
s vezes, Samantha era cruel nas brincadeiras que fazia com relao  casa dos sogros. Miles tolerava aquelas gozaes admitindo que a mulher e ele, com os seus 
pisos e portas de madeira encerada, os seus tapetes dispostos sobre o assoalho, as suas gravuras emolduradas e aquele sof cheio de estilo, mas nada confortvel, 
tinham efetivamente mais bom gosto. Mas, no fundo, no fundo, preferia o chal onde havia crescido. Ali, praticamente todas as superfcies eram cobertas com algo 
macio e aveludado. No havia correntes de ar, e as cadeiras reclinveis eram deliciosamente confortveis. Quando acabava de aparar a grama, no vero, a me lhe trazia 
uma cerveja gelada que ele tomava sentado numa dessas cadeiras, vendo um jogo de crquete na televiso de tela plana. s vezes, uma das filhas ia jnto e ficava sentada 
ali, ao seu lado, tomando sorvete com uma calda de chocolate que Shirley fazia especialmente para as netas.
     Oi, querido - disse ela ao abrir a porta. Baixinha e rolia como era, com o avental de florezinhas, lembrava um daqueles moedores de pimenta todo caprichado. 
Ficou na ponta dos ps para o filho poder beij-la. - Oi, Sam - disse ento, e logo se afastou, acrescentando: - O jantar est quase pronto. Howard! Miles e Sam 
chegaram!
     A casa cheirava a lustra-mveis e comida gostosa. Howard surgiu, vindo da cozinha, com uma garrafa de vinho numa das mos e um saca-rolhas na outra. Com a prtica 
que tinha, Shirley recuou de mansinho para a sala de jantar, para que o marido, que ocupava quase toda a largura do corredor, pudesse passar. S ento foi para a 
cozinha a passos lpidos.
     C esto eles, os bons samaritanos! - bradou Howard. - E como anda o comrcio de sutis, Sammy? Peito para enfrentar a recesso  o que no deve faltar, no 
 mesmo?
     Olhe, Howard, o movimento tem estado incrivelmente avantajado... - respondeu Samantha.
     O sogro soltou uma sonora gargalhada, e Sam podia jurar que ele teria lhe dado um tapinha na bunda se no estivesse com as duas mos ocupadas. Tolerava aqueles 
tapas e apertes que o sogro lhe dava e que, a seu ver, eram apenas o exibicionismo inofensivo de um homem que tinha engordado alm da conta e que j estava velho 
demais para fazer qualquer outra coisa. Ainda por cima, Shirley ficava chateada, o que era sempre bom.  claro que nunca demonstrava abertamente o seu aborrecimento: 
o sorriso no seu rosto no se alterava e aquele tom de voz docemente sensato tambm no. Mas logo depois de uma dessas manifestaes levemente despudoradas do marido, 
l vinha ela com uma alfinetada disfarada para a nora: como quem no quer nada, mencionava o preo cada vez mais alto das mensalidades do colgio das netas; toda 
solcita, perguntava a Samantha como ia a dieta ou a Miles se ele no achava que Mary Fairbrother tinha um corpinho lindo... Samantha engolia aquilo tudo com um 
sorriso, e, mais tarde, descontava em Miles.
     Oi, Mo! - exclamou Miles ao entrar, antes da esposa, no que Howard e Shirley chamavam de saguo. - No sabia que voc tambm vinha!
     Ol, bonito - disse Maureen, com aquela sua voz profunda e rascante. - Venha me dar um beijo.
     A scia de Howard estava sentada numa ponta do sof com um clice de sherry nas mos. Usava um vestido fcsia, meias escuras e uns sapatos de verniz de salto 
alto. O cabelo muito preto cheio de laqu estava todo armado e, por baixo daquele volume, o seu rosto surgia, plido e simiesco, com uma boca pintada de rosa-choque 
que se contraiu quando Miles se abaixou para lhe dar dois beijinhos.
     Estvamos tratando de negcios. Fazendo planos para o novo caf. Oi, Sam, querida - acrescentou Maureen, dando uns tapinhas no sof ao seu lado. - Como est 
linda, bronzeada... Ainda  de Ibiza? Venha sentar aqui. Que susto, hein, l no clube? Deve ter sido apavorante...
     Ah, foi mesmo - disse Samantha.
     E, pela primeira vez, se viu contando para algum a histria da morte de Barry, enquanto Miles ficou pairando por ali, louco por uma chance de intervir. Howard 
distribuiu as taas de Pinot Grigio, cuidando especialmente de caprichar na da nora. Aos poucos, embalada pelo interesse de Howard e Maureen, e com a ajuda do calorzinho 
gostoso que o lcool a fazia sentir por dentro, a tenso que Samantha vinha experimentando h dois dias foi se desmanchando e comeou a surgir uma frgil sensao 
de bem-estar.
     A sala era quente e impecvel. Numas prateleiras, que ladeavam a lareira a gs, havia uma coleo de porcelana ornamental composta, em sua maioria, de peas 
comemorativas de algum momento importante da famlia real ou algum aniversrio do reinado de Elizabeth II. Num dos cantos, uma pequena estante continha uma mistura 
de fotografias da realeza e livros de receitas encadernados que j no cabiam mais na cozinha. Retratos enfeitavam prateleiras e paredes: Miles e a irm mais moa, 
Patrcia, de uniforme escolar, sorriam num porta-retratos duplo; as duas filhas de Miles e Samantha, Lexie e Libby, estavam por toda parte, de bebs a adolescentes. 
Samantha s aparecia uma vez naquela galeria familiar, embora a foto fosse a maior de todas e a que merecia maior destaque: Miles e ela, no dia do seu casamento, 
dezesseis anos atrs. Miles, jovem e bonito, tinha franzido um pouco os penetrantes olhos azuis; j Samantha estava com os olhos entreabertos, o rosto meio virado 
de lado, e, por aquele ngulo, o sorriso a tinha deixado com queixo duplo. O cetim branco do vestido, repuxado nos seios j mais volumosos por causa da gravidez 
incipiente, a fazia parecer enorme de gorda.
     Com uma daquelas mos ossudas, que mais pareciam garras, Maureen estava brincando com o cordo que sempre usava no pescoo e onde havia um crucifixo e a aliana 
do falecido marido. Quando Samantha checou ao ponto em que a mdica veio dizer a Mary que no havia mais nada que se pudesse fazer, Maureen ps a outra mo no joelho 
de Samantha e o apertou ligeiramente.
     O jantar est na mesa! - gritou Shirley.
     Apesar de ter vindo quele jantar contra a vontade, h dois dias que Samantha no se sentia to bem. Maureen e Howard a estavam tratando como um misto de herona 
e invlida, e os dois lhe deram uns tapinhas nas costas quando ela passou por eles a caminho da outra sala.
     Shirley havia reduzido a intensidade da luz e acendido umas velas compridas, cor-de-rosa para combinar com o papel de parede e os seus melhores guardanapos. 
Assim na penumbra, o vapor que subia dos pratas de sopa fazia at o rosto largo e corado de Howard parecer surgido de alm-tmulo. J tendo tomado quase toda a sua 
taa de vinho, que no era pequena, Samantha achou que seria engraadssimo se o sogro anunciasse que iam comear uma sesso esprita para pedir a Barry que lhes 
contasse a sua prpria verso dos acontecimentos do clube de golfe.
     Bom - disse Howard, com voz grave -, acho que devamos fazer t:m brinde a Barry Fairbrother.
     Mais que depressa, Samantha voltou a encher a taa para que Shirley no percebesse que ela j tinha tomado quase todo o seu contedo.
     Parece que foi mesmo um aneurisma - declarou Miles, to logo as taas voltaram a pousar na toalha. Tinha ocultado essa informao at mesmo de Samantha e estava 
feliz da vida, porque, ainda agora, falando com Maureen e Howard, ela podia ter estragado tudo. - Gavin telefonou para dar os psames a Mary em nome da firma e comear 
a ver a histria do testamento, e ela confirmou essa informao. Basicamente, uma artria do crebro dilatou e estourou - (ainda no escritrio, depois de falar com 
Gavin, Miles foi procurar o termo na internet assim que conseguiu descobrir como se escrevia). - Podia ter acontecido a qualquer momento.  uma espcie de defeito 
congnito.
     Assustador - exclamou Howard, e, percebendo que a taa da nora estava vazia, levantou-se para voltar a ench-la. Por um instante, Shirley ficou tomando a sua 
sopa com as sobrancelhas to erguidas que chegavam quase a tocar a raiz dos cabelos. S para provoc-la, Samantha tomou mais um gole de vinho.
     Sabem de uma coisa? - principiou ela, com a lngua j ligeiramente pastosa. - Achei que tinha visto ele quando estvamos vindo para c. Barry. No escuro.
     Provavelmente era um dos seus irmos - replicou Shirley, em tom de descaso. - Eles so todos parecidos.
     Mas Maureen a interrompeu, abafando a sua voz.
     Eu tive a impresso de ver Ken  noite, no dia da morte dele. Muito claramente. Ele estava no jardim, olhando para mim pela janela da cozinha. Parado no meio 
das suas rosas.
     Ningum disse nada. Todos ali j conheciam aquela histria. Passou-se um minuto em que o nico som que se ouvia era o barulhinho das pessoas engolindo e, ento, 
Maureen voltou a falar com aquele seu grasnido de corvo.
     Gavin se d com os Fairbrother, no , Miles? Ele no joga squash com Barry? Ou melhor, no jogava?
. Barry o arrasava uma vez por semana. Gavin deve ser um pssimo jogador, afinal, Barry era dez anos mais velho que ele!
     Expresses praticamente idnticas se estamparam no rosto  luz de velas das trs mulheres ali presentes, um ar divertido, mas complacente. Quanto mais no fosse, 
uma coisa elas tinham em comum: um interesse levemente perverso pelo jovem e esguio scio de Miles. No caso de Maureen, era apenas uma manifestao do seu insacivel 
apetite pelas fofocas de Pagford, e as peripcias de um rapaz solteiro eram um prato feito para ela. Shirley adorava ouvir tudo sobre as inseguranas e inferioridades 
de Gavin, pois elas proporcionavam um delicioso contraste que s fazia ressaltar as proezas e a auto-confiana dos dois deuses da sua vida, Howard e Miles. Quanto 
a Samantha, porm, a passividade e a cautela do rapaz despertavam nela uma crueldade felina e, j que ela prpria no podia fazer nada a esse respeito, morria de 
vontade de v-lo ser acordado a tapas, ser posto na linha ou maltratado de outra forma qualquer por alguma outra representante do sexo feminino. Implicava com ele 
sempre que se viam, divertindo-se com a idia de que ele devia ach-la dominadora, algum difcil de se lidar.
     E como andam as coisas com a namorada l de Londres? - indagou Maureen.
     Ela no mora mais em Londres, Mo. Mudou-se para a Hope Street
     disse Miles. - E se quiser saber, ele anda arrependidssimo de ter comeado essa histria. Voc conhece Gavin: na hora H, ele entra em pnico.
     Na escola, Miles era alguns anos mais adiantado que Gavin e, at hoje, navia aquele tom de veterano no jeito como ele se referia ao scio.
     Uma moa de cabelo castanho-escuro? Curtinho?
     Exatamente - disse Miles. -  assistente social. S anda com uns sapatinhos baixos.
     Ento ela j foi l na loja, no  mesmo, How? - exclamou Maureen toda empolgada. - Mas, pelo jeito dela, diria no mximo que era uma cozinheira...
     Depois da sopa, veio um lombo de porco assado. Com a conivncia do sogro, Samantha estava aos poucos mergulhando numa agradvel embriaguez. Algo nela, porm, 
fazia protestos desesperados, como os de um homem arrastado pelo mar. E ela, ento, tentava afog-los com mais vinho.
     Um momento de silncio pairou sobre a mesa como uma toalha limpa, imaculada e cheia de expectativas, e, desta vez, todos ali pareciam saber que era Howard quem 
devia introduzir o novo assunto. Por alguns instantes, ele ficou s comendo, empurrando as fartas garfadas com goles de vinho, aparentemente alheio aos olhares pregados 
nele. Afinal, quando o seu prato j estava pela metade, limpou a boca com o guardanapo e comeou a falar.
, vai ser interessante ver o que acontece com o Conselho agora...
     Neste ponto, foi obrigado a parar para conter um sonoro arroto e, por alguns segundos, pareceu at que ele estava enjoado. - Desculpem - disse ele, ento, batendo 
no peito. - . Vai ser muito interessante. Sem Fairbrother -  maneira dos homens de negcios, Howard voltou a chamar o adversrio pelo nome que geralmente usava 
-, no acredito que o tal artigo seja publicado. A no ser,  claro, que Aluga-Ouvido resolva assumir essa tarefa - acrescentou ele.
     Howard tinha apelidado Parminder Jawanda de Aluga-Ouvido depois da sua primeira participao no Conselho Distrital. Acrescentou ainda o sobrenome Bhutto, fazendo 
referncia  clebre figura poltica do Paquisto. Mas foi a primeira parte do apelido que se generalizou como brincadeira entre os membros da faco anti-Fields.
     Se voc visse a cara dela - disse Maureen, dirigindo-se a Shirley.
     A cara que ela fez quando lhe contamos. Bom... eu sempre achei que... Sabe o qu, no ?
     Samantha aguou os ouvidos, mas a insinuao de Maureen era simplesmente ridcula. Parminder era casada com o homem mais lindo de Pagford. Vikram era alto, 
tinha um corpo bonito, um nariz aquilino, uns olhos contornados por longos clios pretos e um sorriso perspicaz e descontrado. H anos que Samantha vinha jogando 
o cabelo para trs e rindo mais que o necessrio sempre que parava na rua para conversar com ele. Vikram tinha o mesmo tipo de corpo de Miles quando este ainda jogava 
rgbi e no era flcido e barrigudo.
     Pouco depois que os Jawanda se mudaram para o seu bairro, Samantha tinha ouvido dizer, no lembrava onde, que o casamento deles havia sido arranjado. Achou 
essa idia incrivelmente ertica. Imagine s mandarem voc se casar com Vikram, ser obrigada a fazer isso... Elaborou toda uma fantasia em que se via usando um vu 
e entrando numa sala, uma virgem condenada a cumprir o seu destino... Imagine s voc erguer os olhos e ver que o seu destino  aquilo... E, ainda por cima, havia 
o frisson provocado pela sua profisso: tanta responsabilidade assim j daria um toque de seduo a qualquer outro, bem mais feio...
     (Foi Vikram quem realizou a cirurgia para implantar as quatro pontes de safena em Howard, sete anos atrs. Resultado: at hoje, ele no pode entrar na Mollison 
& Lowe sem ser recebido por uma avalanche de brincadeiras por parte do proprietrio da loja.
     Por favor, passe na frente de todos, dr. Jawanda! Deixem ele passar, minhas senhoras... No, dr. Jawanda, eu insisto... Esse homem salvou a minha vida, gente! 
Remendou a velha bomba aqui dentro... O que vai ser, dr. Jawanda?
     Ainda fazia questo de que o mdico levasse amostras grtis e lhe dava alguma coisa de quebra em tudo que ele comprasse. E Samantha podia jurar que era por 
causa dessas gracinhas que Vikram raramente entrava na delicatssen.)
     A essa altura, tinha perdido o fio da conversa, mas isso pouco importava. Todos continuavam falando de alguma coisa que Barry Fairbrother havia escrito para 
o jornal local.
     ...ia ter que falar com ele sobre essa histria - estava dizendo Howard, com aquele seu vozeiro. -  um jeito muito desonesto de fazer as coisas. Bom, bom, 
mas isso so guas passadas... O importante agora  saber quem vai substituir Fairbrother. E no devemos subestimar Aluga-Ouvido, por mais transtornada que ela esteja. 
Isso seria um tremendo erro. Muito provavelmente, ela j est tentando aliciar algum, portanto ns tambm devamos comear a pensar num substituto  altura. Quanto 
mais cedo, melhor.  simplesmente uma questo de boa gesto.
     O que isso representa exatamente? - indagou Miles. - Uma eleio?
     Possivelmente - respondeu Howard, com ar judicioso. - Mas duvido muito. Trata-se apenas de um caso de vacncia. Se no houver nenhuma presso para a convocao 
de eleies... Embora, como j disse, a gente no deva subestimar Aluga-Ouvido. Mas ela sempre pode no conseguir convencer nove pessoas a lanarem a proposta de 
uma eleio... Sendo assim, tudo vai se resumir  indicao de um novo conselheiro. Nesse caso, precisamos do voto de nove membros do Conselho para ratificar o nome 
indicado. Nove  o quorum exigido. Ainda faltam trs anos para o fim do mandato de Fairbrother. Vale a pena. Ns podamos dar uma guinada na situao pondo l algum 
do nosso lado para substituir Fairbrother.
     Howard ficou tamborilando com os dedos grossos na taa de vinho e olhando para o filho do outro lado da mesa. Tanto Shirley quanto Maureen tambm olhavam para 
ele, e Miles, pelo menos foi a impresso que Samantha teve, encarava o pai como um grande labrador gorducho, ansiosssimo na expectativa de uma recompensa qualquer.
     Um segundo depois do que aconteceria se ela estivesse sbria, Samantha compreendeu o que tudo aquilo significava e por que a atmosfera que cercava aquela mesa 
era to festiva. A embriaguez vinha sendo libertadora, mas, de repente, tornou-se uma limitao, pois ela no sabia se a prpria lngua teria condies de lhe obedecer 
depois de mais de uma garrafa de vinho e de tanto tempo em silncio. Resolveu, ento, pensar as palavras em vez de diz-las em voz alta.
Porra, Miles! Voc bem que podia dizer a eles que tem que conversar comigo antes...

VII
     
     Tessa Wall no pretendia se demorar muito na casa de Mary - nunca se sentia  vontade quando deixava o marido e Bola sozinhos em casa -, mas a visita acabou 
se estendendo por umas duas horas. A casa dos Fairbrother estava abarrotada de colchonetes e sacos de dormir. A famlia, grande, tinha se reunido em torno do vazio 
deixado pela morte, mas no havia barulho ou movimento que pudessem disfarar o abismo em que Barry havia desaparecido.
     Sozinha com os seus pensamentos pela primeira vez desde que o amigo morrera, Tessa foi descendo bem devagar a Church Row no escuro, com os ps doendo e o casaco 
insuficiente para proteg-la do frio. Os nicos rudos que se ouviam era o tac-tac das contas de madeira penduradas no seu pescoo e, ao longe, o som das televises 
nas casas por onde ia passando.
     De repente, lhe veio uma idia: Ser que Barry sabia?
     Nunca tinha lhe ocorrido antes que o marido pudesse ter contado a Barry o grande segredo da vida dela, aquela coisa podre que jazia enterrada bem no fundo do 
seu casamento. Colin e ela nem sequer tocavam no assunto (embora uma leve sombra viesse turvar mais de uma das conversas do casal, principalmente nos ltimos tempos).
     Esta noite, porm, Tessa teve a impresso de perceber um olhar de Mary quando ela mencionou Bola...
     Voc est exausta e fica imaginando coisas, disse consigo mesma em tom decidido. Os hbitos de discrio de Colin eram to fortes, to profundamente arraigados, 
que ele jamais contaria algo assim, nem mesmo a Barry, que ele tanto idolatrava. Tessa detestava a idia de Barry ter ficado sabendo... Detestava pensar que o carinho 
que Fairbrother tinha por Colin pudesse ser resultado da pena que ele sentia do amigo pelo que ela, Tessa, tinha feito...
     Quando entrou na sala de estar, viu o marido de culos, diante da televiso, que transmitia o noticirio. Tinha uma pilha de pginas impressas no colo e uma 
caneta na mo. Para alvio de Tessa, no havia sinal do filho por ali.
     Como ela est? - perguntou Colin.
     Bom, sabe como ... No est nada bem - respondeu a mulher. Jogou-se numa das velhas poltronas, com um leve suspiro de alvio, e tirou os sapatos surrados. 
- Mas o irmo de Barry tem sido maravilhoso.
     Em que sentido?
     Ora... ajudando.
     Fechou os olhos e massageou o dorso do nariz e as plpebras com o polegar e o indicador.
     Sempre achei que ele no era l muito confivel - disse Colin.
     E mesmo? - perguntou Tessa do fundo da escurido voluntria em que se encontrava.
. Lembra quando ele disse que viria apitar aquele jogo contra a Paxton High e desmarcou com meia hora de antecedncia? Bateman acabou tendo que ser o rbitro da 
partida.
     Tessa teve vontade de retrucar com rispidez. Que mania ele tinha de fazer juzos definitivos a partir de primeiras impresses, de uma nica atitude! Colin parecia 
nunca se dar conta da imensa mutabilidade da natureza humana, nem conseguir perceber que, por trs de um rosto qualquer, sempre existia toda uma extenso de terra 
selvagem e nica como a dele mesmo.
     Bom, mas ele est sendo timo com as crianas - replicou ela, cautelosa. - Tenho que ir me deitar.
     Mas no se mexeu. Ficou ali sentada, reparando nas dores diferentes que sentia em diversas partes do corpo: nos ps, na lombar, nos ombros.
     Sabe no que andei pensando, Tess?
     Hmmm?
     As lentes reduziam tanto as propores dos olhos dele que a testa alta e a careca ficavam ainda mais pronunciadas.
     Nas coisas que Barry estava tentando fazer no Conselho Distrital. Em tudo pelo que ele andava lutando: Fields, a clnica de reabilitao... Passei o dia todo 
refletindo sobre isso. - Respirou profundamente e acrescentou: - Estou pensando seriamente em assumir essas tarefas no lugar dele...
     A apreenso desmoronou sobre Tessa, deixando-a pregada na poltrona e momentaneamente incapaz de articular qualquer som. Lutou para manter a expresso profissionalmente 
neutra.
     Tenho certeza de que era o que Barry teria desejado - prosseguiu Colin, e o seu estranho entusiasmo vinha acompanhado de uma atitude defensiva.
Nunca!, exclamou o eu mais honesto de Tessa, nem por um segundo Barry teria desejado que voc fizesse isso. Ele saberia muito bem que voc  a ltima pessoa no mundo 
indicada para algo assim.
     Puxa! - disse ela. - Eu sei que Barry era muito... Mas seria um compromisso gigantesco, Colin. E Parminder no se foi. Ela continua aqui e continua tentando 
fazer tudo que Barry queria.
Eu devia ter ligado para Parminder, pensou Tessa, assim que formulou aquela frase. E sentiu um aperto de culpa no estmago. Ah, meu Deus, por que no me lembrei 
de telefonar para Parminder?
     Mas ela vai precisar de apoio. Nunca vai conseguir enfrentar todos eles sozinha - insistiu Colin. - E garanto que Howard Mollison j est preparando um fantoche 
para substituir Barry. Talvez j tenha at...
     Ah, Colin...
     Posso apostar! Voc sabe como ele !
     Abandonadas, as folhas que estavam no seu colo caram no cho, formando uma suave cascata branca.
     Quero fazer isso por Barry. Vou levar adiante o que ele deixou inacabado. Vou fazer tudo para que o trabalho dele no tenha sido em vo. Conheo bem os argumentos 
que ele usava. Barry sempre disse que, aqui, teve oportunidades que jamais teria em outras circunstncias. E veja tudo que ele fez pela comunidade em troca disso. 
Estou decidido a tentar. Amanh mesmo vou ver o que preciso fazer.
     Est certo - replicou Tessa. Anos de experincia tinham lhe ensinado que, quando Colin se entusiasmava por alguma coisa, no era boa idia contestar os seus 
mpetos iniciais, pois tudo o que se conseguia, assim, era reforar a sua determinao de seguir adiante. Os mesmos anos haviam ensinado a Colin que, muitas vezes, 
a sua mulher fingia concordar antes de fazer qualquer objeo. Esse tipo de dilogo era sempre permeado pela lembrana mtua, mas no verbalizada, do tal segredo 
h tanto enterrado. Tessa sentia que lhe devia algo. E ele se sentia credor.
      uma coisa que quero fazer mesmo, Tessa.
     Eu entendo, Colin.
     Ela se levantou da cadeira pensando se teria fora suficiente para subir a escada.
     Voc no vem?
     J, j. Quero acabar de examinar isso aqui primeiro - respondeu ele, juntando as folhas que tinham cado no cho. Aparentemente, aquele novo projeto temerrio 
estava lhe dando uma energia febril.
     No quarto, Tessa comeou a se despir bem devagar. A gravidade parecia ter se tornado muito mais forte: que dificuldade para erguer braos e pernas, para obrigar 
o zper obstinado a fazer o que ela queria. Enfiou o robe e foi para o banheiro. Dali, dava para ouvir Bola para l e para c no andar de cima. Vinha se sentindo 
to s e exaurida ultimamente, num constante vaivm entre o marido e o filho, aqueles dois que pareciam ter cada qual a sua existncia inteiramente independente; 
que pareciam to estranhos um ao outro quanto um inquilino e o seu senhorio.
     S quando foi tirar o relgio lembrou que no sabia onde o tinha posto desde a vspera. Andava to cansada... Vivia perdendo as coisas... E como foi se esquecer 
de ligar para Parminder? Com lgrimas nos olhos, preocupada e tensa, arrastou-se at a cama.
     
     Quarta-feira
     
     I
     
     Nas noites de segunda e tera7 Krystal Weedon dormiu no cho do quarto da amiga Nikki, depois de uma briga feia com a me. Tudo comeou quando Krystal, que 
tinha estado circulando pelo bairro com outras garotas, chegou em casa e viu Terri conversando com Obbo na soleira da porta. Ali em Fields, todo mundo conhecia Obbo, 
com aquela cara inexpressiva e meio inchada, o sorriso banguela, os culos de fundo de garrafa e a velha jaqueta de couro nojenta.
     Guarda isso a pra gente, Ter.  s por uns dias. E ainda vai render uma graninha pra voc...
     Guardar o qu? - perguntou Krystal. Nesse instante, Robbie saiu de trs das pernas da me e se agarrou com toda a fora aos joelhos da irm. Ele no gostava 
nada de ver homens chegando quela casa. E no era  toa.
     Nada. S uns computadores.
     Fica com isso, no - disse Krystal, dirigindo-se  me.
     No queria ver Terri com algum dinheiro na mo. No duvidava nada que Obbo fosse direto ao ponto e pagasse aquele favorzinho com uma dose de herona.
     Fica com isso, no.
     Mas Terri ficou. Krystal passou a vida toda vendo a me dizer sim para tudo e para todos: concordando, aceitando, consentindo. Era sempre claro, na boa, vamos 
l, t legal, sem problemas.
     J estava escurecendo. A garota foi encontrar uns amigos l nos balanos. Sentia-se tensa e irritadia. Ainda no tinha conseguido assimilar a idia da morte 
do sr. Fairbrother, mas no parava de sentir uns socos na boca do estmago e estava louca para descontar aquilo em algum. Tambm estava chateada e culpada por ter 
roubado o relgio de Tessa Wall. Mas por que diabos aquela vaca burra foi botar o tal relgio bem na cara dela e fechar os olhos? O que ela estava querendo?
     Ficar com a sua turma no ajudou em nada. Jemma passou o tempo todo implicando com ela por causa de Bola Wall, e, l pelas tantas, Krystal explodiu e partiu 
para cima da garota. Nikki e Leanne tiveram de segur-la. Krystal voltou ento para casa e viu que os computadores de Obbo tinham chegado. Robbie tentava subir na 
pilha de caixas enquanto a me continuava sentada, numa espcie de torpor, com todos aqueles apetrechos espalhados no cho  sua frente. Como a garota temia, Obbo 
tinha lhe dado um saquinho de herona em pagamento pelo servio prestado.
     Deixa de ser burra, sua vaca drogada! A porra da clnica vai chutar voc de novo!
     Mas a herona deixava a sua me num lugar onde ningum conseguia alcan-la. Embora Terri tenha revidado, xingando a filha de vaca e de putinha, fez isso de 
um jeito vago, distante. Krystal lhe deu ento um tapa na cara. E Terri mandou que ela casse fora dali e morresse.
     Ento v se cuida dele pra variar, viu, sua intil! Sua vaca viciada de merda! - berrou a garota.
     Robbie veio gritando atrs dela pelo corredor, mas a irm saiu batendo a porta.
     A casa de Nikki era a preferida de Krystal. No era to arrumadinha quanto a da av Cath, mas era mais acolhedora, mais barulhenta e movimentada, de um jeito 
que ela achava bem gostoso. Nikki tinha dois irmos e uma irm, e Krystal dormia no cho, num edredom dobrado entre as camas das garotas. As paredes eram recobertas 
de fotos de rapazes incrveis e moas lindas, todas recortadas de revistas e formando uma colagem. Krystal nunca tinha pensado em enfeitar as paredes do prprio 
quarto...
     Mas, por dentro, ela estava roda pela culpa. No conseguia parar de pensar na carinha apavorada de Robbie quando ela saiu batendo a porta. E foi por isso que 
acabou voltando para casa na quarta-feira de manh. De qualquer jeito, a famlia de Nikki no estava disposta a deix-la ficar ali por mais de duas noites seguidas. 
Uma vez, com a sua franqueza habitual, a amiga lhe disse que a me no se importava que Krystal dormisse l, contanto que no fosse com muita freqncia, que ela 
no fizesse a casa deles de hospedaria e, principalmente, que parasse de chegar depois da meia-noite.
     Como sempre, Terri pareceu feliz ao v-la voltar. Falou sobre a visita da nova assistente social, e Krystal ficou bem aflita, imaginando o que a desconhecida 
teria achado da casa, que, nos ltimos tempos, andava abaixo dos seus padres habituais de sujeira. O que mais a preocupava, porm, era que Kay tivesse visto Robbie 
em casa, pois Terri tinha se comprometido a mant-lo na pr-escola, para onde ele havia sido mandado quando ainda estava com a me substituta. Esta havia sido a 
condio determinante na negociao para traz-lo de volta para casa no ano anterior. Tambm ficou furiosa quando soube que a assistente social viu o menino de fraldas 
depois de todo o trabalho que teve para persuadi-lo a usar o vaso sanitrio.
     Que que ela disse, afinal? - perguntou.
     Que ia voltar - respondeu Terri.
     Krystal teve um mau pressentimento ao ouvir aquilo. Aparentemente, a assistente social que j conheciam se dava por satisfeita em deixar a famlia Weedon ir 
levando a vida sem maiores interferncias. Com o seu jeito meio distrado e nada metdico, quase sempre errando os nomes deles e confundindo as suas informaes 
com as de outras famlias que acompanhava, ela aparecia por l de quinze em quinze dias, dando a impresso de no ter outro objetivo seno verificar se Robbie ainda 
estava vivo.
     A nova ameaa s fez piorar o mau humor de Krystal. Quando estava limpa, Terri se deixava intimidar pelos acessos de raiva da filha e permitia que ela mandasse 
e desmandasse na sua vida. Fazendo o melhor uso possvel daquela autoridade temporria, Krystal mandou que a me fosse se vestir direito, obrigou Robbie a voltar 
a usar cuecas limpas, repetiu mais uma vez que ele no podia fazer xixi na cala e tratou de lev-lo para a escola. Quando viu que a irm ia embora, Robbie abriu 
o maior berreiro. De incio, Krystal ficou irritada, mas acabou se agachando junto dele, prometendo que ia voltar mais tarde para busc-lo. E o menino deixou que 
ela se fosse.
     Ela, ento, matou aula, embora a quarta-feira fosse o seu dia favorito na escola, porque tinha tanto educao fsica quanto orientao educacional. Estava decidida 
a limpar um pouco a casa, passar um desinfetante com cheiro de pinho na cozinha, jogar todos os restos de comida e pontas de cigarros no lato de lixo. Escondeu 
a lata de biscoitos onde ficavam os apetrechos de Terri e carregou os computadores restantes (trs j tinham sido entregues), para guard-los no armrio do corredor.
     Enquanto raspava a comida grudada nos pratos, Krystal no parava de pensar na equipe de remo. Teriam treino na noite seguinte, se o sr. Fairbrother ainda estivesse 
vivo. Em geral, ele lhe dava carona na ida e na volta, j que ela no tinha outra maneira de chegar at o canal l em Yarvil. As gmeas Niamh e Siobhan iam no carro, 
e Sukhvinder Jawanda tambm. Na escola, Krystal no tinha nenhum contato com as trs, mas, desde que passaram a fazer parte do mesmo time, elas sempre diziam "Tudo 
bom?" quando se cruzavam nos corredores. Krystal ficou achando que as garotas iam torcer o nariz para ela, mas acabou descobrindo que eram at legais. Riam das suas 
piadas. Passaram a usar algumas das suas frases favoritas. De certa forma, ela era a lder da equipe.
     Na sua famlia, ningum jamais teve carro. Com alguma concentrao, conseguia at sentir o cheiro daquela caminhonete, apesar do fedor da cozinha da me. Adorava 
aquele cheiro de plstico. Nunca mais ia andar naquele carro. Houve ocasies em que foram num micro-nibus, e era o sr. Fairbrother que ia dirigindo. Aconteceu at 
de passarem a noite fora, quando iam competir com escolas que ficavam mais longe. L dos ltimos bancos do micro-nibus, a equipe comeou a cantar "Umbrella", de 
Rihanna, e aquilo acabou virando um ritual para dar sorte, a msica-tema do grupo, com Krystal fazendo, no incio, o solo do rapper Jay-Z. O sr. Fairbrother quase 
fez xixi na cala da primeira vez que a ouviu cantar.
     
     Uh huh uh huh, Rihanna...
     Good girl gone bad -
     Take three -
     Action.
     No clouds in my storms...
     Let it rain, I hydroplane into fame
     Comin' down with the Dow Jones...
     
     Krystal nunca tinha entendido aquela letra... "Garota boazinha que virou m... Tomada trs. Ao. No existem nuvens nas minhas tempestades... Pode chover, 
que eu hidroplano para a fama... Caindo junto com o Dow Jones..."
     Pombinho Wall mandou uma circular para todas elas, dizendo que a equipe no voltaria a se reunir at conseguirem um novo tcnico. Mas nunca iam arranjar um 
novo tcnico. Estavam na maior merda. Todo mundo sabia disso.
     Era a equipe do sr. Fairbrother, o seu projeto do corao. Nikki e o resto da turma tinham cado na sua pele quando ela topou entrar para o time. Todo aquele 
deboche encobria incredulidade, e, com o passar do tempo, admirao porque elas ganharam vrias medalhas (Krystal guardava as suas numa caixa que tinha roubado da 
casa de Nikki. Ela tinha mania de se apoderar de coisas que pertencessem a pessoas de quem gostava. A tal caixa era de plstico enfeitada com umas rosas. Na verdade, 
uma caixinha de jias de criana. Agora, o relgio de Tessa estava enroladinho ali dentro).
     A melhor coisa foi quando ganharam daquelas vaquinhas metidas l da St. Anne. Para Krystal, aquele foi o melhor dia da sua vida. A diretora chamou a equipe 
l na frente, quando a escola inteira estava reunida na segunda-feira de manh. A garota ficou meio chateada porque Nikki e Leanne comearam a rir dela, mas, depois, 
todos aplaudiram... A Winterdown derrotar a St. Anne no era pouca coisa, no.
     Agora, porm, tudo aquilo tinha acabado: as viagens de carro, o remo, a entrevista para o jornal local. Krystal tinha gostado da idia de aparecer de novo na 
imprensa. O sr. Fairbrother garantiu que ia estar l com ela. S eles dois.
     Eles vo querer que eu fale o qu?
     Sobre a sua vida. Esto interessados na sua vida.
     Gomo uma celebridade. Krystal no tinha dinheiro para comprar revistas, mas podia v-las na casa de Nikki e no consultrio, quando levava Robbie ao mdico. 
Seria ainda melhor que sair no jornal junto com a equipe inteira. Ficou empolgadssima com a perspectiva da tal entrevista, mas, sabe-se l como, conseguiu ficar 
de boca fechada e no se vangloriar nem com Nikki ou Leanne. Queria que fosse surpresa. E foi bom no ter falado nada, porque nunca mais ia aparecer no jornal.
     Krystal estava sentindo um vazio no estmago. Tentou no pensar mais no sr. Fairbrother e continuou circulando pela casa, limpando tudo, sem muito jeito, mas 
com muita disposio. Enquanto isso, a sua me ficou sentada na cozinha, fumando e com os olhos pregados na janela dos fundos.
     Pouco depois do meio-dia, uma mulher estacionou um velho Vauxhall azul diante da casa. Krystal a viu l da janela do quarto de Robbie. Ela tinha o cabelo escuro 
bem curtinho. Estava de cala preta, usava uma espcie de colar de contas, tipo tnico, e trazia no ombro uma sacola que parecia cheia de papis.
     A garota correu escada abaixo.
     Acho que  ela - gritou para a me, que ainda estava na cozinha.
     A assistente.
     A mulher bateu  porta, e Krystal foi abrir.
     Ol. Sou Kay, a substituta de Mattie. Voc deve ser Krystal.
 - respondeu a garota, sem se preocupar em retribuir o sorriso da outra. Levou-a  sala de estar e percebeu que ela tinha reparado que o lugar estava arrumado, 
ao menos at certo ponto: o cinzeiro tinha sido esvaziado e boa parte das tralhas estava agora entulhada na tal estante quebrada. O tapete continuava imundo, porque 
o aspirador no estava funcionando, e a toalha e a pomada para assaduras jaziam no cho com um dos carrinhos de Robbie encarapitado na ponta do tubo. Krystal tinha 
tentado distrair o irmo com aquele carrinho enquanto limpava o seu bumbum.
     Robbie t na escola - disse ela. - Levei ele l. E ele t de cueca de novo. Ela vive fazendo ele usar fralda outra vez. J disse pra ela no fazer isso. Passei 
pomada no bumbum dele. Vai sarar logo,  s uma assadura.
     Kay sorriu novamente. Krystal olhou na direo da porta e gritou:
Me!
     Terri veio da cozinha. Estava usando jeans e um moletom velho e sujo, mas, s por estar mais vestida, j tinha uma aparncia melhor.
     Oi, Terri - disse Kay.
     Tudo bom? - replicou Terri, dando uma longa tragada no cigarro.
     Senta - disse Krystal, dirigindo-se  me, que obedeceu, enroscando-se na mesma cadeira da vspera. - Quer uma xcara de ch ou qualquer outra coisa? - perguntou 
a garota, desta vez para Kay.
     Seria timo - respondeu a assistente social, sentando-se e abrindo a pasta. - Obrigada.
     Krystal saiu da sala s pressas, mas ficou prestando a maior ateno, tentando ouvir o que Kay dizia  sua me.
     Com certeza no esperava me ver de novo to cedo, no , Terri? - foi a frase que ouviu (a mulher tinha um sotaque estranho. Parecia gente de Londres, como 
aquela babaquinha toda metida a besta que tinha entrado para a escola agora e que estava deixando metade dos garotos assanhadssimos). - E que fiquei bem preocupada 
com Robbie ontem. Krystal me disse que ele voltou para a escola hoje.
     Foi - disse Terri. - Ela que levou. Voltou pra casa hoje de manh.
     Voltou? De onde?
     Tava s na... Fui dormir na casa de uma amiga - respondeu Krystal, que voltou correndo  sala para se defender.
     , mas voltou hoje de manh - acrescentou Terri.
     A garota foi verificar a chaleira. Quando a gua comeou a ferver, o barulho ficou to forte que ela no conseguiu mais ouvir uma palavra do que a me e a assistente 
social estavam dizendo. Tentando fazer tudo o mais depressa possvel, despejou um pouco de leite nas canecas, junto com os saquinhos de ch, e voltou para a sala 
carregando as trs canecas pelando. Chegou bem a tempo de ouvir Kay dizendo:
     ...falei com a sra. Harper l na escola ontem...
     Aquela vaca! - exclamou Terri.
     Pronto! - disse Krystal, pondo as canecas no cho e virando a ala de uma delas na direo de Kay.
     Muito obrigada - replicou a assistente social. - A sra. Harper me disse, Terri, que Robbie tem faltado muito nos ltimos trs meses. H um bom tempo que no 
vai l uma semana inteira, no  mesmo?
     Qu? - perguntou Terri. - No vai, no. Vai, sim. S faltou ontem. E quando tava com dor de garganta.
     Quando foi isso?
     Qu? Tem um ms... um ms e meio... por a.
     Krystal sentou no brao da poltrona da me. Ficou encarando Kay ali do alto, mascando o seu chiclete com toda a fora, com os braos cruzados, como Terri. Kay 
tinha uma pasta volumosa aberta no colo. A garota detestava aquelas pastas. Ali tinha um monte de coisas que eles escreviam, guardavam e, depois, usavam contra as 
pessoas...
     Eu  que levo Robbie pra escola - disse ela. - Fica no caminho da minha.
     Bom, segundo a sra. Harper, a freqncia de Robbie piorou bastante - insistiu Kay, olhando as anotaes que tinha feito depois da conversa com a administradora 
da instituio. - O problema  o seguinte, Terri: voc se comprometeu a manter Robbie na pr-escola quando ele voltou para casa no ano passado.
     Porra nenhuma... - principiou a mulher.
     No! Cala a boca! - esbravejou Krystal. E, virando-se para Kay, acrescentou: - Ele tava doente, t? As amgdalas tavam inflamadas. A mdica mandou dar antibitico.
     E isso foi quando?
     Tem umas trs semanas... Por a, t?
     Quando estive aqui ontem - disse Kay, voltando a se dirigir  me dos meninos (Krystal mascava o chiclete com toda a fora e os seus braos formavam uma barreira 
dupla na altura das costelas) -, voc parecia estar tendo muita dificuldade em atender s necessidades do seu filho.
     Krystal olhou para Terri. As suas coxas eram duas vezes as da me na largura.
     Eu no... Eu nunca... - principiou Terri, mas mudou de idia. - Ele t timo.
     Uma desconfiana passou pela cabea de Krystal como a sombra de um abutre em vos circulares.
     Terri, voc tinha usado droga quando cheguei aqui ontem, no tinha?
     Porra nenhuma! Que merda... Voc t... No usei nada, t bom?
     Krystal sentia um peso comprimindo os seus pulmes e os ouvidos zumbindo. Pelo visto, Obbo no tinha dado s um saquinho  sua me, mas um monte deles. A assistente 
social a viu inteiramente chapada. Da prxima vez que fosse  Bellchapel, o teste ia dar positivo e, mais uma vez, iam pr Terri para fora de l.
     (...e, sem a metadona, ia ser de novo aquele pesadelo: Terri virando um verdadeiro bicho, voltando a abrir a boca cheia de dentes quebrados para o pau de qualquer 
estranho e, assim, alimentar as prprias veias. E Robbie ia ser levado embora de novo, talvez para nunca mais voltar. Num coraozinho de plstico vermelho pendurado 
ao chaveiro que estava sempre no seu bolso, Krystal tinha uma foto de Robbie. Uma foto j antiga. O corao de verdade da garota comeou a bater forte, do jeito 
que ele batia quando ela remava a toda, puxando e puxando os remos na gua, com os msculos tinindo, e vendo a outra equipe ir ficando para trs...)
     Sua babaca... - gritou ela, mas ningum a ouviu, porque Terri continuava esbravejando, e Kay, sentada ali com a caneca nas mos, tinha um ar absolutamente indiferente.
     No usei porra nenhuma, voc no tem prova nenhuma...
     Sua babaca idiota - disse Krystal, ainda mais alto.
     No usei nada, cacete! Que porra de mentira  essa? - berrava Terri. Um bicho preso numa rede, se debatendo e ficando cada vez mais enredado. - No fiz merda 
nenhuma, t bom? Nunca...
     A porra da clnica vai chutar voc outra vez, sua filha da puta imbecil!
     No fala assim comigo!
     J chega - disse Kay, alto o bastante para se fazer ouvir. Ps a caneca no cho e se levantou, assustada com o que havia desencadeado. De repente, efetivamente 
apavorada, gritou: - Terri! - pois a mulher tinha se erguido e, meio debruada sobre o outro brao da poltrona, encarava a filha. Como grgulas, as duas berravam, 
o nariz de uma quase encostando no da outra.
     Krystall - gritou ela, quando a garota ergueu o punho.
     Num movimento brusco, Krystal saiu da poltrona, afastando-se da me. Ficou espantada ao sentir um lquido quente lhe escorrendo pelo rosto e, um tanto confusa, 
achou que pudesse ser sangue. Mas eram lgrimas, apenas lgrimas, que reluziram nos seus dedos quando ela passou a mo para enxug-las.
     Tudo bem - disse Kay, nervosa. - Vocs duas, tratem de se acalmar, por favor!
     Calma voc, porra! - retrucou Krystal. Ainda trmula, ela enxugou o rosto com o brao e se encaminhou para a poltrona da me. Terri se encolheu, mas a garota 
simplesmente apanhou o mao e o isqueiro, pegou o ltimo cigarro que havia ali e o acendeu. Soltando baforadas, atravessou a sala na direo da janela e virou de 
costas, tentando conter mais lgrimas antes que elas comeassem a escorrer.
     Ok - disse Kay, ainda de p. - Ser que podemos conversar com calma?
     Ah, cai fora daqui! - exclamou Terri, num tom aptico.
     A questo toda  Robbie - insistiu Kay, que, assustada demais para relaxar, continuava de p. -  por ele que estou aqui. Para garantir que ele fique bem.
     T legal, ele andou faltando  porra da escola - retrucou Krystal, l da janela. - E desde quando isso  crime?
     ... crime? - repetiu Terri, num eco distante.
     No  s a escola - disse Kay. - Quando o vi ontem, ele estava mijado e assado. Robbie j est grande demais para usar fralda.
     Eu tirei a fralda dele! Agora, ele t de cueca. J disse, p! - exclamou Krystal, furiosa.
     Lamento, Terri - prosseguiu Kay -, mas voc no estava absolutamente em condies de cuidar sozinha de uma criana pequena.
     Eu nunca...
     Pode ficar repetindo para o resto da vida que no usou droga ontem - disse Kay, e, pela primeira vez, Krystal percebeu algo real e humano na voz daquela mulher: 
exasperao, irritao. - Mas vai ser submetida ao teste l na clnica. Ns duas sabemos muito bem que o resultado vai ser positivo. Eles esto dizendo que  a sua 
ltima chance, que vo cort-la novamente do programa.
     Terri limpou a boca com o dorso da mo.
     Olhem s: d para ver que nenhuma das duas quer perder Robbie...
     Ento no leva ele embora, porra! - gritou Krystal.
     As coisas no so to simples assim - replicou Kay, voltando a se sentar. Apanhou a pesada pasta do cho onde ela tinha cado e a ps no colo novamente. - Quando 
conseguiu ter Robbie de volta, no ano passado, Terri, voc estava h um tempo sem usar herona. Na poca, voc se comprometeu a continuar limpa, a seguir o programa, 
e tambm aceitou algumas outras condies, como, por exemplo, manter o menino na escola...
     , e fiz...
     S por uns tempos - interrompeu Kay. - Por uns tempos, voc fez o que prometeu, Terri, mas demonstrar que est se esforando no  o bastante. Depois do que 
vi quando estive aqui ontem, e depois de conversar com a sra. Harper e com a responsvel pelo seu caso l na clnica, acho que no temos outra alternativa seno 
analisar mais uma vez como as coisas esto funcionando.
     Que que  isso? - indagou Krystal. - Mais uma porra de reviso de caso, ? Pra qu? Pra qu, hein? Ele t direitinho. T cuidando dele... Cala a boca, porra! 
- gritou ela, dirigindo-se  me, que estava tentando dizer alguma coisa l da poltrona. - Ela no... Eu  que t cuidando dele, falou? - prosseguiu ela, parada 
diante de Kay, com o rosto corado, os olhos pintadssimos cheios de lgrimas de raiva, batendo com um dos dedos no prprio peito.
     Krystal visitou Robbie regularmente na casa dos pais substitutos durante todo o ms que o menino passou longe delas. Ele se agarrava  irm, queria que ela 
ficasse para lanchar, chorava quando ela ia embora. Parecia que lhe arrancavam um pedao do prprio corpo e o mantinham como refm. Krystal quis que Robbie fosse 
para a casa da av Cath, como ela foi tantas vezes em criana, sempre que Terri entrava numa das suas crises. Agora, porm, a bisav estava velha e fragilizada, 
e no tinha tempo para cuidar de Robbie.
     Compreendo perfeitamente que voc ama o seu irmo e est fazendo tudo que pode por ele, Krystal - disse Kay. - Mas, legalmente, voc no  a...
     No sou o qu? Sou a porra da irm dele, no sou?
     Est certo - interrompeu Kay, em tom firme. - Acho que j est na hora de encararmos os fatos, Terri. Bellchapel vai elimin-la definitivamente do programa 
se voc aparecer dizendo que no usou drogas e o teste der positivo. A responsvel pelo seu acompanhamento deixou isso bem claro quando nos falamos por telefone.
     Afundada naquela poltrona, estranho hbrido de velhinha e criana, com aqueles dentes faltando, Terri tinha o olhar vago e desamparado.
     Acho que a nica maneira de voc conseguir evitar isso - prosseguiu Kay -  admitir, logo de cara, que usou a droga, assumir a culpa pela recada e mostrar 
que est disposta a comear tudo de novo, desta vez, do jeito certo.
     Terri continuou olhando fixo. A mentira era a nica forma que ela conhecia para enfrentar os seus inmeros acusadores. - T, tudo bem, vamo l - balbuciou ela, 
mas, logo depois, voltou a repetir: - No. No usei, no. No usei porra nenhuma...
     Aconteceu alguma coisa especial esta semana para voc usar herona? Mesmo j estando com uma dose considervel de metadona? - perguntou Kay.
     Aconteceu, sim - respondeu Krystal. - Foi o Obbo que apareceu aqui, e ela no sabe dizer uma porra de um no pra ele!
     Cala a boca - disse Terri, mas sem se alterar. Aparentemente, estava tentando assimilar o que a assistente social tinha lhe dito: aquele conselho estranho e 
perigoso que ela lhe dera, mandando que dissesse a verdade.
     Obbo? - repetiu Kay. - Mas quem  Obbo?
     Um filho da puta! - respondeu Krystal.
      o seu traficante? - indagou a assistente social.
     Cala essa boca - exclamou Terri mais uma vez, dirigindo-se  filha.
     Por que que voc no disse no pra ele, cacete?! - perguntou Krystal, aos berros.
     Tudo bem - interrompeu Kay, mais uma vez. - Vou telefonar de novo para a clnica, Terri. Vou tentar convencer a responsvel pelo seu acompanhamento, dizendo 
que acho que a sua permanncia no programa s traria benefcios para a famlia.
     Vai? - exclamou a garota, atnita. Estava achando que Kay era uma grandessssima filha da puta, mais filha da puta at que aquela me substituta com a sua cozinha 
impecvel e aquele jeito todo gentil de falar com ela, o que a fazia sentir-se um lixo.
     Vou, sim - replicou a assistente social. - Mas, no que me diz respeito, como representante do Departamento de Proteo  Criana, isso  muito srio, Terri. 
Vamos ter que monitorar as condies domsticas de Robbie bem de perto. E precisamos ver que as coisas esto mudando.
     T legal - disse a mulher, concordando, como sempre concordava com tudo e com todos.
     Vo mudar, sim - interveio Krystal. - Pode deixar. Ela vai mudar. Vou ajudar. Ela vai mudar.

II
     
     Shirley Mollison passava as quartas-feiras no Hospital South West, em Yarvil. Ali, juntamente com umas dez outras voluntrias, desempenhava vrias tarefas que 
no se relacionavam diretamente aos servios hospitalares: empurravam o carrinho-biblioteca at o leito dos pacientes, trocavam a gua das flores e iam comprar uma 
coisinha ou outra na loja do saguo para aqueles que estavam de cama e no tinham nenhuma visita. De tudo isso, o que Shirley mais gostava era de ir de leito em 
leito, perguntando o que os pacientes iam querer na prxima refeio. Numa ocasio, de prancheta em punho e ostentando o seu crach, foi vista como algum da administrao 
por um mdico que cruzou com ela no corredor.
     A idia de trabalhar como voluntria lhe ocorreu durante a mais longa conversa que jamais teve com Julia Fawley, numa daquelas magnficas festas de Natal na 
Sweetlove House. Ficou sabendo que Julia estava empenhada em arrecadar fundos para o setor de pediatria do hospital local.
     - Ns precisvamos mesmo era da visita de algum membro da famlia real - disse Julia, com os olhos voltados para a porta s costas de Shirley. - Vou pedir a 
Aubrey que tenha uma conversinha com Norman Bailey. Ah, desculpe, preciso cumprimentar Lawrence...
     E Shirley ficou parada ali, ao lado do piano de cauda, dizendo "Ah, claro, claro", mas falando para as paredes. No fazia a mnima idia de quem era Norman 
Bailey, mas sentiu a cabea rodar. J no dia seguinte, sem sequer dizer a Howard o que estava prestes a fazer, ligou para o Hospital South West e pediu informaes 
sobre trabalho voluntrio. Quando lhe disseram que no havia qualquer tipo de exigncia, a no ser um carter irrepreensvel, uma mente s e pernas fortes, solicitou 
um formulrio de inscrio.
     O trabalho voluntrio lhe abriu as portas de um mundo inteiramente novo, glorioso. Era o sonho que, inadvertidamente, Julia Fawley tinha lhe proporcionado ao 
lado daquele piano de cauda: ver-se, com as mos cruzadas  frente do corpo, toda compenetrada, com o crach pendurado ao pescoo, enquanto a Rainha passava bem 
devagar diante de uma longa fila de auxiliares todos sorridentes. Imaginou-se at fazendo uma perfeita reverncia que atrairia o olhar da soberana. Esta pararia, 
ento, para lhe falar, cumprimentando-a por devotar o seu tempo livre de forma assim to generosa... O flash de um fotgrafo e, nos jornais do dia seguinte... "A 
Rainha conversa com a sra. Shirley Mollison, que trabalha como voluntria no hospital..." s vezes, quando se concentrava efetivamente nessa cena imaginria, era 
tomada por uma sensao quase sagrada.
     Ser voluntria no hospital tinha lhe dado uma nova arma reluzente para ceifar as pretenses de Maureen. Quando passou de vendedora a scia, como uma espcie 
de Cinderela, a viva de Ken resolveu se dar uns ares de importncia, coisa que deixava Shirley furiosa (embora ela engolisse tudo aquilo com o mais meigo dos sorrisos). 
Agora, porm, voltava a ficar por cima: estava trabalhando, e no por dinheiro, mas movida simplesmente pela bondade do seu corao. Era fino ser voluntria. Era 
o que faziam as mulheres que no precisavam de dinheiro, mulheres como ela prpria e Julia Fawley. E, alm do mais, o hospital lhe dava acesso a uma vasta mina de 
fofocas que lhe permitiam abafar a eterna lenga-lenga de Maureen sobre o novo caf.
     Hoje, pela manh, Shirley declarou, em tom firme, para o supervisor dos voluntrios, que a sua enfermaria preferida era a vinte e oito, e foi devidamente mandada 
para o setor de oncologia. Era l que trabalhava a nica amiga que fez em meio  equipe de enfermagem. Algumas das jovens enfermeiras s vezes eram grosseiras e 
tentavam mandar nos voluntrios, mas Ruth Price, que reassumiu a profisso depois de dezesseis anos afastada, se mostrou encantadora desde o comeo. Nas palavras 
de Ruth, ambas eram mulheres de Pagford, o que criava um lao entre elas.
     (Embora, a bem da verdade, Shirley no fosse nascida em Pagford. Ela e a irm mais moa tinham crescido com a me, em Yarvil, num apartamento minsculo e malcuidado. 
A sua me bebia muito. Nunca se divorciou do pai das meninas, pai que elas jamais viram na vida. Aparentemente, todos os homens das redondezas sabiam como ela se 
chamava e diziam o seu nome com um risinho de deboche... Mas isso foi h muito tempo, e Shirley era de opinio que o passado se desintegra quando a gente nunca o 
menciona. E se recusava a se lembrar dele.)
     Shirley e Ruth se cumprimentaram felizes da vida, mas havia muito trabalho a fazer por ali e no sobrava tempo para nada, a no ser uns poucos comentrios sobre 
a morte sbita de Barry Fairbrother. Combinaram de almoar juntas ao meio-dia e meia, e Shirley logo tratou de ir buscar o carrinho dos livros.
     Estava de timo humor. Podia ver o futuro com tamanha clareza que parecia at que ele j estava acontecendo. Howard, Miles e Aubrey Fawley iam se unir para 
eliminar Fields de uma vez por todas, e isso seria comemorado com um jantar na Sweetlove House...
     Shirley tinha achado o lugar deslumbrante: o imenso jardim com o relgio de sol, as cercas vivas de topiaria e os lagos. Aquele saguo amplo, todo de lambris 
de madeira, o porta-retratos de prata em cima do piano de cauda com a foto do proprietrio contando alguma coisa engraada para a princesa real. No detectava qualquer 
vestgio de condescendncia na atitude dos Fawley com relao a ela prpria e ao marido, mas havia tantos atrativos competindo para chamar a sua ateno sempre que 
penetrava na rbita dos Fawley... Tudo que conseguia imaginar eram os cinco sentados  mesa para um jantar mais ntimo numa daquelas deliciosas salinhas laterais: 
Howard ao lado de Julia, ela  direita de Aubrey e Miles entre eles. (Na fantasia de Shirley, Samantha ficava irremediavelmente detida em algum outro lugar.)
     Ao meio-dia e meia, as duas se encontraram perto dos iogurtes. A ruidosa cantina do hospital ainda no estava to cheia quanto ficaria  uma hora, portanto, 
a enfermeira e a voluntria no tiveram muita dificuldade em encontrar uma mesa para dois, suja e cheia de migalhas, junto da parede.
     - Como vai Simon? E os meninos? - perguntou Shirley depois que Ruth limpou a mesa, as duas puseram ali em cima o contedo das bandejas que traziam e se sentaram, 
uma defronte da outra, prontas para conversar.
     - Si est timo, obrigada. Vai trazer o nosso novo computador hoje. Os meninos mal podem esperar. D para imaginar, no ?
     Isso no era absolutamente verdade. Tanto Andrew quanto Paul tinham uns notebooks baratos, e havia tambm um PC que ficava num canto da minscula sala de estar. 
Os garotos, porm, no tocavam nele, pois sempre preferiam evitar fazer qualquer coisa que os obrigasse a ficar perto do pai. Falando com Shirley, era comum Ruth 
se referir aos filhos como se eles fossem muito menores do que efetivamente eram: fceis de levar, tratveis, divertindo-se com qualquer coisa. Talvez ela prpria 
quisesse parecer mais jovem, para enfatizar a diferena de idade que havia entre as duas - quase duas dcadas - e fazer com que parecessem me e filha. A me de 
Ruth tinha morrido h dez anos, e ela sentia falta de ter uma mulher mais velha na sua vida. J a relao de Shirley com a filha no era das melhores, como ela prpria 
havia dado a entender.
     "Miles e eu sempre fomos muito prximos", dissera Shirley. "Mas Patrcia sempre teve um temperamento difcil. Hoje em dia mora em Londres."
     Ruth adoraria saber mais sobre essa histria, mas uma qualidade que ela e Shirley tinham em comum e admiravam uma na outra era uma delicada reticncia, um orgulho 
em apresentar ao mundo uma superfcie imperturbvel. A enfermeira deixou ento de lado a curiosidade, embora mantendo a secreta esperana de vir a descobrir, no 
seu devido tempo, o que fazia de Patrcia uma pessoa to difcil.
     A afeio imediata que surgiu entre Shirley e Ruth baseava-se no mtuo reconhecimento de elas serem iguais: mulheres cujo maior orgulho estava em ter conquistado 
o afeto do marido e conseguido mant-lo. Como membros de uma maonaria, as duas compartilhavam um cdigo fundamental, e, por isso, na companhia uma da outra sentiam-se 
seguras como no se sentiam com nenhuma outra mulher. A cumplicidade que havia entre elas tornava-se ainda mais prazerosa na medida em que era aquecida por uma certa 
noo de superioridade, j que, secretamente, uma tinha pena da outra pelo marido que havia escolhido. Para Ruth, Howard era fisicamente grotesco, e no conseguia 
entender como a amiga, que, apesar de rechonchuda, tinha uma beleza delicada, podia ter aceitado a idia de se casar com ele. J Shirley no se lembrava de ter visto 
Simon uma nica
     vez que fosse, jamais ouvira o nome dele relacionado aos mais distintos trabalhadores de Pagford e havia percebido que a amiga no tinha sequer uma vida social 
das mais rudimentares. Para ela, portanto, o marido de Ruth parecia ser um recluso inadequado.
     Ento vi Miles e Samantha chegarem trazendo Barry - disse Ruth, atacando o assunto principal sem maiores prembulos. Ela tinha muito menos traquejo que Shirley, 
achando difcil disfarar o interesse que sentia pelas fofocas de Pagford, s quais no tinha acesso, enfurnada como vivia no alto daquela colina, isolada do vilarejo 
pelo temperamento anti-social de Simon. - Eles viram mesmo quando tudo aconteceu?
     Viram, sim - respondeu Shirley. - Os dois estavam jantando no clube de golfe. Sabe como , no domingo  noite as meninas j voltaram para o colgio e Sam prefere 
jantar fora. Ela no  l essas coisas na cozinha...
     Aos poucos, naquelas horas de almoo, Ruth foi descobrindo detalhes da histria do casamento de Miles e Samantha. Shirley lhe contou que o filho havia sido 
obrigado a se casar porque a namorada tinha engravidado de Lexie.
     Bom, dos males o menor - disse Shirley com um suspiro, mostran- do-se visivelmente corajosa. - Miles fez a coisa certa. Eu no admitiria que fosse de outro 
jeito. As meninas so uns amores. Pena que no tenham tido um menino: ele seria um timo pai para um garoto. Mas Sam no quis um terceiro filho.
     Ruth ia colecionando as crticas veladas que Shirley sempre fazia  nora. Tinha antipatizado imediatamente com Samantha, anos atrs, quando levou o filho Andrew, 
ento com quatro anos, para o jardim de infncia da St. Thomas e, l, encontrou Samantha e a filha Lexie. Com a risada alta, o decote pronunciado e as brincadeiras 
inconvenientes com as outras mes no ptio da escola, aquela mulher lhe deu a impresso de ser uma perigosa predadora. Por anos a fio, Ruth viu, com desprezo, Samantha 
empinar os seios fartos quando conversava com Vikram Jawanda nos encontros de pais e se esgueirava como podia, arrastando Simon consigo, para evitar encontr-la 
e ter de falar com ela.
     Shirley continuava relatando a histria que tinham lhe contado sobre as ltimas horas de Barry - destacando ao mximo a presena de esprito de Miles, que se 
lembrou de chamar a ambulncia, o apoio que ele deu a Mary Fairbrother, a sua insistncia em permanecer no hospital at a chegada dos Wall. Ruth ouvia tudo atentamente, 
embora com certa impacincia. Shirley era muito mais divertida quando listava as impropriedades de Samantha do que quando exaltava as virtudes de Miles. Alm disso, 
estava louca para contar  amiga uma novidade palpitante.
     E agora temos uma cadeira vazia no Conselho - disse ela, na hora em que Shirley chegou ao ponto da histria em que Miles e Samantha cederam o primeiro plano 
a Colin e Tessa Wall.
 o que denominamos "vacncia' - replicou Shirley, toda solcita.
     Ruth respirou fundo.
     Simon - disse ela, empolgada s de mencionar o fato - est pensando em se candidatar.
     Shirley sorriu automaticamente, ergueu as sobrancelhas numa delicada demonstrao de surpresa e tomou um gole do ch para esconder o rosto. Ruth nem podia imaginar 
que acabava de deixar a amiga transtornada. Estava achando que ela ia ficar encantada em saber que o seu marido e o marido da amiga seriam colegas no Conselho Distrital 
e, ainda por cima, tinha uma vaga desconfiana de que Shirley podia at ajudar nesse sentido.
     Ele me contou ontem  noite - prosseguiu Ruth, com certa pose. - Vem pensando nisso h alguns dias.
     As outras coisas que Simon tinha dito, sobre a possibilidade de receber propina dos Gray para mant-los como fornecedores do Conselho, Ruth tinha tirado da 
cabea, como fazia com todas as tramias, as pequenas falcatruas do marido.
     No imaginava que Simon tivesse interesse em participar da administrao local - disse Shirley, em tom descontrado e agradvel.
     Tem, sim - replicou Ruth, que tambm no imaginava isso. - E est bem animado.
     Ele andou conversando com a dra. Jawanda? - indagou Shirley, tomando mais um gole do seu ch. - Foi ela que sugeriu que ele se candidatasse?
     Ao ouvir isso, Ruth ficou perplexa, e dava para perceber que a sua surpresa era genuna.
     No, eu... Faz tempo que Simon no v a doutora. Quer dizer, ele tem muito boa sade.
     Shirley sorriu. Se Simon estava agindo por conta prpria, sem o apoio da faco dos Jawanda, ento aquela candidatura no era uma ameaa que precisasse ser 
levada a srio. Chegou a ter pena de Ruth, que certamente ia ter uma pssima surpresa. Ela, Shirley, que conhecia todos os que tinham alguma importncia em Pagford, 
teria a maior dificuldade em identificar o marido de Ruth caso ele entrasse na delicatssen. Ser que a pobre Ruth achava que algum votaria nele? Por outro lado, 
ela bem sabia que havia uma pergunta que Howard e Aubrey gostariam que ela fizesse naquelas circunstncias.
     Simon sempre morou em Pagford, no ?
     No - respondeu Ruth. - Ele nasceu em Fields.
     Ah - replicou Shirley.
     Tirou a tampa metalizada do pote de iogurte e pegou uma quantidade considervel com a colher. Saber que Simon provavelmente assumiria uma posio pr-Fields 
era, independentemente das suas chances de se eleger, uma informao importante.
     Vai aparecer no site o que  preciso fazer para se candidatar? - perguntou Ruth, ainda na esperana de receber algum incentivo.
     Ah, vai, sim - respondeu Shirley, num tom um tanto vago. - Acredito que sim.

III
     
     Andrew, Bola e outros vinte e sete alunos passaram o ltimo tempo da tarde de quarta tendo aula do que Bola chamava de "asntica". Aquele era o penltimo dos 
nveis de classificao por rendimento em matemtica; a aula era dada pela professora mais incompetente do departamento: uma mocinha cheia de espinhas, recm-formada, 
incapaz de manter a disciplina nas turmas e que vira e mexe se mostrava a ponto de chorar. Bola, que ao longo do ano anterior havia colecionado uma srie de notas 
baixas, tinha ido para um grupo mais atrasado nessa matria. Andrew, que passava a vida lutando com os nmeros, estava sempre com medo de acabar ficando no pior 
grupo de todos, junto com Krystal Weedon e o primo dela, Dane Tully.
     Os dois garotos sentaram juntos, bem no fundo da sala. s vezes, quando se cansava de divertir a turma ou de incitar os colegas a fazerem mais baguna, Bola 
ensinava ao amigo como resolver uma conta qualquer. O barulho ali dentro era ensurdecedor. A srta. Harvey berrava a plenos pulmes, implorando por silncio. Folhas 
de exerccios apareciam cobertas de obscenidades, os alunos se levantavam o tempo todo para ir at a carteira de um colega e faziam isso arrastando as cadeiras pelo 
cho, e pequenos msseis voavam pela sala sempre que a professora estava olhando para outro lado. Vez por outra, Bola inventava uma desculpa qualquer e saa circulando 
pela sala imitando o andar de Pombinho, com aqueles passos saltitantes e os braos colados ao corpo. Era nessa aula que o humor do garoto se expandia ao mximo. 
Em ingls, matria em que tanto ele quanto Andrew estavam no grupo mais adiantado, Bola no parecia muito interessado em usar Pombinho como material de diverso.
     Sukhvinder Jawanda estava sentada bem na frente de Andrew. Tempos atrs, quando ainda estavam na escola primria, Andrew, Bola e outros colegas tinham puxado 
a trana comprida da menina. O cabelo bem preto preso daquele jeito era a coisa mais fcil de agarrar quando brincavam de pique. Naquela poca, a trana caindo pelas 
costas de Sukhvinder, exatamente como agora, e escondida dos olhos da professora, representava uma tentao irresistvel. S que Andrew j no tinha a mnima vontade 
de puxar aquela trana, nem de tocar qualquer outra parte de Sukhvinder: ela era uma das poucas garotas por quem os seus olhos passavam sem nenhum interesse. Quando 
Bola chamou a sua ateno para esse detalhe, Andrew reparou na penugem escura que bordejava o seu lbio superior. Jaswant, a irm mais velha de Sukhvinder, tinha 
um corpo esbelto e curvilneo, uma cintura fininha e um rosto que, at o surgimento de Gaia, Andrew achava lindo, com as mas salientes, a pele ligeiramente dourada 
e os olhos castanhos amendoados.  claro que Jaswant sempre esteve fora do seu alcance: era dois anos mais velha e a aluna mais inteligente do ltimo ano, com aquela 
aura de quem tem plena conscincia dos prprios atrativos.
     Sukhvinder era a nica ali na sala que no estava fazendo barulho algum. Com as costas encurvadas e a cabea baixada sobre o exerccio, parecia mergulhada na 
mais profunda concentrao. Tinha puxado a manga esquerda do casaco at cobrir a prpria mo e segurou firme a bainha, formando um punho de l. Aquela completa imobilidade 
chegava quase a ser exibicionista.
     - A grande hermafrodita fica sentada ali, quieta, imvel - murmurou Bola, com os olhos pregados na nuca da garota. - Bigoduda, mas com peitos grandes. Os cientistas 
continuam desnorteados diante das contradies da mulher-homem peluda.
     Andrew deu uma risadinha, mas no estava inteiramente  vontade. Teria achado mais divertido se soubesse que Sukhvinder no podia ouvir o que Bola estava dizendo. 
Da ltima vez que foi  casa do amigo, este tinha lhe mostrado as mensagens que vinha enviando regularmente para a pgina dela no Facebook. Andava procurando na 
internet informaes e fotos sobre hirsutismo e vinha postando uma referncia ou uma imagem por dia.
     At que era engraado, mas Andrew ficou meio sem jeito. Na verdade, Sukhvinder no estava provocando aquilo: ela parecia um alvo fcil demais. Andrew gostava 
mais quando Bola soltava a lngua afiada para cima de figuras de autoridade, de colegas pretensiosos ou metidos.
     Separada do seu rebanho de seres barbudos que usam suti - prosseguiu Bola -, ela fica sentada, perdida nos seus pensamentos, imaginando que ficaria bem de 
cavanhaque.
     Andrew riu, mas, depois, se sentiu culpado. Bola, porm, j tinha se desinteressado da brincadeira e estava transformando cada zero da folha de exerccios num 
nus franzido. Andrew voltou a tentar adivinhar onde ficaria a vrgula da casa decimal e a sonhar com a perspectiva da volta para casa no nibus escolar com Gaia. 
Era muito mais difcil arranjar um jeito de ficar de olho nela nessa viagem de volta porque, em geral, ela j estava sentada no nibus quando ele chegava e no tinha 
nenhum lugar por perto. Aquele sorriso compartilhado na reunio da segunda de manh no havia dado em nada. Depois daquele dia, a garota no tinha olhado para ele 
no nibus, nem demonstrado, de um jeito ou de outro, que sabia que ele existia. Desde que se apaixonou por Gaia, quatro semanas atrs, jamais tinha falado efetivamente 
com ela. E ali mesmo, no meio daquela barulheira da aula de "asntica", ficou tentando imaginar algumas formas de puxar conversa com a garota. Foi engraada, no 
foi, aquela reunio da segunda...
     Est tudo bem, Sukhvinder?
     A srta. Harvey, que tinha vindo corrigir o exerccio de Sukhvinder, estava olhando para a garota de boca aberta. Andrew a viu fazer que sim com a cabea e levar 
as mos ao rosto ainda baixado sobre a folha de exerccios.
     Wallah! Amendoim! - disse Kevin Cooper, fingindo sussurrar l da sua carteira duas fileiras mais  frente. - Wallah! Amendoim!
     Ele estava tentando lhes mostrar algo que os dois j haviam percebido: que Sukhvinder, a julgar pelo leve estremecimento dos seus ombros, estava chorando, e 
que a srta. Harvey estava pressionando a garota, numa tentativa desesperada de descobrir o que havia acontecido. A turma, notando uma nova falha na vigilncia da 
professora, comeou a fazer mais barulho ainda.
     Wallah! Amendoim!
     Andrew nunca sabia se Kevin Cooper fazia aquilo de propsito ou sem querer, mas ele tinha um incrvel talento para irritar as pessoas. O apelido Amendoim era 
antigo: vinha desde o tempo da escola primria, e Andrew sempre detestou ser chamado assim. Bola conseguiu fazer o apelido sair de moda, pois nunca o usava, e era 
ele quem ditava as regras em questes como essa. At o nome de Bola ele dizia errado: Wallah havia gozado de certa popularidade, mas s por um breve tempo, e no 
ano anterior.
     Amendoim! Wallah!
     Se manca, seu babaca! - esbravejou Bola bem baixinho. Cooper estava virado para trs, olhando para Sukhvinder, que tinha se encurvado ainda mais e estava com 
a cabea quase encostada na carteira. Ao lado dela, a srta. Harvey, agachada, balanava as mos de um jeito cmico, pois no podia tocar na aluna e no estava conseguindo 
obter nenhuma explicao para aquela tristeza. Alguns outros alunos tinham percebido aquela perturbao nada comum e tambm estavam olhando, mas, l na frente, vrios 
garotos continuavam a fazer a maior baguna, sem notar nada que no fosse o prprio divertimento. Um deles apanhou o apagador que estava na mesa vazia da professora. 
E o jogou longe.
     O apagador atravessou a sala toda e foi bater na parede dos fundos, acertando o relgio, que caiu no cho e se espatifou: pedaos daquelas entranhas de plstico 
e metal voaram para todo lado, e vrias garotas, entre as quais a prpria srta. Harvey, gritaram de susto.
     A porta da sala se abriu e bateu na parede ruidosamente. A turma inteira se calou. Pombinho estava parado ali, vermelho de raiva.
     O que est acontecendo nessa sala? Que barulheira  essa?
     Parecendo um daqueles bonecos de mola, a srta. Harvey se ps de p, ao lado da carteira de Sukhvinder, com um ar culpado e assustado.
     A sua turma est fazendo um barulho infernal. O que est acontecendo aqui?
     A professora parecia ter perdido a fala. Kevin Cooper se inclinou no encosto da cadeira, rindo, olhando da srta. Harvey para Pombinho, deste para Bola e assim 
por diante.
     Mas foi Bola quem falou.
     Bom, para ser absolutamente sincero, pai, o problema  que a gente d de mil nessa pobre mulher aqui.
     A turma inteira caiu na gargalhada. O pescoo da srta. Harvey ficou quase roxo de to vermelho. Balanando-se na cadeira apoiada s nos ps de trs, com um 
jeito descontrado, o rosto impassvel, Bola ficou olhando para Pombinho com uma indiferena desafiadora.
     J chega! - exclamou o vice-diretor. - Se ouvir mais um barulho que seja vindo desta sala, ponho a turma inteira em deteno. Esto entendendo? A turma inteirinha.
     E, quando bateu a porta, os alunos ainda estavam rindo.
     Vocs ouviram o que disse o vice-diretor! - berrou a srta. Harvey, voltando s pressas para a frente da sala. - Silncio! Estou mandando fazer silncio! Voc, 
Andrew, e voc, Stuart, tratem de limpar essa sujeira toda. Catem os pedaos do relgio!
     A essa ordem, seguiram-se os protestos habituais de injustia, reforados pelos gritinhos de algumas garotas. Os verdadeiros causadores daquela destruio, 
de quem todos sabiam que a professora estava com medo, continuavam sentados nas suas carteiras, com um sorriso maroto no rosto. Como s faltavam cinco minutos para 
tocar o sinal da sada, Andrew e Bola ficaram embromando ao mximo, porque, assim, poderiam ir embora deixando aquele trabalho de limpeza inacabado. Enquanto Bola 
provocava mais risos imitando o andar do pai, com aqueles passinhos saltitantes e os braos colados ao corpo, Sukhvinder enxugava os olhos com a mo embrulhada na 
manga do casaco, disfaradamente, e voltava a mergulhar na obscuridade.
     Quando a sineta tocou, a srta. Harvey nem tentou controlar a barulheira e a correria dos alunos porta afora. Andrew e Bola chutaram vrios pedaos do relgio 
para baixo dos armrios dos fundos da sala e penduraram a mochila nas costas.
     Wallah! Wallah! - gritou Kevin Cooper, correndo para alcanmos j no corredor. - Em casa, voc chama Pombinho de pai? Chama mesmo? Fala srio...
     Estava achando que tinha conseguido pegar Bola.
     - Voc  um babaco, Cooper - replicou o garoto, com ar de tdio. E Andrew caiu na gargalhada.
IV

     - A dra. Jawanda est uns quinze minutos atrasada - disse a recepcionista.
     Ah, tudo bem - replicou Tessa. - No estou com pressa.
     J estava entardecendo, e as janelas da sala de espera projetavam nas paredes umas formas de um azul forte. S havia mais duas pessoas ali: uma velha meio aleijada, 
que usava uns chinelos de pano e respirava com dificuldade, e uma jovem me, que lia uma revista enquanto a filha pequena remexia na caixa de brinquedos que ficava 
num canto da sala. Tessa pegou uma velha revista Heat da mesinha de centro, sentou-se e comeou a folhe-la, vendo apenas as figuras. O atraso lhe dava mais tempo 
para pensar no que diria a Parminder.
     Tinham se falado rapidamente por telefone de manh. Cheia de dedos, Tessa se desculpou por no ter ligado imediatamente para lhe comunicar o que acontecera 
com Barry. Parminder lhe disse que no tinha importncia, que Tessa deixasse de ser boba, que ela no tinha ficado chateada com isso. Mas, com a sua longa experincia 
em lidar com pessoas frgeis e suscetveis, Tessa tinha certeza de que, por debaixo daquela carapaa meio exasperada, a mdica estava magoada. Tentou explicar que 
andou absolutamente exausta nos ltimos dois dias e ainda teve de lidar com Mary, Colin, Bola e Krystal Weedon. Disse que estava se sentindo sobrecarregada, perdida 
e incapaz de pensar em outra coisa alm dos problemas imediatos que tinham lhe cado nos ombros. Mas Parminder interrompeu aquelas desculpas interminveis, dizendo-lhe, 
com toda a calma, que ela passasse para v-la mais tarde no consultrio.
     O dr. Crawford, com aquele seu ar de urso de cabelos brancos, apareceu na porta da sua sala, cumprimentou Tessa efusivamente e chamou:
     Maisie Lawford?
     A jovem me teve certa dificuldade em convencer a filha a largar o velho telefone com rodinhas que ela tinha encontrado na caixa de brinquedos. Levada pela 
mo da me para o consultrio do mdico, a menina ficou de olho comprido naquele telefone cujos segredos jamais viria a descobrir.
     Quando a porta se fechou, Tessa percebeu que estava sorrindo feito uma boba e apressou-se a retomar a sua expresso habitual. Ia se tornar uma daquelas senhoras 
horrveis que ficam encantadas com qualquer criana pequena que lhes passa pela frente, resolvem brincar com elas e acabam por assust-las. Adoraria ter tido uma 
filhinha loura e gorducha para fazer companhia ao seu filho moreno e magricela. Que horror, pensou Tessa, lembrando-se de Bola beb,  to esquisito esse jeito como 
uns fantasminhas dos filhos vivos ficam assombrando o corao da gente... Eles nunca vo saber, e ficariam furiosos se soubessem, que o seu crescimento  um luto 
constante.
     A porta do consultrio de Parminder se abriu. Tessa ergueu os olhos.
     A sra. Weedon - disse a mdica. Viu Tessa e lhe deu um sorriso que no era absolutamente um sorriso, mas apenas um estreitamento da boca. A velha mida de chinelos 
de pano se levantou com dificuldade e, mancando, contornou a divisria, acompanhando a mdica. Tessa ouviu a porta se fechar.
     Leu a legenda de uma srie de fotos mostrando a mulher de um jogador de futebol com todos os trajes diferentes que ela havia usado nos cinco dias anteriores. 
Analisando as pernas compridas e esguias da mulher, Tessa se perguntou se a sua vida teria sido diferente se ela tivesse umas pernas assim. E no pde se impedir 
de supor que teria sim, e muito. As suas eram grossas, curtas e no torneadas. Adoraria escond-las o tempo todo dentro de botas; o problema  que era difcil achar 
botas que fechassem nas suas batatas das pernas. Lembrava-se de ter dito a uma menina bem gorducha, l no servio de orientao educacional, que a aparncia no 
tinha a menor importncia, pois o que contava mesmo era a personalidade. Quanta besteira a gente diz para as crianas, pensou ela, virando a pgina da revista.
     Uma porta que no dava para ver dali foi aberta com um golpe seco. Ouviu-se uma voz meio rouca, que gritava.
     Voc s t me fazendo piorar! Isso no t certo! Vim aqui pra ficar melhor! Esse  o seu trabalho...  a sua...
     Tessa e a recepcionista se entreolharam. Em seguida, viraram-se na direo daqueles gritos. Tessa ouviu a voz de Parminder, com aquele sotaque de Birmingham 
ainda perceptvel depois de tantos anos morando em Pagford.
     A senhora continua fumando, sra. Weedon, e isso interfere na medicao que lhe dei. Se parasse de fumar... Os fumantes metabolizam a teofilina muito mais depressa, 
portanto o cigarro no est apenas agravando o seu enfisema, mas tambm afetando a capacidade que o remdio teria de...
     No grita comigo! J t de saco cheio! Vou denunciar voc! Voc me deu a porra do remdio errado! Quero outro mdico! Quero me consultar com o dr. Crawford!
     A velha saiu da sala, mancando, ofegante, com o rosto inteiramente vermelho.
     A vaca dessa paquistanesa vai acabar me matando! No chegue perto dela! - gritou a mulher, dirigindo-se a Tessa. - Ela vai matar voc com esses remdios de 
merda! Sua pqui filha da puta!
     E l se foi ela rumo  sada, com aquelas pernas finas, andando sem muita firmeza com os ps calados de chinelos, a respirao ruidosa, xingando to alto quanto 
lhe permitiam os seus pulmes comprometidos. A porta se fechou s suas costas. Mais uma vez, Tessa e a recepcionista se entreolharam. E a porta do consultrio tambm 
voltou a se fechar.
     Uns cinco minutos depois, Parminder reapareceu. A recepcionista fez questo de ficar olhando fixo para a tela do computador.
     Sra. Wall - disse a mdica, mais uma vez apertando os lbios num daqueles sorrisos que no chegavam a ser um sorriso.
     O que aconteceu? - perguntou Tessa, j sentada diante da mesa de Parminder.
     A nova medicao da sra. Weedon est lhe causando uns problemas estomacais - respondeu a outra, com toda a calma. - Ento, vamos tirar sangue hoje?
 - disse Tessa, a um s tempo intimidada e magoada com a fria atitude profissional de Parminder. - Como  que voc est, Minda?
     Eu? - exclamou a outra. - Tudo bem. Por qu?
     Bom... Barry... Sei o que ele representava para voc e voc para ele.
     Os olhos da mdica se encheram de lgrimas, e ela piscou, tentando elimin-las, mas j era tarde, pois Tessa tinha percebido.
     Olhe, Minda... - principiou ela, pondo a mo gorducha sobre a mo magra de Parminder. Esta, porm, recolheu a mo, como se Tessa a tivesse espetado. Em seguida, 
trada pelo prprio reflexo, comeou a chorar abertamente, incapaz de esconder isso naquela salinha minscula, embora tenha tentado faz-lo virando o mais que pde 
a cadeira giratria.
     Fiquei arrasada quando me dei conta de que no tinha ligado para voc - disse Tessa, sem se calar diante dos imensos esforos que a outra fazia para conter 
os soluos. - Fiquei com dio de mim mesma. Tinha a inteno de telefonar - mentiu -, mas no dormimos, passamos a noite inteira no hospital e, depois, fomos direto 
para o trabalho. Colin desabou no meio da reunio geral quando deu a notcia e acabou tendo um ataque de fria com Krystal Weedon na frente de todo mundo. E, ainda 
por cima, Stuart resolveu matar aula. E Mary naquele estado... De qualquer jeito, me desculpe, Minda. Eu devia ter telefonado.
     ...culo - exclamou Parminder de forma meio inaudvel, pois tinha o rosto escondido atrs de um leno de papel que havia tirado da manga do jaleco. - ... Mary... 
o que mais importa...
     Voc seria uma das primeiras pessoas para quem Barry teria ligado - observou Tessa com tristeza e, para seu grande constrangimento, caiu no choro tambm. - 
Lamento tanto, Minda... - disse ela, soluando -, mas tive que tentar dar apoio a Colin e a um monte de outras pessoas.
     No seja boba - retrucou Parminder, tentando engolir o choro e dando uns tapinhas no rosto magro. - Ns duas estamos sendo bobas.
No estamos, no. Ah, Parminder, deixe de ser to contida, por uma vez na vida...
     Mas a mdica aprumou os ombros magros, assoou o nariz e voltou a se sentar bem ereta.
     Foi Vikram quem lhe deu a notcia? - indagou Tessa timidamente, apanhando alguns lenos de papel da caixa que estava em cima da mesa.
     No - respondeu a outra. - Foi Howard Mollison. L na loja.
     Ai, meu Deus, Minda! Sinto muito.
     No seja boba. Est tudo bem.
     Parminder estava se sentindo um pouquinho melhor depois de ter chorado, e mais receptiva com relao a Tessa, que estava enxugando o prprio rosto sem graa 
e bondoso. E isso a deixava aliviada, pois, agora que Barry tinha partido, Tessa era a nica amiga de verdade que ela tinha em Pagford. (Falando consigo mesma, fazia 
questo de acrescentar "em Pagford", fingindo que, em algum lugar fora daquele vilarejo, ela tinha centenas de amigos leais. Nunca admitiu realmente que tudo o que 
possua eram lembranas da sua turma de escola l em Birmingham, gente de quem a vida a tinha separado h tempos, e os colegas mdicos, com quem havia estudado e 
feito estgio, e que ainda lhe mandavam cartes de Natal, mas nunca vinham v-la, e que ela tampouco visitava.)
     Como est Colin?
     Ah, Minda... - gemeu Tessa. - Ah, meu Deus! Ele agora est dizendo que vai se candidatar para ocupar a vaga de Barry no Conselho Distrital.
     O vinco vertical entre as sobrancelhas escuras e espessas de Parminder ficou ainda mais pronunciado.
     D para imaginar Colin concorrendo numa eleio? - perguntou Tessa, apertando na mo os lenos de papel encharcados. - Tendo que lidar com gente como Aubrey 
Fawley e Howard Mollison? Tentando agir como Barry, determinado a vencer essa batalha por Barry...? Toda a responsabilidade...
     Colin lida com uma srie de responsabilidades no trabalho - interrompeu Parminder.
     Nem tanto - disse Tessa, sem pensar. De imediato, achou que estava sendo desleal e recomeou a chorar. Aquilo tudo era muito estranho... Veio at ali achando 
que ia consolar Parminder, mas, na verdade, era ela que estava desabafando. - Sabe como ele , leva tudo muito a srio, encara tudo como se fosse uma questo pessoal...
     Mas, pesando os prs e os contras, ele d conta de tudo, e muito bem - disse Parminder.
     Ah, sei disso - retrucou Tessa, parecendo cansada. Aquela luta estava escapando das suas mos. - Sei disso.
     Colin era praticamente a nica pessoa por quem a sempre sria e contida Parminder demonstrava simpatia. Em contrapartida, ningum podia dizer o que fosse contra 
ela na frente do vice-diretor: ele era o seu mais ardoroso defensor em Pagford. "Excelente clnica geral", retrucava Colin se algum ousasse critic-la. "A melhor 
que j tivemos por aqui." Parminder no tinha muitos defensores. Era impopular entre a velha guarda do vilarejo, com fama de no gostar de antibiticos e repetir 
sempre as mesmas receitas.
     Se deixarmos as coisas por conta de Howard Mollison, no vai haver eleio nenhuma - disse Parminder.
     Como assim?
     Ele mandou um e-mail para todos os membros do Conselho. Recebi meia hora atrs.
     Virou-se ento para o computador, digitou uma senha e abriu a caixa de entrada. Ajeitou o monitor para Tessa poder ler a tal mensagem. No primeiro pargrafo, 
Howard dizia o quanto lamentava a morte de Barry. No segundo, sugeria que, considerando-se que o primeiro ano do mandato de Fairbrother havia terminado, talvez fosse 
melhor indicar um substituto a ter de enfrentar o dispendioso processo de realizar eleies.
     Ele j tem algum em vista - prosseguiu Parminder. - Est tentando nos empurrar um dos seus aliados antes que um de ns possa impedir. No me espantaria nada 
que fosse Miles.
     Ah, no - replicou Tessa imediatamente. - Miles estava l no hospital com Barry... No, ele estava chateadssimo...
     Ah, quanta ingenuidade, Tessa! - exclamou a mdica, e Tessa ficou chocada com o tom ferino que havia na voz da amiga. - Voc no percebe como  Howard Mollison. 
Ele  um sujeito execrvel, execrvel. No ouviu o que disse quando descobriu que Barry tinha escrito sobre Fields para o jornal. No sabe o que est tentando fazer 
com a clnica de reabilitao. Pois espere s para ver!
     A sua mo tremia tanto que ela precisou fazer algumas tentativas at conseguir fechar a mensagem de Mollison.
     Espere s para ver... - repetiu ainda uma vez. - Bom, mas  melhor irmos logo com isso. J est quase na hora de Laura ir embora. Primeiro, vou verificar a 
sua presso.
     Parminder estava lhe fazendo um favor, atendendo-a assim to tarde, depois da escola. A auxiliar de enfermagem, que morava em Yarvil, ia deixar a amostra de 
sangue de Tessa no laboratrio do hospital antes de ir para casa. Sentindo-se nervosa e estranhamente vulnervel, Tessa arregaou a manga do velho cardig verde. 
A mdica prendeu a braadeira no seu brao. Olhando para Parminder assim mais de perto, via-se nitidamente a semelhana entre ela e a filha mais moa, j que, por 
causa do seu porte fsico to distinto (Parminder era magrinha e Sukhvinder, gorducha), me e filha pareciam bem diferentes. Desse jeito, porm, a semelhana dos 
traos faciais saltava aos olhos: o nariz adunco, a boca larga com o lbio inferior mais carnudo e os grandes olhos redondos e escuros. O brao flcido de Tessa 
doa com a presso da braadeira, e Parminder observava o medidor.
     Dezesseis e meio por nove - disse a mdica, franzindo o cenho. - A sua presso est alta, Tessa. Alta demais.
     Com gestos rpidos e habilidosos, Parminder rasgou o invlucro da seringa descartvel, esticou o brao branco e cheio de pintas de Tessa e enfiou a agulha na 
dobra interna do cotovelo.
     - Vou levar Stuart a Yarvil amanh  noite - disse Tessa, olhando para o teto. - Para comprar um terno para o enterro. No quero nem pensar na cena que vai 
ser se ele tentar ir de jeans. Colin vai ficar uma fera.
     Estava tentando no prestar ateno ao lquido escuro e misterioso que ia enchendo o tubinho de plstico. Tinha medo de que ele pudesse tra-la, revelar que 
no tinha se comportado to bem quanto deveria, permitir que todas as barras de chocolate e os doces que havia comido aparecessem ali sob a forma traioeira da glicose.
     Pensou ento com amargura que seria muito mais fcil resistir ao chocolate se a sua vida fosse menos estressante. J que passava praticamente todo o seu tempo 
tentando ajudar os outros, era difcil ver os doces como algo assim to danoso. Observando Parminder colar as etiquetas nos frascos com o seu sangue, viu-se, embora 
o marido e a amiga pudessem considerar isso uma heresia, torcendo para que Howard Mollison sasse vencedor, evitando, assim, a realizao de uma eleio.
V
     
     Todo dia, Simon Price saa da grfica invariavelmente s cinco horas. Tinha cumprido o seu horrio e pronto. A casa estava  sua espera, limpinha e gostosa, 
l no alto da colina; um mundo bem distante do barulho incessante do seu local de trabalho em Yarvil. Permanecer ali alm da hora de bater o ponto (embora fosse 
agora gerente, Simon nunca parou de pensar como nos seus tempos de aprendiz) eqivaleria a admitir que a sua vida domstica deixava a desejar ou, o que era ainda 
pior, que estava tentando puxar o saco do gerente-geral.
     Hoje, porm, tinha algo a fazer antes de ir para casa. Foi para o estacionamento encontrar o operador de empilhadeira que vivia mascando chicletes. Juntos, 
percorreram as ruas que j iam ficando s escuras, com o garoto indicando o caminho, at chegaram a Fields, passando alis diante da casa onde ele tinha morado. 
H anos que Simon no ia quele lugar: a sua me tinha morrido, e ele no via o pai desde os seus quatorze anos e no fazia idia de onde ele estaria. Ficou aflito 
e deprimido ao ver a sua antiga casa com uma das janelas coberta de tbuas e o mato crescido. A sua falecida me era to caprichosa...
     O rapazinho lhe disse para estacionar no final da Foley Road. Saiu do carro, deixando Simon para trs, e se dirigiu a uma casa de aparncia particularmente 
malcuidada. Pelo que dava para ver  luz da lmpada do poste mais prximo, parecia haver uma pilha de lixo amontoado debaixo de uma das janelas do trreo. Foi s 
ento que Simon se perguntou se tinha sido uma atitude sensata vir buscar o computador roubado no seu prprio carro. Atualmente, com toda a certeza havia cmeras 
de segurana por ali, para vigiar todos aqueles vndalos e delinqentes. Olhou ao seu redor, mas no viu nada nem ningum, a no ser uma mulher gorda que espiava, 
sem disfarar, por uma daquelas janelinhas quadradas que eram todas iguais. Simon a encarou de cara amarrada, mas ela continuou ali, fumando um cigarro. Ele, ento, 
escondeu o rosto com a mo e ficou vigiando atravs do para-brisa.
     O garoto j vinha saindo da tal casa e voltava para o carro carregando com alguma dificuldade o computador dentro de uma caixa. Atrs dele, na soleira da porta, 
Simon viu uma adolescente com um garotinho aos seus ps. Mas, assim que percebeu que ele estava olhando, ela voltou l para dentro, levando a criana consigo.
     Quando o mascador de chicletes chegou mais perto, Simon j foi virando a chave na ignio e ligando o carro.
     Cuidado - disse ele, debruando-se para abrir a porta do carona. - Ponha aqui.
     O garoto ps a caixa no banco, que ainda estava quente. Simon quis abrir e verificar se o que havia ali dentro era exatamente o que ele tinha encomendado, mas 
a noo cada vez mais evidente da prpria imprudncia superou aquela inteno. Contentou-se em sacudir a caixa: era pesada demais para sair do lugar com facilidade, 
e ele queria ir embora dali.
     Tem problema se eu deixar voc aqui mesmo? - gritou, como se o carro j estivesse se afastando.
     Pode me dar uma carona at o Hotel Crannock?
     Desculpe, cara, mas estou indo exatamente pro lado contrrio - respondeu Simon. - At!
     E acelerou. Pelo retrovisor, viu o garoto parado na calada, com ar furioso. Percebeu que os lbios dele tinham formado as palavras "Vai se foder!", mas nem 
ligou. Se casse fora dali bem depressa, poderia evitar que a placa do seu carro fosse gravada num daqueles filmes meio desfocados em preto e branco que s vezes 
passam no noticirio.
     Dez minutos mais tarde, chegou ao entroncamento, mas, mesmo depois de deixar Yarvil para trs, sair da estrada principal e comear a subir a colina rumo s 
runas da abadia, sentia-se tenso e chateado, e no via nem vestgio da satisfao que normalmente experimentava quando ia chegando ao topo da elevao e avistava 
a prpria casa, alm do vale onde ficava Pagford, parecendo um minsculo leno branco no alto da colina do outro lado.
     Apesar de estar em casa h pouco mais de dez minutos, Ruth j tinha comeado a preparar o jantar e estava botando a mesa quando o marido chegou trazendo o computador. 
Ali, em Hilltop House, almoava-se e jantava-se cedo, pois Simon preferia que fosse assim. As exclamaes entusiasmadas de Ruth ao ver o computador s fizeram deix-lo 
mais irritado: ela no sabia o que ele tinha enfrentado; alis, ela nunca entendia que pagar mais barato pelas coisas era algo que envolvia riscos. Por seu turno, 
Ruth percebia imediatamente quando o marido estava num daqueles humores que quase sempre pressagiavam uma exploso, e tentava evitar isso da nica maneira que conhecia: 
comeava a tagarelar sobre o seu dia de trabalho, na esperana que o mau humor se dissipasse quando Simon estivesse de barriga cheia. Contanto,  claro, que no 
acontecesse mais nada que pudesse irrit-lo.
     As seis em ponto, quando Simon j havia tirado o computador da embalagem e descoberto que ele no vinha com manual de instrues, a famlia se sentou para jantar.
     Para Andrew, era evidente que a me estava com os nervos  flor da pele, pois no parava de falar disso ou daquilo num tom que ele conhecia muito bem e com 
uma animao exagerada na voz. Apesar de tantos anos vivenciando o contrrio, ela parecia pensar que, se conseguisse estabelecer um clima bem amistoso, o marido 
no ousaria estragar tudo. O garoto se serviu do bolo de batata (que Ruth deixava pronto para ser descongelado nos dias em que ia trabalhar) e evitou olhar para 
o pai. Tinha coisas mais interessantes em que pensar. Gaia Bawden havia dito "Oi" quando os dois se encontraram na porta do laboratrio de biologia. Falou de um 
jeito automtico e casual, mas no olhou para ele uma nica vez durante a aula.
     Andrew adoraria saber mais sobre garotas... Nunca tinha conhecido nenhuma bem o bastante para compreender como a cabea delas funcionava. Essa falha nos seus 
conhecimentos no chegava a atrapalhar, at o dia em que Gaia entrou no nibus escolar pela primeira vez e ele sentiu um interesse agudo por aquela garota em particular. 
Era um sentimento bem diferente daquele fascnio amplo e impessoal que vinha se intensificando com o passar dos anos, todo voltado para o surgimento de seios e a 
viso de sutis aparecendo por baixo da blusa branca do uniforme, e para a curiosidade meio aflitiva por saber o que a menstruao efetivamente acarretava.
     Bola tinha umas primas que vinham s vezes visit-los. Uma vez, quando foi ao banheiro da casa do amigo logo depois que a mais bonita delas tinha acabado de 
sair de l, Andrew encontrou uma embalagem de absorvente cada no cho, ao lado do cesto de lixo. Aquela era uma evidncia efetiva, fsica, de que havia uma garota 
menstruada bem ali, pertinho dele, o que, para o garoto de treze anos, foi quase como ter visto um cometa raro. Ele teve o bom senso de no contar para Bola o que 
tinha encontrado ou sequer comentar como aquela descoberta tinha sido excitante. Tudo que fez foi pegar a tal embalagem com as pontas dos dedos, jog-la o mais depressa 
possvel dentro do cesto de lixo e lavar as mos, esfregando-as com toda a fora, como nunca tinha feito na vida.
     Andrew passou um bom tempo diante do notebook vendo a pgina de Gaia no Facebook. Aquilo chegava quase a deix-lo mais intimidado que a prpria presena da 
garota. Ficou horas observando fotos de pessoas que ela havia deixado l na capital. Ela vinha de um mundo diferente: tinha amigos negros, asiticos, amigos com 
nomes que ele nunca ia conseguir pronunciar. Havia uma foto dela de mai que ficou definitivamente gravada na sua memria e uma outra em que Gaia aparecia toda encostada 
num garoto de pele cor de caf, to bonito que chegava a ser nojento... No tinha uma espinha, nem uma marquinha que fosse. Examinando todas as mensagens com o maior 
cuidado, Andrew concluiu que o tal sujeito tinha dezoito anos e se chamava Marco de Luca. Ficou ento estudando aquelas mensagens com a concentrao de um decifrador 
de cdigos secretos, mas no conseguia saber se eles continuavam namorando ou no.
     O tempo que Andrew passava no Facebook era geralmente acompanhado de ansiedade, porque Simon, que no entendia muito bem como funcionava a internet e, instintivamente, 
desconfiava dela por ser a nica rea da vida dos filhos em que eles eram mais livres e ficavam mais  vontade que ele, s vezes aparecia no quarto de forma inesperada 
para espiar o que os meninos estavam vendo. Dizia que era s para ter certeza de que os dois no iam fazer a conta subir loucamente, mas Andrew sabia que era apenas 
mais uma manifestao da necessidade que o pai tinha de controlar tudo. Por isso mesmo, sempre que ele ficava bisbilhotando informaes sobre Gaia, deixava o cursor 
bem perto do quadrinho que lhe permitiria fechar a pgina.
     Ruth continuava pulando de um assunto a outro, tentando inutilmente fazer o marido pronunciar mais que uns monosslabos mal-humorados.
     Aaah! - exclamou ela, subitamente. - Ia esquecendo: falei com Shirley hoje, Simon, sobre a sua possvel candidatura ao Conselho Distrital.
     Aquelas palavras atingiram Andrew como se fossem um soco.
     Voc vai se candidatar? - balbuciou ele.
     Simon ergueu as sobrancelhas bem devagar. Um dos msculos das suas mandbulas tremia ligeiramente.
     Por qu? Algum problema? - perguntou, num tom de voz nitidamente agressivo.
     No - mentiu o garoto.
S pode ser piada, porra! Voc? Candidato numa eleio? Puta que pariu!
     Parece at que voc v alguma coisa errada nisso - disse Simon, sempre olhando para o filho.
     No - repetiu Andrew, fitando agora o seu bolo de batata.
     No vejo problema nenhum em me candidatar para o Conselho... - insistiu Simon, que no estava a fim de desistir. Queria dar vazo  sua tenso num catrtico 
acesso de raiva.
     Claro. No tem problema nenhum. Fiquei surpreso, s isso!
     Ser que eu devia ter consultado o senhor antes? - insistiu Simon.
     No.
     Ah, muito obrigado - retrucou ele. O seu queixo estava saliente, como geralmente acontecia quando Simon estava a ponto de perder o controle. - J arranjou emprego, 
seu parasita preguioso de merda?
     No.
     Simon tinha parado de comer e examinava o filho com uma garfada de bolo de batata parada no ar. O garoto voltou a ateno para o prprio prato, decidido a no 
dar mais nenhum pretexto para brigas. A presso do ar ali na cozinha parecia ter subido. A faca de Paul arranhou o prato.
     A Shirley disse - recomeou Ruth, com a voz meio esganiada, determinada a fingir que estava tudo bem at que fosse absolutamente impossvel - que vai estar 
tudo no site do Conselho, Simon. Vai aparecer o que a pessoa tem que fazer para se candidatar.
     Ele ficou calado.
     J que a sua ltima e melhor tentativa no deu certo, Ruth tambm se calou. Tinha medo de saber qual era o motivo do mau humor do marido. Ficou ansiosssima. 
Ela sempre se preocupava demais e no podia evitar. Sabia que ele ficava enlouquecido quando ela lhe pedia para tranquiliz-la. No precisava dizer nada.
     Si?
     Que ?
     Est tudo certo, no est? Com o computador?
     Ruth era pssima atriz. Tentou falar com uma voz calma, descontrada, mas ela saiu trmula e esganiada.
     No era a primeira vez que entravam objetos roubados naquela casa. Simon tambm havia descoberto um jeito de adulterar a medio da eletricidade e fazia uns 
trabalhinhos por fora, l na grfica, para ganhar algum dinheiro extra. Aquilo tudo deixava Ruth com dor de estmago, ou sem conseguir dormir  noite, mas Simon 
tinha um profundo desprezo por gente que no tem coragem de dar um jeitinho nas coisas (e, em parte, o que a encantou nele, desde o comeo, foi que um rapaz assim 
rude e violento, que desprezava as pessoas e tratava quase todo mundo de modo spero e agressivo, tivesse se sentido atrado por ela; que algum to difcil de agradar 
a tivesse escolhido como sendo a nica que valia a pena).
     Que histria  essa? - perguntou Simon, baixinho. Toda a sua ateno se voltou do filho para a mulher e se expressava pelo mesmo olhar fixo, malvolo.
     Bom, no vai ter... nenhum problema, vai?
     Ele ento sentiu uma necessidade brutal de castigar Ruth por ela ter intudo os seus prprios temores e instig-los ainda mais com a sua ansiedade.
     Olha, eu no ia dizer nada - principiou ele, falando devagar para ter tempo de inventar uma histria qualquer -, mas acontece que teve uns problemas, sim, quando 
eles foram roubados. - Andrew e Paul pararam de comer e ficaram olhando. - Parece que um segurana foi espancado. Mas, quando fiquei sabendo, j era tarde demais. 
A nica esperana  que tudo isso acabe no dando em nada...
     Ruth mal conseguia respirar. No podia acreditar que o marido falasse de um assalto violento com toda aquela calma. Isso explicava o seu mau humor quando ele 
chegou em casa. Isso explicava tudo.
     Por isso  fundamental que ningum mencione esse computador - acrescentou Simon.
     Lanou aos trs um olhar feroz para convenc-los dos perigos s pela fora da sua personalidade.
     No vamos dizer nada - replicou Ruth, num sopro de voz.
     A sua imaginao frtil j estava lhe mostrando a polcia batendo  sua porta, o computador sendo examinado, e Simon, detido, injustamente acusado de assalto 
com agravante... Indo para a cadeia.
     Vocs ouviram o seu pai? - indagou aos filhos, num tom pouco mais alto que um sussurro. - No digam a ningum que compramos um computador novo.
     Tudo vai dar certo - observou Simon. - No vai ter problema. Contanto que todo mundo fique de boca calada.
     E se concentrou novamente no bolo de batata. Num relance, os olhos de Ruth foram de Simon aos filhos e voltaram ao marido. Paul empurrava a comida de um lado 
para o outro no prato, em silncio, assustado.
     Mas Andrew no tinha acreditado numa nica palavra do pai.
Seu filho da puta mentiroso! Voc s est querendo deixar ela com medo.
     Quando acabaram de jantar, Simon se levantou e disse:
     Bom, vamos ver se pelo menos essa porra funciona. Levante da - acrescentou, dirigindo-se a Paul -, tire aquele troo da caixa e ponha ele com cuidado, eu disse 
com cuidado, em cima da mesinha. E voc - disse ainda, apontando agora para Andrew - tem aula de informtica, no tem? Ento pode me dizer o que fazer.
     E foi para a sala de estar. Andrew sabia que o pai estava armando para que os dois fizessem alguma besteira: Paul, que era pequeno e estava nervoso, bem podia 
deixar cair o computador, e, com toda a certeza, ele prprio ia se confundir com uma coisa ou outra. L na cozinha, Ruth fazia o maior barulho, lavando a loua do 
jantar. Pelo menos, estava fora da linha de fogo...
     Andrew foi ajudar Paul a levantar o computador, que era bem pesado.
     Ele agenta sozinho! - esbravejou Simon. - Afinal, no  to mariquinhas assim!
     Milagrosamente, Paul, com os braos trmulos, conseguiu pr aquela carga em cima da mesa sem fazer nenhum estrago. Ficou ento parado ali, com os braos pendendo 
ao lado do corpo, impedindo que o pai se aproximasse.
     Saia da frente, seu babaquinha idiota! - berrou Simon. O menino se afastou correndo e ficou olhando l de trs do sof. - Onde  que eu enfio isso? - perguntou 
ele a Andrew, pegando um fio qualquer, aleatoriamente.
Enfia no cu, seu desgraado!
     Se me der ele aqui...
     Estou perguntando onde tenho que enfiar a porra do fio! - insistiu Simon, aos berros. - Voc tem aula de informtica, ento me diga onde ele entra!
     O garoto foi olhar a parte de trs da CPU. Primeiro, mandou o pai enfiar o tal fio no lugar errado, mas depois, por sorte, indicou a entrada certa.
     Estavam quase acabando quando Ruth veio se juntar a eles na sala. Bastou uma olhadela rpida para Andrew perceber que a me no queria que aquela coisa funcionasse. 
Preferia mil vezes que o marido largasse o tal computador num canto qualquer, sem se importar com as oitenta libras gastas na sua compra.
     Simon sentou diante do monitor. Depois de vrias tentativas inteis, ele se deu conta que o mouse sem fio estava sem pilhas. Mandou Paul ir correndo buscar 
umas na cozinha. Quando o menino voltou, o pai tirou as pilhas da sua mo como se ele fosse fugir com elas.
     Com a ponta da lngua aparecendo entre o lbio e os dentes de baixo, o que deixava o seu queixo projetado para a frente de um jeito estpido, Simon agia como 
se a tarefa de enfiar duas pilhas naquele pequeno compartimento fosse a coisa mais complicada do mundo. Ele sempre fazia aquela cara animalesca, meio enlouquecida, 
como um alerta de que estava chegando ao seu limite, descendo ao ponto em que j no respondia mais pelas prprias reaes. Andrew se imaginou saindo da sala e deixando 
o pai se virar sozinho, privando-o da platia que ele tanto gostava de ter quando ia ficando cada vez mais enfurecido. Chegou quase a sentir o mouse lhe batendo 
na cabea no momento em que, na sua imaginao, ele virava as costas para ir embora.
     Entra, porra!
     Simon comeou a fazer um rudo baixo, quase um grunhido, algo que s ele fazia e que combinava perfeitamente com a tal cara animalesca.
     Uuuh... uuh... ENTRA, PORRA! Enfia isso a! , voc! Voc que tem esses dedinhos de menina! - esbravejou ele, batendo com o mouse e as pilhas no peito do filho 
caula.
     Com as mos tremendo, o menino ajeitou os tubinhos metlicos no lugar certo, fechou a tampa plstica do compartimento e devolveu o mouse ao pai.
     Obrigado, Paulinha.
     O queixo de Simon estava to projetado que ele parecia at o homem de Neanderthal. Normalmente, agia como se objetos inanimados estivessem conspirando para 
deix-lo irritado. Mais uma vez, ele ps o mouse em cima do pad.
Tomara que funcione.
     Uma setinha branca apareceu na tela e comeou a deslizar para um lado e para o outro, obedecendo ao comando de Simon.
     Com isso, desatou-se um verdadeiro torniquete de medo. Uma rajada de alvio atingiu os trs espectadores daquela cena, e Simon parou de fazer aquela cara de 
homem de Neanderthal. Andrew visualizou uma fila de japoneses e japonesas de jaleco branco: as pessoas que haviam montado aquela mquina impecvel, todos com dedos 
delicados e habilidosos como os de Paul, inclinando-se para cumpriment-lo, educadssimos e gentis. O garoto abenoou todos eles e tambm as suas famlias. Essa 
gente jamais saberia quanta coisa dependia do bom funcionamento daquele computador em particular.
     Ruth, Andrew e Paul ficaram ali esperando enquanto Simon testava a mquina. Ele abriu uns menus, teve dificuldade em fech-los, clicou em cones cuja funo 
ignorava e ficou todo atrapalhado com os resultados que obtinha, mas j havia descido do plat daquela raiva ameaadora. Depois que conseguiu a custo voltar para 
o desktop, disse, erguendo os olhos para a mulher:
     Aparentemente, est tudo certo, no ?
     Perfeito! - exclamou ela de imediato, com um sorriso forado, como se a ltima meia hora no tivesse existido, ele tivesse comprado o computador nas lojas Dixons 
e instalado tudo ali sem nenhum risco de violncia. -  mais rpido, Simon. Muito mais rpido que o outro.
Ele ainda no se conectou  internet, sua boba.
     E, tambm achei - replicou ele. Olhou ento para os dois filhos. - Isso aqui  novinho e custou caro, portanto, tratem de tomar cuidado com ele, entenderam? 
E no digam a ningum que temos um computador novo - acrescentou. Nesse instante, uma nova onda maligna gelou a sala. - Est bem? Ouviram o que eu disse?
     Os meninos fizeram que sim com a cabea. O rosto de Paul estava tenso e contrado. Sem que o pai percebesse, desenhou um oito na parte externa da perna com 
o dedo fino.
     - E um de vocs v fechar a porra da cortina! Por que ela ainda est aberta?
Porque estvamos todos parados aqui, vendo voc agir como um babaca.
     Andrew fechou a cortina e saiu da sala.
     Mesmo j no quarto, deitado na sua cama, no conseguiu voltar quelas agradveis meditaes sobre a figura de Gaia Bawden. A simples perspectiva de ver o pai 
candidato ao Conselho, surgida assim, do nada, pairava como um gigantesco iceberg que lanava a sua sombra sobre tudo, inclusive Gaia.
     Desde que se entendia por gente, Andrew vira o pai viver satisfeito da vida como prisioneiro do desprezo que sentia pelos outros, fazendo daquela casa uma verdadeira 
fortaleza contra o mundo, um lugar onde o seu desejo era lei e o seu humor ditava o clima que a famlia enfrentaria a cada dia. Quando foi crescendo, o menino comeou 
a perceber que o isolamento quase total em que viviam no era algo normal e comeou a se sentir ligeiramente constrangido com aquilo. Pais de amigos seus perguntavam 
onde ele morava, incapazes de situar a sua famlia. Acontecia de lhe perguntarem se a sua me ou o seu pai pretendiam comparecer a eventos sociais ou beneficentes. 
Havia, s vezes, quem se lembrasse de Ruth na poca da escola primria, quando as mes se encontravam no ptio. Ela era muito mais socivel que Simon. Talvez, se 
no tivesse casado com um homem assim to antissocial, fosse como a me de Bola, que se encontrava com amigos para almoar ou jantar, que participava ativamente 
da vida do vilarejo.
     Nas raras ocasies em que deparava com algum que julgasse digno de sua ateno, Simon adotava aquele falso personagem a seu ver simptico, mas que deixava 
o garoto arrasado. Falava ao mesmo tempo que os outros, contava piadas que no tinham nada a ver e, quase sempre, feria, sem perceber, todo tipo de sensibilidade, 
pois no conhecia direito, e nem ligava muito para isso, as pessoas com quem era obrigado a conversar. Ultimamente, Andrew vinha desconfiando que o pai nem sequer 
percebia os outros seres humanos como criaturas reais.
     Por que o seu pai teria sido tomado pela aspirao de atuar num palco mais amplo era algo que Andrew no conseguia imaginar, mas, sem dvida alguma, a calamidade 
era inevitvel. O garoto conhecia outros pais que eram aquele tipo de gente que patrocina corridas de bicicleta para conseguir dinheiro para a nova iluminao de 
Natal da praa do vilarejo, vende bolos nas festas beneficentes ou organiza clubes do livro. Simon no fazia nada que exigisse alguma colaborao e nunca demonstrou 
o menor interesse por qualquer coisa que no fosse benefici-lo diretamente.
     Imagens terrveis passaram pela cabea fervilhante do garoto: o seu pai fazendo um discurso recheado daquelas mentiras transparentes que a sua me engolia direitinho; 
o seu pai tentando intimidar um adversrio com aquela cara de homem de Neanderthal; perdendo o controle e comeando a despejar todos os seus palavres favoritos 
num microfone: porra, filho da puta, cacete, merda...
     Andrew pegou o notebook, mas desistiu da idia quase imediatamente. Nem lhe ocorreu pegar o celular em cima da mesa. Uma aflio e uma vergonha to grandes 
assim no cabiam num e-mail ou num SMS. Estava sozinho com elas. Nem Bola poderia compreender aquilo. E ele no sabia o que fazer.
     
     Sexta-feira
     
     O corpo de Barry Fairbrother havia sido levado para a funerria. Os talhos profundos e escuros sobre o fundo branco do couro cabeludo, como os riscos deixados 
no gelo pelos patins, ficaram escondidos sob a espessa floresta de cabelos. Frio, descorado e vazio, o corpo, novamente vestido com a camisa e a cala do jantar 
de aniversrio de casamento, estava deitado numa sala,  meia-luz e ao som de uma msica suave. Uma maquiagem discreta havia devolvido  sua pele um brilho semelhante 
ao que ela tinha em vida. Era quase como se ele estivesse dormindo, mas no exatamente.
     Os dois irmos de Barry, a sua viva e os quatro filhos foram se despedir do morto na vspera do enterro. At o ltimo minuto, Mary ficou indecisa, sem saber 
se devia permitir que todos os filhos fossem ver os restos mortais do pai. Declan era um garoto sensvel, propenso a pesadelos. Foi quando ela ainda estava s voltas 
com tal indeciso, na tarde de sexta-feira, que aconteceu um contratempo.
     Colin "Pombinho" Wall resolveu ir se despedir de Barry tambm. Mary, em geral dcil e cordata, achou que aquilo era um pouco excessivo. Falando com Tessa pelo 
telefone, a sua voz foi ficando mais estridente, e, de repente, ela recomeou a chorar, dizendo que ela no tinha planejado um velrio convencional para Barry, que 
aquilo era coisa de famlia... Desfazendo-se em desculpas, Tessa replicou que compreendia perfeitamente e, ento, foi explicar a histria ao marido, que mergulhou 
num silncio magoado, mortificado.
     Tudo que ele queria era ficar a ss junto ao corpo de Barry e prestar uma homenagem silenciosa a um homem que havia ocupado um lugar muito especial na sua vida. 
Tinha despejado nos ouvidos de Barry verdades e segredos que jamais confiara a nenhum outro amigo, e aqueles olhinhos castanhos, brilhantes como os de um rouxinol, 
nunca deixaram de olh-lo de um jeito amvel e caloroso. Barry foi o melhor amigo que Colin teve na vida. Com ele, vivenciou um tipo de camaradagem masculina que 
jamais havia encontrado antes de vir morar em Pagford e que, tinha certeza, nunca mais voltaria a encontrar. O fato de algum como ele, que se sentia um esquisito 
meio excludo, para quem a vida era uma luta diria, ter conseguido ficar amigo daquele eterno otimista, to animado e popular, sempre lhe parecera um pequeno milagre. 
Armou-se ento do que lhe restava de dignidade, decidiu no guardar mgoa de Mary e passou o resto do dia pensando que Barry teria decerto ficado espantado e entristecido 
com aquela atitude da esposa.
     A uns quatro quilmetros de Pagford, num charmoso chal chamado Smithy, Gavin Hughes tentava lutar contra uma depresso que ia ficando cada vez mais intensa. 
Mary tinha ligado um pouco mais cedo. Com uma voz que tremia sob o peso das lgrimas, ela lhe contou que todos os filhos haviam contribudo com idias para o funeral 
do dia seguinte. Siobhan, que vinha cultivando um girassol que ela mesma tinha plantado, ia cort-lo para pr em cima do caixo. Todos os quatro escreveram cartas, 
que seriam enterradas com o pai. Mary tambm escreveu uma e ia bot-la no bolso da camisa do marido, junto do seu corao.
     Gavin desligou o telefone horrorizado. No queria saber das cartas dos filhos de Barry, nem do tal girassol que vinha sendo cultivado h tanto tempo, mas essas 
coisas no lhe saam da cabea enquanto ele comia uma lasanha, sentado sozinho ali na mesa da cozinha. Embora fosse capaz de qualquer coisa para evitar l-la, continuava 
tentando imaginar o que Mary teria dito na carta que escreveu.
     No quarto, um terno preto coberto pelo plstico da lavanderia estava pendurado como um hspede indesejado. Se ficou agradecido pela honra que a viva lhe concedeu, 
reconhecendo-o publicamente como uma das pessoas mais chegadas quele indivduo to popular que era Barry, h muito que essa gratido havia sido suplantada pelo 
medo. Ali, lavando os talheres e o prato na pia da cozinha, Gavin pensou que simplesmente adoraria no comparecer ao enterro. J a idia de ir velar o corpo do amigo 
morto era coisa que no lhe passou e nunca lhe passaria pela cabea.
     Ele e Kay tinham brigado feio na vspera e, desde ento, no voltaram a se falar. Tudo comeou quando a moa lhe perguntou se queria que ela fosse ao enterro 
com ele.
     - Claro que no! - respondeu Gavin, sem conseguir se conter.
     Ao ver a expresso do seu rosto, soube de imediato que ela tinha entendido: Claro que no! As pessoas vo achar que somos um casal. Claro que no! Por que eu 
iria querer voc ali comigo? E, embora esses fossem exatamente os seus sentimentos, o rapaz tentou consertar as coisas.
     - Quer dizer... Voc nem conhecia Barry, no  mesmo? Acho que ficaria meio esquisito, no acha?
     Mas Kay no se deu por satisfeita: tentou pression-lo, faz-lo dizer exatamente o que sentia por ela, o que pretendia, que futuro imaginava para os dois. Gavin 
rebateu as investidas da moa com todas as armas de que dispunha no seu arsenal: foi ora obtuso, ora evasivo e at pedante, pois  incrvel como se pode obscurecer 
uma questo emocional aparentando buscar a exatido. At que ela o mandou embora. Ele obedeceu, mas sabia que aquilo no era o fim. Seria querer demais... O seu 
reflexo na janela da cozinha se mostrava triste e abatido. O futuro que a morte havia roubado a Barry parecia pesar sobre a sua prpria vida como um gigantesco penhasco. 
Gavin estava se sentindo inconveniente e culpado, mas continuava desejando que Kay voltasse para Londres.
     Anoiteceu em Pagford, e, l na antiga casa paroquial, Parminder Jawanda examinava o prprio guarda-roupa, perguntando-se o que deveria usar na despedida de 
Barry. Tinha vrios vestidos e terninhos escuros, mas nenhum deles seria apropriado. E ela continuava olhando as roupas penduradas, inteiramente indecisa.
Use um sri. Shirley Mollison vai ficar irritadssima. Ande, use um sri.
     Que besteira pensar isso! Era uma idia louca, que no tinha nada a ver... Mas o pior era pensar aquilo como se estivesse ouvindo a voz de Barry! Barry estava 
morto. Parminder j tinha suportado cinco dias de profunda tristeza, e, no dia seguinte, iam sepult-lo debaixo da terra. Essa perspectiva lhe parecia bem desagradvel. 
Sempre detestou a idia de enterrar algum, de um corpo ficar deitado l no fundo, intacto, apodrecendo aos poucos, devorado por vermes e moscas. O costume sique 
era cremar os mortos e atirar as suas cinzas em gua corrente.
     Deixou os olhos vagarem pelas roupas no armrio, mas eram os sris, usados nas festas de casamento da famlia e nas reunies l em Birmingham, que acabavam 
sempre chamando a sua ateno. Por que aquela vontade maluca de usar um deles? Parecia algo to estranhamente exibicionista... Estendeu a mo para tocar as dobras 
do seu favorito, um sri azul-escuro com dourado. Parminder tinha usado aquele traje pela ltima vez na festa de Ano-Novo dos Fairbrother, no dia em que Barry tentou 
lhe ensinar dana de salo. Sem muito sucesso, diga-se de passagem, principalmente porque ele prprio no era l muito bom no suingue. Ela, porm, lembrava-se de 
ter rido como poucas vezes rira na vida: loucamente, sem conseguir se controlar, daquele jeito que j vira mulheres bbadas rirem.
     Os sris so elegantes, femininos e indulgentes com relao s formas da meia-idade: a me de Parminder, que j estava com oitenta e dois anos, vestia-se assim 
diariamente. Mas ela prpria no tinha muito o que disfarar, pois continuava esbelta como aos vinte anos. Mesmo assim, pegou aquele corte de tecido comprido e macio, 
botou-o diante do robe, deixando que casse at o cho e acariciasse os seus ps descalos, e ficou observando os delicados bordados que cobriam a sua barra. Usar 
aquele traje seria uma espcie de brincadeira entre ela e Barry, como a histria da casa com cara de vaca e todas as coisas engraadas que ele dizia a respeito de 
Howard quando os dois saam daquelas reunies interminveis e cheias de hostilidades.
     Parminder sentia um peso terrvel no peito, mas o Guru Granth Sahib no exortava amigos e parentes dos mortos a no manifestar tristeza, e sim comemorar a reunio 
do ente querido com Deus? Num esforo para impedir aquelas lgrimas traioeiras de aflorarem, comeou a entoar em silncio a orao da noite, o kirtan sohila.
     
     Amigo meu, saiba que este  o momento oportuno para servir aos santos.
     Para obter benefcios divinos neste mundo e viver em paz e conforto no outro.
     Dia e noite, a vida vai ficando mais curta.
     O mente, encontre o Guru e tudo se resolver...
     
     Deitada na cama, no escuro do quarto, Sukhvinder sabia exatamente o que cada membro da famlia estava fazendo. Logo abaixo dela, ouvia-se o murmrio distante 
da televiso, pontuado pelo riso abafado do irmo e do pai, que assistiam a um programa cmico que passava nas noites de sexta-feira. Podia tambm distinguir a voz 
da irm mais velha, conversando com seus inmeros amigos pelo celular. Mais perto, estava a me, remexendo no armrio embutido do outro lado da parede.
     A garota havia fechado as cortinas e posto, na parte inferior da porta, aquele protetor que mais parecia uma cobra. Aquela cobra dificultava a abertura da porta, 
avisando-a se algum quisesse entrar, j que o seu quarto no tinha chave. Mas tinha certeza de que ningum viria at ali. Ela estava onde deveria estar, fazendo 
o que deveria fazer. Ou pelo menos era o que todos achavam.
     Sukhvinder tinha acabado de realizar um dos seus rituais dirios mais assustadores: abrir a pgina do Facebook e excluir mais uma postagem de um remetente desconhecido. 
Assim que ela bloqueava a pessoa que a andava bombardeando com aquelas mensagens, surgia um novo perfil e comeava tudo de novo. Nunca sabia quando elas iam aparecer. 
Hoje foi uma foto em preto e branco, a reproduo de um cartaz de circo do sculo XIX, que apresentava como uma das suas atraes "A verdadeira mulher barbada".
La Vritable Femme  Barbe, Miss Anne Jones Elliot.
     Era a foto de uma mulher de vestido de renda, com um cabelo preto bem comprido e uma barba e um bigode exuberantes.
     A garota estava convencida de que era Bola Wall quem lhe mandava aquelas coisas, embora pudesse perfeitamente ser qualquer outra pessoa. Dane Tully e os seus 
amigos, por exemplo, que ficavam fazendo uns gru- nhidos meio simiescos sempre que ela falava ingls. Aqueles ali agiriam da mesma forma com quem quer que tivesse 
a sua cor de pele: alunos morenos eram coisa rara na Winterdown. Ela ficava humilhada, sentindo-se uma idiota, principalmente porque o sr. Garry nunca brigava com 
eles. Na verdade, fingia que no estava ouvindo ou que s ouvia o barulho que vinha do fundo da sala. Talvez ele tambm achasse que Sukhvinder Kaur Jawanda era uma 
macaca, uma macaca peluda.
     Ficou deitada ali na cama, por cima das cobertas, desejando com todas as suas foras estar morta. Se conseguisse cometer suicdio usando apenas a prpria vontade, 
faria isso sem qualquer hesitao. Uma morte como a do sr. Fairbrother. Por que no podia acontecer com ela? Melhor ainda, por que os dois no podiam trocar de lugar? 
Niamh e Siobhan teriam o pai de volta, e ela, Sukhvinder, poderia simplesmente ingressar no plano do no existir: sumir, desaparecer.
     A averso que sentia por si mesma era como uma roupa de urtigas que pinicava e queimava por todo lado. Precisava sempre da maior fora de vontade para agentar, 
para ficar imvel, para no sair correndo e fazer a nica coisa que poderia ajudar. Para agir, tinha de esperar que a famlia inteira j estivesse na cama. Mas que 
agonia ficar deitada ali daquele jeito, ouvindo a prpria respirao, consciente do peso intil do prprio corpo feio e repulsivo no colcho. Gostava de pensar em 
afogamento, num mergulho em gua fria e esverdeada, e na sensao de ser lentamente empurrada para o nada...
A grande hermafrodita fica sentada ali, quieta, imvel...
     Deitada no escuro, sentiu a vergonha percorrer todo o seu corpo, como uma erupo ardida. Nunca tinha ouvido aquela palavra at Bola Wall utiliz-la quarta-feira, 
na aula de matemtica. Por conta prpria, no conseguiria descobrir o que ela queria dizer, pois era dislxica, mas no ia precisar fazer isso porque ele teve a 
gentileza de explicar tudinho.
A mulher-homem peluda...
     Ele era pior que Dane Tully, cujas piadinhas eram sempre as mesmas. A lngua malvola de Bola Wall preparava uma tortura novinha em folha, e feita sob medida, 
cada vez que ela aparecia na sua frente. E ela no tinha como tapar os ouvidos. Cada uma das suas piadas, cada um dos seus xingamentos ficavam gravados na memria 
da garota, incrustados ali, como nada que prestasse jamais ficava. Se tivesse uma prova sobre as expresses que ele j havia usado, tiraria o primeiro A da sua vida. 
Peito & Bigode. Hermafrodita. Burra barbada.
     Peluda, burra e gorda. Sem graa e desajeitada. Preguiosa, segundo a me, cujas crticas e irritao desabavam sobre ela diariamente. Um pouco lerda, segundo 
o pai, que dizia essas palavras de um jeito afetuoso; isso, porm, no chegava a abrandar o seu completo desinteresse. Ele podia se dar ao luxo de tolerar as suas 
notas baixas; afinal, tinha Jaswant e Rajpal, que eram sempre os primeiros da turma em todas as matrias.
     Tadinha da Ris - dizia ele, sem maior interesse, depois de passar os olhos pelo boletim da filha.
     Mas a indiferena do pai ainda era prefervel  raiva da me. Parminder parecia incapaz de compreender ou aceitar a idia de ter gerado um filho que no fosse 
brilhante. Se algum professor sugerisse, por menos que fosse, que Sukhvinder devia se esforar mais, a mdica se agarrava a isso com unhas e dentes, com ar triunfante.
     "Sukhvinder desanima com facilidade e precisa acreditar mais na prpria capacidade!" Est vendo s? A professora est dizendo que voc no se esfora, Sukhvinder!
     Com relao  nica matria em que ela conseguiu ficar no segundo nvel, informtica - como Bola Wall no era da mesma turma, ela s vezes tomava coragem e 
levantava a mo para fazer uma pergunta qualquer -, Parminder se limitou a dizer, em tom de descaso:
     Com todo esse tempo que vocs passam na internet, acho incrvel voc no ter ficado no nvel um.
     Nunca lhe passou pela cabea contar aos pais essas histrias de grunhidos de macacos ou da interminvel torrente de maldades de Stuart Wall. Isso eqivaleria 
a confessar que no era s a sua famlia que a via como algum inferior aos outros, algum que no prestava para nada. E, de qualquer jeito, Parminder era amiga 
da me de Stuart Wall. s vezes, a garota se perguntava se Bola no se preocupava com essa relao de amizade, mas chegou  concluso de que ele sabia que ela no 
contaria nada. Stuart Wall percebeu a sua covardia, assim como percebeu o pssimo conceito que ela fazia de si mesma, e era capaz de juntar tudo isso para fazer 
Andrew Price rir. Houve um tempo em que Sukhvinder ficou meio interessada em Andrew Price, mas isso foi antes de compreender que era feia demais para se interessar 
por quem quer que fosse; antes de compreender que era esquisita e ridcula.
     Ouviu as vozes do pai e de Rajpal, que iam ficando mais altas  medida que os dois subiam a escada. O riso do irmo soou bem forte exatamente diante da sua 
porta.
     Olhem a hora! - ouviu a me dizer l do quarto dela. - Ele j devia estar na cama, Vikram!
     A voz do pai lhe chegou ali do corredor, bem de perto, alta e calorosa.
     } est dormindo, Ris?
     Aquele era o seu apelido de criana, que o pai lhe dera por ironia. Jaswant era Jazz, e ela, um beb tristonho, que raras vezes sorria, virou Ris, diminutivo 
de Risadinha.
     No - respondeu Sukhvinder. - Acabei de deitar.
     Bom, talvez lhe interesse saber que o seu irmo aqui...
     Mas o que Rajpal tinha feito foi abafado pelos gritos de protesto e pelos risos do garoto. Ela ouviu Vikram se afastar, sempre implicando com o filho.
     Esperou ento que a casa inteira ficasse em silncio. Aferrava-se  perspectiva do seu nico consolo como teria se agarrado a uma bia, e ficou esperando, esperando 
at todos irem se deitar...
     (E, durante esse tempo de espera, lembrou-se de uma noite, pouco tempo atrs, depois de um dos treinos de remo, quando iam andando no escuro at o estacionamento, 
que ficava perto do canal. A gente fica to cansada depois de remar. Os msculos dos braos e da barriga doem, mas  uma dor boa. Sempre dormia muito bem depois 
de remar. L pelas tantas, Krystal, que vinha ao lado dela, um pouco mais atrs que o resto do grupo, a chamou de pqui idiota.
     Foi assim mesmo, do nada. Todo mundo estava fazendo a maior baguna com o sr. Fairbrother. Krystal achou que estava sendo engraada. Usava "porra" como se fosse 
uma vrgula e parecia no ver diferena entre uma coisa e outra. Naquele momento, disse "pqui" como poderia ter dito "boba" ou "burra". Sukhvinder percebeu que 
tinha desmontado e comeou a sentir aquele calor to conhecido no estmago.
     O que foi que voc disse?
     O sr. Fairbrother se virou para encarar Krystal. Nenhuma das garotas jamais o tinha visto zangado assim antes.
     Nada de mais - respondeu ela, meio assustada, meio desafiadora. - Tava s brincando. Ela sabe que eu tava brincando, n? - perguntou, virando-se para Sukhvinder, 
que, intimidada, balbuciou uma resposta afirmativa.
     Nunca mais repita essa palavra!
     Todas sabiam como ele gostava de Krystal. Todas sabiam que ele tinha pagado do prprio bolso para ela poder viajar com a equipe algumas vezes. Ningum ria mais 
alto que o sr. Fairbrother das piadas que ela contava. Krystal podia ser muito engraada...
     Continuaram andando, e todo mundo ficou muito sem jeito. Sukhvinder tinha medo de olhar para Krystal: estava se sentindo culpada, como sempre, alis.
     Quando estavam chegando perto da caminhonete, Krystal disse:
     Tava brincando, viu? - e falou to baixinho que nem o sr. Fairbrother ouviu.
     E Sukhvinder logo tratou de responder:
     Eu sei.
     Bom... E... Desculpa, t?
     As palavras saram to abafadas que Sukhvinder achou melhor fingir que no tinha ouvido nada. Mas aquilo lavou a sua alma. Restaurou a sua dignidade. No caminho 
de volta para Pagford, foi ela que comeou a cantar, pela primeira vez, a tal msica que era o amuleto da equipe e pediu a Krystal para fazer a parte de Jay-Z.)
     Aos poucos, bem devagarinho, a sua famlia acabou finalmente indo se deitar. Jaswant passou um tempo no banheiro, fazendo uma barulheira danada. A garota esperou 
at a irm terminar de se arrumar, os pais pararem de conversar no quarto, a casa ficar silenciosa.
     Pronto! Agora, no tinha mais perigo. Sentou na cama e tirou a gilete de um furo na orelha do velho coelhinho de pelcia. Tinha roubado essa lmina do estoque 
que o pai guardava no armrio do banheiro. Levantou e, tateando, pegou a lanterna que ficava na estante. Apanhou tambm um punhado de lenos de papel e foi para 
o outro lado do quarto, para aquele cantinho arredondado formado por um dos torrees da casa. Sabia que, ali, a luz ficaria protegida e no poderia ser vista pelas 
frestas da porta. Sentou no cho, com as costas apoiadas na parede, arregaou a manga da camisola e,  luz da lanterna, examinou as marcas deixadas pela sua ltima 
sesso. Ainda eram bem visveis, como riscas escuras no seu brao, mas j estavam cicatrizando. Com um estremecimento de medo, que era um alvio abenoado naquele 
mundinho restrito do seu sofrimento, posicionou a gilete mais ou menos na metade do brao e cortou a prpria carne.
     Foi uma dor quente, aguda, e logo o sangue comeou a brotar. Depois de fazer um corte pouco acima da parte interna do cotovelo, ela o cobriu com os lenos de 
papel, para evitar que o sangue escorresse e manchasse a camisola ou o tapete. Um ou dois minutos mais tarde, Sukhvinder fez outro corte, agora na horizontal, junto 
ao anterior, como os degraus de uma escada, e, mais uma vez, parou para estancar o sangue. A gilete eliminava a dor daqueles pensamentos assustadores e a transformava 
numa ardncia animal de nervos e pele: cada corte era um alvio, uma libertao.
     Finalmente, ela limpou a gilete e verificou se estava tudo certo ao seu redor. Os talhos em interseo sangravam e doam tanto que as lgrimas lhe escorriam 
pelo rosto. Precisava dormir, se a dor deixasse, mas tinha de esperar uns dez a vinte minutos, at os cortes mais recentes pararem de sangrar. Ficou sentada ali, 
com os joelhos encolhidos. Fechou os olhos molhados e se recostou na parede sob a janela.
     Parte do dio que sentia por si mesma tinha ido embora junto com o sangue. A sua mente comeou a vagar, e Sukhvinder pensou em Gaia Bawden, a aluna nova que, 
de forma to inexplicvel, parecia ter gostado dela. Gaia poderia ter ficado amiga de quem quisesse, com a aparncia que tinha e aquele sotaque de Londres, mas sempre 
vinha para perto de Sukhvinder, tanto na hora do almoo quanto no nibus escolar, coisa que a garota no conseguia entender. Dava at vontade de perguntar a Gaia 
que brincadeira era aquela... Todo dia, achava que a aluna nova ia perceber que ela, Sukhvinder, peluda feito uma macaca, lerda e burra, era algum que devia ser 
desprezado e xingado. Com toda a certeza, ela logo ia descobrir que tinha se enganado e, como sempre, Sukhvinder ficaria sozinha, restando-lhe apenas a piedade entediada 
das suas amigas mais antigas, as gmeas Fairbrother.
     
     
     
     Sbado
     
     I
     
     Por volta das nove horas da manh, j no havia mais onde estacionar na Church Row. Vrias pessoas, vestidas de cores escuras, passavam, sozinhas, aos pares 
e em grupos, de um lado a outro da rua, convergindo, como punhados de limalha de ferro atrados por um m, para a So Miguel e Todos os Santos. O passeio calado 
que levava s portas da igreja foi ficando cheio de gente e, de repente, transbordou. Os que no couberam mais naquele espao se espalharam em meio s sepulturas, 
procurando lugares seguros para ficar ali, entre as lpides, temendo pisar nos mortos, mas, mesmo assim, evitando se distanciar muito da entrada do templo. Ningum 
tinha dvidas de que no haveria bancos suficientes para toda aquela gente que viera dizer adeus a Barry Fairbrother.
     Os seus colegas do banco, reunidos perto do mais extravagante dos tmulos da famlia Sweetlove, adorariam que o augusto representante da matriz fosse embora 
e levasse consigo a sua conversa mole e as suas piadinhas infames. Lauren, Holly e Jennifer, integrantes da equipe de remo, separaram-se dos pais e se juntaram  
sombra dos raminhos esponjosos de um teixo. Alguns membros do Conselho, formando um grupo heterogneo, conversavam com ar solene bem no meio do caminho: um punhado 
de cabeas calvas e culos de lentes grossas, outro de chapus de palha pretos e colares de prolas cultivadas. Uns homens dos clubes de squash e de golfe cumprimentavam-se 
discretamente. Velhos amigos da universidade reconheciam-se de longe e tratavam de se reunir. E, no meio disso tudo, circulava o que parecia ser praticamente toda 
a populao de Pagford, envergando as suas roupas mais bonitas e mais escuras. O ar zumbia com aquelas conversas murmuradas, e os rostos se moviam, espiando, esperando.
     O casaco de l cinza de Tessa Wall, o melhor que ela possua, estava to apertado nas cavas que ela no conseguia erguer os braos alm da altura do peito. 
Parada ao lado do filho, num dos lados do passeio, cumprimentava os conhecidos com um sorrisinho triste e um aceno, mas, bem baixinho, quase sem abrir a boca para 
que ningum pudesse perceber, continuava a discutir com Bola.
     Pelo amor de Deus, Stu! Ele era o melhor amigo do seu pai. Pelo menos desta vez, mostre alguma considerao.
     Ningum me avisou que essa merda ia demorar tanto. Voc disse que l pelas onze e meia j teria acabado.
     Veja como fala! Eu disse que devamos sair da igreja por volta das onze e meia...
     ...o que me fez acreditar que estaria acabado, no  verdade? A marquei de encontrar com Arf.
     Mas voc no pode deixar de ir ao enterro, o seu pai  um dos que vo carregar o caixo! Ligue para Arf e diga que o encontro de vocs vai ter que ficar para 
amanh.
     Amanh ele no pode. E, alm disso, eu no trouxe o celular. Pombinho disse que era para no trazer o celular para a igreja.
     No chame o seu pai de Pombinho! Ligue para Arf do meu - disse Tessa, enfiando a mo no bolso.
     No sei o telefone de cor - replicou Bola, o que era uma mentira deslavada.
     Na vspera, Tessa e Colin jantaram sem o filho, pois ele tinha ido de bicicleta para a casa de Andrew, onde iam fazer o tal trabalho de ingls. Pelo menos, 
foi essa a histria que Bola contou para a me, e ela fingiu acreditar. Na sua opinio era perfeito no ter o garoto por perto, porque, assim, ele no poderia aborrecer 
o pai.
     Mas ao menos ele estava usando o terno novo que a me tinha comprado em Yarvil. Na terceira loja em que entraram, Tessa perdeu a pacincia. Todas as roupas 
que Bola experimentava o deixavam parecendo um espantalho, desengonado e mal-ajambrado, e ela acabou achando que ele estava fazendo aquilo de propsito; que, se 
quisesse, poderia preencher aquele terno de uma forma mais conveniente.
     Shhh! - exclamou Tessa, por pura precauo. Bola no estava dizendo nada, mas Colin vinha chegando, trazendo consigo os Jawanda. Naquele estado de agitao 
em que se encontrava, ele parecia estar confundindo a funo de carregador do caixo com a de mestre de cerimnias e foi se postar junto aos portes para receber 
os que chegavam. Parminder tinha um ar sombrio e abatido naquele sri, com os filhos enfileirados s suas costas. J Vikram, de terno escuro, parecia um artista 
de cinema.
     A poucos metros das portas da igreja, Samantha Mollison, parada ao lado do marido, olhava o cu claro e esbranquiado e pensava em todo aquele sol desperdiado 
por cima do teto de nuvens. Estava se recusando a ser expulsa do caminho calado, por mais que isso obrigasse vrias senhoras idosas a resfriar os ps pisando na 
grama: os seus sapatos de verniz de salto alto poderiam afundar na terra macia e acabar imundos.
     Quando algum conhecido os cumprimentava, Miles e Samantha respondiam com simpatia, mas os dois no estavam se falando. Tinham brigado na vspera. Uma ou outra 
pessoa perguntou por Lexie e Libby, que, em geral, vinham passar o fim de semana em Pagford. Desta vez, porm, as duas tinham ido para casa de amigas. Samantha sabia 
que o marido sentia falta delas, pois adorava posar de pater famlias em pblico. Ocorreu-lhe at, num gratificante mpeto de fria, que o marido talvez pedisse 
a ela e s meninas que posassem com ele para a foto dos panfletos de propaganda eleitoral. Adoraria lhe dizer o que achava dessa idia.
     Dava para perceber que Miles estava espantado com a quantidade de gente que tinha vindo at ali. Com toda a certeza, lamentava no desempenhar um papel de destaque 
no servio fnebre que ia comear: com um pblico to grande de eleitores potenciais, aquela seria uma excelente oportunidade de lanar uma campanha sub-reptcia 
para ocupar a vaga de Barry no Conselho. Samantha decidiu no se esquecer de fazer uma aluso sarcstica  tal oportunidade perdida na primeira ocasio favorvel.
     Gavin! - exclamou Miles, ao ver surgir aquela cabea mida e alourada, to familiar.
     Ah, oi, Miles. Oi, Sam.
     A sua gravata preta, novinha, reluzia em contraste com a camisa branca. Sob os olhos, ele tinha umas bolsas arroxeadas. Samantha ficou na ponta dos ps para 
que o rapaz no tivesse como evitar lhe dar dois beijos no rosto e sentir o seu perfume de almscar.
     Quanta gente, no  mesmo? - observou Gavin, olhando ao seu redor.
     Gavin vai segurar uma das alas do caixo - disse Miles  esposa, exatamente do mesmo jeito que teria anunciado que uma criana pequena e no muito promissora 
tinha ganhado um vale-presente de uma livraria como prmio pelos seus esforos. Na verdade, ele ficou um tanto surpreso quando o scio mencionou que tinha merecido 
aquela honra. Havia de certa forma imaginado que ele e Samantha seriam convidados de destaque no servio fnebre, cercados por uma aura de mistrio e importncia, 
j que haviam presenciado aquela morte. Teria sido um belo gesto se Mary, ou algum que lhe fosse mais prximo, houvesse lhe pedido para fazer uma das leituras ou 
dizer algumas palavras, pois, com isso, estariam reconhecendo que ele tinha desempenhado um papel considervel nos ltimos momentos de Barry.
     Samantha, porm, fez questo de demonstrar que a escolha de Gavin no a surpreendia absolutamente.
     Voc e Barry eram bem prximos, no eram, Gav?
     O rapaz fez que sim com a cabea. Estava se sentindo aflito e meio enjoado. Dormiu muito mal  noite: teve pesadelos e acordou de madrugada. No primeiro deles, 
deixava cair o caixo, e o corpo de Barry se estatelava no cho da igreja. No outro, perdia a hora, faltava ao enterro e, quando chegava  So Miguel e Todos os 
Santos, encontrava Mary sozinha, no cemitrio, lvida e furiosa, dizendo-lhe, aos berros, que ele tinha estragado tudo.
     No sei exatamente onde deveria ficar - disse Gavin, olhando ao seu redor. - Nunca fiz isso antes.
     No tem mistrio, rapaz - replicou Miles. - Na verdade, s h uma nica regra: no deixar cair nada! Ha ha ha!
     Aquela risadinha de adolescente fez um estranho contraste com a voz profunda que havia dito a frase. Nem Gavin, nem Samantha sequer sorriram.
     Colin Wall se destacava em meio quela massa de corpos. Para Samantha, a figura comprida e desajeitada do marido de Tessa, com aquela testa alta e cheia de 
bossas, sempre lembrava o monstro de Frankenstein.
     Ah, aqui est voc, Gavin - disse ele. - Acho que deveramos ficar mais perto. Logo, logo eles esto chegando.
     Claro, claro! - replicou o rapaz, aliviado por receber algum comando.
     Colin - disse Miles, fazendo um aceno de cabea.
     Ah, ol - respondeu o outro todo afobado, e logo se afastou, abrindo caminho por entre a multido ali presente.
     Samantha percebeu mais um movimento nas proximidades e ouviu a voz de trovo de Howard:
     Com licena... Ah, desculpe... Estou tentando chegar perto da famlia...
     As pessoas foram se afastando, para evitar aquela barriga, e a figura de Howard se revelou, imensa, num sobretudo de veludo. No seu rastro, surgiram Shirley 
e Maureen, a primeira, discreta e elegante, estava de azul-marinho, a segunda, descarnada como uma ave de rapina, usava um chapu com um veuzinho preto.
     Ol, ol - disse Howard, dando dois beijos estalados nas bochechas da nora. - Como vai, Sammy?
     A resposta de Samantha se perdeu numa estranha movimentao que se espalhou por a toda parte. As pessoas comeavam a recuar para deixar a passagem livre, no 
sem uma certa disputa, pois ningum parecia disposto a abrir mo do seu direito a um lugar perto da entrada da igreja. Quando a multido se dividiu em dois, membros 
de algumas famlias apareceram nas bordas dos grupos como umas tantas sementes isoladas. Samantha avistou os Jawanda, uns rostos cor de caf no meio daquela brancura 
toda. Vikram, absurdamente lindo no seu terno escuro; Parminder de sri (por que tinha se vestido assim? Ser que no sabia que, com isso, estava entregando o jogo 
de bandeja para Howard e Shirley?) e, ao lado dela, Tessa Wall, baixinha e gorducha, com um casaco cinzento que ela mal conseguia abotoar.
     Mary Fairbrother e os filhos vinham andando lentamente pelo passeio, a caminho da igreja. Mary estava terrivelmente plida e parecia vrios quilos mais magra. 
Ser que algum podia emagrecer tanto assim em seis dias? Estava de mos dadas com uma das gmeas e tinha o outro brao passado nos ombros do caula. O mais velho, 
Fergus, vinha logo atrs. A viva andava olhando fixo para a frente, com a boca delicada bem contrada. Mais atrs vinham outros membros da famlia. O cortejo passou 
pela soleira da porta e desapareceu no interior sombrio da igreja.
     De imediato, todos os presentes se dirigiram para as portas, o que provocou um deplorvel congestionamento. Os Mollison se viram entalados na passagem junto 
com os Jawanda.
     Por favor, dr. Jawanda... - bradou Howard e, com um gesto, convidou o cirurgio a entrar primeiro. Tratou, porm, de usar o seu volume avantajado para impedir 
que qualquer outra pessoa passasse  sua frente e foi entrando atrs de Vikram, deixando que ambas as famlias os seguissem.
     Um tapete azul-royal cobria toda a extenso do corredor central da So Miguel e Todos os Santos. Estrelas douradas reluziam no teto abobadado da igreja, e placas 
de cobre refletiam a luz que vinha dos lustres pendentes. Os vitrais das janelas eram elaborados, com cores deslumbrantes. Bem no meio da nave, do lado direito, 
o prprio Arcanjo, envergando uma armadura de prata, olhava o templo l da maior de todas as janelas. Dos seus ombros, saam asas recurvadas de um azul-celeste; 
com uma das mos, empunhava uma espada e, com a outra, segurava os dois pratos dourados de uma balana. Um dos seus ps, calados de sandlias, estava apoiado nas 
costas de um Satans com asas de morcego, uma figura toda em tons de cinza-escuro que se contorcia, tentando se levantar. A expresso do santo era serena.
     Howard parou na altura onde estava o Arcanjo e, com um gesto, indicou o banco  esquerda para o seu grupo. Vikram virou-se para o lado oposto. Enquanto os outros 
Mollison e Maureen iam entrando para se sentar no tal banco, Howard permaneceu plantado no tapete azul-royal e, quando Parminder passou por ele, disse:
     Que horror tudo isso... Barry... Que choque terrvel.
      - replicou ela, com dio.
     Sempre acho que essas roupas a devem ser confortveis. So mesmo? - prosseguiu ele, indicando o sri com um gesto de cabea.
     A mdica no respondeu, limitando-se a se instalar ao lado de Jaswant. Howard tambm se sentou, formando uma prodigiosa barreira que vedava a entrada daquele 
banco a quem quer que ainda pudesse chegar.
     Os olhos de Shirley estavam pregados nos prprios joelhos, em sinal de respeito, e, com as mos postas, ela parecia rezar. Na verdade, porm, estava ruminando 
aquele breve dilogo entre o marido e Parminder. Shirley pertencia a um setor de Pagford que lamentava em silncio que a antiga casa paroquial - construda h muito 
tempo para ser a residncia de um vigrio da chamada Alta Igreja, um sujeito com bastas suas e que dispunha de toda uma criadagem de avental engomado - fosse agora 
a casa de uma famlia de hindus (ela nunca conseguiu entender muito bem qual era a religio dos Jawanda). Achava que se ela e Howard fossem ao templo,  mesquita 
ou sabe-se l que tipo de lugar de culto eles freqentavam, seriam decerto obrigados a cobrir a cabea, tirar os sapatos ou coisa do gnero, caso contrrio, seriam 
objeto de srios protestos. E, no entanto, Parminder no via problema em exibir o seu sri na igreja! E no era que ela no tivesse roupas normais, pois se vestia 
como qualquer um deles diariamente. O que a deixava irritada era essa histria de dois pesos, duas medidas... Nem passava pela cabea da mdica o desrespeito assim 
demonstrado para com a religio deles e, por extenso, para com o prprio Barry Fairbrother, de quem, supostamente, ela tanto gostava...
     Shirley desfez o gesto das mos postas, ergueu a cabea e dedicou toda a sua ateno aos trajes das pessoas que passavam e  quantidade e ao tamanho das coroas 
que haviam sido enviadas. Algumas tinham sido dispostas junto  mesa do altar. Shirley localizou a do Conselho: ela e o marido foram os responsveis pela arrecadao 
do dinheiro para compr-la. Era uma grande coroa redonda, no estilo tradicional, de flores azuis e brancas, as cores das armas de Pagford. Mas tanto as suas flores 
quanto todas as demais ficavam ofuscadas diante do remo em tamanho natural feito de crisntemos de um alaranjado escuro que tinha sido enviado pelas garotas da equipe 
de remo.
     Sukhvinder se virou no banco procurando por Lauren, cuja me, que era florista, havia confeccionado aquele remo. Queria lhe dizer, por gestos que fosse, que 
tinha visto o arranjo e gostado dele, mas, com toda aquela gente ali dentro, era impossvel localizar a garota. Sukhvinder ficou toda orgulhosa por terem feito aquilo, 
principalmente quando percebeu que as pessoas que iam se sentando nos bancos logo mostravam o remo aos seus acompanhantes. Cinco das oito remadoras da equipe tinham 
dado dinheiro para o arranjo. Lauren disse a Sukhvinder que tinha ido atrs de Krystal Weedon na hora do almoo e enfrentado as sacanagens dos amigos dela, que estavam 
sentados, fumando, numa mureta perto da loja de convenincia. Perguntou a Krystal se ela queria contribuir. "Quero, sim. Claro", respondeu a garota, mas no deu 
dinheiro nenhum, e, por isso, o seu nome no estava no carto. E, aparentemente, ela tambm no tinha aparecido no enterro.
     Sukhvinder sentia um peso enorme por dentro, mas a dor no brao esquerdo, aliada s fisgadas mais agudas a cada movimento que ela fazia, funcionava como uma 
espcie de antdoto. E, pelo menos, Bola Wall, todo emburrado naquele terno preto, no tinha ficado perto dela. Nem a olhou quando as suas famlias se encontraram 
por um instante, ainda fora da igreja: estava cerceado pela presena dos pais, como s vezes ficava cerceado pela presena de Andrew Price.
     Na vspera, j mais tarde, o seu cibertorturador annimo tinha lhe enviado uma foto em preto e branco de uma criana da poca vitoriana, nua e coberta de pelos 
escuros. Ela viu a foto pela manh e a deletou enquanto se arrumava para o funeral.
     Quando foi a ltima vez que se sentiu feliz? Sabia que, numa vida diferente, muito antes de as pessoas comearem a reclamar e debochar dela, passou anos vindo 
sentar nessa igreja e ficava toda contente. Entusiasmada, cantava hinos no Natal, na Pscoa e em Pentecostes. Sempre gostou do Arcanjo, com aquele rostinho pr-rafaelita, 
bonito e feminino, e o cabelo louro cacheado... Hoje, porm, pela primeira vez, ela o viu de um jeito diferente, com o p descansando de forma quase descontrada 
naquele demnio escuro que se contorcia. E achou a sua expresso imperturbvel sinistra e arrogante.
     Os bancos estavam lotados. Rudos abafados, passos que ecoavam e sussurros davam vida ao ar poeirento enquanto os menos afortunados continuavam a se enfileirar 
no fundo da igreja, ocupando o espao disponvel junto  parede da esquerda. Algumas almas mais esperanosas percorriam o corredor, p ante p, tentando encontrar 
naqueles bancos repletos um lugar que tivesse passado despercebido. Howard se mantinha firme, impassvel, at que Shirley lhe deu um tapinha no ombro e sussurrou: 
"Aubrey e Julia!"
     Nesse momento, Howard virou o corpo volumoso e acenou com o folheto do servio fnebre para chamar a ateno dos Fawley. O casal veio andando pelo corredor 
atapetado a passos rpidos: Aubrey, no seu terno escuro, alto, magro, com uma calvcie incipiente; Julia, com o cabelo avermelhado preso para trs num coque baixo. 
Sorriram, agradecendo, enquanto Howard chegava para o lado, empurrando os demais para deixar bastante espao para os Fawley.
     Samantha ficou to imprensada entre Miles e Maureen que sentia, de um lado, os ossos pontudos da bacia da viva pressionando o prprio corpo, e, do outro, as 
chaves no bolso do marido. Furiosa, tentou conseguir alguns centmetros a mais naquele banco, mas nem Miles nem Maureen tinham como se mexer. Samantha ficou ento 
olhando fixo para a frente e, para se vingar, voltou o pensamento para Vikram. Fazia mais ou menos um ms que no o via, e ele no tinha perdido nada do seu charme 
desde ento. Era to obviamente, to irrefutavelmente bonito que chegava a ser ridculo, dava vontade de rir. Com as pernas compridas e os ombros largos, sem qualquer 
vestgio de barriga no ponto em que a camisa ia para dentro da cala e aqueles olhos escuros com clios negros e espessos, o mdico parecia um deus em comparao 
com outros homens de Pagford, todos to relaxados, to desbotados, to gordos. Quando Miles se inclinou para sussurrar algumas brincadeiras para Julia Fawley, as 
chaves no seu bolso espetaram a sua coxa, e Samantha imaginou Vikram abrindo o vestido-envelope azul-marinho que ela estava usando. Na sua fantasia, porm, omitiu 
a regatinha do mesmo tom que tinha posto por baixo para esconder a profunda fenda entre os seus seios...
     O rgo parou. O silncio que se instalou era rompido apenas por um burburinho suave que persistiu. As cabeas se viraram: o caixo vinha percorrendo o corredor.
     Os homens que o traziam formavam um grupo to disparatado que chegava a ser quase cmico: os irmos de Barry no tinham mais que um metro e setenta, e Colin 
Wall, que vinha na parte de trs, tinha quase um metro e noventa, o que fazia com que o caixo ficasse bem mais baixo na frente que atrs. O prprio caixo no era 
de mogno envernizado, mas todo feito de uma fibra tranada.
Que diabos!, pensou Howard, indignado. Parece at uma cesta de piquenique!
     Um ar de surpresa se estampou em vrios rostos enquanto o atade de salgueiro ia passando  sua frente, mas havia quem j soubesse dessa novidade de antemo. 
Mary contou a Tessa (que contou a Parminder) que a escolha tinha sido de Fergus, o filho mais velho de Barry: o salgueiro era um material sustentvel, de crescimento 
rpido e, portanto, no causa danos ao meio ambiente. O garoto era um entusiasta das coisas verdes e ecologicamente corretas.
     Parminder preferia mil vezes o caixo de salgueiro queles horrores de madeira macia em que a maioria dos ingleses despachava os seus mortos. A sua av sempre 
tivera um medo supersticioso de que a alma pudesse ficar aprisionada em algo slido e pesado, e no se conformava com a idia de ver os coveiros aparafusarem a tampa 
dos caixes. O atade de Barry foi posto em cima de um estrado recoberto de tecido brocado, e os homens que o carregavam se dispersaram: o filho, os irmos e o cunhado 
do morto dirigiram-se aos bancos da frente, e Colin foi se reunir  sua famlia com aquele seu andar saltitante.
     Por dois segundos vacilantes, Gavin hesitou. Parminder percebeu perfeitamente que ele no sabia para onde ir, e a sua nica opo era percorrer de novo todo 
aquele corredor sob os olhares de centenas de pessoas.
     Mary, porm, deve ter lhe feito um sinal qualquer, pois, vermelho at a raiz dos cabelos, ele foi se sentar no primeiro banco, ao lado da me de Barry. Parminder 
s tinha falado com o rapaz uma vez, quando lhe fez uns exames e tratou da sua clamdia. Depois disso, no voltara a v-lo.
"Eu sou a ressurreio e a vida, disse Jesus; quem cr em mim, ainda que esteja morto, viver. E todo aquele que vive e cr em mim nunca morrer..."
     O vigrio no parecia preocupado com o sentido daquelas palavras, mas sim com a maneira pela qual elas saam da sua boca, de um jeito meio cantarolado e ritmado. 
Parminder conhecia muito bem aquele estilo, pois passou anos assistindo ao culto de Natal com todos os outros pais de alunos da St. Thomas. Mas esse conhecimento 
de longa data no foi o bastante para faz-la aceitar aquele santo guerreiro de rosto plido que a observava l do alto, nem aqueles bancos pesades, de madeira 
escura, aquele altar estranho com a sua cruz dourada cheia de pedrarias ou os cnticos fnebres que ela achava desagradveis e inquietantes.
     Desviou ento a ateno da pretensiosa lenga-lenga do vigrio e voltou a pensar no prprio pai. Ela o viu pela janela da cozinha, estirado no cho, de bruos, 
e o rdio tocando aos brados do alto da casinhola dos coelhos. Ele tinha ficado deitado ali duas horas, enquanto ela, a me e as irms estavam olhando as novidades 
na Topshop. Ainda podia sentir o ombro do pai sob a camisa quente quando ela o sacudiu. Dadiii. Dadiiii.
     Depois, jogaram as cinzas de Darshan no Rea, um riozinho tristonho l de Birmingham. Parminder se lembrava daquela superfcie barrenta, num dia de cu carregado 
do ms de junho, e do filete de minsculos floquinhos brancos e cinzentos que se afastaram boiando.
     O rgo fez um barulho surdo e voltou  vida. A mdica ficou de p, como todos os demais. Avistou a cabea de um louro-avermelhado das gmeas Niamh e Siobhan: 
as duas tinham exatamente a mesma idade que ela quando perdeu Darshan. Parminder sentiu uma onda de ternura, uma dor terrvel e um desejo meio confuso de abra-las 
e lhes dizer que sabia, sabia muito bem, entendia...
     O dia raiou, como se fosse a primeira manh...
     Gavin ouviu um som mais estridente, que vinha da outra ponta do banco: a voz do filho caula de Barry ainda no havia mudado. Sabia que foi Declan que escolheu 
essa msica: mais um dos detalhes repulsivos da cerimnia que Mary tinha resolvido lhe contar.
     O funeral estava sendo um sacrifcio pior do que havia imaginado. Achava que talvez as coisas tivessem sido mais fceis com um caixo de madeira: aquela caixa 
de fibra tranada lhe deu uma conscincia terrvel, visceral, da presena do corpo de Barry ali dentro. O seu peso era chocante. Ser que toda aquela gente que o 
olhava de um jeito complacente enquanto o cortejo ia passando pelo corredor no entendia o que ele estava efetivamente carregando?
     Depois, veio aquele momento pavoroso, quando se deu conta de que ningum tinha guardado lugar para ele e que teria de fazer todo o trajeto de volta, com todos 
olhando, e ir se esconder entre os que tinham ficado de p l atrs... Mas no: foi obrigado a sentar no primeiro banco, terrivelmente exposto. Era como ficar na 
primeira cadeira de uma montanha-russa, tendo de encarar cada uma daquelas guinadas e daquelas descidas medonhas.
     Sentado ali, a poucos centmetros do girassol de Siobhan, sentindo a cabea como uma verdadeira panela de presso, cercado daquela profuso de frsias e lrios 
amarelos, desejou que Kay tivesse vindo com ele. Parecia inacreditvel, mas era isso mesmo. Seria um consolo ter algum que estivesse ao seu lado, algum que simplesmente 
tivesse guardado um lugar para ele. No havia lhe ocorrido que pareceria um pobre coitado comparecendo ao enterro sozinho.
     O hino acabou. O irmo mais velho de Barry foi l para a frente da igreja para dizer algumas palavras. Gavin no entendia como ele podia agentar fazer aquilo, 
com o cadver do irmo bem diante dos olhos, sob o tal girassol (cultivado desde o plantio por meses e meses). Tambm no entendia como Mary podia ficar sentada 
ali, to quietinha, de cabea baixa, aparentemente olhando as prprias mos juntas sobre o colo. O rapaz tentou ento, com toda a dedicao, recorrer s suas referncias 
internas e diluir, assim, o impacto do panegrico.
Ele vai contar como Barry e Mary se conheceram, quando tiver terminado com essas histrias de crianas... infncia feliz, bons tempos aqueles, claro, claro... Ande, 
vamos logo com isso...
     Teriam que pr o corpo de Barry no carro outra vez e percorrer toda a distncia at Yarvil para enterr-lo l, pois o pequeno cemitrio da So Miguel e Todos 
os Santos j havia sido declarado lotado vinte anos atrs.
     Gavin se imaginou baixando o caixo de fibra  sepultura diante dos olhares de toda aquela multido. Traz-lo para dentro da igreja e lev-lo de volta para 
fora no era nada comparado quilo...
     Uma das gmeas estava chorando. Com o rabo do olho, Gavin viu Mary estender o brao e pegar a mo da filha.
Vamos acabar logo com isso, cacete! Por favor!
     Creio que podemos dizer que Barry sempre soube o que queria - disse o irmo do morto, com voz rouca. Tinha provocado uns poucos risos contando as enrascadas 
em que Barry se meteu quando era criana. A tenso que havia na sua voz era palpvel. - Ela tinha vinte e quatro anos quando fomos passar o fim de semana em Liverpool 
com outros rapazes. Na primeira noite, samos do acampamento para ir a um pub, e l, atrs do balco, estava a filha do proprietrio, uma linda loura que era estudante 
e vinha ajudar o pai aos sbados. Barry passou a noite inteira recostado naquele bar, conversando com ela, deixando-a em maus lenis com o pai e fingindo que no 
sabia quem eram aqueles bagunceiros l do canto.
     Ouviu-se um risinho. A cabea de Mary pendeu ainda mais, e ela segurava com toda a fora as mos dos filhos que estavam ao seu lado.
     Naquela noite, quando chegamos  nossa barraca, ele me disse que ia casar com ela. Espere a! Em princpio, quem est bbado aqui sou eu!
     Mais uma risadinha ligeira. - E ele nos obrigou a ir quele mesmo pub na noite seguinte. Quando voltamos para casa, a primeira coisa que fez foi comprar um 
carto-postal e mandar para a tal moa, dizendo que voltaria a Liverpool no fim de semana seguinte. Eles se casaram um ano e um dia depois da data em que se conheceram, 
e acho que todos que conviveram com eles vo concordar que, s de olhar, Barry sabia distinguir o que era bom. Os dois tiveram quatro filhos lindos, Fergus, Niamh, 
Siobhan e Declan...
     Gavin comeou a respirar pausadamente, inspirando, expirando, inspirando, expirando, numa tentativa de no ouvir nada daquilo e se perguntando o que diabos 
o seu prprio irmo arranjaria para dizer nas mesmas circunstncias. Ele no tinha a sorte de Barry, a sua vida romntica no dava uma histria bonitinha... Nunca 
entrou num pub e encontrou ali a esposa perfeita, loura, sorridente, pronta para lhe servir uma caneca de cerveja. Teve Lisa, que, aparentemente, nunca achou que 
ele fosse l grande coisa. Sete anos de batalhas que s faziam se intensificar e que culminaram com um episdio de doena venrea. E, depois, praticamente sem intervalo, 
apareceu Kay, que grudou nele como um molusco agressivo e ameaador...
     Mas, fosse como fosse, ia ligar para ela mais tarde porque estava achando que no agentaria voltar para o seu chal vazio depois de tudo aquilo. Seria honesto: 
diria que o enterro foi terrvel e estressante, e que adoraria que ela tivesse ido com ele. Com toda a certeza, isso poria fim a qualquer sombra que tivesse restado 
por conta da briga. No queria ficar sozinho  noite.
     Dois bancos atrs, Colin Wall soluava de forma discreta, mas audvel, com o rosto enfiado num leno grande e encharcado. A mo de Tessa repousava na coxa do 
marido, pressionando-a delicadamente. Ela estava pensando em Barry: como confiava nele para ajud-la com Colin; como se sentia reconfortada quando riam juntos; como 
era grande a generosidade do amigo morto. Podia v-lo perfeitamente, baixinho e corado, danando aquele suingue com Parminder na ltima festa que deu na sua casa; 
podia v-lo imitando Howard Mollison nas crticas que ele fazia a Fields, ou aconselhando Colin, com aquele tato que s ele era capaz de ter, a encarar o comportamento 
de Bola como coisa de adolescente, e no de sociopata.
     Tessa estava com medo do peso que a perda de Barry Fairbrother poderia ter para o homem que estava ao seu lado. No sabia como conseguiriam lidar com aquela 
ausncia to gigantesca. Tinha medo de que o marido houvesse feito ao morto uma promessa que no teria condies de cumprir e no percebesse que Mary, com quem Colin 
continuava querendo falar, no gostava nada dele. E, em meio a toda aquela ansiedade e todo aquele sofrimento, surgia a sua preocupao habitual, como uma coceira 
persistente: Bola. E como ela poderia evitar uma exploso; como conseguiria faz-lo ir com eles ao enterro ou como poderia esconder de Colin que ele no tinha ido 
- o que, afinal de contas, talvez fosse at mais fcil...
     - Vamos encerrar o servio de hoje com uma cano que as filhas de Barry, Niamh e Siobhan, escolheram e que tem um significado especial para as duas, como tinha 
para o seu pai - disse o vigrio. De certa forma, pelo tom daquela declarao, o religioso conseguiu se isentar do que ia acontecer a seguir.
     O som de bateria que veio dos alto-falantes ocultos era to alto que os presentes se assustaram. Tambm aos brados, uma voz com sotaque americano comeou a 
cantar uh huh, uh huh. Era o rapper Jay-Z.
     
     Good girl gone bad - 
     Take three - 
     Action.
     No clouds in my storms...
     Let it rain, I hydroplane into fame
     Comin' down with the Dow Jones...
     
     Alguns dos presentes acharam que devia ter havido algum engano. Howard e Shirley se entreolharam, indignados. "Garota boazinha que virou m... Tomada trs. 
Ao. No existem nuvens nas minhas tempestades... Pode chover, que eu hidroplano para a fama... Caindo junto com o Dow Jones..." O que era aquilo? Mas ningum desligou 
o som ou veio correndo para pedir desculpas. De repente, uma possante voz feminina comeou a cantar:
     
     You had my heart
     And we'll never be worlds apart
     Maybe in magazines
     But you'll still be my star...
     
     Ao som daquela declarao - "Voc teve o meu corao e nunca estaremos em mundos separados. Talvez em revistas, mas voc vai continuar sendo a minha estrela..." 
-, o caixo veio voltando pelo corredor central seguido por Mary e os filhos.
     
     ...Now that it's raining more than ever 
     Know that we'll still have each other 
     You can stand under my umbuh-rella 
     You can stand under my umbuh-rella
     
     "Agora que est chovendo mais que nunca, saiba que ainda temos um ao outro. Pode ficar debaixo do meu guarda-chuva. Pode ficar debaixo do meu guarda-chuva", 
prosseguia dizendo a cano, e, lentamente, todos foram deixando a igreja, tentando no andar ao ritmo da msica.
     Andrew Priee foi saindo da garagem segurando a bicicleta de corrida do pai pelo guido e tomando cuidado para no esbarrar no carro. Achou melhor carreg-la 
para descer os degraus de pedra do jardim e passar pelo porto de grade. J na rua, ps o p num dos pedais, tomou impulso por uns poucos metros e passou ento a 
outra perna por cima do selim. Sem tocar nos freios, saiu voando pelo declive vertiginosamente acentuado da ladeira, rumo a Pagford.
     As cercas vivas e o cu tornaram-se borres. O garoto se imaginava num veldromo, com o vento soprando o seu cabelo ainda molhado e fustigando o rosto que ele 
tinha acabado de esfregar. Na altura do jardim triangular dos Fairbrother, Andrew acionou o freio, porque, meses atrs, fez aquela curva em alta velocidade e acabou 
caindo. Teve ento que voltar para casa na mesma hora, com o jeans rasgado e um dos lados do rosto todo esfolado...
     Tirou uma das mos do guido e, sem pedalar, desceu a Church Row, deliciando-se com mais uma corrida ladeira abaixo, embora desta vez em menor escala. Reduziu 
ligeiramente a velocidade quando viu que estavam botando um caixo num carro fnebre parado diante da igreja e que uma multido em trajes escuros vinha saindo por 
aquelas pesadas portas de madeira. Pedalou ento furiosamente at a esquina, onde poderia ficar meio escondido. No queria ver Bola sair da igreja ao lado de um 
Pombinho arrasado; no queria v-lo usando o tal terno vagabundo e a gravata que o garoto tinha descrito com um desprezo cmico na vspera, durante a aula de ingls. 
Seria como surpreender o amigo fazendo coc...
     Contornando a praa bem devagar, Andrew afastou o cabelo do rosto com uma das mos, perguntando-se o que o ar frio teria feito com as suas espinhas de um vermelho 
vivo e se o tal sabonete antibacteriano teria melhorado um pouco que fosse a aparncia irritada do seu rosto. E ensaiou a desculpa que usaria: estava voltando da 
casa de Bola (coisa que poderia perfeitamente ser verdade. No haveria por que duvidar). Nesse caso, era to bvio passar pela Hope Street quanto dobrar na primeira 
transversal para chegar at o rio. Gaia Bawden (se, por acaso, estivesse na janela; se, por acaso, o visse; se, por acaso, o reconhecesse) no teria portanto motivos 
para achar que ele tinha passado por ali por causa dela. No que Andrew estivesse contando com a possibilidade de precisar se explicar, mas mesmo assim achou melhor 
ter a desculpa preparada porque acreditava que aquilo o deixaria com um ar despreocupado.
     S queria saber qual era a casa dela. J tinha passado duas vezes de bicicleta, em fins de semana, pela rua de casas geminadas, sempre com os nervos tensos. 
At agora, porm, no havia conseguido descobrir qual daquelas construes idnticas abrigava o Graal. Tudo que sabia, graas a uns olhares furtivos pelas janelas 
sujas do nibus escolar, era que a garota morava do lado direito, numa das casas de nmero par.
     Quando chegou  esquina, tratou de assumir um ar bem descontrado, fazendo de conta que estava pedalando tranqilamente em direo ao rio pelo caminho mais 
curto, mergulhado nos prprios pensamentos, mas no to distrado a ponto de no reconhecer uma colega de escola caso se encontrassem...
     E ali estava Gaia. Parada na calada. As pernas de Andrew continuaram pedalando, mas ele j no sentia os pedais e, de repente, teve plena conscincia de estar 
se equilibrando numas rodas bem finas. Ela remexia na bolsa de couro, com o cabelo castanho-acobreado lhe caindo no rosto. A casa cuja porta estava entreaberta por 
trs dela tinha o nmero dez. Uma camiseta preta curtinha, um pedao de pele aparecendo, um cinto largo e um jeans bem justo... Quando ele j tinha quase ultrapassado 
a casa, Gaia fechou a porta e se virou. O cabelo voltou a descobrir o seu rosto lindo e ela disse, bem nitidamente, com aquele seu sotaque londrino: "Ah, oi!"
     Oi - respondeu Andrew. E as suas pernas continuaram a pedalar. Seis metros, doze metros. Por que no parou? A surpresa o manteve em movimento, e ele nem sequer 
ousou olhar para trs. J estava no final da rua. S no vai cair, porra! Dobrou a esquina, atordoado demais para avaliar se o que sentia por t-la deixado para 
trs era mais alvio ou desapontamento.
Puta merda!
     Seguiu pedalando pelo trecho arborizado que ficava aos ps da colina Pargetter, ponto em que o rio reluzia de forma intermitente por entre as rvores, mas tudo 
que conseguia ver era a imagem de Gaia gravada nas suas retinas como um neon. A estradinha se transformou numa trilha de terra batida, e o ventinho que vinha do 
rio acariciou o seu rosto, que, achava ele, no havia ficado vermelho, j que tudo aconteceu depressa demais.
     Puta que pariu! - exclamou ele em voz alta, dirigindo-se ao ar fresco e  trilha deserta.
     Empolgado, ficou revolvendo aquele tesouro magnfico e inesperado: o corpo perfeito, revelado pela camiseta e pelo jeans justos; atrs dela, o nmero dez numa 
porta azul com a tinta descascando, e aquele "Ah, oi" dito de um jeito to natural, to espontneo... O que significava que a sua fisionomia estava definitivamente 
gravada em algum canto da mente que vivia por trs daquele rosto deslumbrante!
     A bicicleta comeou a sacolejar no caminho que agora era mais irregular e pedregoso. Extasiado, Andrew s desmontou quando sentiu que estava comeando a perder 
o equilbrio. Saiu empurrando a bicicleta por entre as rvores at chegar  margem estreita do rio, onde a largou no cho, em meio s anmonas-do-bosque que tinham 
se aberto como estrelinhas brancas desde a ltima vez que estivera ali.
     Quando o pai resolveu lhe emprestar a bicicleta, disse:
     - No se esquea de botar a corrente se for entrar em alguma loja. Estou lhe avisando: se ela for roubada...
     Mas a corrente no era grande o bastante para contornar o tronco daquelas rvores, e, de qualquer forma, quanto mais longe Andrew ficava do pai, menos medo 
tinha dele. Ainda pensando naqueles centmetros de barriga  mostra e no lindssimo rosto de Gaia, foi andando at o ponto em que a margem do rio se encontrava com 
a encosta erodida da colina que se projetava como um penhasco rochoso, caindo a pique sobre a gua esverdeada que corria ali embaixo.
     Um restinho estreito e escorregadio da margem do rio contornava o sop da elevao. A nica maneira de atravess-lo, se os seus ps eram agora duas vezes maiores 
que da primeira vez que fez aquele percurso, era ficar de lado, com o corpo colado  pedra escarpada, e ir se agarrando a razes e a qualquer ressalto da rocha, 
por menor que fosse.
     Conhecia muito bem aquele cheiro de musgo que vinha do rio e da terra mida do solo, como tambm conhecia a sensao daquela nesga de terra e mato sob os seus 
ps, e as fendas e pedras que procurava com as mos na escarpa da colina. Bola e ele haviam encontrado o esconderijo secreto quando tinham onze anos. Sabiam perfeitamente 
que o que estavam fazendo era proibido e perigoso, pois j haviam sido alertados com relao ao rio. Apavorados, mas decididos a no confessar isso um ao outro, 
os dois meninos entraram por aquela passagem traioeira, agarrando-se a qualquer salincia que encontrassem no paredo de pedra e depois, quando chegaram  parte 
mais estreita, segurando firme na camiseta do companheiro.
     Embora a sua ateno estivesse longe dali, anos e anos de prtica permitiram que Andrew fosse se esgueirando junto  slida muralha de terra e rocha, com a 
gua correndo a centmetros dos seus tnis. Depois, baixando a cabea e com um movimento gil, penetrou pela fenda que haviam descoberto na colina tantos anos atrs. 
Na ocasio, aquilo lhes pareceu uma recompensa divina pela ousadia que haviam demonstrado. Agora, j no conseguia ficar de p ali dentro, mas o lugar, pouco maior 
que uma barraca de acampamento para duas pessoas, era grande o bastante para que dois adolescentes ficassem deitados, um ao lado do outro, com o rio correndo l 
fora e as rvores recortando o pedacinho de cu que dava para ver pela abertura triangular da gruta.
     Quando estiveram naquele local pela primeira vez, cavaram a parede dos fundos com uns gravetos, mas no encontraram nenhuma passagem secreta que levasse  abadia 
que ficava l no alto. Contentaram-se, porm, com o fato de s eles terem descoberto aquele esconderijo e juraram que tal descoberta seria o seu segredo para o resto 
da vida. Andrew tinha uma vaga lembrana de os dois terem feito um juramento solene, cuspindo e dizendo palavres. Logo que encontraram aquela pequena gruta, batizaram-na 
de Caverna, mas, de uns tempos para c, tinham passado a cham-la de Pombal.
     O esconderijo tinha cheiro de terra, embora o teto inclinado fosse pura pedra. Uma linha verde-escura mostrava que a gua havia invadido aquela espcie de gruta 
em algum momento, cobrindo-a praticamente toda. O cho estava repleto de guimbas e filtros dos cigarros que os dois tinham fumado ali dentro. Andrew se sentou, com 
as pernas penduradas sobre a gua esverdeada que corria mais abaixo. Tirou do bolso do casaco os cigarros e o isqueiro que tinha comprado com o ltimo dinheiro que 
ganhou de aniversrio, j que, agora, a sua mesada havia sido cortada. Acendeu um cigarro, deu uma profunda tragada e se ps a reviver o glorioso encontro com Gaia 
Bawden com o mximo de detalhes que conseguiu: cintura estreita e quadris curvilneos; pele clara aparecendo entre couro e camiseta; boca grande, de lbios carnudos; 
"Ah, oi". Foi a primeira vez que a viu sem o uniforme da escola. Onde estaria indo assim, sozinha, com aquela bolsa de couro? O que teria para fazer em Pagford numa 
manh de sbado? Talvez fosse pegar o nibus para Yarvil. O que ser que Gaia aprontava quando ele no podia v-la? Que mistrios femininos a absorviam?
     Andrew se perguntou ento pela ensima vez se era possvel que carne e ossos dispostos daquele jeito abrigassem uma personalidade banal. Nunca tinha pensado 
nisso antes: a idia de um corpo e uma alma como entidades separadas jamais tinha lhe passado pela cabea at ele dar com os olhos em Gaia. Mesmo quando tentava 
imaginar como seriam os seus seios e como seria passar a mo neles - a partir do que pudera perceber atravs de uma blusa de uniforme ligeiramente translcida, quando 
tudo que via era um suti branco -, o garoto no podia acreditar que a atrao que ela exercia sobre ele fosse exclusivamente fsica. Gaia tinha um jeito de andar 
que mexia com ele tanto quanto msica, a coisa que o tocava mais que tudo no mundo. Com toda a certeza, o esprito que animava aquele corpo incomparvel s podia 
ser tambm algo fora do comum. Por que a natureza faria um frasco como aquele se no fosse para lhe dar um contedo ainda mais precioso?
     Andrew sabia como era uma mulher nua, pois os pais de Bola no controlavam o computador que ficava no quarto do filho. Juntos, os dois j tinham navegado por 
todos os sites porn gratuitos que conseguiram encontrar: vulvas depiladas, lbios rosados bem afastados para mostrar aberturas escuras e profundas, bundas arreganhadas 
revelando o buraquinho do nus, bocas pintadssimas, smen escorrendo. A sua excitao era sempre escorada pela certeza assustadora de que s daria para saber que 
a sra. Wall estava se aproximando quando ela chegasse naquela parte da escada que rangia. s vezes, encontravam umas coisas to esquisitas que caam na gargalhada, 
muito embora o garoto no soubesse dizer exatamente se aquilo o deixava mais excitado ou mais enojado (chicotes e selas, arreios, cordas, mangueiras. Viram at, 
e, dessa vez, nem Bola conseguiu rir, uns apetrechos metlicos fotografados bem de perto, agulhas espetadas na carne macia, rostos de mulheres apavoradas, gritando).
     Bola e ele tinham se tornado especialistas em peitos siliconados, aquelas coisas enormes, firmes e bem redondas.
     - Plstica - dizia um deles, com ar impassvel, diante do monitor, com a porta do quarto trancada para barrar a entrada dos pais de Bola. Na tela, a loura de 
braos erguidos estava sentada a cavalo num homem peludo, com os seios de mamilos escuros saltando do peito estreito como duas bolas de boliche. Debaixo de cada 
um deles, umas linhas finas e rosadas mostravam o lugar onde o silicone havia sido implantado. Olhando para aqueles seios, dava quase para saber como seriam ao toque 
da mo: firmes, como se houvesse uma bola de futebol por baixo da pele. Andrew no podia imaginar nada mais ertico que seios naturais: macios, levemente porosos, 
talvez um tanto maleveis, e os mamilos (essa era a sua expectativa) contrastando nitidamente com o resto.
     E,  noite, todas aquelas imagens se misturavam s possibilidades oferecidas pelas garotas reais, garotas humanas, e o pouco que dava para perceber por baixo 
da roupa quando se conseguia chegar perto o bastante. Niamh era a menos bonita das gmeas Fairbrother, mas foi quem se mostrou mais disponvel naquele auditrio 
abafado durante a tal festa de Natal. Meio escondidos pela velha cortina do palco, os dois ficaram se agarrando, e Andrew conseguiu enfiar a lngua na boca da garota. 
As suas mos chegaram at a tira do suti e s no foram adiante porque ela ficou o tempo todo tentando impedi-lo de fazer o que pretendia. O que mais o estimulou 
foi saber que, em algum lugar ali por perto, no escuro, Bola estava indo mais longe. E, agora, o seu crebro pulsava e transbordava com a imagem de Gaia. Ela no 
era s a garota mais sexy que jamais tinha visto, mas tambm provocava nele um outro desejo inteiramente inexplicvel. Certas modulaes num acorde, certos ritmos 
o faziam estremecer bem l no fundo, e alguma coisa em Gaia Bawden provocava a mesma sensao.
     Acendeu um cigarro no outro e jogou a guimba na gua. Ouviu ento o rudo to conhecido de passos arrastados. Debruou-se e viu Bola, ainda com o terno do enterro, 
colado ao paredo de pedra, agarrando-se aqui e ali para percorrer a estreita faixa de terra que levava  gruta onde Andrew estava.
     Oi, Bola.
     Oi, Arf.
     O garoto encolheu as pernas para que o amigo pudesse entrar no Pombal.
     Puta que pariu! - exclamou Bola, assim que passou pela fresta na rocha. Estava parecendo at uma aranha esquisita, com aquelas pernas e aqueles braos compridos, 
e ainda mais magro no terno preto.
     Andrew lhe deu um cigarro. Bola sempre acendia os cigarros como se estivesse ventando muito, com uma das mos em concha para proteger a chama e o rosto ligeiramente 
franzido. Deu uma tragada, soltou um anel de fumaa para fora da pequena gruta e afrouxou a gravata cinza-escuro que trazia no pescoo. Parecia mais velho e at 
mesmo menos bobo com aquele terno cheio de terra nos joelhos e nos punhos, marcas do trajeto at o esconderijo.
     Quem visse ia achar que eles tinham um caso mesmo - disse o garoto, depois de dar mais uma profunda tragada no cigarro.
     Pombinho estava muito arrasado, ?
     Arrasado  pouco! Ele estava tendo uma crise histrica. Soluava feito sei l o qu. Pior que a porra da viva.
     Andrew riu. Bola soltou mais um anel de fumaa e ficou mexendo numa das orelhas enormes.
     Ca fora mais cedo. Ainda nem tinham enterrado ele.
     Continuaram a fumar em silncio, olhando para o rio lamacento. Nesse meio-tempo, Andrew ficou pensando nas palavras do amigo, "Ca fora mais cedo": quanta autonomia 
Bola parecia ter, em comparao com ele mesmo... Simon e a sua fria formavam uma barreira entre Andrew e uma boa dose de liberdade. L em Hilltop House, acontecia 
de algum ficar de castigo s porque estava em determinado lugar em determinada ocasio. Uma vez, a imaginao do garoto foi atrada por um estranho tpico da aula 
de filosofia e religio em que se discutiram os deuses primitivos, com toda a sua ira e violncia arbitrrias, e as tentativas das civilizaes daqueles tempos no 
sentido de aplac-las. Andrew pensou ento na natureza da justia tal como ele a conhecia: o pai como um deus pago, e a me como a alta sacerdotisa do culto, tentando 
interpretar e interceder, geralmente em vo, mas, mesmo assim, e apesar de todas as evidncias, insistindo em afirmar que havia uma magnanimidade e uma sensatez 
por trs das atitudes da sua deidade.
     Bola apoiou a cabea na parede de pedra do Pombal e ficou soprando uns anis de fumaa para o teto. Estava pensando no que queria dizer a Andrew. Passou todo 
o servio fnebre, enquanto o pai soluava com o rosto enfiado no leno, ensaiando mentalmente um jeito de comear. Estava to empolgado com a perspectiva de contar 
que mal conseguia se conter, mas tinha decidido que no ia falar assim de repente. Para ele, contar era quase to importante quanto fazer. No queria que Andrew 
achasse que ele tinha vindo at ali s para lhe dizer aquilo.
     Sabe como era o Fairbrother l no Conselho? - perguntou Andrew.
     Sei - respondeu Bola, adorando que o amigo tivesse puxado conversa.
     Docinho de Coco est dizendo que vai se candidatar!
     Vai mesmo? - exclamou Bola, franzindo as sobrancelhas. - Que diabo deu nele?
     Ele acha que Fairbrother estava levando propina de um fornecedor qualquer - respondeu Andrew, que tinha ouvido uma conversa entre os pais na cozinha naquela 
mesma manh. E aquilo explicava tudo. - Est querendo entrar na jogada tambm.
     Mas no era Barry Fairbrother - disse Bola, rindo e batendo a cinza do cigarro no cho. - E no aconteceu no Conselho Distrital. Foi um cara chamado sei l 
o qu Frierly, l em Yarvil. Ele era do Conselho de Administrao da Winterdown. Pombinho teve um ataque. Os jornalistas comearam a ligar pedindo que ele falasse 
sobre o assunto e todas essas coisas. O tal do Frierly se ferrou. Docinho de Coco no l a Gazeta?
     Andrew ficou olhando fixo para o amigo.
      a cara dele!
     Apagou o cigarro no cho de terra, envergonhado com a burrice do pai. Mais uma vez ele tinha entendido tudo errado. Desprezava a comunidade local, no dava 
a mnima para as questes do vilarejo e tinha o maior orgulho do isolamento em que viviam naquela casinha vagabunda l no alto da colina. De repente, ouve uma coisa 
qualquer que no tem nada a ver e, por conta disso, decide expor a famlia inteira ao ridculo.
     Safado esse tal de Docinho de Coco, hein? - disse Bola.
     Era assim que Ruth chamava o marido. Uma vez, quando ficou para lanchar na casa deles, Bola ouviu a me do amigo usar esse apelido e, desde ento, nunca mais 
se referiu a Simon de outra forma.
     Se ... - respondeu Andrew, pensando se conseguiria dissuadir o pai de se candidatar contando-lhe que ele estava pensando no homem errado e no Conselho errado.
     Que coincidncia... Pombinho tambm vai se candidatar - prosseguiu Bola, soltando a fumaa pelo nariz e olhando a parede da gruta alm da cabea de Andrew. 
- Ser que os eleitores vo votar no babaca um - acrescentou - ou no babaca dois?
     Andrew riu. Poucas coisas lhe pareciam mais engraadas que ouvir o prprio pai ser chamado de babaca por Bola.
     Agora, saca s isso aqui - prosseguiu o garoto, deixando o cigarro preso entre os lbios e dando uns tapinhas nos bolsos da cala, embora soubesse perfeitamente 
que o envelope estava no bolso interno do palet.
     - Pronto! - exclamou, pegando o tal envelope e abrindo-o para que o amigo visse o que ele continha: umas bolinhas marrons do tamanho de pimenta em gros misturadas 
com folhas e raminhos secos. - E o que chamam de sensimilla.
     O que  isso?
     Partes da planta que  nossa velha conhecida: a maconha - respondeu Bola -especialmente preparada para o seu prazer de fumar.
     E qual  a diferena entre esse troo a e a maconha normal? - perguntou Andrew, que j tinha dividido alguns baseados com o amigo ali mesmo no Pombal.
     S um fumo diferente, n? - replicou Bola, apagando o cigarro. Tirou do bolso uma caixinha de Rizla, pegou trs daquelas folhas de papel fininhas e comeou 
a enrol-las.
     Arranjou isso com Kirby? - indagou Andrew, remexendo no envelope e cheirando o seu contedo.
     Todo mundo sabia que Skye Kirby era avio. Estava um ano acima deles na escola. O seu av era um velho hippie que tinha sido detido vrias vezes por manter 
a sua prpria plantao.
     Foi. Sabe de uma coisa? - disse Bola, abrindo uns cigarros e despejando o tabaco nas folhinhas de papel. - L em Fields tem um cara chamado Obbo. Ele consegue 
qualquer coisa. At a porra da herona, se a gente quiser.
     Mas a gente no quer, n? - indagou Andrew, observando o rosto do amigo.
     Claro que no - respondeu o outro, pegando o envelope e pondo a sensimilla em cima do tabaco. Enrolou tudo junto, lambeu a borda do papel para col-la, enfiou 
o filtro numa das extremidades e torceu a outra para formar um bico. - Perfeito! - exclamou, todo contente.
     Tinha planejado contar a novidade depois de apresentar a sensimilla, como uma espcie de preliminar. Estendeu a mo pedindo o isqueiro, ps a ponta com o filtro 
na boca e acendeu o baseado. Deu ento uma tragada profunda, contemplativa, soprou um jato azulado de fumaa e repetiu a operao.
     Hmmm - murmurou. Prendendo a fumaa nos pulmes e imitando Pombinho, que tinha ganhado de presente da mulher no Natal um curso de vinhos, disse: - Herbceo. 
Retrogosto persistente. Notas sutis de... Cacete!
     Sentiu a cabea rodar, embora estivesse sentado.
     Experimenta s isso, cara! - exclamou, soltando a fumaa e rindo.
     Andrew se debruou sobre o amigo, rindo tambm, no s pela expectativa, mas principalmente por causa do sorriso beatfico que via no rosto de Bola e que no 
combinava absolutamente com a sua cara emburrada habitual.
     Deu uma tragada e sentiu o poder da droga se irradiar, a partir dos seus pulmes, relaxando-o, deixando-o mais solto. Uma segunda tragada, e Andrew achou que 
parecia at que a sua mente havia sido sacudida como uma colcha e, depois, voltava a se assentar sem dobras, tudo ficando macio, simples, fcil e gostoso.
     Cacete - disse, ento, fazendo eco a Bola e sorrindo ao ouvir o som da prpria voz. Devolveu o baseado ao amigo, que o esperava com os dedos a postos e ficou 
saboreando aquela sensao de bem-estar.
     E ento? T a fim de ouvir uma coisa interessante? - perguntou Bola, sem conseguir conter o riso.
     Pode falar.
     Trepei com ela ontem  noite.
     Andrew quase perguntou "Com quem?", mas o seu crebro atordoado acabou se lembrando: Krystal Weedon,  claro. Quem mais poderia ser?
     Onde? - perguntou bestamente. No era isso que estava querendo saber.
     Com o terno do enterro, Bola se deitou de costas, com os ps voltados para o rio. Sem dizer uma palavra, Andrew se deitou ao seu lado, no sentido contrrio. 
Era o que faziam em criana, quando ficavam para dormir na casa um do outro. O garoto ficou s olhando para o teto de pedra, onde a fumaa azulada tinha ficado retida, 
rodopiando bem devagar, e esperou para ouvir a histria toda.
     Eu disse para Pombinho e Tessa que tinha ido para a sua casa. Portanto... - principiou Bola. Passou o baseado para o amigo, juntou as mos compridas sobre o 
peito e ficou se ouvindo contar. - A, peguei o nibus e fui para Fields. A gente se encontrou na porta do Oddbins.
     Perto do Tesco? - indagou Andrew, que no sabia por que estava fazendo aquelas perguntas idiotas.
     Isso! - respondeu Bola. - Fomos para o parquinho. Tem umas rvores num dos cantos, atrs dos banheiros pblicos.  legal e bem escondido. J estava escurecendo.
     Bola se remexeu, e Andrew lhe passou de novo o baseado.
     Meter l dentro  mais difcil do que eu imaginava - disse o garoto. Andrew estava fascinado, com vontade de rir, mas tambm com medo de perder qualquer detalhe 
que o amigo pudesse lhe fornecer. - Ela tava mais molhada enquanto eu s tava enfiando os dedos.
     Uma risada subiu pelo peito de Andrew como um arroto, mas morreu ali mesmo.
     Tem que fazer muita fora para conseguir entrar direito.  mais apertado do que eu imaginava.
     Andrew viu um jato de fumaa subindo do lugar onde devia estar a cabea do amigo.
     Gozei em dez segundos.  bom paca quando a gente t l dentro...
     Andrew conteve uma gargalhada, afinal, podia ter mais coisa...
     Usei camisinha. Deve ser melhor sem.
     Devolveu o baseado  mo de Andrew. O garoto deu uma tragada, pensativo. Mais difcil de entrar do que ele imaginava, e acabou em dez segundos. No parece muito 
tempo. Mesmo assim, o que ele no daria para fazer isso tambm? Imaginou Gaia Bawden deitada de barriga para cima, todinha para ele, e, sem querer, soltou um ligeiro 
grunhido que Bola pareceu no ouvir. Perdido numa onda de imagens erticas, fumando o baseado, Andrew ficou deitado naquele pedacinho de cho que o seu corpo havia 
esquentado, de pau duro, ouvindo o barulhinho da gua a poucos metros da sua cabea.
     Que que conta na vida, Arf? - perguntou Bola, depois de um longo silncio sonhador.
     Com a cabea nadando de um jeito gostoso, Andrew respondeu:
     Sexo.
 isso a - disse o outro, encantado. - Foder.  isso que importa. Propo... Propogar a espcie. Abaixo as camisinhas. Crescer e multiplicar.
     Isso mesmo - replicou Andrew, rindo.
     E morrer - acrescentou Bola. Ele tinha ficado impressionado com a realidade daquele caixo e com a pouca quantidade de material que separava todos os abutres 
em alerta do efetivo cadver. No lamentava mesmo ter sado antes que o tal caixo desaparecesse no cho. - No tem outro jeito, n? Morrer.
 - disse Andrew, pensando em guerras e acidentes de automvel, e em morrer sob as luzes da velocidade e da glria.
 - repetiu Bola. - Foder e morrer.  isso a, n? Foder e morrer.  a vida!
     Tentar foder e tentar no morrer.
     Ou tentar morrer - replicou Bola. - Para algumas pessoas  assim. Correndo riscos.
     Verdade. Correndo riscos.
     Houve um novo silncio. O esconderijo estava frio e enevoado.
 msica - disse Andrew, baixinho, olhando a fumaa azulada que flutuava na rocha escura.
      - concordou Bola, com uma voz distante. -  msica.
     E o rio continuou correndo alm do Pombal.

Parte Dois

Comentrio fundamentado

     7.33 Em questes de interesse pblico, um comentrio fundamentado no  passvel de ao judicial.
     
Charles Arnold-Baker 
Administrao dos Conselhos Locais 
7a edio
     
     
     I
     
     Choveu na sepultura de Barry Fairbrother. A tinta dos cartes ficou toda borrada. A cabea robusta do girassol de Siobhan conseguiu desafiar as gotas persistentes, 
mas os lrios e as frsias de Mary sucumbiram e se desmancharam. O remo de crisntemos escureceu ao murchar. A chuva fez o rio encher, criou verdadeiros riachos 
nas sarjetas e transformou as estradas ngremes que levam a Pagford em pistas escorregadias e traioeiras. As janelas do nibus escolar embaaram totalmente. As 
floreiras pendentes l da praa ficaram encharcadas. E Samantha Mollison, com os limpadores de para-brisa funcionando a todo vapor, bateu com o carro quando voltava 
do trabalho na cidade, mas foi um acidente de pequenas propores.
     Um exemplar da Gazeta de Yarvil e Adjacncias ficou entalado na porta da casa da sra. Catherine Weedon, na Hope Street, por trs dias e acabou encharcado e 
ilegvel. Finalmente, a assistente social Kay Bawden conseguiu tir-lo da fenda para correspondncia, espiou pela portinhola enferrujada e viu uma senhora idosa 
cada no cho ao p da escada. Um guarda ajudou a arrombar a porta, e a sra. Weedon foi levada de ambulncia para o Hospital South West.
     E no parava de chover, o que obrigou o pintor que havia sido contratado para refazer o letreiro da antiga sapataria - com a chaleira de cobre que daria nome 
ao caf - a adiar o trabalho. A chuva caiu por dias e noites a fio. A praa ficou repleta de gente encurvada usando capas, e os guarda-chuvas se esbarravam nas caladas 
estreitas.
     Howard Mollison achava aquele tamborilar na janela escura bem relaxante. Sentado no escritrio que fora um dia o quarto da filha Patrcia, leu o e-mail que 
acabava de receber do jornal local. Eles tinham decidido publicar o artigo em que o conselheiro Fairbrother defendia que Fields continuasse pertencendo a Pagford. 
No entanto, em nome da imparcialidade, gostariam que outro conselheiro defendesse o ponto de vista contrrio no nmero seguinte.
Viu, Fairbrother? O tiro saiu pela culatra, pensou Howard, satisfeito da vida. Voc estava crente que ia conseguir fazer as coisas do seu jeito...
     Fechou a mensagem e se voltou para a pequena pilha de papel que estava ao seu lado. Eram cartas que comeavam a chegar, pedindo a realizao de uma eleio 
para o preenchimento da vaga de Barry. A legislao determinava que eram necessrias nove dessas solicitaes para justificar o voto popular, e ele tinha recebido 
dez. Voltou a l-las enquanto as vozes da sua mulher e da sua scia se erguiam e baixavam l na cozinha, desfiando os detalhes do escndalo da queda da velha sra. 
Weedon, s descoberta bem mais tarde.
     ...no troca de mdico assim sem motivo, no  mesmo? Aos brados, Karen disse...
     ...dizendo que tinham lhe dado remdio errado, , eu sei - interrompeu Shirley, que achava que detinha o monoplio em termos de especulao mdica, j que trabalhava 
como voluntria no hospital. - Vo fazer exames l no South West, espero eu.
     Se eu fosse a dra. Jawanda, estaria preocupadssima.
     Ela deve ter esperanas que os Weedon sejam ignorantes demais para pensar em processo, mas isso no vai ser problema se o South West descobrir que houve mesmo 
erro na medicao.
     Ela vai perder o registro - disse Maureen, deliciada.
     Com certeza - retrucou Shirley. - E no duvido nada que muita gente ache que no era sem tempo. Que ela j vai tarde.
     Metodicamente, Howard separou as cartas em pilhas. Os formulrios da candidatura de Miles, devidamente preenchidos, ficaram de um lado. As outras comunicaes 
eram de colegas conselheiros. Ali, no havia nada que pudesse surpreender: assim que Parminder lhe enviou um e-mail dizendo que conhecia algum interessado em se 
candidatar para a vaga de Barry, imaginou que aqueles seis se aliariam  mdica, pedindo a realizao de eleies. Alm da prpria Aluga-Ouvido, estavam os outros 
integrantes do que Howard chamava A Faco Rebelde, cujo lder desaparecera recentemente. Nesta pilha, ele ps os formulrios preenchidos por Colin Wall, o candidato 
escolhido por esse grupo.
     Numa terceira pilha, ele ps mais quatro cartas que, como as anteriores, eram algo que se podia esperar, pois Howard os conhecia bem: os reclames profissionais 
de Pagford, gente eternamente insatisfeita e desconfiada, todos eles prolficos correspondentes da Gazeta de Yarvil e Adjacncias. Cada uma dessas pessoas tinha 
l o seu interesse obsessivo por alguma questo esotrica e se julgava "independente" em termos de opinio. Provavelmente, seriam os primeiros a acus-lo de "nepotismo" 
se Miles fosse indicado, mas, por outro lado, incluam-se nesse grupo alguns dos mais ferrenhos anti-Fields do vilarejo.
     Pegou ento as duas ltimas cartas, uma em cada mo, e se ps a avali-las. Uma delas era de uma mulher que ele jamais tinha visto e que dizia (Howard nunca 
se fiava em nada) trabalhar na Clnica de Reabilitao Bellchapel (mas nada na carta indicava se a mulher era casada ou no, e isso fazia com que ele tendesse a 
acreditar nela). Depois de alguma hesitao, Howard ps a carta junto com a candidatura de Pombinho Wall.
     A ltima, que no trazia assinatura e havia sido escrita no computador, pedia a realizao de eleies em termos nada moderados. Parecia ter sido feita s pressas, 
sem maiores cuidados, e estava repleta de erros de digitao, como no trecho que exaltava as virtudes de Barry Fairbrother e citava especificamente Miles como a 
pessoa menos indicada para ocupar "o sue lugar". Ser que o seu filho teria algum cliente insatisfeito que pudesse vir a lhes criar problemas?, perguntou-se Howard. 
No custava nada estar preparado para eventualidades como essa... No entanto, o presidente do Conselho no acreditava que essa carta, por ser annima, fosse considerada 
voto vlido para a realizao de uma eleio, e, por isso, ela foi parar na pequena fragmentadora de papis que Shirley tinha lhe dado de presente no Natal.

II
     
     Edward Collins & Cia., o escritrio de advocacia de Pagford, ocupava o andar de cima de uma casa de tijolos que tinha uma tica no trreo. Edward Collins j 
havia falecido, e a firma contava agora com dois advogados: Gavin Hughes, o scio assalariado cujo escritrio tinha uma janela, e Miles Mollison, o scio proprietrio 
cujo escritrio tinha duas janelas. Ambos dividiam a mesma secretria, uma moa de vinte e oito anos, solteira, meio sem graa, mas com boa aparncia. Shona ria 
demais com as piadas de Miles e tratava Gavin com uma condescendncia que chegava a ser quase ofensiva.
     Na sexta-feira depois do funeral de Barry Fairbrother, Miles bateu  porta da sala de Gavin  uma da tarde e entrou sem esperar resposta. Encontrou o scio 
observando o cu cinzento atravs da vidraa molhada pela chuva.
     Vou dar uma saidinha para almoar - disse Miles. - Se Lucy Bevan chegar antes de mim, diga-lhe que estou de volta s duas, pode ser? Shona saiu.
     Claro. Digo, sim - respondeu Gavin.
     Est tudo bem?
     Mary telefonou. Parece que tem um probleminha com o seguro de vida de Barry. Ela me pediu para ajudar a resolver.
     Ah, sei. Mas voc pode ver isso sozinho, no pode? De qualquer jeito, s duas horas estou aqui.
     Miles enfiou o sobretudo, desceu correndo a escada e, a passos rpidos, pegou a ruazinha varrida pela chuva, que ia dar na praa do vilarejo. Uma brecha momentnea 
na camada de nuvens deixou que o sol fosse bater no reluzente memorial e nas floreiras penduradas. Ele se sentiu tomado por um orgulho atvico ao atravessar a praa 
rumo  Mollison & Lowe, aquela instituio local, aquela lojinha to refinada... Um orgulho que a familiaridade jamais desgastara, pelo contrrio, s vinha tornando 
ainda mais forte e mais profundo.
     A sineta tocou quando Miles empurrou a porta. Na loja, havia um certo movimento por causa da hora do almoo: uma fila de oito pessoas esperava diante do balco, 
e Howard, nos seus trajes mercantis, com as moscas de pescaria reluzindo no chapu Sherlock Holmes, falava sem parar.
     ...e duzentos e cinqenta gramas de azeitonas pretas para voc, Rosemary.  s por hoje?  s para Rosemary... Seriam oito libras e sessenta e dois pence, mas, 
para voc, querida, vou fazer por oito, em honra da nossa longa e frutfera associao...
     Risinhos e agradecimentos. O barulho da gaveta da caixa registradora se abrindo e se fechando.
     E a est o meu advogado. Veio me inspecionar... - disse ele, com a sua voz de trovo, piscando e rindo para Miles do seu lugar atrs do balco. - Se quiser 
me esperar l nos fundos da loja, doutor, vou tentar no dizer  sra. Howson nada que possa me incriminar...
     Miles sorriu para aquelas senhoras de meia-idade que o olhavam encantadas. Alto, com o cabelo cacheado que comeava a ficar grisalho, grandes olhos azuis e 
a barriga disfarada pelo sobretudo, ele era um acrscimo bastante atraente aos biscoitos caseiros e aos queijos da regio. Com cuidado, atravessou a loja, passando 
entre as mesinhas que continham pilhas de guloseimas, e se deteve na abertura entre a delicatssen e a velha sapataria. Pela primeira vez, o arco estava sem a proteo 
da cortina de plstico. Maureen (Miles reconheceu a sua letra) tinha posto um cartaz numa bandeja de sanduches bem no meio da passagem. No entre. Em breve: o caf 
Copper Kettle. O rapaz deu uma espiada para aquele espao vazio que, em breve, abrigaria o melhor e mais novo caf de Pagford. Tudo ali tinha sido revestido e pintado, 
e o assoalho escuro acabava de ser envernizado.
     Contornou o canto do balco quase esbarrando em Maureen, que estava usando o cortador de frios, o que a fez soltar uma risada brusca e vulgar, e passou pela 
porta que levava  salinha dos fundos. Havia ali uma mesa de frmica, sobre a qual se via o Daily Mail de Maureen, dobrado, os casacos dos dois scios pendurados 
num cabideiro e a porta do banheiro, de onde vinha um cheiro artificial de lavanda. Miles pendurou o sobretudo e puxou uma velha cadeira para junto da mesa.
     Um ou dois minutos depois, Howard apareceu trazendo duas travessas cheias de produtos da delicatssen.
     Quer dizer que j est decidido que o nome vai ser "Copper Kettle"? - indagou Miles.
     Bom, Mo gosta desse nome - respondeu Howard, pondo uma das travessas diante do filho.
     Saiu novamente, voltou trazendo duas garrafas de cerveja e fechou a porta com o p, deixando a salinha sem janelas mergulhada numa penumbra s amenizada pela 
luz fraca do lustre. Howard se sentou com um grunhido profundo. Tinha adotado um tom de conspirao quando telefonou l pelo meio da manh, e deixou o filho esperando 
ainda mais alguns minutos enquanto tirava a tampa de uma das garrafas.
     Wall j mandou seus formulrios - disse ele, enfim, passando a cerveja a Miles.
     - Ah, ?
     Vou estabelecer um prazo. Duas semanas, a contar de hoje, para os candidatos se apresentarem.
     Bem razovel.
     Pelo que diz a sua me, o tal do Price continua interessado. J perguntou a Sam se ela sabe quem  o sujeito?
     No - respondeu Miles.
     Howard coou uma das pregas da barriga que tinha ficado bem perto dos seus joelhos quando ele se sentou na cadeira que rangia.
     Est tudo bem com vocs dois?
     Como sempre, Miles ficou espantado com a intuio quase paranormal do pai.
     No muito.
     No teria confessado isso para a me, pois vivia tentando no fomentar a constante guerra fria entre ela e Samantha, uma guerra em que ele prprio era, a um 
s tempo, refm e trofu.
     Ela no gosta da idia de eu me candidatar - disse ele, cauteloso. Howard ergueu as fartas sobrancelhas, com a papada balanando ao movimento da mastigao. 
- No posso imaginar que diabo deu nela. Anda numa daquelas fases anti-Pagford.
     Howard engoliu sem pressa. Limpou a boca com um guardanapo e arrotou.
     Vai mudar de opinio assim que voc tiver sido eleito - retrucou ele. - Tem todo o lado social. Muita atividade para as esposas. Recepes na Sweetlove House... 
Ela vai fazer parte do grupo - acrescentou, tomando mais um gole de cerveja e coando a barriga novamente.
     No fao idia de quem  esse tal de Price - disse Miles, voltando ao assunto principal. - Mas tenho uma vaga lembrana que tinha um filho dele na mesma turma 
de Lexie l na St. Thomas.
     Mas ele nasceu em Fields: a  que est! - observou Howard. - Algum nascido em Fields que pode trabalhar a nosso favor. Os votos dos pr-Fields podem ser divididos 
entre ele e Wall.
     Verdade - replicou Miles. - Faz sentido...
     Isso no tinha lhe passado pela cabea. Ficava encantado com o jeito como a mente do pai funcionava.
     A sua me j ligou para a mulher dele e deu as instrues para ela baixar os formulrios do site. Talvez seja bom ela telefonar de novo hoje  noite, avisando 
que o prazo  de duas semanas, tentando pression-lo.
     Ento, so trs candidatos? - indagou Miles. - Com Colin Wall.
     No ouvi falar de ningum mais.  possvel que aparea mais algum depois que os detalhes forem divulgados pelo site. Mas estou confiante nas nossas possibilidades. 
Estou mesmo. Aubrey ligou - acrescentou ele. Havia sempre um toque adicional de pompa na voz de Howard quando ele se referia a Aubrey Fawley pelo nome de batismo. 
- No preciso nem dizer que ele apoia a sua candidatura. Volta hoje  noite. Est na cidade.
     Em geral, quando um pagfordiano dizia "na cidade", estava se referindo a Yarvil. Howard e Shirley, porm, usavam a expresso, imitando Aubrey Fawley, para dizer 
"em Londres".
     Disse algo sobre nos encontrarmos para conversar. Talvez amanh. Pode at nos convidar para ir  sua casa. Sam vai gostar da idia.
     Miles tinha acabado de morder um bom pedao do po irlands com pat de fgado, mas mostrou que concordava com um enftico aceno de cabea. Gostava da idia 
de ser apoiado por Aubrey Fawley. Por mais que Samantha debochasse do fascnio dos seus pais pelo casal, j tinha percebido que, nas raras ocasies em que a sua 
mulher esteve com um ou com outro dos Fawley, o seu jeito de falar se alterava sutilmente e ela assumia uma atitude mais recatada.
     Ah, tem mais uma coisa - disse Howard, mais uma vez coando a barriga. - Hoje de manh, recebi um e-mail da Gazeta de Yarvil e Adjacncias, pedindo a minha 
opinio sobre Fields. Como presidente do Conselho Distrital.
     No brinca! Pensei que Fairbrother tivesse conseguido nos passar a perna...
     O tiro saiu pela culatra, no  mesmo? - exclamou Howard, satisfeitssimo. - Vo publicar o artigo dele e querem que algum defenda a viso contrria na semana 
seguinte. Querem ter a outra verso da histria. Voc bem que poderia me ajudar, com o fraseado dos advogados e coisas do gnero.
     Claro - replicou Miles. - Podamos falar daquela maldita clnica de reabilitao. Isso seria fundamental.
     Isso mesmo... tima idia... Excelente.
     De to entusiasmado, Howard engoliu um bocado grande demais, e Miles teve de lhe dar uns tapas nas costas at ele desengasgar. Finalmente, enxugando com o guardanapo 
os olhos, que lacrimejavam, e ainda sem flego, ele disse:
     Aubrey est recomendando que o municpio, por sua vez, corte as verbas da clnica, e, quanto a mim, vou alegar que o contrato de locao j est expirando. 
No faria mal nenhum defender essa questo na mdia. Quanto tempo e quanto dinheiro j foram destinados a esse maldito lugar, e a gente no v nenhum retorno! Tenho 
todos os nmeros - acrescentou ele, dando um arroto sonoro. - O mais completo absurdo! Desculpe...

III
     
     Naquela noite, em casa, Gavin preparou o jantar para Kay, abrindo latas e esmagando alho com um sentimento de injustia.
     Depois de uma briga,  preciso dizer certas coisas para selar as pazes: essas so as regras, como todos sabem. Do carro, no trajeto de volta do enterro de Barry, 
Gavin ligou para Kay e disse que gostaria que ela tivesse ido com ele, que o dia tinha sido terrvel e que seria bom v-la  noite. Achou que admitir isso, com toda 
a humildade, eqivalia mais ou menos ao preo que precisava pagar por uma noite com uma companhia que no exigisse demais dele.
     Kay, porm, lhe deu a impresso de estar encarando os fatos mais como um adiantamento da renegociao de um contrato. Voc sentiu a minha falta. Desejou que 
eu estivesse ao seu lado quando ficou chateado. Lamentou no termos ido juntos ao enterro. Bom, ento, vamos tratar de no repetir esse erro. Daquele momento em 
diante, passou a haver uma certa condescendncia na forma como ela o tratava, uma certa pressa, uma sensao de expectativa renovada.
     Estava preparando um espaguete  bolonhesa. Recusou-se, deliberadamente, a comprar uma sobremesa ou j deixar a mesa posta: estava fazendo de tudo para lhe 
mostrar que no tinha caprichado muito... Aparentemente, Kay no deu pela coisa; parecia at interpretar essa atitude sem cerimnia como sendo um elogio. Sentou-se 
 pequena mesa, conversando com ele ao som da chuva que batia na claraboia, passando os olhos pelos utenslios da cozinha. S tinha estado ali umas poucas vezes.
     Deve ter sido Lisa que escolheu esse amarelo, no foi?
     Pronto! L estava ela fazendo aquilo de novo: rompendo tabus, como se eles tivessem acabado de atingir um nvel mais profundo de intimidade. Gavin preferia 
no falar de Lisa, se no fosse absolutamente indispensvel, e, a essa altura, Kay j devia ter aprendido isso. Jogou um pouco de organo na carne picada que estava 
na frigideira e disse:
     No. Foi o antigo proprietrio. Ainda no deu para trocar nada.
     Ah, sei - disse a moa, tomando uns golinhos de vinho. -  bonitinho. S um pouco sem graa.
     Aquele palpite deixou Gavin irritado, j que, na sua opinio, tudo ali dentro do Smithy era superior a qualquer aspecto do nmero dez da Hope Street. Ficou 
olhando a massa na gua fervente, de costas para ela.
     Ah, sabe de uma coisa? - principiou Kay. - Encontrei Samantha Mollison hoje  tarde.
     Gavin se virou de imediato. De onde Kay conhecia Samantha Mollison?
     L na praa, bem na porta da delicatssen. Eu estava indo comprar isso aqui - prosseguiu ela, batendo com a unha na garrafa de vinho ao seu lado. - Ela me perguntou 
se eu era a namorada de Gavin.
     Disse aquilo com um ar meio divertido, mas, no fundo, ficou animada com as palavras de Samantha. Foi um alvio achar que era assim que Gavin se referia a ela 
falando com os amigos.
     E o que voc respondeu?
     Respondi... que era.
     O seu rosto estava agora tristonho. Gavin no pretendia fazer aquela pergunta num tom assim to agressivo... Teria dado tudo para que Kay e Samantha nunca se 
encontrassem.
     Bom, mas pouco importa - acrescentou a moa, com uma ponta de mgoa na voz. - O que conta  que ela nos convidou para jantar na sexta-feira que vem. Daqui a 
uma semana.
     Ah, droga! - exclamou Gavin, irritadssimo.
     Boa parte da animao de Kay j havia se dissipado.
     Qual  o problema?
     Nada. No ... nada - respondeu ele, cutucando o espaguete que fervia. - Para ser sincero,  que eu j passo o dia inteiro com Miles!
     Era exatamente o que ele mais temia: que ela desse um jeito de ir se chegando e eles acabassem se tornando Gavin-e-Kay, com um crculo de amigos, pois, assim, 
ia ficar cada vez mais difcil elimin-la da sua vida. Como foi deixar isso acontecer? Por que permitiu que ela viesse morar ali? A fria que sentia contra si mesmo 
no tardou a se transformar em raiva contra Kay. Ser que no dava para perceber que ele no estava to a fim dela assim? Por que ela no caa fora por conta prpria 
em vez de obrig-lo a fazer o papel do canalha? Escorreu o espaguete na pia, xingando baixinho, e respingou gua fervendo na roupa.
     Ento  melhor voc ligar para Miles e Samantha e dizer que no d - disse Kay.
     A voz dela tinha agora um tom duro. Seguindo o seu hbito to profundamente arraigado, Gavin tratou de impedir a ecloso de um conflito que parecia iminente 
e deixar que o futuro se resolvesse por si s.
     No, no - exclamou, secando a camisa com um pano de prato. - Vamos, sim. Tudo bem. Vamos jantar l.
     Mas com a sua evidente falta de entusiasmo tentou deixar bem claro algo que poderia vir a usar mais tarde: Voc sabia que eu no estava a fim de vir. No gostei, 
no. No pretendo repetir a dose.
     Passaram uns bons minutos comendo em silncio. Gavin estava com medo que acontecesse outra briga e Kay o forasse a discutir de novo as questes que at ento 
haviam ficado implcitas. Comeou a procurar alguma coisa para dizer e resolveu ento falar da histria de Mary Fairbrother com a companhia de seguros.
     Eles esto sendo uns grandessssimos filhos da puta - disse. - Barry tinha feito um seguro alto, mas os advogados da companhia esto buscando um jeito de no 
pagar. Esto tentando alegar que ele sonegou informaes.
     Como assim?
     Bom, um tio de Barry tambm morreu de aneurisma. Mary jura que Barry disse isso ao agente quando assinou a aplice, mas no existe nenhuma meno a esse fato 
na ficha dele. Vai ver que o sujeito no se deu conta que isso pode ser um problema gentico. No sei se Barry efetivamente...
     A sua voz falhou. Horrorizado e constrangido, Gavin baixou o rosto vermelho e ficou olhando o prprio prato. Estava com um n na garganta e no conseguia se 
livrar dele. Os ps da cadeira de Kay arrastaram no cho. O rapaz teve esperanas de que ela fosse ao banheiro, mas, de repente, sentiu os braos dela nos seus ombros, 
puxando-o para junto de si. Sem pensar, ele tambm passou um dos braos pelos ombros da moa.
     Era to bom ser abraado... Se ao menos aquela relao pudesse se manifestar apenas por gestos de conforto simples e sem palavras... Por que os humanos tinham 
de aprender a falar?
     Um pouco de catarro do seu nariz pingou nas costas da blusa de Kay.
     Desculpe - disse ele, com voz rouca, limpando aquilo com o guardanapo.
     Afastou-se dela e assoou o nariz. Kay puxou a cadeira para o lado dele e ps uma das mos no seu brao. Gavin gostava muito mais dela assim, calada, e com o 
rosto brando e preocupado como agora.
     No consigo... Ele era um bom sujeito - disse ento. - Barry. Ele era um bom sujeito.
     Verdade.  o que todos dizem - observou Kay.
     Gavin nunca deixou que ela conhecesse o famoso Barry Fairbrother, mas Kay estava intrigada com aquela cena de emoo do rapaz e com a pessoa que a provocara.
     Ele era divertido? - perguntou, porque podia imaginar Gavin fascinado por um sujeito engraado; algum que estivesse sempre  frente das farras, que enchesse 
a cara nos bares.
     Acho que era. Bem, no exatamente. Normal. Gostava de rir... Mas era simplesmente... um cara to bacana... Gostava de gente, sabe?
     Kay ficou esperando, mas Gavin no parecia capaz de lhe dar mais esclarecimentos sobre as qualidades de Barry.
     E os meninos... e Mary... Coitadinha... Meu Deus, voc no pode imaginar...
Kay continuou a lhe dar uns tapinhas no brao, mas a sua solidariedade tinha se reduzido um pouco. No posso imaginar, pensou ela, o que significava ficar s? No 
posso imaginar como  difcil ter que agentar sozinha a responsabilidade de sustentar uma famlia? E de mim, Gavin no tinha pena?
     Eles eram felizes, de verdade - acrescentou ele, com a voz embargada. - Ela est um caco.
     Sem dizer nada, Kay lhe acariciou o brao, pensando que ela prpria nunca tinha podido se dar ao luxo de ficar um caco.
     Estou bem - disse Gavin, limpando o nariz no guardanapo e pegando novamente o garfo. E, com um gesto quase imperceptvel, indicou que ela j podia tirar a mo 
do seu brao.

IV
     
     O tal convite para jantar foi motivado por um misto de desejo de vingana e tdio. Samantha via aquilo como uma retaliao contra Miles, que, agora, vivia s 
voltas com uns esquemas sobre os quais no lhe pedia opinio, mas para os quais contava com a sua colaborao. Queria ver como ele ia reagir quando ficasse sabendo 
que ela tinha combinado alguma coisa sem consult-lo. E, de quebra, tambm ia passar a perna em Maureen e Shirley, aquelas velhas bisbilhoteiras que viviam to fascinadas 
com a vida privada de Gavin, mas no sabiam praticamente nada sobre a relao entre ele e a namorada de Londres. Ainda por cima, ia ter mais uma oportunidade de 
dar umas alfinetadas em Gavin, sempre to covarde e indeciso com relao  prpria vida amorosa: podia tocar no assunto casamento na frente de Kay ou dizer como 
era bom ver Gavin finalmente assumir um compromisso.
     No entanto, os seus planos para criar situaes embaraosas para os outros acabaram lhe dando menos prazer do que ela esperava. Quando contou a Miles, no sbado 
de manh, o convite que tinha feito, ele reagiu com um entusiasmo que a deixou desconfiada.
     Ah, timo! Faz sculos que Gavin no vem aqui. E vai ser uma tima oportunidade para voc conhecer Kay.
     Como assim?
     Ora, voc sempre se deu bem com Lisa, no  verdade?
     Miles! Eu odiava Lisa...
     Bom, ento... quem sabe voc no gosta mais de Kay?
     Samantha olhou para o marido, perguntando-se de onde teria sado tamanho bom humor. Lexie e Libby, que tinham vindo passar o fim de semana em casa e no podiam 
sair por causa da chuva, estavam vendo um DVD musical na sala de estar. L da cozinha, onde o casal estava conversando, dava para ouvir o som pesado de uma guitarra 
em altos brados.
     Olhe - disse Miles, brandindo o celular -, Aubrey quer ter uma conversa comigo sobre o Conselho. Acabei de ligar para papai. Os Fawley convidaram todos ns 
para jantar hoje  noite na Sweetlove...
     No, obrigada - replicou Samantha, interrompendo a fala do marido. De repente, estava tomada por uma fria que no conseguia explicar nem para si mesma. E saiu 
do aposento.
     Passaram o dia inteiro discutindo em voz baixa pela casa toda, tentando no estragar o fim de semana das filhas. Samantha se recusava a mudar de idia ou a 
expor os seus motivos. Miles, com medo de se enfurecer, ficava alternando frieza e atitudes conciliatrias.
     No acha que vai pegar muito mal se voc no for? - perguntou ele, s dez para as oito, parado na porta da sala de estar, j pronto para sair, de terno e gravata.
     No tenho nada a ver com isso, Miles - disse Samantha. - O candidato  voc.
     Gostava de v-lo assim aflito. Sabia que o marido estava morrendo de medo de se atrasar, mas, ao mesmo tempo, ainda tinha esperanas de convenc-la a ir com 
ele.
     Sabe muito bem que eles esto contando com o casal.
     Esto mesmo? Ningum me convidou.
     Ah, pelo amor de Deus, Samantha! Voc sabe que eles... que eles acharam que no precisavam nem dizer que o convite era para os dois.
     Pois ento acharam errado! No estou com vontade de ir.  melhor voc ir andando... No vai querer deixar papai e mame esperando...
     E ele saiu. Samantha ouviu o carro dando marcha a r na entrada da garagem. Foi ento at a cozinha, abriu uma garrafa de vinho, pegou uma taa e voltou para 
a sala. Ficou imaginando Howard, Shirley e Miles jantando juntos na Sweetlove House. Com certeza aquele ia ser o primeiro orgasmo de Shirley em muitos anos...
     Mas os seus pensamentos estavam sempre se desviando de forma irresistvel para o que o contador tinha lhe dito durante a semana. Os lucros vinham caindo, por 
mais que ela dissesse o contrrio ao sogro. O contador chegou mesmo a sugerir que Samantha fechasse a loja e ficasse apenas com as vendas on-line. S que isso seria 
admitir o seu fracasso, coisa que ela no estava preparada para fazer, por um motivo bem especfico: Shirley adoraria ver a loja fechando. A sogra tentou puxar o 
seu tapete desde o comeo. Desculpe, Sam, mas no tem nada a ver com o meu gosto... Um pouquinho extravagante demais... Mas Samantha adorava a sua lojinha vermelha 
e preta l em Yarvil; adorava sair de Pagford diariamente, conversar com os clientes, fofocar com Carly, a vendedora. O mundo ia ficar menor sem a loja que ela mantinha 
h quatorze anos: ia se resumir a Pagford.
     (Pagford! Droga de vilarejo! Samantha nunca quis morar ali. Ela e Miles haviam planejado viver um ano fora antes de comearem a trabalhar, fazendo uma viagem 
de volta ao mundo. J tinham at traado o itinerrio e tirado os vistos. O seu sonho era andar descala, de mos dadas com o namorado, pelas imensas praias australianas. 
Mas foi ento que descobriu que estava grvida.
     Uma semana depois de se formar, pegou o resultado do teste de gravidez e, no dia seguinte, veio ver Miles em Ambleside. Em oito dias, estariam embarcando para 
Cingapura.
     Samantha no quis lhe dar a notcia ali naquela casa, pois tinha medo de que os pais dele pudessem ouvir. Shirley parecia estar por trs de cada porta que ela 
abria naquele chal.
     Esperou ento at que os dois estivessem sentados num cantinho mais escuro do Black Canon. Lembrava ainda das mandbulas cerradas de Miles quando ela lhe contou. 
De alguma forma que no conseguia definir, ele pareceu envelhecer assim que ouviu aquelas palavras.
     Passou alguns segundos num silncio de pedra e, depois, disse:
     - Tudo bem. Vamos nos casar.
     Contou-lhe ento que j tinha comprado um anel de noivado, pois pretendia pedi-la em casamento em algum lugar bem especial, talvez no topo da Pedra Ayers. E, 
de fato, assim que voltaram para o chal, ele foi buscar a caixinha na mochila onde j a tinha guardado. Era um pequeno diamante solitrio de uma joalheria de Yarvil. 
Miles o comprou com parte do dinheiro que a av lhe deixou quando morreu. Sentada na beira da cama do namorado, Samantha chorou, chorou, chorou... Os dois se casaram 
trs meses depois.)
     Sozinha com a sua garrafa de vinho, resolveu ligar a televiso. Na tela, apareceu o DVD que Lexie e Libby estavam vendo antes: a imagem congelada de quatro 
rapazes que mal pareciam ter sado da adolescncia e usando umas camisetas bem justas cantando para ela. Apertou ento a tecla "Play". Quando a msica terminou, 
entrou a cena de uma entrevista. Samantha esvaziou o copo, vendo os garotos da banda fazerem brincadeiras uns com os outros e, depois, ficando mais srios quando 
o assunto passou a ser o amor que tinham pelos fs. Ela achou que saberia que eram americanos mesmo que a TV estivesse sem som. Tinham uns dentes to perfeitos...
     J era tarde. Samantha deu pausa no DVD, subiu, mandou as filhas pararem de jogar PlayStation e irem para cama. Voltou ento para a sala, onde havia ficado 
a garrafa j esvaziada em trs quartos do seu contedo. No acendeu as luzes. Apertou de novo a tecla "Play" e continuou bebendo. Quando o DVD terminou, ela voltou 
ao incio e viu a parte que havia perdido.
     Um dos rapazes parecia nitidamente mais maduro que os outros trs. Tinha ombros largos, bceps bem definidos sob a camiseta, um pescoo forte e um queixo quadrado. 
Samantha ficou olhando, vendo-o rebolar, com os olhos voltados para a cmera e uma expresso sria, meio vaga, no rosto bonito que era todo planos, ngulos e sobrancelhas 
escuras com uma curvatura acentuada.
     Pensou no sexo com Miles. A ltima vez tinha sido trs semanas atrs. A performance do marido era to previsvel quanto uma saudao manica. Uma das suas 
frases favoritas era: "Em time que est ganhando no se mexe."
     Samantha despejou o resto do vinho na taa e se imaginou fazendo amor com o rapaz da tela. Ultimamente, os seus seios ficavam mais bonitos com suti: quando 
se deitava, eles se espalhavam por todo lado, e ela se sentia flcida, horrorosa. Imaginou-se imprensada numa parede, com uma das pernas erguidas, o vestido levantado 
at a cintura e aquele rapaz moreno e lindo, com a cala jeans baixada at os joelhos, entrando e saindo de dentro dela...
     Com um aperto na boca do estmago que parecia at felicidade, ouviu o carro entrando no quintal e a luz dos faris percorrendo a sala escura.
     Na pressa de sintonizar o noticirio, Samantha se atrapalhou toda com os controles e demorou muito mais que o normal. Enfiou a garrafa vazia debaixo do sof 
e agarrou o copo onde havia apenas um restinho de vinho, como se quisesse se apoiar nele. A porta da frente se abriu e se fechou. Miles entrou na sala s suas costas.
     Por que est sentada assim no escuro?
     Acendeu uma das luzes, e Samantha olhou para ele. Continuava to impecvel quanto no momento em que saiu de casa, a no ser por umas marquinhas da chuva nos 
ombros do palet.
     E a? Como foi o jantar?
     Foi timo - respondeu ele. - Todos sentiram a sua falta. Aubrey e Julia lamentaram que voc no tenha podido ir.
     Ah, claro... Aposto que a sua me chorou de to desapontada.
     Miles sentou numa poltrona perto da esposa e ficou olhando para ela.
     Samantha afastou o cabelo que lhe caa sobre os olhos.
     O que est acontecendo, Sam?
     Bom, se voc no sabe, Miles...
     Mas ela prpria no tinha tanta certeza, ou, pelo menos, no sabia como condensar toda aquela vaga sensao de estar sendo injustiada numa acusao coerente.
     No entendo por que a minha candidatura ao Conselho Distrital...
     Ah, pelo amor de Deus, Miles! - gritou ela, e chegou a se assustar ao perceber como a prpria voz podia sair alta.
     Vamos, me explique, por favor... - prosseguiu ele. - Que diferena isso faz para voc?
     Ela o encarou, lutando para articular o que queria dizer para a mente jurdica to pedante do marido, uma mente que parecia usar uma pina para catar palavras 
em meio a um estoque reduzido de opes e que, em geral, acabava no conseguindo captar o plano mais amplo. O que dizer que ele pudesse entender? Que achava aquelas 
conversas interminveis de Howard e Shirley sobre o Conselho a coisa mais insuportvel do mundo? Que, se ele j era to chato contando sempre as mesmas velhas histrias 
sobre os anos dourados do clube de rgbi e se autoelogiando com relao ao trabalho, imagine quando comeasse a pontificar sobre Fields!
 que eu estava achando - disse Samantha, sentada naquela sala de estar quase s escuras - que ns tnhamos outros planos.
     Que planos? - indagou Miles. - No sei do que voc est falando...
     Tnhamos combinado que - replicou ela, articulando as palavras com todo o cuidado por sobre a borda do copo que tremia -, quando as meninas sassem da escola, 
amos viajar. Prometemos que faramos isso, lembra?
     A princpio, a raiva e a tristeza meio vagas que vinham consumindo Samantha desde que Miles declarara que pretendia se candidatar ao Conselho no a fizeram 
lamentar os planos de passar um ano viajando que tiveram de abandonar. Agora, porm, tinha a impresso de que esse era o verdadeiro problema, ou, pelo menos, era 
o que mais poderia expressar aquele misto de desejo e de hostilidade que havia dentro dela.
     Miles parecia inteiramente atnito.
     Do que voc est falando?
     Quando fiquei grvida da Lexie - respondeu ela, sempre em voz alta -, no pudemos viajar, e a infeliz da sua me fez a gente se casar s pressas. O seu pai 
arranjou emprego para voc com Edward Collins e voc s disse: "Ns concordamos. Vamos deixar isso para quando as meninas crescerem. A, ento, vamos viajar e fazer 
tudo que no pudemos fazer naquela poca."
     Miles ficou abanando a cabea, bem devagar.
     No me lembro de nada disso - observou ele. - De onde diabos voc tirou toda essa histria?
     Ns estvamos l no Black Canon, Miles. Eu lhe contei que estava grvida e voc disse... Pelo amor de Deus, Miles... Eu contei que estava grvida e voc prometeu, 
voc prometeu...
     Est querendo umas frias? - perguntou ele. - E isso? Quer sair de frias?
     No, Miles, no quero frias porra nenhuma! Quero... No se lembra? Dissemos que deixaramos os nossos planos para mais tarde. Que passaramos um ano viajando 
depois que as meninas crescessem.
     Tudo bem - retrucou Miles. Ele parecia irritado, decidido a se livrar dela. - Tudo bem. Quando Libby fizer dezoito anos, ou seja, daqui a quatro anos, voltamos 
a falar desse assunto. No vejo por que eu assumir o cargo de conselheiro mudaria alguma coisa nessa histria.
     Bom, sem contar com o maldito tdio de ficar ouvindo voc e seus pais reclamando de Fields pelo resto da nossa vida natural...
     Nossa vida natural? - indagou ele, em tom de deboche. - O contrrio disso seria vida o qu?
     Ah, no enche! - exclamou Samantha. - Deixe de ser to metido, Miles! Voc pode at impressionar a sua me...
     Olhe, francamente, continuo a no ver problema...
     O problema - interrompeu ela, aos berros -  que estamos falando do nosso futuro, Miles. Nosso. E no quero voltar a falar disso daqui a quatro anos, porra! 
Quero falar disso agora!
     Acho que voc devia comer alguma coisa - disse Miles, levantan- do-se da poltrona. - J bebeu bastante...
     Vai se foder!
     Desculpe, mas, se  para comear com xingamentos...
     Virou-se, ento, e saiu da sala. S a muito custo Samantha conseguiu se conter para no atirar a taa nele.
     Se Miles entrasse para o Conselho, nunca mais sairia dele. Jamais renunciaria ao cargo,  oportunidade de ser um figuro de Pagford, como Howard. Mais uma vez, 
ele assumia um compromisso com o vilarejo, renovando os votos feitos  sua cidade natal, e rumava para um futuro muito diferente do que havia prometido  jovem de 
quem acabava de ficar noivo e que chorava, desesperada, sentada na sua cama.
     Quando foi a ltima vez que falaram dessa histria de viajar pelo mundo? Samantha no sabia ao certo. Talvez muitos anos atrs. Hoje  noite, porm, Samantha 
decidiu que pelo menos ela no tinha mudado de idia. Isso mesmo. Passou a vida inteira esperando que, um dia, os dois fizessem as malas e embarcassem em busca do 
calor e da liberdade, a meio mundo de distncia de Pagford, de Shirley, da Mollison & Lowe, da chuva, da mesmice e da mesquinharia. Talvez h anos no pensasse nas 
areias brancas da Austrlia e de Cingapura desejando estar l, mas preferia mil vezes estar l, mesmo com as coxas grossas e as estrias, a estar ali, aprisionada 
em Pagford, obrigada a ficar s olhando enquanto Miles ia pouco a pouco se transformando em Howard.
     Deixou-se cair de novo no sof, apanhou os controles e sintonizou outra vez o DVD de Libby. A banda, agora em preto e branco, passeava bem devagarinho por uma 
praia deserta, cantando. A camisa aberta do rapaz de ombros largos esvoaava ao vento. Uma ligeira penugem descia do seu umbigo para desaparecer por baixo do jeans.
     
     
     
     
     V
     
     Alison Jenkins, a jornalista da Gazeta de Yarvil e Adjacncias, tinha enfim conseguido descobrir qual das tantas residncias em nome da famlia Weedon em Yarvil 
abrigava Krystal. No foi nada fcil. No tal endereo, no havia ningum inscrito na justia eleitoral e nenhum registro de telefone fixo. Alison resolveu ir pessoalmente 
 Foley Road num domingo, mas a garota tinha sado, e Terri, desconfiada e hostil, se recusou a lhe dizer quando a filha estaria de volta e nem sequer quis confirmar 
se ela morava ali.
     Krystal chegou cerca de vinte minutos depois que a jornalista foi embora, e ela e a me tiveram mais uma daquelas brigas.
     Por que no disse pra ela esperar? Ela vai me entrevistar sobre Fields e essa histria toda!
     Entrevistar voc? Qual ! A troco de qu?
     A discusso foi esquentando, e Krystal saiu novamente. Foi para a casa de Nikki levando o celular de Terri no bolso da cala de moletom. Vira e mexe fazia isso. 
Muitas das brigas entre as duas comeavam porque a me pedia o telefone de volta e a garota fingia que no fazia idia de onde ele estava. Ela tinha uma vaga esperana 
de que a jornalista pudesse ter aquele nmero e viesse a ligar.
     Estava num caf lotado e barulhento do shopping, contando a histria da jornalista a Nikki e a Leanne, quando o celular tocou.
     Al? Voc  a tal da jornalista?
     ...fala? ...erri?
     Aqui  Krystal. Quem t falando?
     ...sua... outra... irm.
     Quem? - berrou a garota. Tapando o outro ouvido, saiu andando por entre as mesas lotadas, procurando um lugar mais tranqilo.
 Danielle - disse a mulher, agora claramente, do outro lado da linha. - Irm da sua me.
     Ah, sei - replicou Krystal, decepcionada.
     Sua vaca esnobe, pensou a garota assim que ouviu aquele nome. Nem sabia se j tinha visto a tia alguma vez.
      sobre a sua bisa.
     Quem?
     V Cath - disse Danielle, impaciente. Krystal chegou  varanda interna que dava para o vo central do shopping. O sinal era bem melhor ali.
     Que que tem ela? - perguntou a garota. Parecia que o seu estmago estava se revirando, como uma garotinha dando cambalhotas sobre um parapeito exatamente igual 
ao que tinha agora  sua frente. Uns dez metros abaixo, um monte de gente passava de um lado para o outro, carregando sacolas plsticas, empurrando carrinhos de 
beb ou arrastando crianas pela mo.
     Ela est no South West. Faz uma semana que est internada. Teve um AVC.
     Ela t no hospital h uma semana? - perguntou Krystal, com o estmago ainda se revirando. - Ningum avisou pra gente.
     Bom, ela no est falando direito, mas j disse o seu nome duas vezes.
     O meu? - perguntou ela, agarrando o celular com mais fora.
. Acho que ela quer te ver.  grave, viu? Esto dizendo que ela no deve sair dessa.
     Qual enfermaria? - perguntou Krystal. A sua cabea estava rodando.
     Doze. Terapia semi-intensiva. O horrio de visitas  de meio-dia s quatro, e de seis s oito, ok?
...
     Tenho que ir agora. Achei melhor avisar porque voc pode querer passar l. Tchau.
     E desligou. Krystal tirou o celular do ouvido, mas ficou olhando para a tela. Com o polegar, apertou vrias vezes uma tecla, at que surgiu a palavra "Privado". 
A tia tinha ocultado o nmero.
     Ela voltou ento para junto das amigas. As duas logo perceberam que havia algo errado.
     Vai ver ela - disse Nikki, olhando a hora no celular. - D pra chegar s duas. Pega o nibus.
     T - replicou Krystal, aptica.
     Pensou em ir buscar a me e lev-la, juntamente com Robbie, para ver a av Cath, mas, depois da briga feia que tiveram um ano atrs, as duas nunca mais haviam 
se visto. Tinha certeza de que ia ter muito trabalho para convencer Terri a ir ao hospital e no sabia se a av Cath ficaria feliz ao v-la.
 grave, viu? Esto dizendo que ela no deve sair dessa.
     Tem dinheiro? - perguntou Leanne, enfiando a mo nos bolsos, enquanto as trs iam andando at o ponto do nibus.
     Tenho, sim - respondeu Krystal, verificando se era verdade. - Daqui at o hospital  s uma libra, n?
     Deu tempo de fumar um cigarro at o vinte e sete aparecer. Nikki e Leanne ficaram paradas, acenando, como se ela estivesse indo para algum lugar bem legal. 
No ltimo instante, Krystal ficou com medo e quis gritar: "Venham comigo!" Mas o nibus arrancou, e as duas garotas j estavam indo embora, fofocando.
     O estofado do banco, velho e fedido, chegava a ser pegajoso. O nibus seguiu pela zona comercial e dobrou  direita, pegando a avenida principal, onde ficavam 
as lojas mais famosas.
     O medo se remexia na barriga de Krystal como um feto. A garota sabia que a av Cath estava ficando mais velha e mais frgil, mas, s vezes, tinha uma vaga esperana 
de que ela se recuperasse, que voltasse  antiga forma que parecia ter durado tanto: o cabelo novamente preto, a coluna outra vez ereta e a memria to afiada quanto 
a sua lngua ferina. Nunca pensou na morte da av Cath, algum que sempre associou s idias de fora e invulnerabilidade. Se tivesse lhe ocorrido refletir sobre 
a deformao do tronco da bisav e as inmeras rugas que recortavam o seu rosto, decerto as veria como nobres cicatrizes adquiridas durante a sua bem-sucedida luta 
pela sobrevivncia. Krystal no conhecia ningum que tivesse morrido to velho assim.
     (A morte chegava cedo para aqueles que cercavam a sua me, muitas vezes at mesmo antes que os seus rostos e corpos ficassem abatidos e acabados. O cadver 
que Krystal encontrou no banheiro quando tinha seis anos era de um belo rapaz, branco e bonito como uma esttua, ou pelo menos era essa a lembrana que tinha dele. 
s vezes, porm, achava essas lembranas confusas e chegava a duvidar que as coisas tivessem acontecido assim mesmo. Era difcil saber em que acreditar. Quando era 
criana, ouviu tantas coisas que, mais tarde, os adultos acabavam negando ou contradizendo... Podia jurar que Terri tinha dito: "Era o seu pai." Anos depois, porm, 
ela disse: "Deixa de ser boba. Seu pai no morreu. Ele t l em Bristol." Krystal teve ento que voltar atrs e recuperar a idia de que o cara que todos chamavam 
de Grinfa  que era o seu pai.
     O tempo todo, porm, existia a av Cath por trs do que quer que fosse. Se Krystal escapou de ir parar num daqueles lares provisrios foi porque a bisav sempre 
esteve ali em Pagford, pronta para receb-la com uma rede de proteo bem forte, apesar de no muito confortvel. Apareceu por l, furiosa, xingando tanto Terri 
quanto a assistente social, e levou para casa a bisneta igualmente furiosa.
     Krystal no sabia se adorava ou odiava aquela casinha da Hope Street, caindo aos pedaos e cheirando a gua sanitria. Tinha-se a impresso de estar aprisionado 
ali dentro. Por outro lado, havia segurana, a mais completa segurana. A av Cath s deixava que pessoas da sua confiana cruzassem a soleira da porta. Num canto 
da banheira, dentro de um pote de vidro, tinha uns daqueles sais de banho bem antigos.)
     E se tivesse outras pessoas com a av Cath quando chegasse ao hospital? Krystal no conhecia metade da prpria famlia, e a idia de encontrar estranhos ligados 
a ela por laos de sangue lhe parecia assustadora. Terri tinha vrios meios-irmos, nascidos dos inmeros relacionamentos amorosos do pai e que ela nunca tinha visto. 
Mas a av Cath tentava manter contato com todos eles, insistindo em no perder de vista a grande famlia desconectada que os seus filhos haviam produzido. Ao longo 
dos anos, aconteceu de uns parentes que Krystal no conhecia aparecerem na casa da bisav quando ela estava l. Achava que aquela gente a olhava com desconfiana 
e fazia comentrios a seu respeito, falando em voz baixa. Fingia ento no perceber nada e ficava s esperando todo mundo ir embora para ela ter a av Cath s para 
si novamente. A idia que mais a desagradava era saber que existiam outras crianas na vida da bisav.
     (- Quem so esses a? - perguntou ela, enciumada, quando tinha nove anos, apontando para o aparador, onde havia um porta-retratos com a foto de dois meninos 
com uniforme da Paxton High.
     So dois dos meus bisnetos - disse a av Cath. - Dan e Ricky. Seus primos.
     Krystal no queria aqueles primos e no queria que eles ficassem ali no aparador da bisav.
     E quem  aquela? - perguntou, apontando para uma garotinha de cachinhos louros.
 a filha do meu Michael, Rhiannon, com cinco anos. Era linda, n? Mas ela foi embora e casou com um desses africanos - respondeu a velha.
     Nunca teve nenhuma foto de Robbie naquele aparador.
Voc nem sabe quem  o pai, n, sua puta? T lavando as minhas mos, Terri. Pra mim chega, Terri. J chega: agora voc vai se virar sozinha.)
     O nibus ia atravessando a cidade, passando pelas lojas que abriam domingo  tarde. Quando ela era pequena, Terri a levava ao centro de Yarvil quase todo fim 
de semana. Mas a me a obrigava a ir de carrinho, mesmo depois que a menina j no precisava daquilo, porque era muito mais fcil esconder coisas roubadas ali dentro, 
enfiando-as sob as pernas da criana, cobrindo-as com as sacolas enfurnadas no cesto debaixo do assento. s vezes, Terri ia fazer os seus furtos em companhia da 
irm com quem falava, Cheryl, que era casada com Shane Tully. Ambas moravam em Fields, a quatro quarteires uma da outra, e as coisas pegavam fogo quando as duas 
brigavam, aos palavres, o que acontecia com freqncia. Krystal nunca sabia se devia estar ou no falando com os primos Tully, e tambm no se dava o trabalho de 
tentar descobrir, mas falava com Dane sempre que cruzava com ele. Tinham transado uma vez, depois de dividirem uma garrafa de sidra l no parquinho do bairro, quando 
tinham quatorze anos. Mas nem um nem outro jamais voltou a tocar nesse assunto. A garota no sabia ao certo se era legal ou no transar com um primo. Uma coisa que 
Nikki tinha dito a fez achar que talvez no fosse...
     O nibus chegou  rua onde fica a entrada principal do South West e parou a uns quinze metros de um imenso prdio retangular de paredes cinza e janelas envidraadas. 
Havia ali alguns canteiros gramados, umas poucas rvores no muito altas e uma floresta de placas e letreiros.
     Krystal desceu do nibus atrs de duas senhoras idosas e ficou parada ali, com as mos nos bolsos da cala, olhando ao seu redor. J tinha esquecido em que 
tipo de enfermaria Danielle havia lhe dito que a bisav estava. S se lembrava do nmero doze. Dirigiu-se ento  placa mais prxima, como quem no quer nada, apertando 
os olhos para enxergar. Tudo que viu foram linhas e linhas de umas indicaes impenetrveis, com palavras quase to compridas quanto o seu brao, e milhares de setas 
apontando para a esquerda ou para a direita, tinha at algumas na diagonal. Krystal no lia l muito bem. Diante de uma grande quantidade de palavras, ela se sentia 
intimidada e ficava irritada. Depois de lanar vrias olhadas disfaradas para aquelas setas, chegou  concluso que no havia ali nmero algum e, ento, seguiu 
as duas senhoras idosas que iam entrando pela porta dupla de vidro do prdio principal.
     O saguo de entrada estava lotado e era mais confuso que aquelas placas l de fora. Tinha uma loja bem movimentada separada por vidraas que iam do teto ao 
cho; vrias fileiras de cadeiras de plstico que pareciam cheias de gente comendo sanduches; num canto, um caf tambm lotado e, bem no meio do saguo, uma espcie 
de balco hexagonal onde umas mulheres respondiam a perguntas e verificavam coisas na tela do computador. Krystal foi at l, sempre com as mos nos bolsos.
     Onde  a enfermaria doze? - perguntou a uma das mulheres, num tom meio grosseiro.
     Terceiro andar - respondeu a mulher, no mesmo tom.
     Krystal no quis perguntar mais nada por puro orgulho, ento deu as costas e saiu andando at avistar os elevadores na outra ponta do saguo. Entrou num deles 
que ia subir.
     Levou quase quinze minutos para encontrar a enfermaria. Por que aquela gente no botava nmeros e setas nas placas, em vez daquelas palavras enormes idiotas? 
Mas, quando ela estava andando por um corredor pintado de verde-claro, com os tnis rangendo no piso de linleo, algum a chamou pelo nome.
     Krystal?
     Era sua tia Cheryl, uma mulher grandalhona de saia jeans e um palet branco bem justo, com o cabelo amarelo-canrio de razes escuras. Tinha os braos grossos 
cobertos de tatuagens at os ns dos dedos e usava vrias argolas que mais pareciam de prender cortinas em ambas as orelhas. E trazia na mo uma latinha de Coca.
     Ela nem quis saber, n? - perguntou Cheryl, parada com as pernas bem separadas, parecendo at uma sentinela.
     Quem?
     Terri. Ela no quis vir?
     Ela ainda no sabe. Fiquei sabendo agora. Danielle ligou e me disse.
     Cheryl abriu a Coca e tomou uns goles. Os seus olhinhos midos, perdidos num rosto largo e achatado que parecia at um salaminho de tantas manchas, encaravam 
a sobrinha por cima da borda da latinha.
     Disse pra Danielle te ligar quando aconteceu. Ela ficou trs dias cada na porra daquela casa e ningum viu! Ela t num estado... Puta que pariu!
     Krystal nem perguntou por que a prpria Cheryl no percorreu aquela distncia de nada at a Foley Road para dar a notcia a Terri. Era evidente que as duas 
estavam novamente sem se falar. No conseguiam se entender mesmo.
     Cad ela? - perguntou Krystal.
     Cheryl saiu andando na frente com as rasteirinhas batendo no cho.
     Ah - disse ela, no meio do caminho -, uma jornalista me ligou perguntando por voc.
     Ligou?
     E deixou um telefone.
     A garota queria perguntar mais coisas, mas tinham acabado de entrar numa enfermaria absolutamente silenciosa, e, de repente, ela ficou assustada. No gostava 
daquele cheiro.
     A av Cath estava praticamente irreconhecvel. Um dos lados do seu rosto estava todo retorcido, como se os msculos houvessem sido repuxados com um arame. A 
boca tambm estava torta para um lado, e at mesmo o olho dela parecia cado. Tinham prendido mil tubos nela e enfiado uma agulha no seu brao. Ali deitada, a deformidade 
do seu peito ficava muito mais visvel. O lenol fazia uns altos e baixos em lugares estranhos, parecendo uma cabea grotesca plantada num pescoo esqulido e saindo 
de um barril.
     Quando Krystal sentou ao seu lado, a av Cath no fez movimento algum. Ficou simplesmente olhando fixo. Uma das suas mozinhas estremeceu ligeiramente.
     Ela no t falando, mas repetiu o seu nome duas vezes ontem  noite - disse Cheryl, com um olhar tristonho que aparecia por trs da latinha.
     O peito de Krystal estava apertado. No sabia se a av Cath ia sentir dor se ela segurasse na sua mo. Chegou ento os dedos a uns poucos centmetros da bisav, 
mas os deixou pousados na cama.
     Rhiannon teve aqui - disse Cheryl. - John e Sue tambm. Sue t tentando localizar Anne-Marie.
     Krystal se animou ao ouvir aquilo.
     Onde  que ela t? - perguntou.
     Em algum lugar l pras bandas de Frenchay. Sabe que ela teve beb?
     , algum me disse - respondeu Krystal. -  menino ou menina?
     No sei - respondeu Cheryl, tomando um gole de Coca.
Algum l da escola tinha lhe dito: Ei, Krystal, a sua irm vai ter beb!
     Ficou empolgada com a notcia. Ia ser titia, mesmo que nunca viesse a ver a criana. Passou a vida inteira adorando a idia de ter uma irm. Quando ela nasceu, 
Anne-Marie j tinha sido levada embora, transportada para uma outra dimenso, como uma personagem de contos de fadas, to linda e misteriosa quanto o rapaz morto 
no banheiro da sua me.
     Os lbios da av Cath se moveram.
     Que ? - indagou Krystal, inclinando-se sobre a bisav, meio assustada, meio animada.
     Quer alguma coisa, v? - perguntou Cheryl, e falou to alto que as visitas que sussurravam junto aos outros leitos se viraram para olhar.
     Tudo que Krystal podia ouvir era um chiado ruidoso, mas, aparentemente, a av Cath estava mesmo tentando articular uma palavra. Cheryl tambm se debruou sobre 
a cama, apoiando-se com uma das mos na barra metlica da cabeceira.
     Mmm... H... - murmurou a enferma.
     Qu? - perguntaram as duas ao mesmo tempo.
     Os olhos da av Cath se moveram alguns milmetros, uns olhos cheios de secreo, embaados, que fitavam o rosto jovem de Krystal. De boca aberta, debruada 
sobre a bisav, a garota tinha um ar intrigado, ansioso, assustado.
     ...mando... - disse aquela voz alquebrada.
     Ela no sabe o que diz - gritou Cheryl, virando a cabea para trs e dirigindo-se ao tmido casal que visitava a paciente do leito ao lado. - Trs dias cada 
na merda daquele cho... No  de espantar, n?
     Mas as lgrimas haviam turvado os olhos de Krystal. A enfermaria, com aquelas janelas altas, se desfez em luz branca e sombras. A garota teve a impresso de 
ver um raio de sol luminoso batendo na gua verde-escura, estilhaando-se em fascas reluzentes a cada movimento de subida e descida dos remos.
     Pode deixar - sussurrou ela. - Vou continuar remando, v Cath.
     S que no era verdade, porque o sr. Fairbrother tinha morrido.

VI

     - Que diabo foi isso na sua cara? Caiu da bicicleta de novo? - perguntou Bola.
     - No - respondeu Andrew. - Foi Docinho de Coco que me deu porrada. Tava tentando explicar quele babaca que ele tinha entendido tudo errado naquela histria 
do Fairbrother.
     Os dois estavam no galpo do quintal, enchendo os cestos que ficavam de ambos os lados da lareira na sala de estar. Simon lhe deu com uma acha na cabea, e 
o garoto caiu com a cara cheia de espinhas em cima da pilha de lenha.
Acha que sabe mais que eu, seu merdinha espinhento? Se ficar sabendo que voc disse uma palavra sobre o que acontece nessa casa...
Eu no...
Eu esfolo voc vivo, t entendendo? Como sabe que Fairbrother no estava metido na tramia, hein? E que s o outro vigarista foi burro o bastante para se deixar 
apanhar?
     Depois disso, fosse por orgulho ou numa atitude de desafio, ou ainda porque as suas fantasias de dinheiro fcil tivessem chegado a ponto de superar os fatos 
concretos, Simon enviou os formulrios de candidatura. A humilhao, que ia atingir a famlia toda, era lquida e certa.
     Sabotagem. Andrew ficou ruminando aquela palavra. Queria derrubar o pai das alturas a que os seus sonhos de ganhar dinheiro fcil o tinham erguido e, se possvel 
(porque preferia a glria sem a morte), queria fazer isso de um jeito que Simon nunca viesse a descobrir quem havia armado para pr por terra as suas ambies.
     No disse isso a ningum, nem mesmo a Bola. Contava praticamente tudo ao amigo, e as raras excees eram questes mais amplas, aquelas que ocupavam quase todo 
o seu espao interior. Uma coisa era sentar no quarto de Bola, com o maior teso, e ficar olhando garotas transando com garotas na internet. Outra coisa bem diferente 
era confessar que vinha procurando obsessivamente um jeito de puxar conversa com Gaia Bawden. Tambm era fcil sentar l no Pombal e chamar o pai de babaca, mas 
ele nunca contaria que os ataques de fria de Simon deixavam as suas mos geladas e o seu estmago embrulhado.
     Chegou, porm, uma hora em que as coisas mudaram. Tudo comeou com um simples desejo de nicotina e beleza. A chuva tinha enfim parado, e um plido sol de primavera 
brilhava nos vidros sujos do nibus escolar que ia sacolejando pelas ruas estreitas de Pagford. L do fundo, onde estava sentado, no conseguia ver Gaia, que tinha 
ficado mais na frente, perto de Sukhvinder e das rfs Fairbrother, que acabavam de voltar s aulas. Praticamente no tinha visto Gaia o dia todo, e j imaginava 
uma noite chata em que o seu nico consolo seriam aquelas velhas fotos do Facebook.
     Quando o nibus foi se aproximando da Hope Street, Andrew lembrou que nem o pai, nem a me estariam em casa para dar falta dele. No bolso, trazia trs cigarros 
que Bola tinha lhe dado, e Gaia j estava de p, segurando firme na barra do encosto do banco, pronta para saltar, mas ainda conversando com Sukhvinder Jawanda.
     Por que no? Por que no?
     Levantou tambm, pendurou a mochila no ombro e, quando o nibus parou, saiu em disparada pelo corredor e desceu atrs das duas garotas.
     - At mais tarde - exclamou, ao passar pelo irmo, que parecia espantadssimo.
     Desceu na calada ensolarada, e o nibus foi embora. Acendeu um cigarro, observando Gaia e Sukhvinder por cima das mos em concha. As duas no estavam indo 
para a casa de Gaia, na Hope Street. Seguiam em direo  praa. Fumando e franzindo ligeiramente a testa, numa imitao inconsciente da pessoa mais descolada que 
conhecia - Bola -, Andrew foi andando atrs delas, deliciando-se com a viso do cabelo acobreado de Gaia, que ia balanando nos seus ombros, e com o movimento da 
saia dela acompanhando o ritmo dos quadris.
     Ao chegarem perto da praa, as garotas reduziram o passo, dirigindo-se para a Mollison & Lowe, a loja mais atraente do lugar, com o letreiro azul e dourado 
e quatro floreiras penduradas na fachada. Andrew hesitou. As duas pararam para ler um pequeno cartaz colado na vidraa do novo caf e, depois, entraram na delicatssen.
     O rapaz ento deu uma volta na praa, passou pelo Black Canon e pelo Hotel George, e parou para ver o tal cartaz tambm. Era um anncio escrito  mo, pedindo 
algum para trabalhar nos fins de semana.
     Morrendo de vergonha da acne, que andava particularmente inflamada na ocasio, apagou o cigarro com cuidado, enfiou o resto no bolso e entrou na loja.
     As garotas estavam paradas junto de uma mesinha cheia de pacotes de biscoitos integrais, observando o sujeito imenso com aquele chapu Sherlock Holmes que, 
por trs do balco, conversava com um senhor mais idoso. Gaia se virou quando a sineta tilintou.
     Oi - disse Andrew, sentindo a boca seca.
     Oi - respondeu ela.
     Ofuscado pela prpria ousadia, o garoto se aproximou e esbarrou com a mochila no mostrurio onde ficavam os guias tursticos de Pagford e exemplares de um livro 
de receitas tradicionais da regio. Mais que depressa, Andrew segurou o mostrurio, evitando que ele casse, e tirou a mochila do ombro.
     Veio ver o emprego? - perguntou Gaia baixinho, com aquele incrvel sotaque londrino.
     Vim - respondeu ele. - Voc tambm?
     Ela fez que sim com a cabea.
     Ponha l na pgina de sugestes, Eddie - dizia Howard, com aquela voz de trovo. - Poste no site, e vou incluir a questo na pauta. Conselho Distrital de Pagford, 
uma palavra s, ponto co, ponto uk, barra, pgina de sugestes. Ou ento clique no link. Conselho... - repetiu ele, desta vez mais devagar, e o cliente pegou papel 
e caneta para anotar com mo trmula: "Conselho..."
     Nesse instante, Howard avistou os adolescentes esperando ali ao lado daqueles biscoitos to gostosos. Os trs usavam o uniforme sem graa da
     Winterdown, que permitia tanto desleixo e tantas variaes que nem parecia um uniforme. (Que diferena quanto  St. Anne, que exigia o blazer e a saia escocesa!) 
Apesar de tudo, a garota branca era deslumbrante, um verdadeiro diamante lapidado que se destacava ainda mais junto da filha feiosa dos Jawanda, cujo nome ele no 
sabia, e daquele rapazinho de cabelo desbotado e com a cara cheia de espinhas.
     O tal fregus saiu da loja, fazendo a sineta tilintar.
     O que vo querer? - perguntou Howard, sem tirar os olhos de Gaia.
     Bom...  sobre o emprego - disse ela, dando alguns passos  frente e apontando para o pequeno cartaz pregado na vidraa.
     Ah, claro - exclamou Howard, com um sorriso radiante. O garom que haviam contratado para o fim de semana o deixou na mo poucos dias antes, trocando o caf 
por Yarvil e o trabalho num supermercado. - Claro, claro. Est querendo ser garonete? Pagamos o salrio mnimo para trabalhar de nove s cinco e meia aos sbados, 
e de meio-dia s cinco e meia aos domingos. Estamos inaugurando daqui a duas semanas. E ns mesmos nos encarregamos do treinamento. Quantos anos voc tem, querida?
     Aquela garota era perfeita, perfeita, exatamente o que ele havia imaginado: bonita de rosto e de corpo. Podia at v-la com um vestido preto justo e um avental 
branco debruado de renda. Ia lhe ensinar a operar a caixa registradora e lhe mostrar onde ficava o estoque. Ia se divertir com aquela garota e talvez at lhe desse 
uma gratificao extra nos dias em que entrasse mais dinheiro.
     Howard veio se esgueirando de trs do balco e, ignorando Sukhvinder e Andrew, pegou Gaia pelo brao e a levou at o arco que dividia as duas lojas. Ainda no 
havia mesas e cadeiras, mas o balco j tinha sido instalado, e, na parede atrs dele, um mural de azulejos, em preto e creme, mostrava a praa em outros tempos. 
Mulheres de anquinhas e homens de cartola circulavam por todo lado; uma sege Brougham estava estacionada diante de uma loja onde se lia o nome Mollison & Lowe e, 
ao lado dela, o pequeno caf Copper Kettle. O artista havia improvisado uma daquelas bombas de gua bem antigas para substituir o memorial aos mortos da guerra.
     Andrew e Sukhvinder ficaram para trs, sentindo-se desajeitados e vagamente irritados por estarem ali sozinhos.
     Sim? Desejam alguma coisa?
     Uma mulher bem encurvada com um cabelo todo armado de um preto retinto surgiu l dos fundos da loja. Andrew e Sukhvinder murmuraram que estavam esperando, e, 
ento, Howard e Gaia apareceram no arco divisrio. Ao ver Maureen, ele soltou o brao da garota, que tinha ficado segurando o tempo todo enquanto lhe explicava quais 
eram as funes de uma garonete.
     Acho que consegui algum para nos ajudar no caf, Mo - disse ele.
     Ah, ? - exclamou a mulher, voltando os olhos vidos para Gaia. - Voc tem experincia?
     Howard porm a interrompeu, contando a Gaia tudo sobre a delicatssen e dizendo-lhe que gostava muito de pensar na loja como um pedacinho de Pagford, um pedacinho 
da paisagem local.
     J so trinta e cinco anos - disse ele, desdenhando solenemente do seu prprio mural. - A mocinha aqui  nova na cidade, Mo - acrescentou.
     E vocs tambm esto querendo emprego? - perguntou Maureen, dirigindo-se aos outros dois.
     Sukhvinder abanou a cabea. Andrew fez um movimento um tanto ambguo com os ombros, mas Gaia, olhando para a amiga, disse:
     Ande. Voc disse que at que poderia ser.
     Howard observou a garota, que decerto no ficaria muito bem num vestido preto justo com avental de babados, mas a sua mente frtil e malevel atirava para todo 
lado. Um elogio ao seu pai, um certo controle sobre a sua me, um favorzinho inesperado... Muita coisa alm da pura esttica talvez devesse ser levada em conta nesse 
caso.
     Bom, se as coisas correrem como estamos esperando,  provvel que precisemos de duas pessoas - disse ele, coando a papada e com os olhos pregados em Sukhvinder, 
que tinha enrubescido de um jeito nada atraente.
     Eu no... - principiou a garota, mas Gaia insistiu.
     Vamos. A gente vai trabalhar junto.
     Sukhvinder estava toda vermelha, e os seus olhos se encheram de lgrimas.
     Eu...
     Ah, vamos... - sussurrou Gaia.
     Eu... Est bem.
     Vamos fazer um perodo de experincia, srta. Jawanda - disse Howard.
     Apavorada, a garota mal conseguia respirar. O que a sua me ia dizer?
     E voc deve estar querendo ser o nosso quebra-galho - acrescentou ele com aquele seu vozeiro, agora dirigindo-se a Andrew.
Quebra-galho?
     Precisamos de fora bruta, meu amigo - prosseguiu Howard. Andrew s ficou olhando, piscando os olhos, inteiramente desconcertado. Tudo que tinha lido foram 
as letras maiores no tal cartaz. - Tem que levar caixotes para o estoque, trazer caixas de leite l do poro e transportar os sacos de lixo para os fundos.  trabalho 
braal mesmo. Acha que pode dar conta?
     Claro - respondeu o garoto. Ia estar ali quando Gaia tambm estivesse? Isso era tudo que importava.
     Vamos precisar de voc bem cedo. Provavelmente s oito. Digamos, de oito s trs, para vermos como funciona. Vamos fazer um perodo de experincia de duas semanas.
     Por mim, est timo.
     Como se chama?
     Quando ouviu a resposta do garoto, Howard ergueu as sobrancelhas.
     O seu pai se chama Simon? Simon Price?
     Isso mesmo.
     Andrew ficou aflito: normalmente, ningum sabia quem era o seu pai.
     Howard mandou que as duas garotas voltassem no domingo  tarde, quando teria condies de lhes dar o treinamento necessrio. Pelo visto, gostaria que Gaia continuasse 
ali conversando, mas, nesse momento, chegou um fregus, e os adolescentes aproveitaram para ir embora.
     Andrew no conseguia pensar em nada que pudesse dizer quando se viram do outro lado da porta que tilintava. Antes, porm, que pudesse dominar os prprios pensamentos, 
Gaia disse um "tchau" sem maiores cerimnias e saiu andando com Sukhvinder. O garoto acendeu o segundo cigarro dos trs que Bola tinha lhe dado (no era hora de 
acender uma guimba), o que lhe deu uma desculpa para ficar parado, vendo a garota se afastar na escurido, que ia ficando mais acentuada.
     Por que chamam esse garoto de Amendoim? - perguntou Gaia, assim que se viu a uma distncia considervel.
     Porque ele tem alergia - respondeu Sukhvinder, que estava apavorada com a perspectiva de ter de contar para a me o que havia feito. E ela mal reconheceu a 
prpria voz. - L na St. Thomas, ele quase morreu quando algum lhe deu um amendoim escondido num marshmallow.
     - Ah, t - exclamou Gaia. - Achei que era porque ele tinha um pau bem pequenininho.
     E riu. Com algum esforo, Sukhvinder fez o mesmo, como se ouvisse piadinhas sobre pnis o tempo todo.
     Andrew as viu olhar para trs rindo e teve certeza de que estavam falando dele. No era assim to conhecedor das garotas, mas sabia que aquele risinho bem poderia 
ser um sinal de esperana. Rindo sozinho, saiu andando, com a mochila no ombro e o cigarro na mo. Atravessou a praa, em direo  Church Row, para encarar, a partir 
dali, uns quarenta minutos de subida ngreme at sair da cidade e chegar a Hilltop House.
 luz do crepsculo, as cercas vivas do caminho estavam de uma palidez fantasmagrica com as suas florezinhas brancas. De ambos os lados, os abrunheiros estavam 
floridos, e as celidnias bordejavam toda a rua com as suas folhinhas midas, luzidias, em forma de corao. O cheiro das flores, o profundo prazer do cigarro e 
a promessa de passar os fins de semana com Gaia, tudo aquilo se misturava, criando uma gloriosa sinfonia de felicidade e beleza que acompanhou a respirao ofegante 
do garoto colina acima. Da prxima vez que o pai lhe dissesse "j arranjou emprego, hein, Cara de Pizza?", responderia "j". Ia ser colega de trabalho de Gaia Bawden 
todo fim de semana.
     E, como se no bastasse, tinha finalmente descoberto um jeito de dar uma facada annima bem no meio das costas do pai.

VII
     
     Depois que passou o primeiro impulso de desprezo, Samantha lamentou amargamente ter convidado Gavin e Kay para jantar. Passou toda a manh da sexta-feira fazendo 
gozaes com a sua vendedora sobre a noite assustadora que ia ter, mas o seu humor despencou assim que deixou Carly encarregada de cuidar da "Super Super Sutis" 
(nome que fez Howard rir tanto, da primeira vez que o ouviu, que ele chegou a ter uma crise de asma, e que fazia Shirley fechar a cara sempre que ele era pronunciado 
na sua frente). Voltando para Pagford antes da hora do rush, para ter tempo de ir comprar os ingredientes e comear a preparar a comida, Samantha tentou se animar 
imaginando perguntas bem embaraosas que poderia fazer a Gavin. Talvez devesse se perguntar, em voz alta, por que Kay no tinha ido morar com ele: essa seria tima!
     Indo a p para casa, carregando em cada mo uma sacola da Mollison & Lowe bem cheia, encontrou Mary Fairbrother no caixa eletrnico da agncia do banco em que 
Barry trabalhava.
     Oi, Mary... Como vai?
     Ela estava magra e plida, com umas olheiras acentuadas. A conversa que tiveram foi estranha, forada. No se falavam desde aquela viagem de ambulncia, tendo 
apenas trocado umas poucas palavras de condolncias no funeral.
     Andei pensando em dar um pulinho na sua casa - disse a viva. - Vocs foram to gentis... E eu queria agradecer a Miles...
     Imagine - replicou Samantha, bastante sem jeito.
     Ah, mas eu gostaria...
     Ento, venha quando quiser...
     Depois que Mary se afastou, Samantha teve o terrvel pressentimento: talvez ela tivesse ficado com a impresso de que aquela noite seria o momento ideal para 
aparecer.
     Assim que chegou em casa, largou as bolsas de compras no vestbulo e ligou para o escritrio de Miles para lhe contar o que tinha feito. Ele, porm, demonstrou 
um descaso irritante com relao  perspectiva de ter uma viva recente incorporada aos dois casais para um jantar.
     Na verdade, no vejo problema algum - disse ele. - Vai ser bom para Mary sair um pouco.
     Mas eu no disse que Gavin e Kay estavam vindo...
     Mary gosta de Gavin - retrucou Miles. - No precisa se preocupar com isso.
     Samantha achou que o marido estava sendo deliberadamente obtuso, com certeza como forma de retaliao por ela ter se recusado a ir jantar na Sweetlove House. 
Quando desligou o telefone, ficou pensando se deveria ligar para Mary, dizendo-lhe que no viesse aquela noite, mas ficou com medo de parecer grosseira e decidiu 
apostar na esperana de que a outra afinal no se sentisse  vontade para vir at ali.
     Irritada, foi para a sala de estar, ps o DVD da tal banda da filha num volume bem alto para poder ouvi-lo l da cozinha, apanhou as sacolas e se preparou para 
comear a fazer um cozido e a sobremesa que sempre lhe servia de quebra-galho: a chamada torta de lama do Mississippi. Adoraria ter comprado uma torta bem grande 
na Mollison & Lowe, pois, assim, teria menos trabalho, mas Shirley teria ficado sabendo imediatamente e logo comearia com aquela velha histria de criticar a nora 
por usar e abusar das comidas prontas e dos congelados.
     A essa altura, Samantha j conhecia o DVD da banda de cor e salteado, e podia visualizar as imagens correspondentes  msica que soava aos brados na cozinha. 
Vrias vezes, durante a semana, quando Miles estava l em cima, no escritrio, ou no telefone com o pai, ela tinha visto tudo aquilo novamente. Quando ouviu os primeiros 
acordes da msica em que o rapaz musculoso aparecia caminhando pela praia, com a camisa aberta balanando ao vento, correu para espiar, de avental e tudo, lambendo 
distrada os dedos sujos de chocolate.
     Tinha planejado tomar um bom banho enquanto Miles botava a mesa, esquecendo que ele ia chegar mais tarde porque tinha de ir antes at Yarvil para buscar as 
garotas na St. Anne. Quando Samantha se deu conta de que o marido ainda no havia voltado e que as filhas viriam com ele, teve de correr para preparar a sala de 
jantar e arranjar alguma coisa para Lexie e Libby comerem antes que os convidados chegassem. s sete e meia, Miles encontrou a mulher com a mesma roupa que tinha 
ido trabalhar, suada, chateada e decidida a culp-lo por uma idia que havia sido dela mesma.
     Libby, a caula, de quatorze anos, foi direto para a sala de estar, sem cumprimentar a me, e tirou o DVD do aparelho.
     Nossa! No fazia idia de onde tinha deixado isso! - exclamou. - Por que a televiso est ligada? Voc andou vendo esse DVD?
s vezes, Samantha achava que a filha tinha alguma coisa de Shirley.
     Eu estava vendo o jornal, Libby. No tenho tempo para DVDs. Pode vir, a sua pizza est pronta. Vamos ter convidados para o jantar.
     Pizza congelada de novo?
     Miles! Tenho que ir me arrumar. Ser que pode amassar as batatas para mim? Miles?
     Mas ele j havia desaparecido no andar de cima. Samantha, ento, teve de cuidar sozinha das batatas, enquanto as filhas comiam na bancada que ficava no meio 
da cozinha. Libby tinha posto a caixa do DVD apoiada no copo de Pepsi Diet e ficou olhando para ela, encantada.
     Mikey  to gostoso - disse ela, num tom de desejo to intenso que Samantha tomou um susto. Mas o rapaz musculoso se chamava Jake, e ela ficou feliz ao descobrir 
que as duas no gostavam do mesmo sujeito.
     Em voz alta e em tom confiante, Lexie falava sem parar sobre o colgio: uma verdadeira metralhadora de informaes sobre garotas que Samantha no conhecia e 
cujas bobagens, brigas e mudanas de grupinhos ela no tinha a menor condio de acompanhar.
     Bom, tenho que ir me arrumar. Limpem tudo quando terminarem, ok?
     Baixou o fogo sob a panela do cozido e subiu a escada correndo. Miles estava no quarto, abotoando a camisa, observando-se no espelho do guarda-roupa. Tudo ali 
cheirava a sabonete e loo ps-barba.
     Tudo sob controle, hein?
     Claro. Obrigada. Que bom que deu tempo de voc tomar banho - disse ela, irritada, pegando a blusa e a saia longa favoritas e batendo a porta do armrio.
     Voc podia tomar banho tambm.
     Eles vo chegar daqui a dez minutos. No vai dar tempo de secar o cabelo e me maquiar - replicou ela, sacudindo as pernas para tirar os sapatos. Um deles foi 
bater no aquecedor fazendo um barulho. - Quando terminar de se embonecar, ser que pode descer e escolher as bebidas?
     Depois que Miles saiu do quarto, Samantha tentou desembaraar o cabelo espesso e retocar a maquiagem. Estava horrvel. S quando j tinha acabado de se vestir, 
percebeu que no estava usando o suti adequado para aquela blusa justinha. Saiu procurando-o freneticamente para enfim se lembrar de que o suti ideal estava secando 
l na lavanderia. Tratou de ir busc-lo, mas, assim que saiu do quarto, ouviu a campainha tocando. Com um palavro, voltou correndo. Do quarto de Libby vinha o som 
da banda daquele rapaz.
     Os convidados chegaram s oito em ponto, porque Gavin ficou com medo do que Samantha pudesse dizer caso se atrasassem. Imaginou que ela pudesse sugerir que 
os dois tinham perdido a noo da hora por estarem trepando ou tendo uma briga. A mulher de Miles parecia achar que uma das vantagens do casamento era autorizar 
as pessoas a dar palpites ou se intrometer na vida amorosa dos solteiros. Parecia achar tambm que a sua falta de cerimnia e o seu jeito grosseiro de falar, principalmente 
quando bebia, eram uma demonstrao de humor custico.
     Ol, ol, ol! - exclamou Miles, afastando-se para que o casal pudesse passar. - Vamos entrando, vamos entrando. Sejam bem-vindos  Manso Mollison!
     Deu dois beijos no rosto de Kay e pegou os bombons que ela estava trazendo.
     Para ns? Obrigado. At que enfim tenho o prazer de conhec-la. J era mais que tempo de Gav deixar de manter voc to escondida...
     Pegou tambm o vinho que o rapaz trazia e lhe deu uns tapinhas nas costas, coisa que o deixou bem irritado.
     Mas entrem. Sam vai descer num minuto. O que querem beber?
     A primeira impresso de Kay foi que Miles assumia um tom de excessiva intimidade e era um pouco simptico demais, no entanto a moa estava decidida a no fazer 
qualquer avaliao a esse respeito.  importante que os casais convivam com os amigos um do outro e que consigam se dar bem com eles. Aquela noite representava um 
avano significativo na sua tentativa de penetrar mais fundo na vida de Gavin, de ter acesso a setores dos quais vinha sendo mantida afastada. Kay queria demonstrar 
que ficava  vontade na casa grande e um tanto exibida dos Mollison e que, portanto, ele no precisava mais exclu-la. Sorriu ento para Miles, disse que tomaria 
um vinho tinto e elogiou a sala espaosa com o seu assoalho de tbuas corridas, o seu sof superacolchoado e os quadros nas paredes.
     J faz... humm... quase quatorze anos que moramos aqui - disse Miles, s voltas com o saca-rolhas. - Voc est morando na Hope Street, no ? Aquelas casas 
so umas graas. Tem umas excelentes oportunidades de investimento por l.
     Samantha apareceu, com um sorriso no muito acolhedor. Kay, que s a tinha visto usando um sobretudo, reparou na blusa laranja apertadssima sob a qual se via 
nitidamente cada detalhe do suti de renda. O rosto dela era ainda mais escuro que o seu colo bem vincado. A maquiagem dos olhos, carregada, no a favorecia em nada. 
E, na opinio da moa, aquelas argolas douradas nas orelhas e os tamancos de salto alto tambm dourados eram vulgares. Samantha lhe deu a impresso de ser uma daquelas 
mulheres que saem para noitadas com amigas, acham shows de striptease divertidssimos e, nas festas, meio bbadas, ficam flertando com o acompanhante de quem estiver 
por l.
     Oi, gente! - disse ela. Deu dois beijos em Gavin e sorriu para Kay. - Ah, j esto bebendo. timo! Tambm vou querer um vinho tinto, Miles.
     Foi se sentar, no sem antes avaliar a aparncia da outra mulher: Kay tinha seios pequenos e quadris largos, e, com toda a certeza, tinha escolhido aquela cala 
preta para minimizar o tamanho da bunda. Era melhor que estivesse de salto alto, pensou Samantha, j que tinha pernas curtas. O rosto dela era bem atraente, com 
a pele morena, os grandes olhos escuros e uma boca generosa, mas aquele cabelo curtinho de menino e os sapatos sem salto nenhum eram indcios definitivos de certas 
crenas inabalveis. Gavin tinha repetido a dose. Mais uma vez, escolheu uma mulher desprovida de humor e dominadora que tornaria a vida dele um inferno...
     Ento... - disse Samantha, em tom animado e erguendo a taa. - Gavin-e-Kay!
     Satisfeita da vida, viu um sorriso encabulado no rosto de Gavin. Antes, porm, de poder intimid-lo ainda mais e extrair de ambos alguma informao privada 
para exibir diante de Shirley e de Maureen, a campainha tocou outra vez.
     Era Mary, parecendo mais frgil e angulosa, especialmente ao lado de Miles, que a acompanhou at a sala. A camiseta que ela usava pendia dos ossos saltados 
dos seus ombros.
     Ah! - exclamou ela, parando assustada na soleira da porta. - No sabia que tinham...
     Gavin e Kay acabaram de chegar - disse Samantha, de forma um tanto brusca. - Entre, Mary, por favor... Beba alguma coisa...
     Mary, esta  Kay - disse Miles. - Kay, esta  Mary Fairbrother.
     Ah... - balbuciou Kay, atnita. Estava achando que seriam s os quatro para jantar. - Claro. Como vai?
     Gavin, que podia jurar que Mary no tinha inteno de participar de um jantar e estava prestes a dar meia-volta e ir embora, deu uns tapinhas no sof ao seu 
lado. A viva de Barry se sentou com um sorrisinho apagado. O rapaz estava encantado em v-la ali. Ela seria o seu para-raios. At mesmo Samantha seria capaz de 
perceber que aquelas conversas picantes que eram a sua marca registrada no seriam nada convenientes diante de uma mulher que estava de luto. Alm do mais, a to 
constrangedora simetria dos dois casais havia sido rompida.
     Como  que voc est? - perguntou ele, baixinho. - Na verdade, estava pensando em telefonar... Tenho mais algumas notcias sobre a histria do seguro...
     Tem alguma coisa para mastigar, Sam? - perguntou Miles.
     Samantha saiu da sala, olhando para o marido com um ar emburrado. Assim que abriu a porta da cozinha, sentiu o cheiro de carne esturricada.
     Merda, merda, merda...
     Tinha esquecido por completo o cozido, e o caldo tinha secado. Agora, s havia uns pedaos de carne e de legumes esturricados, mseros sobreviventes da catstrofe, 
no fundo escurecido da panela. Derramou ali dentro vinho e caldo, raspando com uma colher o que havia ficado grudado nas paredes da panela, mexendo vigorosamente, 
suando por causa do calor. L da sala, veio a gargalhada estridente de Miles. Samantha ps para escorrer os brcolis excessivamente cozidos, esvaziou a prpria taa, 
abriu um pacote de salgadinhos sabor tortilla, um pote de homus e despejou os dois numas tigelas.
     Quando voltou para a sala de estar, Mary e Gavin ainda estavam conversando em voz baixa no sof, enquanto Miles mostrava a Kay um quadro que era uma foto area 
de Pagford e lhe dava uma aula de histria do vilarejo. Samantha ps as tigelas na mesinha de centro, serviu-se de mais uma taa de vinho e foi sentar numa poltrona, 
sem fazer qualquer esforo para se incluir em nenhuma das duas conversas. A presena de Mary era terrivelmente desconfortvel. A aura de sofrimento que a cercava 
era to pesada que ela poderia perfeitamente ter chegado ali arrastando atrs de si uma mortalha. Mas com certeza no ia ficar para jantar.
     Gavin estava decidido a faz-la ficar. Conversando com ela sobre os mais recentes acontecimentos da batalha que travavam com a companhia de seguros, sentia-se 
muito mais relaxado e no controle da situao do que geralmente acontecia quando estava na presena de Miles e de Samantha. Ningum o estava diminuindo ou tentando 
lhe dar ordens, e, por algum tempo, Miles o estava eximindo de toda e qualquer responsabilidade quanto a Kay.
     ...e bem aqui, nesse lugar que no d para ver... - dizia Miles, apontando um ponto dois centmetros alm da moldura do quadro -, fica a Sweetlove House, a 
residncia dos Fawley.  uma manso estilo Rainha Ana, com mansardas, cantoneiras de pedra...  magnfica. Voc devia ir visitar. A casa  aberta ao pblico aos 
domingos, durante o vero. Os Fawley so uma importante famlia da regio.
"Cantoneiras de pedra?" "Importante famlia da regio?" Cus, Miles, como voc  babaca!
     Samantha se levantou da poltrona onde estava sentada e voltou para a cozinha. Embora o cozido estivesse com caldo, o que prevalecia era o gosto de queimado. 
Os brcolis estavam moles e sem gosto; o pur de batatas, frio e seco. Ela resolveu ento desistir. Despejou tudo em travessas e praticamente as atirou na mesa redonda 
da sala de jantar.
     O jantar est servido! - gritou para os que estavam no outro aposento.
     Ah, tenho que ir - exclamou Mary, levantando-se de um salto. - No tinha a inteno de...
     No, no, no - disse Gavin, num tom que Kay jamais ouvira antes: delicado e cativante. - Vai ser bom para voc comer um pouco. No tem problema deixar os meninos 
sozinhos por uma hora.
     Miles reforou a proposta de Gavin, e Mary, insegura, olhou para Samantha, que foi obrigada a fazer coro aos dois e a voltar  sala de jantar para botar mais 
um lugar  mesa.
     Convidou Mary a sentar entre Gavin e Miles, porque deix-la ao lado de outra mulher parecia acentuar ainda mais a ausncia do marido. Kay e Miles falavam agora 
sobre assistncia social.
     No invejo voc - disse ele, pondo uma concha bem-servida do cozido no prato da moa. E Samantha viu umas crostinhas pretas de queimado se espalharem junto 
com o molho na loua branca. -  um trabalho danado! Dificlimo!
     Bom, nunca temos verba suficiente - replicou Kay -, mas pode ser um trabalho muito gratificante, principalmente quando a gente v que est conseguindo mudar 
alguma coisa.
     E pensou nos Weedon. Na vspera, l na clnica, o exame de urina de Terri tinha dado negativo para a herona, e Robbie tinha ido  escola a semana inteira. 
Aquela lembrana a animou, servindo para contrabalanar a ligeira irritao que sentia ao ver que Gavin continuava a dar ateno exclusivamente a Mary, sem fazer 
nada para facilitar a sua conversa com os amigos dele.
     Voc tem uma filha, no , Kay?
     Tenho, sim. Gaia. Est com dezesseis anos.
     A mesma idade de Lexie. Seria bom que elas se conhecessem - disse Miles.
     Voc  divorciada? - indagou Samantha, delicadamente.
     No - respondeu Kay. - No ramos casados. Namoramos na universidade e nos separamos logo depois que Gaia nasceu.
     Ah, sei. Ns tambm ramos recm-formados - observou Samantha.
     A moa ficou sem saber se a sua anfitri estava querendo marcar uma diferena entre ela prpria, que tinha casado com aquele sujeito exibido que era pai das 
suas filhas, e Kay, que tinha sido abandonada... No que Samantha pudesse adivinhar que foi Brendan que a deixou...
     Na verdade, Gaia acabou de arranjar um emprego de fim de semana com o seu pai - disse ela, dirigindo-se a Miles. - No novo caf.
     Miles ficou encantado. Adorava a idia de que ele e Howard fossem uma parte to importante da trama daquele vilarejo que, de um jeito ou de outro, todos ali 
tivessem conexo com eles, fosse como amigos, clientes, fregueses ou empregados. Gavin, que mastigava e mastigava um pedao de carne borrachenta que se recusava 
a ceder aos seus dentes, sentiu um novo aperto na boca do estmago. Para ele, era novidade essa histria de Gaia ir trabalhar com o pai de Miles. Nem lhe passou 
pela cabea que Kay tinha, na filha, mais uma arma poderosa para se fixar em Pagford. Quando no estava to perto assim das suas entradas e sadas batendo as portas, 
dos seus olhares enfurecidos e dos seus apartes mordazes, ele tendia a esquecer que Gaia existia. Que a garota no era simplesmente um detalhe do desconfortvel 
pano de fundo de lenis com cheiro de guardado, comida ruim e rancores venenosos contra o qual a sua relao com Kay ia se arrastando.
     Gaia est gostando de Pagford? - indagou Samantha.
     Bom, isso aqui  um pouco parado demais em comparao com Hackney - replicou Kay. - Mas ela est se adaptando direitinho.
     Tomou um bom gole de vinho para lavar a boca depois de ter pregado uma mentira to gigantesca. Ainda agora mesmo, antes de sair, ela e a filha tinham brigado 
mais uma vez.
     (- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ao ver a garota sentada  mesa da cozinha, debruada sobre o notebook, com um robe por cima das roupas comuns. Na tela, 
quatro ou cinco caixas de dilogo estavam abertas ao mesmo tempo. Kay sabia que Gaia estava conversando com os amigos que havia deixado l em Hackney, amigos que, 
em sua maioria, estavam juntos desde os tempos da escola primria.
     Gaia?
     A falta de resposta era algo novo e terrvel. Kay j estava acostumada s exploses de raiva contra ela mesma e, especialmente, contra Gavin.
     Estou falando com voc, Gaia!
     Eu sei. No sou surda.
     Ento, tenha a gentileza de me responder.
     As letras pretas iam surgindo no espao branco da tela e tambm umas carinhas engraadas, piscando o olho ou dando pulinhos.
     Ser que voc pode me responder, Gaia?
     Qu? Que foi?
     Estou tentando saber como foi o seu dia.
     Uma merda. Ontem tambm. E amanh vai ser a mesma coisa.
     A que horas voc chegou?
     Na de sempre.
s vezes, mesmo depois de todos esses anos, Gaia no escondia que ficava chateada por ter de abrir a porta com a prpria chave, por no ter Kay ali  sua espera 
como as mes dos livros de histrias.
     Quer me contar por que o seu dia foi uma merda?
     Porque voc me arrastou pra morar nesse fim de mundo.
     Kay estava decidida a no gritar. Ultimamente, as duas vinham brigando aos berros, e ela tinha certeza de que a rua inteira podia ouvi-las.
     Sabe que vou sair com Gavin hoje  noite?
     Gaia murmurou alguma coisa que ela no conseguiu distinguir.
     O qu?
     Eu disse que achava que ele no gostava de sair com voc.
     O que quer dizer com isso?
     Mas Gaia no respondeu. Limitou-se a digitar uma resposta numa das vrias conversas que se desenrolavam na tela do computador. Kay hesitou: queria pressionar 
a filha, mas tinha medo do que pudesse ouvir.
     Estou de volta l pela meia-noite, acho.
     Gaia no disse nada. Kay foi esperar Gavin no saguo de entrada.)
     Ela fez amizade com uma garota que mora na sua rua - disse Kay. - Como  mesmo que ela se chama? Narinder, acho...
     Sukhvinder - disseram o marido e a mulher ao mesmo tempo.
      uma tima garota - observou Mary.
     Conhece o pai dela? - indagou Samantha.
     No - respondeu Kay.
     Ele  cirurgio cardiovascular - prosseguiu a anfitri, que j estava na quarta taa de vinho. - Absolutamente, incrivelmente lindo!
     Ah! - exclamou a moa.
     Como um astro de Bollywood.
     Samantha percebeu que ningum tinha se dado o trabalho de dizer que o jantar estava gostoso, o que teria sido uma questo de educao, mesmo que tudo estivesse 
horrvel. J que no tinha condies de atormentar Gavin, poderia ao menos dar umas alfinetadas em Miles...
     Eu lhe garanto que Vikram  o nico aspecto positivo de se morar nesse fim de mundo - prosseguiu ela. -  a sensualidade em pessoa.
     E a mulher dele  a clnica geral da cidade - atalhou Miles. - E tambm membro do Conselho Distrital. Voc  contratada pelo Conselho Municipal de Yarvil, no 
, Kay?
     Isso mesmo - respondeu ela. - Mas passo a maior parte do tempo em Fields. Tecnicamente, o bairro faz parte do distrito de Pagford, no faz?
Ah, Fields no!, pensou Samantha. Pelo amor de Deus, no mencione o maldito Fields...
 - replicou Miles, com um sorriso sugestivo. - Fields faz parte de Pagford, tecnicamente. Como voc disse, tecnicamente. Esse  um assunto espinhoso, Kay.
     Ah, ? Por qu? - indagou a moa, na esperana de fazer com que a conversa se generalizasse, pois Gavin continuava falando em voz mais baixa com a viva.
     Bom, tudo comeou l nos anos 1950 - principiou Miles, que parecia estar embarcando num discurso bem-ensaiado. - Yarvil queria expandir o conjunto habitacional 
de Cantermill e, em vez de construir nos terrenos a oeste, onde hoje fica aquele entroncamento...
     Gavin? Mary? Vocs querem mais vinho? - indagou Samantha, tentando suplantar a voz do marido.
     ...Eles foram um tanto ambguos... Quando compraram as terras, ningum esclareceu ao certo o que pretendiam fazer com elas e, depois, quando comearam as obras, 
ultrapassaram os limites do distrito de Pagford.
     Por que voc no mencionou o velho Aubrey Fawley, Miles? - perguntou Samantha, que tinha finalmente atingido aquele delicioso ponto de embriaguez em que a lngua 
ficava maldosa e o medo das conseqncias desaparecia. Estava louca para provocar e irritar, procurando apenas se divertir ao mximo. - A verdade  que o velho Aubrey 
Fawley, que vinha a ser o proprietrio daquelas adorveis cantoneiras de pedra, ou seja l o que Miles tenha lhe dito, fechou um negcio s escondidas...
     Voc est sendo injusta, Sam - interrompeu Miles. Mais uma vez, porm, ela continuou falando e abafou a voz do marido.
     ...Vendeu as terras onde hoje fica o bairro de Fields e embolsou, no sei exatamente, mas deve ter sido coisa de uns duzentos e cinqenta mil, por a...
     No diga bobagens, Sam! Na dcada de 1950?
     Depois, quando ele percebeu que todo mundo estava com dio dele, fingiu que no podia imaginar que aquilo fosse trazer tanto transtorno. Um idiota da alta sociedade. 
E bbado... - acrescentou Samantha.
     Nada disso  verdade, garanto - disse Miles em tom decidido. - Para conseguir entender todo o alcance do problema, Kay,  preciso conhecer um pouco da histria 
local.
     Com o queixo apoiado na mo, Samantha fingiu que o cotovelo escorregava da mesa de tanto tdio. Embora no achasse aquela mulher nada agradvel, Kay riu, e 
Gavin e Mary interromperam a sua conversa em voz baixa.
     Estamos falando sobre Fields - disse a moa, de um jeito que pretendia lembrar a Gavin que ela estava l e que o seu papel era lhe dar algum apoio moral.
     De imediato, Miles, Samantha e Gavin se deram conta de que aquele era o assunto mais inconveniente possvel para se tratar na frente de Mary, j que sempre 
fora o pomo da discrdia entre Barry e Howard.
     Aparentemente, este  um tema um tanto delicado em termos locais - acrescentou a moa, tentando forar o namorado a dar a sua opinio, a participar da conversa.
     H, h - replicou ele e, voltando-se novamente para Mary, perguntou: - E ento, como anda Declan no futebol?
     Kay sentiu uma pontada de dio. Tudo bem que Mary estivesse de luto, mas a solicitude de Gavin parecia fora de propsito. Tinha imaginado que aquela noite seria 
bem diferente: um jantar a quatro durante o qual o rapaz teria de perceber que eles eram efetivamente um casal. No entanto, ao ver aquela cena, ningum poderia imaginar 
que eles fossem mais que simples conhecidos. Ainda por cima, a comida estava horrvel. Kay cruzou os talheres, deixando no prato mais da metade do que lhe tinha 
sido servido - detalhe que Samantha no deixou de notar - e, mais uma vez, se dirigiu a Miles.
     Voc cresceu aqui em Pagford?
     Bom, tenho que admitir que sim - respondeu ele, com um sorriso complacente. - Nasci no velho Hospital Kelland, l no fim da rua. Ele foi fechado nos anos 1980.
     Voc...? - principiou ela, mas Samantha nem esperou pelo fim da frase.
     De jeito nenhum! Vim parar aqui por acidente.
     Desculpe, mas no perguntei o que voc faz, Samantha.
     Tenho uma lo...
     Ela vende sutis de tamanhos especiais - interrompeu Miles.
     Samantha se levantou bruscamente para ir buscar outra garrafa de vinho. Quando voltou para a mesa, Miles estava contando a Kay um episdio engraado, sem dvida 
com a inteno de demonstrar que todo mundo conhecia todo mundo em Pagford: a noite em que ele foi parado por um guarda e acabou descobrindo que era um amigo do 
tempo da escola primria. A descrio detalhada da camaradagem entre ele prprio e Steve Edwards era algo que Samantha conhecia de cor e salteado. Ao dar a volta 
na mesa para encher todas as taas, percebeu a expresso austera de Kay. Era bvio que ela no achava graa nenhuma nessas histrias de gente que dirigia embriagada.
     ...E l estava Steve, segurando o bafmetro, e eu, me preparando para soprar, quando, do nada, os dois camos na gargalhada. O outro policial no estava entendendo 
nada e ficou com uma cara assim - disse Miles, imitando o sujeito, que abanava a cabea de um lado para o outro, absolutamente atnito. - Steve se dobrava de tanto 
rir, quase mijando, porque ele e eu nos lembramos da ltima vez que ele ficou segurando uma coisa para eu soprar. Tinha sido uns dezenove, vinte anos atrs...
     Era uma boneca inflvel - disse Samantha, sem sequer sorrir, voltando a se sentar ao lado do marido. - Miles e Steve puseram a tal boneca na cama dos pais de 
um amigo deles, Ian, que estava fazendo dezoito anos e dando uma festa. Bom, mas Miles acabou recebendo uma multa considervel e perdeu trs pontos na carteira, 
porque era a segunda vez que ele era parado por excesso de velocidade. Ou seja,  uma histria engraadssima...
     O sorriso no rosto de Miles ficou congelado como um balo vazio esquecido num fim de festa. Um ventinho glido soprou naquela sala, que, por alguns minutos, 
ficou em silncio. Embora tenha achado o seu anfitrio o suprassumo da chatice, Kay tomou o seu partido. Afinal, ele era a nica pessoa ali na mesa que parecia minimamente 
interessada em facilitar a sua primeira participao na vida social de Pagford.
     Tenho que admitir que Fields no  nada fcil - disse ela, voltando ao assunto que, aparentemente, deixava Miles mais  vontade e ainda sem desconfiar que aquele 
era um tema delicado com Mary ali por perto. - Trabalhei em bairros de periferia. No esperava encontrar tanta misria na zona rural, mas aquilo l no  muito diferente 
de Londres. S existe menos mistura tnica,  claro.
     Ah,  claro! Tambm temos a nossa cota de viciados e vagabundos - observou Miles. - Acho que no d mais, Sam - acrescentou ento, empurrando o prato onde ainda 
havia uma boa quantidade de comida.
     Samantha comeou a tirar a mesa, e Mary se levantou para ajudar.
     No, Mary. Pode deixar. Fique tranqila - disse a dona da casa. Para aumentar ainda a irritao de Kay, Gavin tambm se levantou, insistindo, com um ar todo 
cavalheiro, que Mary voltasse a se sentar. Mas a viva no cedeu.
     Estava timo, Sam - disse ela, enquanto as duas jogavam a comida quase toda na lata de lixo.
     No estava, no. Estava horrvel - retrucou Samantha, que comeava a perceber o quanto estava bbada agora que tinha ficado de p. - O que achou de Kay?
     No sei... - respondeu Mary. - No  o que eu estava imaginando.
     Pois ela  exatamente o que eu estava imaginando - replicou a anfitri, apanhando uns pratos para a sobremesa. - Se quer saber,  uma segunda Lisa.
     Ah, no diga isso! - exclamou Mary. - Ele merece coisa melhor dessa vez...
     Isso era novidade para Samantha... Na sua opinio, a covardia de Gavin merecia punio constante.
     As duas voltaram para a sala de jantar, onde Miles e Kay conversavam animadamente, ao passo que Gavin estava s sentado ali, calado.
     ...empurrar a responsabilidade para cima deles, o que me parece uma atitude bem autocentrada e egosta...
     Ora, acho interessante ouvir voc usar a palavra "responsabilidade" - observou Miles -, porque acredito que este  o verdadeiro xis do problema, sabe? A questo 
 saber onde exatamente estabelecer o limite.
     Aparentemente, deixando Fields de fora - disse Kay rindo, e o seu riso nada tinha de condescendente. - Vocs querem traar uma linha bem ntida entre a classe 
mdia proprietria e a classe...
     Muitos dos habitantes de Pagford so da classe trabalhadora, Kay. E esta  a diferena entre ns: aqui, a maioria trabalha. Sabe quantos dos moradores de Fields 
vivem de alocaes do governo? Voc falou de responsabilidade. E a responsabilidade pessoal, onde  que fica? H anos que recebemos moradores de Fields na nossa 
escola: crianas que no tm na famlia uma nica pessoa que trabalhe. A idia de ganhar a vida  coisa que eles desconhecem. So geraes e geraes de gente que 
no trabalha, e ns  que temos que sustent-los...
     E, para voc, a soluo  empurrar o problema para Yarvil - interrompeu Kay -, e no enfrentar qualquer das questes que esto por trs...
     Torta de lama do Mississippi? - perguntou Samantha.
     Gavin e Mary aceitaram uma fatia cada, e agradeceram. Kay, o que s fez deixar a dona da casa furiosa, limitou-se a estender o prato, como se ela fosse uma 
garonete, e continuou inteiramente voltada para Miles.
     ...segundo consta, h quem esteja se articulando para fechar a clnica de reabilitao, por exemplo, que  absolutamente indispensvel...
     Ora, se voc est se referindo  Bellchapel - disse Miles, abanando a cabea e dando um sorriso de desdm -, espero que esteja a par dos resultados que ela 
vem apresentando, Kay.  pattico. Sinceramente, pattico. Hoje mesmo, pela manh, andei observando os nmeros, e, para ser franco, quanto mais cedo ela fechar...
     Esses nmeros correspondem a...?
     Os resultados positivos, Kay, como acabei de dizer: a quantidade de gente que parou efetivamente de usar drogas, os que ficaram limpos...
     Ah, me desculpe, mas essa  uma perspectiva muito ingnua. Se pretende avaliar resultados simplesmente...
     Mas de que outro jeito poderamos avaliar o sucesso de uma clnica de reabilitao, meu Deus? - perguntou Miles, incrdulo. - Pelo que sei, tudo que a Bellchapel 
faz  sair distribuindo metadona, coisa que metade dos seus pacientes continua usando junto com a herona.
     A questo das drogas como um todo  muitssimo complicada - replicou Kay. - E  ingnuo e simplista encarar o problema somente em termos de usurios e no...
     Miles, porm, ficou abanando a cabea e sorrindo. Kay, que estava at gostando do duelo verbal com aquele advogado convencido, ficou subitamente irritada.
     Bom, posso lhe dar um exemplo concreto do que a Bellchapel vem fazendo.  uma famlia com quem estou trabalhando: me, filha adolescente e filho pequeno. Se 
a me no estivesse tomando metadona, estaria pelas ruas tentando ganhar dinheiro para sustentar o vcio. No h dvida que os filhos vo estar muito...
     Vo estar muito melhor longe dessa me, pelo que estou vendo! - exclamou Miles.
     E para onde exatamente voc prope que eles sejam levados?
     Uma casa de famlia decente seria um bom comeo.
     Sabe quantas casas substitutas existem, em comparao com a quantidade de crianas que precisariam delas? - perguntou Kay.
     A melhor soluo seria encaminhar essas crianas para adoo assim que elas nascem...
     Ah, perfeito! Vou entrar na minha mquina do tempo... - retrucou a moa.
     Conhecemos um casal que est tentando desesperadamente adotar um filho - interrompeu Samantha, vindo inesperadamente respaldar as opinies do marido. Nunca 
ia perdoar a grosseria daquele prato estendido... Kay era mandona e truculenta, exatamente como Lisa, que monopolizava todas as reunies a que compareciam com as 
suas opinies polticas e o seu trabalho como advogada de famlia, desprezando a prpria Samantha por ser dona de uma loja de sutis. - Adam e Janice - disse ela, 
 guisa de parnteses, dirigindo-se ao marido, que assentiu com um aceno de cabea. - E no esto conseguindo um beb de jeito nenhum, no  mesmo?
     Exatamente. Um beb - replicou Kay, revirando os olhos. - E o que todos querem. E Robbie j tem quase quatro anos. No sabe usar o vaso sanitrio, est abaixo 
da expectativa de desenvolvimento para a sua idade e poderia jurar que j presenciou cenas de sexo. Ser que os seus amigos gostariam de adotar um menino assim?
     Mas, se ele tivesse sido tirado da me na hora em que nasceu...
     Ela no estava usando drogas quando teve o menino, e vinha demonstrando progressos considerveis - disse Kay. - Amava a criana, queria ficar com ela e, na 
poca, dava conta de cuidar dela. J tinha criado Krystal, com alguma ajuda da famlia...
     Krystal! - exclamou Samantha. - Ah, meu Deus! Estamos falando dos Weedon?
     Kay ficou horrorizada por ter citado nomes. Em Londres, isso no tinha a menor importncia, mas, pelo visto, ali em Pagford todo mundo se conhecia mesmo.
     Eu no devia...
     Miles e Samantha, porm, estavam rindo, e Mary parecia tensa. Kay, que no tinha tocado na torta e comera muito pouco durante o jantar, percebeu que tinha bebido 
demais. Por puro nervoso, ficou bebericando o tempo todo e, agora, havia sido absolutamente indiscreta. No entanto, era tarde demais para desfazer o que havia sido 
feito, e a raiva acabou suplantando qualquer outra considerao.
     Krystal Weedon no recomenda absolutamente a capacidade materna dessa mulher - observou Miles.
     Ela est tentando loucamente manter a famlia unida - disse Kay. - Adora o irmozinho. Morre de medo que ele seja levado...
     Eu no confiaria nela nem para tomar conta de um ovo cozinhando - retrucou Miles, e Samantha riu novamente. - E claro que o amor pelo irmo  um ponto a seu 
favor, mas ele no  um brinquedinho fofo...
     Ah, eu sei - interrompeu Kay, lembrando-se do bumbum sujo e assado do menino. - Mesmo assim,  amado.
     Krystal agrediu a nossa filha Lexie - disse Samantha -, portanto conhecemos um lado dessa garota que, com toda a certeza, no  o que ela mostra para voc.
     Veja bem - interveio Miles -, ns todos sabemos que a vida dessa garota no  nada fcil. Ningum aqui est negando isso. O problema todo  a me viciada.
     Na verdade, ela vem seguindo direitinho o programa da Bellchapel.
     Mas, com o seu histrico - insistiu Miles -, no  preciso ter bola de cristal para imaginar que ela vai ter uma recada, no  verdade?
     Se formos aplicar essa regra a todas as situaes possveis, voc no deveria ter carteira de motorista. Afinal, com o seu histrico, voc est fadado a beber 
e sair dirigindo novamente.
     Por alguns instantes, Miles ficou sem reao, mas Samantha disse, friamente:
     Acho que uma coisa no tem nada a ver com a outra.
     Acha? - indagou Kay. - E exatamente o mesmo princpio.
     Bom, se quer saber a minha opinio, muitas vezes o problema so os princpios - observou Miles. - Em geral, basta ter um pouco de bom senso.
,  assim que as pessoas costumam chamar os prprios preconceitos - retrucou a moa.
     Segundo Nietzsche - disse uma voz diferente, em tom spero, e todos ali na sala se assustaram -, a filosofia  a biografia do filsofo.
     Uma Samantha em miniatura estava parada na porta que dava para o corredor: uma garota de uns dezesseis anos, seios grandes, usando um jeans apertado e uma camiseta. 
Estava comendo umas uvas e parecia bem satisfeita com a sua interveno.
     Minha gente, essa  Lexie - disse Miles, todo orgulhoso. - Obrigado pela contribuio, gnio.
     De nada - respondeu a garota, num tom espevitado, e desapareceu na escada.
     Um pesado silncio se instalou sobre a mesa. Sem saber exatamente por qu, Samantha, Miles e Kay olharam para Mary, que parecia estar a ponto de chorar.
     Caf? - disse Samantha, se levantando meio trpega. Mary foi para o banheiro.
     Vamos sentar l na outra sala - props Miles, sentindo que o clima estava um tanto carregado, mas certo de que poderia, com algumas brincadeiras e com o seu 
jeito bonacho, reintroduzir uma atmosfera amistosa entre os seus convidados. - Tragam os seus copos.
     Os argumentos de Kay haviam abalado as suas convices tanto quanto um rochedo seria abalado por uma brisa ligeira, e Miles no experimentava nenhum sentimento 
negativo pela moa. Na verdade, tinha pena dela. De todos ali, era o menos alterado pelo ininterrupto encher dos copos, mas, ao chegar  sala de estar, percebeu 
que a sua bexiga estava no limite.
     Ponha uma msica a, Gav. Vou buscar aqueles bombons.
     Mas Gavin no fez nenhum movimento em direo  coleo de CDs empilhados nas estantes estreitas de acrlico. Parecia estar esperando por alguma reao de Kay. 
E, de fato, assim que Miles saiu da sala, ela disse:
     Ora, ora... Muitssimo obrigada, Gav. Voc ficou sempre ao meu lado.
     O rapaz tinha bebido ainda mais que ela durante o jantar, numa comemorao particular por no ter sido oferecido em sacrifcio aos ataques belicosos de Samantha. 
Olhou ento direto para Kay, cheio de uma coragem nascida, no apenas do vinho, mas de ter passado uma hora sendo tratado por Mary como uma pessoa importante, inteligente 
e com quem se pode contar.
     Pelo visto, voc se saiu muito bem sozinha - disse ele.
     Na verdade, o pouco que se permitiu ouvir da discusso entre Kay e Miles tinha lhe dado uma tremenda sensao de dj vu. Se Mary no estivesse ali para distra-lo, 
talvez tivesse se sentido voltando quela clebre noite, na mesmssima sala de jantar, quando Lisa disse a Miles que ele era o modelo perfeito de tudo que havia 
de errado na sociedade. Miles caiu na risada. Lisa ficou furiosa e foi embora sem esperar pelo caf. No muito tempo depois, ela admitiu que estava dormindo com 
um advogado da firma em que trabalhava e sugeriu que Gavin fizesse o exame para ver se estava com clamdia.
     No conheo ningum aqui - prosseguiu Kay -, e voc no fez absolutamente nada para facilitar as coisas para mim, no ?
     O que queria que eu fizesse? - indagou Gavin, que se sentia perfeitamente tranqilo, protegido pela perspectiva da volta iminente dos Mollison e de Mary, e 
pelas generosas doses de Chianti que havia consumido. - No quero saber de discusses sobre Fields. No estou nem a para essa histria toda. Alm do mais - acrescentou 
ele -,  um assunto delicado para ser tratado diante de Mary. Barry vinha se batendo, no Conselho, para que Fields continuasse a fazer parte de Pagford.
     Mas, nesse caso, voc no poderia ter me avisado? Me dado um toque?
     Ele riu, exatamente como Miles tinha feito. Antes, porm, que ela pudesse replicar, os outros voltaram para a sala, parecendo at os Reis Magos carregando os 
seus presentes: Samantha trazia uma bandeja com as xcaras; atrs dela, vinha Mary com o bule e, depois, Miles com os bombons de Kay. Ao ver a fita dourada reluzindo 
sobre a caixa, a moa se lembrou do otimismo que sentia em relao quela noite quando foi comprar os chocolates. Desviou o rosto, tentando disfarar a raiva, pois 
estava morrendo de vontade de gritar com Gavin e sentindo uma sbita e espantosa necessidade de chorar.
     Foi uma noite muito agradvel - disse Mary, numa voz meio rouca que sugeria que tambm ela estivera chorando -, mas no vou ficar para o caf. No quero chegar 
tarde em casa. Declan anda meio... meio inseguro atualmente. Muito obrigada, Sam, Miles... Foi muito bom... sair um pouquinho.
     Vou lev-la at... - principiou Miles, mas a voz de Gavin suplantou a sua.
     Fique, Miles. Pode deixar que eu acompanho Mary. Vou lev-la at em casa. So s cinco minutos. L no alto da rua  muito escuro.
     Kay mal conseguia respirar. Todo o seu ser estava concentrado em detestar a complacncia de Miles, a fragilidade e a vulgaridade de Samantha, o abatimento de 
Mary, mas, principalmente, o prprio Gavin.
     Ah, claro - ouviu a prpria voz dizendo, j que todos pareciam aguardar a sua permisso. - Claro! V levar Mary em casa, Gav.
     A porta da frente se fechou, e Gavin se foi. Miles estava lhe servindo uma xcara de caf. Kay ficou olhando o lquido escuro caindo e, de repente, teve a dolorosa 
conscincia do quanto havia arriscado mudando toda a sua vida por causa daquele homem que estava indo embora com outra mulher.

VIII
     
     Pela janela do escritrio, Colin Wall viu Gavin e Mary passando. Reconheceu imediatamente a silhueta de Mary, mas teve de forar a vista para identificar o 
sujeito magricela que ia ao seu lado, antes que os dois chegassem ao trecho iluminado pela luz do poste. Debruado para a frente, erguendo o corpo da cadeira, ficou 
olhando boquiaberto at que eles desapareceram na escurido.
     No podia estar mais chocado! Para ele, Mary estava vivendo numa espcie de recluso, recebendo, no santurio que era a sua casa, apenas mulheres, entre as 
quais Tessa, que continuava a visit-la praticamente todo dia. Nunca havia lhe passado pela cabea que Mary tivesse qualquer atividade social noturna, muito menos 
com um homem solteiro. Colin se sentiu pessoalmente trado, como se Mary, em algum plano espiritual, estivesse lhe botando um par de chifres.
     Ser que ela tinha permitido que Gavin visse o corpo de Barry? Ser que o advogado passava as noites sentado na poltrona favorita de Barry, junto da lareira? 
Ser que Gavin e Mary...? Ser possvel que eles...? Afinal, essas coisas acontecem o tempo todo. Quem sabe... Quem sabe j desde antes da morte de Barry...
     Colin ficava sempre assustado diante do estado esfarrapado da moral alheia. Tentava se proteger contra o choque obrigando-se a imaginar o pior: preferia conjurar 
cenas terrveis de depravao e traio a esperar que a verdade se abrisse como um fruto maduro destruindo as suas inocentes iluses. Para ele, a vida era uma longa 
batalha contra a dor e a decepo, e todos, exceto a sua prpria mulher, eram inimigos at prova em contrrio.
     Chegou a pensar em descer correndo e contar a Tessa o que tinha acabado de ver. Quem sabe ela no poderia lhe dar alguma explicao incua para aquele passeio 
noturno de Mary e tranquiliz-lo, convencendo-o de que a viva do seu melhor amigo era, e sempre tinha sido, fiel ao marido. Mas resistiu quele impulso porque estava 
com raiva da mulher.
     Por que ela fazia questo de demonstrar tamanha falta de interesse pela sua candidatura ao Conselho? Ser que no notava como a ansiedade vinha tomando conta 
dele de um jeito cada vez mais forte desde que ele tinha mandado o formulrio preenchido? Embora Colin pudesse imaginar que ia se sentir assim, a dor no era menor 
por ser previsvel, exatamente como o fato de ser atropelado por um trem no seria menos devastador para algum que tivesse visto a composio se aproximando pelos 
trilhos. Ele simplesmente sofria duas vezes: com a expectativa e com a concretizao.
     As suas novas fantasias apavorantes giravam em torno dos Mollison e das formas que eles provavelmente escolheriam para atac-lo. Contra-argumentaes, justificativas 
e explicaes estavam o tempo todo circulando pela sua cabea. J se via acuado, lutando para salvar a prpria reputao. A pontinha de parania que sempre se mostrava 
quando Colin precisava enfrentar o mundo estava ficando cada vez mais acentuada. Nesse meio-tempo, Tessa fingia que nem sabia o que estava acontecendo e no fazia 
absolutamente nada para tentar aliviar aquela presso terrvel, esmagadora.
     Sabia perfeitamente que ela era contra aquela candidatura. Talvez tambm estivesse apavorada com a perspectiva de Howard Mollison escancarar as entranhas do 
passado de ambos e espalhar os seus terrveis segredos para que todos os abutres de Pagford pudessem se regalar.
     Colin j tinha dado alguns telefonemas para pessoas que sempre haviam apoiado Barry. Para sua surpresa e contentamento, ningum questionou as suas credenciais 
ou lhe perguntou como pretendia enfrentar essa ou aquela questo. Sem exceo, todos expressaram o seu profundo pesar pela perda de Barry e a sua profunda antipatia 
por Howard Mollison, ou "aquele canalha metido a besta", como disse um dos eleitores mais grosseiros. "T tentando nos empurrar o filho dele. Vai ver ficou rindo 
 toa quando soube que Barry tinha morrido." Colin, que tinha feito uma lista de argumentos pr-Fields, no precisou olhar para aquele papel nem uma nica vez. Pelo 
visto, as suas maiores qualidades como candidato eram ser amigo de Barry e no se chamar Mollison.
     O seu rosto em miniatura, em preto e branco, sorria para ele l da tela do computador. Passou boa parte da noite sentado ali, tentando redigir o seu panfleto 
de propaganda, e tinha decidido usar a mesma foto que aparecia no site da Winterdown: s o rosto, com um ligeiro sorriso um tanto andino e a testa alta e reluzente. 
Aquele retrato tinha, a seu favor, o fato de j haver sido submetido  apreciao pblica sem provocar qualquer estrago ou deboche, o que era uma recomendao considervel. 
Mas, debaixo da foto, onde deveriam ficar as informaes pessoais, havia apenas uma ou duas frases ainda incipientes. Durante as ltimas duas horas, Colin s fez 
escrever e deletar. A certa altura, conseguiu redigir um pargrafo inteiro, mas logo o destruiu, apagando letra por letra, batendo freneticamente com o indicador 
na tecla com a setinha.
     Incapaz de suportar a indeciso e o isolamento, levantou-se de um salto e foi l para baixo. Tessa estava deitada no sof da sala, aparentemente cochilando, 
com a televiso ligada.
     E a? - perguntou ela, sonolenta, entreabrindo os olhos.
     Mary acabou de passar por aqui. Estava subindo a rua com Gavin Hughes.
     Ah - disse Tessa. - Ela disse alguma coisa sobre passar na casa de Miles e Samantha. Vai ver que Gavin estava l e foi lev-la em casa.
     Colin ficou horrorizado. Mary indo visitar Miles, o homem que estava tentando ocupar o lugar do marido dela? Que se opunha invariavelmente a tudo pelo que Barry 
sempre lutou?
     Mas que diabos ela foi fazer na casa dos Mollison?
     Voc sabe que eles foram com ela at o hospital - respondeu Tessa, sentando no sof, soltando um leve gemido e esticando as pernas curtas.
     - Mary ainda no tinha procurado por eles. Queria agradecer. J terminou o panfleto?
     Quase. Tessa... Entre as informaes... Quer dizer, no espao destinado s informaes pessoais... Ponho os cargos que ocupei antes? Ou deixo s a Winterdown? 
O que voc acha?
     No acho que seja necessrio. Basta dizer onde voc trabalha agora. Mas por que no pergunta a Minda? Ela... - disse Tessa, bocejando. - Ela j fez isso.
     Verdade - replicou Colin. E ficou parado ali, esperando, mas a sua mulher no se ofereceu para ajudar nem sequer para ler o que ele tinha escrito at ento. 
- . Boa idia - disse Colin, desta vez falando um pouco mais alto. - Vou pedir a Minda para dar uma olhada nisso.
     Tessa fez um grunhido, massageando os tornozelos, e ele saiu da sala, cheio de orgulho ferido. Ela no fazia idia do estado em que ele se encontrava, dormindo 
pouqussimo e com o estmago se roendo por dentro.
     Na verdade, ela estava s fingindo que dormia. Os passos de Mary e Gavin a tinham acordado uns dez minutos atrs.
     Tessa mal conhecia Gavin. Ele era quinze anos mais moo que ela e o marido, mas o principal empecilho para uma proximidade maior sempre fora o fato de Colin 
tender a ter cime das outras amizades de Barry.
     Ele est sendo fantstico com a histria do seguro - disse-lhe Mary quando se falaram por telefone mais cedo. - Tem ligado para a companhia diariamente, pelo 
que vejo, e vive me dizendo para no me preocupar com os seus honorrios. Ah, meu Deus, Tessa! Se eles no pagarem a...
     Gavin vai resolver isso tudo para voc - replicou Tessa. - Tenho certeza que vai.
     Seria to bom convidar Mary para jantar, pensou ela, deitada ali no sof, toda doda e com sede. Seria uma oportunidade para a amiga arejar um pouco a cabea, 
mas tambm para se assegurar de que ela estava comendo direito. Mas havia uma barreira insupervel: Mary achava Colin um sujeito difcil de agentar. Esse fato constrangedor 
e at pouco tempo oculto comeou a vir  tona na noite em que Barry morreu, como os destroos de um naufrgio revelados pela vazante da mar. No podia ter ficado 
mais evidente que Mary queria ter ao seu lado apenas Tessa: ela recuava diante de qualquer proposta para que Colin ajudasse com alguma coisa e evitava falar com 
ele ao telefone por mais de alguns instantes. Tinham se encontrado tantas vezes, s os quatro, durante anos, e a antipatia de Mary jamais transpareceu, provavelmente 
abafada pelo bom humor de Barry.
     Tessa tinha que lidar com a nova situao usando todo o tato possvel. Conseguiu convencer o marido de que Mary ficava mais feliz na companhia de outras mulheres. 
O funeral havia sido o seu nico fracasso, porque Colin assaltou a viva de surpresa na sada da igreja e ficou tentando explicar, numa fala entrecortada de soluos, 
que ia se candidatar  vaga de Barry no Conselho para levar adiante o trabalho do amigo, para assegurar a sua vitria pstuma. Tessa percebeu a expresso chocada 
e ofendida de Mary e tirou o marido de perto dela.
     De l para c, Colin manifestou, por uma ou duas vezes, a inteno de ir mostrar a Mary todo o seu material de campanha e lhe perguntar se Barry teria aprovado. 
Chegou at a dizer que iria pedir alguns conselhos sobre a forma como Barry teria conduzido o processo de sair em busca de eleitores. Tessa acabou lhe dizendo, com 
toda a firmeza, que ele no tinha nada que ficar importunando Mary com essas histrias de Conselho. Colin ficou indignado com a atitude da mulher, mas, aos olhos 
dela, era melhor ele ficar zangado com ela do que trazer mais sofrimento para Mary ou obrig-la a uma recusa categrica, como tinha acontecido no caso do velrio.
     Ora, ora! Os Mollison! - exclamou Colin, entrando novamente na sala com uma xcara de ch nas mos. Nem perguntou  mulher se ela queria uma tambm. Em geral, 
ele era bem egosta nessas pequenas coisas: vivia to ocupado com as prprias preocupaes que nem se dava conta disso. - Com tantos conhecidos por a, ela foi escolher 
logo a casa deles para ir jantar! Essa gente que  contra tudo que Barry sempre defendeu!
     Voc est sendo um pouco melodramtico, Col - disse Tessa. - E, de todo modo, Mary nunca teve tanto interesse quanto Barry em Fields.
     Mas Colin s podia compreender o amor como lealdade irrestrita, tolerncia ilimitada. Mary tinha cado no seu conceito, e de forma irreparvel.
     
     IX
     
     - Onde  que o senhor vai? - perguntou Simon, plantado bem no meio do minsculo corredor.
     A porta da frente estava aberta, e, s suas costas, a varanda envidraada, repleta de sapatos e casacos, chegava a ofuscar com o brilho do sol da manh de sbado. 
Toda aquela luz transformava Simon em mera silhueta. A sua sombra ia subindo a escada, parando exatamente no degrau onde Andrew estava.
     Pra cidade, com Bola.
     J terminou o dever? 
     J.
     Era mentira, mas Simon no ia se dar o trabalho de conferir.
     Ruth? Ruth!
     A mulher apareceu na porta da cozinha, de avental, com o rosto afogueado e as mos cobertas de farinha.
     O que foi?
     Estamos precisando de alguma coisa l da cidade?
     O qu? No. Acho que no.
     Vai com a minha bicicleta, no ? - perguntou Simon, dirigindo- -se ao filho.
     Vou. Eu ia...
     Deixar ela na casa de Bola?
     Isso.
     A que horas queremos ele de volta? - indagou Simon, voltando-se novamente para a mulher.
     Ah, sei l, Si - respondeu Ruth, impaciente. O mximo de irritao que ela se permitia com relao ao marido era quando ele, embora basicamente de bom humor, 
resolvia ditar regras s de brincadeira. Era comum o garoto ir  cidade com o amigo sob a condio vagamente implcita de voltar para casa antes do anoitecer.
s cinco, ento - disse Simon, de forma arbitrria. - Se chegar depois disso, vai ficar de castigo.
     Ok - respondeu Andrew.
     Estava com a mo direita no bolso do casaco, apertando com toda a fora um pedacinho de papel, tomando o maior cuidado com ele, como se fosse uma granada pulsante. 
Passou a semana inteira atormentado pelo medo de perder aquele papelzinho, onde estava escrita uma linha num cdigo meticulosamente copiado e vrias frases riscadas, 
mil vezes feitas e refeitas. Por precauo, levava o tal papel onde quer que fosse e dormia com ele dentro da fronha do travesseiro.
     Simon praticamente no se mexeu, e Andrew precisou se esgueirar entre o pai e a parede para chegar  varanda, sempre segurando firme o pedacinho de papel. Estava 
morrendo de medo de que o pai resolvesse ver o que ele tinha nos bolsos,  cata de cigarros,  claro.
     Ento, tchau.
     Simon no respondeu. Andrew foi at a garagem, onde tirou o bilhete do bolso, desdobrou o papel e releu o que havia ali. Sabia que no estava sendo nada sensato, 
que a simples proximidade do pai no poderia ter alterado nada ali, mas, mesmo assim, quis se certificar. Satisfeito por ver que estava tudo bem, dobrou novamente 
o papelzinho, voltou a enfi-lo bem no fundo do bolso e pressionou o colchete para fech-lo. Saiu da garagem e desceu a rampa do quintal empurrando a bicicleta. 
Sabia que Simon estava espiando pela porta envidraada da varanda, com toda a certeza na esperana de v-lo cair ou fazer um estrago qualquer na bicicleta.
     Pagford estava l embaixo, ligeiramente enevoada ao sol frio de primavera, e o ar estava fresco, quase cortante. Andrew sentiu o ponto em que os olhos de Simon 
deixaram de v-lo: foi como se houvessem tirado um peso das suas costas.
     Desceu a toda a colina, rumo ao vilarejo, sem tocar nos freios, e, depois, virou na Church Row. Mais ou menos na metade da rua, reduziu a velocidade e entrou 
na alameda da casa do amigo pedalando de um jeito comedido, tomando cuidado para no esbarrar no carro de Pombinho.
     Oi, Andy - disse Tessa, abrindo a porta da frente.
     Ol, sra. Wall.
     Andrew havia aceitado, como uma conveno, que os pais de Bola eram ridculos: Tessa era gordinha e sem graa, com um corte de cabelo bem estranho e sem a mnima 
noo de como se vestir, ao passo que Pombinho era to estressado que chegava a ser cmico. Mesmo assim, desconfiava seriamente que, se fosse filho dos Wall, ficaria 
tentado a gostar deles. Aqueles dois eram to civilizados, to bem-educados. Na casa deles, nunca se tinha a sensao de que o cho podia se abrir a qualquer momento 
e mergulhar tudo no caos.
     Bola estava sentado no ltimo degrau da escada, calando os tnis. Dava para ver nitidamente a ponta de um pacotinho de tabaco aparecendo no bolso da frente 
do seu casaco.
     Oi, Arf!
     Oi, Bola!
     Quer deixar a bicicleta do sr. Price na garagem, Andy?
     Quero, sim. Obrigado, sra. Wall.
     (Era sempre assim que ela se referia a Simon, pensou o garoto. Sabia que Tessa detestava o seu pai, e essa era uma das coisas que o levavam a desconsiderar 
aquelas roupas horrorosas que ela usava e aquela franja malcortada que tanto a enfeava.
     A sua antipatia datava daquela ocasio assustadora - e inesquecvel -, anos e anos atrs, quando Bola, que tinha ento seis anos, veio passar a tarde de sbado 
em Hilltop House pela primeira vez. Equilibrando-se precariamente em cima de uma caixa na garagem, para tentar pegar umas velhas raquetes de badminton, os dois meninos 
derrubaram sem querer tudo que estava numa prateleira meio bamba.
     Andrew se lembrou da lata de creosoto caindo, batendo no teto do carro e abrindo. Lembrou-se tambm do terror que tomou conta dele e da sua incapacidade de 
explicar ao amigo, que ria s gargalhadas, o que esperava por eles.
     Simon ouviu o barulho e correu para a garagem. Avanou para os meninos com a mandbula projetada para a frente, fazendo aquele grunhido baixinho, animalesco, 
antes de comear a berrar ameaas de terrveis castigos fsicos, com os punhos cerrados a poucos centmetros daquelas carinhas que o encaravam, olhando para cima.
     Bola fez xixi na cala. Um fio de urina veio escorrendo pelas suas pernas at cair no cho da garagem. Ruth, que tinha ouvido a gritaria l da cozinha, veio 
correndo, tentando intervir:
     No, Si... Si, no... Foi sem querer. - O menino estava plido e tremia. Quis voltar para casa. Queria a sua me.
     Quando Tessa chegou, Bola correu para ela aos prantos, com o short encharcado. Foi a nica vez na vida que Andrew viu o pai recuar, sem saber o que fazer. Sabe-se 
l como, Tessa deixou claro que estava furiosa sem gritar, sem ameaar, sem bater. Preencheu um cheque e o enfiou na mo de Simon, enquanto Ruth ficou repetindo 
No, no. No precisa. No precisa. Simon a acompanhou at o carro, tentando fazer a coisa toda parecer uma brincadeira, mas Tessa o olhou com o maior desprezo, 
ps o filho, que ainda chorava, no banco do carona e bateu a porta do motorista na cara sorridente do dono da casa. Andrew entendeu tudo pela expresso dos pais: 
Tessa estava levando ladeira abaixo, para o vilarejo, algo que normalmente ficava escondido naquela casa do alto da colina.)
     Naquela poca, Bola tentava cativar Simon. Sempre que vinha a Hilltop House, se desdobrava para fazer o outro rir. Em troca, Simon achava timo receber o menino 
em casa, adorava as piadas mais grosseiras que ele contava e se divertia com o relato das suas travessuras. No entanto, quando estava sozinho com Andrew, Bola concordava 
em gnero, nmero e grau que Simon era um babaca de primeira...
     Garanto que ela  sapato - disse Bola, quando os dois estavam passando em frente  antiga casa paroquial, aquele casaro quase encoberto pela sombra do pinheiro-da-esccia 
e com hera pelas paredes.
     A sua me? - indagou Andrew, que, perdido nos prprios pensamentos, mal tinha ouvido o que o amigo dissera.
     Qual ! - gritou o garoto, e Andrew percebeu que ele estava genuinamente indignado. - Porra, cara! Sukhvinder Jawanda.
     Ah, t...
     Andrew riu, e, um minutinho depois, Bola comeou a rir tambm.
     O nibus para Yarvil estava lotado. Os dois garotos tiveram que sentar juntos, em vez de ocupar dois bancos cada, como gostavam de fazer. Quando passaram pela 
Hope Street, Andrew ficou olhando, mas a rua estava deserta. No tinha visto Gaia na escola desde aquela tarde em que ambos arranjaram emprego no Copper Kettle. 
O caf ia ser inaugurado no prximo fim de semana, e ele sentia umas ondas de euforia sempre que se lembrava disso.
     Docinho de Coco j est em plena campanha eleitoral? - perguntou Bola, ocupado em enrolar um cigarro. Uma das suas pernas compridas estava no meio do corredor 
e, em vez de pedirem licena, as pessoas passavam quase pulando por cima dela. - Pombinho j comeou a fazer merda, e olha que, at agora, s est preparando uns 
panfletos.
, ele tem trabalhado nisso - respondeu Andrew, e aguentou firme uma onda de pnico na boca do estmago.
     Pensou nos pais sentados  mesa da cozinha, como vinham fazendo todas as noites, desde a semana passada. Pensou na caixa de panfletos idiotas que Simon tinha 
imprimido na grfica, na lista de tpicos que Ruth tinha ajudado a levantar e que ele usava toda noite, telefonando para todos os seus conhecidos naquela regio 
eleitoral. Dava a impresso de fazer tudo aquilo com um imenso esforo. Em casa, estava sempre na maior tenso, despejando mais que nunca a sua agressividade nos 
filhos. Parecia at que estava tendo de carregar um fardo que os filhos haviam se recusado a transportar. O nico tema de conversa na hora das refeies era a eleio, 
pois o casal ficava especulando sobre as foras que teriam se unido contra Simon. Consideravam quase uma ofensa pessoal o fato de haver outros candidatos concorrendo 
 vaga deixada por Barry Fairbrother. Pelo visto, presumiam que Colin Wall e Miles Mollison passavam a maior parte do tempo confabulando, de olho em Hilltop House, 
no pensando em outra coisa a no ser em derrotar o homem que morava l.
     Mais uma vez, Andrew meteu a mo no bolso para ver se o papel continuava ali dentro. No tinha contado ao amigo o que pretendia fazer. Tinha medo de que ele 
pudesse espalhar para todo mundo e no sabia muito bem como convenc-lo da absoluta necessidade de guardar segredo, como lembrar a Bola que o manaco que fazia criancinhas 
mijarem na cala continuava vivo, muito bem de sade, e morando com ele, na mesma casa.
     Pombinho no est muito preocupado com Docinho de Coco - disse o garoto. - Ele acha que o grande adversrio  mesmo Miles Mollison.
     Sei - replicou Andrew. Tinha ouvido os pais falando a esse respeito. Ambos pareciam achar que Shirley os tinha trado, que ela devia ter proibido o filho de 
desafiar Simon.
     Sabe, para Pombinho, essa porra toda  uma verdadeira cruzada - prosseguiu Bola, rolando um cigarro entre o polegar e o indicador. - Ele est erguendo a bandeira 
do companheiro morto. Salve Barry Fairbrother!
     Com um fsforo, comeou a enfiar o tabaco pela ponta do rolinho de papel.
     A mulher de Miles Mollison tem uns peitos gigantescos - disse ele.
     Uma senhora idosa que estava no banco da frente se virou para olhar o garoto. Andrew comeou a rir novamente.
     Cada peito do cacete - disse Bola bem alto, encarando aquele rosto enrugado e contrado. - Uns peites suculentos, tamanho extragrande...
     Toda vermelha, a mulher virou o rosto bem devagar e voltou a olhar para a frente. Andrew mal conseguia respirar.
     Os dois saltaram do nibus bem no centro de Yarvil, perto da avenida perifrica e do principal calado do comrcio local, e, fumando os cigarros que Bola havia 
enrolado, saram andando em meio s pessoas que faziam compras. Andrew no tinha um tosto. O salrio de Howard Mollison ia ser muito bem-vindo.
     De longe, o letreiro de um alaranjado luminoso do cyber caf atraiu o olhar de Andrew, como se o convidasse a entrar. O garoto no conseguia mais se concentrar 
no que Bola estava dizendo. Vai fazer isso mesmo?, era a pergunta que no lhe saa da cabea. Tem certeza?
     Ainda no sabia. Os seus ps continuavam a se mover, e o letreiro estava ficando cada vez maior, tentando atra-lo, seduzi-lo.
Se ficar sabendo que voc disse uma palavra sobre o que acontece nessa casa, eu esfolo voc vivo.
     Mas a alternativa era a humilhao de ver o pai exibir para o mundo inteiro o que ele realmente era e tambm o preo que a famlia teria de pagar quando, depois 
de semanas de besteiras e expectativas, ele fosse derrotado, o que certamente ia acontecer. Ento, viriam a raiva e o despeito, e a determinao de fazer todos os 
demais pagarem pelas suas prprias decises lunticas. Ainda na vspera,  noite, Ruth tinha dito, toda animada: "Os meninos podem ir colar os seus cartazes l em 
Pagford." Com o rabo do olho, Andrew tinha visto o horror estampado no rosto de Paul e percebeu que o irmo tentava olhar para ele disfaradamente.
     - Vou entrar aqui - murmurou Andrew, virando  direita.
     Compraram tquetes com senhas e sentaram diante de computadores diferentes, separados por duas outras baias ocupadas. O sujeito de meia-idade que estava  direita 
de Andrew fedia e ficava o tempo todo fungando.
     Andrew entrou na internet e digitou o nome do site: conselho... distrital... de... pagford... ponto... co... ponto... uk...
     A pgina inicial ostentava o emblema do Conselho, em azul e branco, e uma foto de Pagford tirada de algum lugar bem perto de Hilltop House, com a silhueta da 
abadia de Pargetter recortada contra o cu. O site, como Andrew j sabia, porque tinha entrado nele pelo computador da escola, tinha uma aparncia de coisa antiga 
e amadorstica. O garoto no ousou fazer isso do seu prprio notebook. O seu pai podia ser completamente ignorante em termos de internet, mas Andrew achava que era 
bem possvel que ele arranjasse algum l do trabalho para ajud-lo a investigar depois que a coisa j tivesse estourado...
     Mesmo naquele lugar annimo e movimentado, no havia como evitar que a data aparecesse na postagem, nem como fingir que no tinha ido a Yarvil naquele dia. 
Simon, porm, nunca entrou num cyber caf na vida e talvez nem soubesse da existncia deles.
     Andrew sentiu o corao apertado, um aperto que chegou a doer. Mais que depressa, procurou a rea de mensagens, que, pelo visto, no era muito freqentada. 
Havia alguns tpicos intitulados: coleta de lixo - esclarecimento e rea de abrangncia das escolas de Crampton e Little Manning. E, mais ou menos a cada dez entradas, 
havia uma postagem do administrador do site, incluindo trechos da ata da ltima reunio do Conselho. Bem no fim da pgina, surgiu o ttulo: Falecimento do cons. 
Barry Fairbrother. Esse tpico tinha sido visitado cento e cinqenta e duas vezes e recebido quarenta e trs respostas. Depois, na segunda pgina de mensagens, encontrou 
o que estava procurando: um post do falecido.
     Uns dois meses atrs, a turma de informtica de Andrew tinha sido acompanhada por um jovem professor substituto que ficou tentando parecer um sujeito descolado 
para cativar os alunos. Ele no deveria ter mencionado as injees SQL de jeito nenhum, e Andrew tinha certeza de que no havia sido o nico a sair dali direto para 
procur-las no prprio computador. Tirou do bolso o papelzinho onde tinha anotado o cdigo que procurou nos tempos vagos na escola e acessou a pgina de login do 
site do Conselho. Ele estava apostando todas as fichas numa suposio: como aquele site havia sido criado h muito tempo e por um amador, no devia ter qualquer 
proteo contra os procedimentos clssicos mais simples de invaso.
     Com todo o cuidado, usando apenas o indicador, Andrew introduziu ali aquela linha mgica de caracteres.
     Leu e releu tudo atentamente, verificando se cada vrgula estava onde deveria estar, e, por um segundo, ficou hesitando, com a respirao ofegante. Finalmente, 
pressionou a tecla "Enter".
     Andrew chegou a perder o flego, feliz como uma criana, e precisou se conter para no gritar ou sair dando socos no ar. Tinha conseguido penetrar naquele sitezinho 
vagabundo na primeira tentativa. Ali, na tela  sua frente, estavam os dados de Barry Fairbrother: o seu nome, a sua senha, o seu perfil completo.
     Desamassou ento o papelzinho que tinha guardado no seu travesseiro por uma semana e comeou a trabalhar. Digitar o pargrafo seguinte, com todas aquelas coisas 
riscadas e refeitas, ia ser uma tarefa bem mais complicada.
     Andou tentando encontrar um estilo que fosse o mais impessoal e impenetrvel possvel, um estilo que tivesse aquele tom impassvel dos jornalistas dos grandes 
jornais.
     
     Simon Price, candidato ao cargo de conselheiro distrital, pretende defender como plataforma o corte dos gastos excessivos da instituio. O sr. Price conhece 
por certo muito bem os processos de reduo de custos e poderia beneficiar o Conselho fornecendo os nomes dos seus contatos to teis. Em casa, ele faz economia 
adquirindo mercadorias roubadas - o exemplo mais recente foi um computador de mesa - e  a pessoa a ser procurada na Grfica Harcourt-Walsh por quem estiver interessado 
em mandar fazer algum trabalho a preo reduzido, pagando em dinheiro vivo, depois que o gerente-geral j tiver ido embora.
     
     Andrew leu e releu aquele texto de ponta a ponta. Mentalmente, j o tinha repassado mil vezes. Podia fazer inmeras acusaes contra Simon, mas no existia 
um tribunal em que ele pudesse apresentar queixa formal contra o pai, em que ele pudesse apresentar como prova as lembranas que tinha do terror fsico e da constante 
humilhao. Tudo que tinha eram as diversas infraes  lei de que ouvia Simon se vangloriar e, entre elas, escolheu dois exemplos especficos - o computador roubado 
e os trabalhos feitos s escondidas na grfica, depois do expediente -, porque ambos estavam diretamente ligados ao lugar em que o pai trabalhava. L na grfica, 
tinha gente que sabia que Simon fazia essas coisas e que poderia perfeitamente ter contado isso a qualquer pessoa: amigos ou famlia.
     O seu estmago estava se revirando, exatamente como acontecia quando Simon perdia inteiramente o controle e partia para cima de quem estivesse  sua frente. 
Ver a prpria traio em preto e branco na tela do computador era algo assustador.
     - Que diabos voc t fazendo, p? - perguntou Bola baixinho, falando bem perto do seu ouvido.
     O tal velhote fedorento tinha ido embora. Bola tinha vindo para a baia ao seu lado e estava lendo o que ele tinha escrito.
     Puta que pariu! - exclamou o garoto.
     Andrew sentiu a boca seca. A sua mo jazia esquecida sobre o mouse.
     Como entrou a? - sussurrou Bola.
     Usando a injeo SQL - respondeu Andrew. - T tudo na internet. Todas essas porras de segurana.
     Bola parecia encantado. E profundamente impressionado. Andrew ficou meio satisfeito, meio apavorado ao ver a reao do amigo.
     Voc tem que...
     Deixa eu fazer um pro Pombinho!
     De jeito nenhum!
     Andrew puxou o mouse, deixando-o fora do alcance de Bola. Aquele ato feio de deslealdade filial tinha nascido do caldo primordial de raiva, frustrao e medo 
que transbordava dentro dele desde que se entendia por gente. Mas s via um jeito de convencer o amigo a guardar segredo.
     Isso aqui no  brincadeira!
     Releu a mensagem pela terceira vez e lhe deu um ttulo. Podia sentir a empolgao de Bola ali ao seu lado, como se estivessem vendo mais uma daquelas sesses 
de filmes porn. De repente, a vontade de impressionar ainda mais tomou conta de Andrew.
     Olha s - disse ele, e trocou o nome de usurio de Barry para O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother.
     Bola caiu na gargalhada. Os dedos de Andrew se mexeram sobre o mouse. O cursor correu para o lado. Jamais saberia se teria levado aquilo tudo adiante se o amigo 
no estivesse espiando. Com um nico clique, um novo ttulo apareceu no alto da rea de mensagens do site do Conselho Distrital de Pagford: Por que Simon Price no 
deve ser eleito para o Conselho Distrital de Pagford.
     J l fora, na calada, um olhou para o outro, quase sem flego de tanto rir, ligeiramente abalados pelo que acabara de acontecer. Andrew pediu ento os fsforos 
de Bola emprestados, ps fogo no pedacinho de papel onde tinha rascunhado a tal mensagem e ficou vendo-o se desintegrar em frgeis flocos negros, que foram caindo 
no cho sujo para desaparecer sob os ps dos passantes.
     
     X
     
     Andrew saiu de Yarvil s trs e meia, para ter certeza de estar de volta a Hilltop House antes das cinco. Bola foi com ele at o ponto do nibus e, depois, 
numa deciso aparentemente inesperada, disse que achava que ainda ia ficar um pouquinho por ali.
     Na verdade, ele tinha combinado, sem dar muita certeza, no entanto, que encontraria Krystal no shopping. Voltou ento para o centro do comrcio pensando no 
que Andrew tinha feito l no cyber caf e tentando destrinchar as suas prprias reaes.
     Tinha de admitir que estava impressionado. Estava at com uma certa sensao de que tinham lhe roubado a cena. Andrew havia planejado aquilo tudo, sem contar 
para ningum, e executado o plano com a maior eficincia. Tudo isso era admirvel. Sentiu uma pontada de cime s de pensar que o amigo arquitetou tudo sem lhe dizer 
uma palavra, o que o fez achar que talvez devesse censurar Andrew por ter atacado o pai sob a capa do anonimato. No havia, naquela atitude, algo de dissimulado, 
de excessivamente elaborado? No teria sido mais autntico ameaar Simon cara a cara ou partir para a briga com ele?
 claro que Simon era um merda, mas, sem dvida alguma, era um merda autntico: fazia o que queria, quando queria, sem se submeter s restries sociais ou  moral 
convencional. De repente lhe ocorreu que talvez devesse ficar do lado de Simon... Afinal, gostava tanto de fazer o pai de Andrew rir com piadas grosseiras e infames, 
em geral sobre gente que fazia as maiores burradas ou que se machucava em cenas tipo pastelo. Muitas vezes, Bola achou que preferia Simon, com as suas mudanas 
de humor, os seus acessos de fria imprevisveis, a Pombinho. Pelo menos o pai de Andrew era um adversrio de peso, um antagonista sempre a postos...
     Por outro lado, no tinha esquecido a lata de creosoto que caiu da prateleira, o rosto ensandecido e os punhos de Simon, o barulho assustador que ele ficou 
fazendo, o calor do xixi escorrendo pelas suas pernas, nem (talvez a lembrana mais vergonhosa) o desejo intenso, desesperado, de ver a me chegar e lev-lo dali, 
para um lugar seguro. Bola ainda no se sentia to invulnervel a ponto de no compreender perfeitamente o desejo de revanche do amigo...
     Com isso, o garoto voltou ao ponto de partida: Andrew tinha feito uma coisa ousada, engenhosa e potencialmente explosiva em termos de conseqncias. Mais uma 
vez, sentiu uma pontinha de tristeza por no ter sido ele a bolar aquele plano. Ultimamente, vinha tentando se livrar do hbito to classe mdia de se fiar nas palavras, 
mas no era nada fcil deixar de lado um esporte em que ele era to bom. Andando ali pelo piso encerado da entrada do shopping, pegou-se elaborando frases que acabariam 
com as pretenses to presunosas de Pombinho e deixariam o seu pai inteiramente nu diante de um pblico que debocharia dele...
     Junto dos bancos que ficavam no meio do corredor, avistou Krystal com um grupinho de gente l de Fields. Entre eles estavam Nikki, Leanne e Dane Tully. Bola 
nem hesitou ou sequer deu a mnima impresso de se preparar para aquele encontro. Simplesmente, continuou andando no mesmo ritmo, com as mos nos bolsos, dirigindo-se 
para aquele monte de olhos crticos e curiosos que o mediam da cabea aos tnis.
     Tudo bom, Gordo? - exclamou Leanne.
     Tudo - respondeu o garoto. Ela, ento, cochichou alguma coisa com Nikki, que deu uma risadinha. Krystal comeou a mascar o seu chiclete furiosamente. Ficou 
meio vermelha, jogou o cabelo para trs, fazendo danar os brincos de argola, e puxou a cala de moletom para cima.
     Tudo bom? - perguntou Bola, dirigindo-se exclusivamente a ela.
     Tudo - respondeu a garota.
     Mame t sabendo que voc saiu, Bola? - indagou Nikki.
     E, diante daquele silncio vido, ele replicou, com toda a calma.
     T, sim. Foi ela que me trouxe. T esperando l no carro. Disse que eu podia dar uma rapidinha antes de voltar para lanchar em casa.
     Todos caram na gargalhada, exceto Krystal, que berrou:
     Vai se foder, seu filho da puta metido! - Mas, pelo jeito, tinha gostado do que ouviu.
     T fumando desses cigarros de enrolar? - resmungou Dane Tully, olhando para o bolso do casaco de Bola. O ferimento no seu lbio estava com uma casca bem preta.
     T.
 desses que o meu tio fuma - prosseguiu Dane. - T acabando com a porra do pulmo dele - acrescentou, mexendo na casca do machucado.
     Onde  que vocs vo? - perguntou Leanne, olhando para Bola e para Krystal.
     Sei l - disse a garota, sempre mascando chiclete e olhando para Bola de relance.
     Ele, porm, deixou uma e outra sem resposta e se limitou a indicar a sada do shopping com um gesto meio brusco do polegar.
     T mais - disse Krystal, bem alto,  turminha que estava com ela.
     J Bola, como quem no quer nada, meio que ergueu a mo num
     gesto de despedida e foi embora, com Krystal quase correndo ao seu lado. Ouviu mais risos enquanto se afastavam, mas nem ligou. Sabia que tinha se sado muito 
bem...
     Onde  que a gente vai? - perguntou a garota.
     Sei l - respondeu ele. - Onde  que voc vai geralmente?
     Ela deu de ombros, sempre andando e mascando o seu chiclete. Saram do shopping e foram andando pela rua principal. Estavam a alguma distncia do parquinho 
onde tinham ido procurar alguma privacidade da outra vez.
 verdade que a sua me trouxe voc at aqui? - indagou Krystal.
     Claro que no, p! Vim de nibus, n?
     A garota no ficou chateada com aquela resposta rspida e continuou olhando as vitrines das lojas, onde o reflexo dos dois seguia lado a lado. Magricela e esquisito, 
Bola era uma celebridade l na escola. At Dane achava ele engraado.
     Ele s t te usando, sua vaca burra - esbravejou Ashlee Mellor quando as duas se encontraram, trs dias atrs, na esquina da Foley Road. - Porque voc  uma 
puta, que nem a sua me!
     Ashlee era uma das garotas que andava com Krystal at o dia em que as duas brigaram por causa de um garoto. Todo mundo sabia que ela no era muito boa da cabea: 
era dada a uns acessos de raiva ou de choro, e, na Winterdown, passava metade do tempo nas aulas de reforo e a outra metade na orientao educacional, o que j 
bastaria para demonstrar que ela no era l muito capaz de avaliar o alcance das coisas. Mas Ashlee no parou por a: foi puxar briga com Krystal no seu territrio, 
ali onde a rival tinha as costas quentes e ela no conhecia praticamente ningum. Nikki, Jemma e Leanne ajudaram a encurralar e imobilizar Ashlee, e Krystal bateu 
e esmurrou onde pde, at as suas mos ficarem cobertas do sangue da boca da outra.
     E nem se preocupou com eventuais repercusses.
     Um bando de malucos e, ainda por cima, cages - disse Krystal, referindo-se  garota e  sua famlia.
     Mas as palavras de Ashlee tinham atingido em cheio uma das suas feridas abertas e doloridas. Por isso ficou to contente quando Bola a procurou na escola no 
dia seguinte e, pela primeira vez, sugeriu que se encontrassem no fim de semana. Correu para contar a Nikki e a Leanne que ia sair com Bola Wall no sbado e adorou 
ver o ar de surpresa no rosto das amigas. E, ainda por cima, ele apareceu na hora que tinha anunciado (ou menos de meia hora depois), bem na frente do pessoal com 
quem ela andava, e os dois saram juntos do shopping. Era como se estivessem mesmo namorando.
     O que andou fazendo? - perguntou Bola depois de uns bons cinqenta metros em silncio, quando passavam de novo em frente ao cyber caf. Sabia que tinha de manter 
algum tipo de comunicao com a garota, mesmo que estivesse pensando se conseguiriam encontrar algum lugarzinho mais discreto antes do tal parquinho, que ficava 
a meia hora de distncia. Queria trepar com ela quando os dois estivessem chapados: estava curiosssimo para saber como seria.
     Fui l no hospital ver a minha v mais cedo. Ela teve um AVC - respondeu Krystal.
     Dessa vez, a av Cath no tentou falar, mas a garota teve a impresso de que ela sabia que a bisneta estava ali. Como Krystal havia imaginado, Terri estava 
se recusando a ir ao hospital, e, ento, ela foi sozinha e passou uma hora inteirinha sentada ao lado da cama, at que teve de ir embora para no chegar tarde ao 
shopping.
     Bola tinha mil curiosidades sobre detalhes da vida de Krystal, mas apenas porque ela era uma porta para a vida real que existia em Fields. Coisas assim particulares 
como visitas a hospitais no lhe interessavam a mnima.
     E - acrescentou a garota, sem conseguir conter o orgulho - dei uma entrevista pro jornal.
     Qu? - exclamou Bola, perplexo. - Por qu?
     Pra falar de Fields - respondeu ela. - Contar como  crescer por l.
     (A jornalista tinha enfim conseguido localizar a sua casa e, quando Terri, muito a contragosto, acabou concordando, levou Krystal com ela para um caf para 
conversarem. A mulher ficou o tempo todo perguntando se estudar na St. Thomas tinha sido bom para ela, se tinha modificado a sua vida de uma forma ou de outra. E 
pareceu meio impaciente e frustrada com as respostas que Krystal lhe deu.
     Como so as suas notas na escola? - indagou a jornalista, mas Krystal ficou na defensiva e tratou de se esquivar quela pergunta.
     O sr. Fairbrother disse que acreditava que essa experincia tinha ampliado os seus horizontes.
     Krystal no sabia o que dizer sobre essa histria de horizontes. Quando pensava na St. Thomas, o que se lembrava era daquele maravilhoso ptio do recreio, com 
o grande castanheiro que, todo ano, despejava aqueles frutos enormes e lustrosos em cima dos alunos. Nunca tinha visto essas castanhas at entrar para a St. Thomas. 
Antes de mais nada, gostava de usar uniforme, de ficar igual a todo mundo. Ficou empolgadssima quando viu o nome do bisav no memorial aos mortos da guerra, bem 
no meio da praa: Sd. Samuel Weedon. S um outro garoto tambm tinha o sobrenome gravado ali no memorial: era o filho de um fazendeiro, que, aos nove anos, j sabia 
dirigir um trator e que uma vez levou uma ovelha para a sala de aula, no dia de apresentar "Novidades". Krystal nunca se esqueceu da sensao do focinho da ovelha 
sob a sua mo. Quando contou essa histria para a av Cath, ela lhe disse que, no passado, a famlia deles tambm era de agricultores.
     Adorava o rio, verde e exuberante, onde iam para as atividades de contato com a natureza. Mas o melhor de tudo eram os jogos e as aulas de educao fsica. 
Era sempre a primeira a ser chamada para formar os times em qualquer esporte e ficava encantada com as reclamaes da outra equipe quando ela era escolhida. E, s 
vezes, se lembrava tambm dos professores especiais que teve, principalmente a srta. Jameson, uma mocinha de cabelo louro e comprido, que andava sempre na moda. 
Na sua cabea, Anne-Marie era meio parecida com a srta. Jameson.
     Tinha tambm uns fragmentos de informao que Krystal gravou na memria de forma bem detalhada. Vulces: eram formados por deslocamentos de placas do solo. 
Tinham feito, na escola, umas miniaturas de vulces, que depois foram enchidas com bicarbonato de sdio e detergente lquido e entraram em erupo em cima das bandejas 
de plstico. Krystal tinha adorado aquela atividade. Lembrava-se tambm dos vikings, com os seus barcos compridos e os capacetes com chifres, mas j tinha esquecido 
quando eles chegaram s ilhas britnicas e por que foram para l.
     Mas havia outras lembranas da St. Thomas, entre as quais os comentrios sussurrados que garotinhas da sua turma faziam a seu respeito. E tinha batido em uma 
ou duas delas. Quando a Assistncia Social permitiu que voltasse para a sua me, o seu uniforme ficou to apertado, to curto e to nojento que comearam a mandar 
umas cartas l da escola, o que provocou uma briga feia entre Terri e a av Cath. As outras meninas no queriam se misturar com ela, a no ser nas equipes esportivas. 
Lembrava-se perfeitamente do dia em que Lexie Mollison ficou circulando pela sala de aula, entregando uns envelopinhos cor-de-rosa que continham um convite para 
uma festa, e passou direto por ela, com o nariz empinado - pelo menos, era assim que Krystal revia a cena.
     S um ou outro colega a convidaram. Ser que Bola ou a me dele lembravam que ela tinha ido uma vez a uma festa de aniversrio na casa deles? A turma inteira 
tinha recebido convite, e a av Cath lhe comprou um vestido todo bonito. Era por isso que sabia que no imenso quintal dos fundos da casa de Bola tinha um laguinho 
e um balano pendurado numa macieira. Eles tinham comido gelatina e participado de uma corrida de sacos. Tessa tirou Krystal da tal corrida porque, na sua nsia 
desesperada para ganhar uma medalha de plstico, ela empurrou outras crianas que estavam na sua frente. Uma delas ficou com o nariz sangrando.
     Quer dizer que voc gostava da St. Thomas? - perguntou a jornalista.
     Gostava - respondeu Krystal, mas sabia que no estava transmitindo a idia que o sr. Fairbrother queria que ela transmitisse, e desejou que ele estivesse ali 
para ajud-la. - , gostava, sim.)
     E a troco de que eles queriam falar com voc sobre Fields? - perguntou Bola.
     Foi idia do sr. Fairbrother - disse Krystal.
     Depois de mais alguns minutos de silncio, o garoto voltou a falar.
     Voc fuma?
     O qu? Tipo maconha? J fumei, com Dane.
     Eu tenho aqui.
     Conseguiu com Skye Kirby, n? - perguntou a garota. Bola achou que tinha percebido um certo tom divertido na voz dela, porque Skye era a opo mais fcil e 
mais segura para os garotos de classe mdia. Se fosse isso mesmo, achava at legal aquele deboche, que era autntico...
     Por qu? Voc consegue com quem? - indagou ele, desta vez bastante interessado.
     Sei l. Foi Dane que arranjou.
     Com Obbo? - sugeriu Bola.
     Aquele filho da puta de merda! - exclamou a garota.
     Qual o problema com ele?
     Mas Krystal no tinha palavras para dizer o que havia de errado com Obbo e, mesmo que tivesse, no ia querer falar sobre aquela figura. S o nome de Obbo j 
lhe dava arrepios. s vezes, ele aparecia e se picava com Terri; outras vezes, os dois transavam e Krystal encontrava com ele na escada, fechando aquela braguilha 
imunda, sorrindo por detrs das lentes de fundo de garrafa. Vira e mexe, ele arranjava uns trabalhinhos para Terri, como esconder aqueles computadores, deixar uns 
estranhos dormirem na casa dela por uma noite ou fazer uns servicinhos cuja natureza a garota ignorava, mas que mantinham a sua me fora de casa por horas a fio.
     No muito tempo atrs, Krystal teve um pesadelo em que via a me esticada, esparramada e amarrada numa estrutura qualquer. O seu corpo era praticamente um imenso 
buraco aberto, como uma gigantesca galinha crua e depenada, e, no tal sonho, Obbo entrava e saa daquele interior cavernoso e fazia mil coisas ali dentro, enquanto 
a cabecinha de Terri se mostrava assustada e sombria. Krystal acordou enjoada, furiosa e morrendo de nojo.
     Ele  um filho da puta! - disse ela.
 um sujeito alto, de cabea raspada e umas tatuagens que sobem pelo pescoo? - perguntou Bola, que tinha matado aula pela segunda vez essa semana e passou uma hora 
sentado numa mureta, l em Fields, s olhando. O careca tinha chamado a sua ateno, remexendo numas coisas na traseira de uma velha caminhonete branca.
     No. Esse a  Pikey Pritchard - respondeu Krystal. - Voc deve ter visto ele l na Tarpen Road.
     Qual  a dele?
     No sei - disse a garota. - Pergunta pro Dane. Ele  amigo do irmo de Pikey.
     Mas ela gostou de ver que ele estava mesmo interessado. Bola nunca tinha se mostrado to disposto a conversar com ela antes.
     Pikey est na condicional.
     Que que ele fez?
     Atacou um sujeito com uma garrafa quebrada l em Cross Keys.
     Por qu?
     E eu  que vou saber! No tava l pra ver... - exclamou Krystal.
     Estava feliz da vida, o que sempre a deixava excessivamente confiante.
     Sem contar a preocupao com a av Cath (que, afinal de contas, ainda estava viva e talvez ainda pudesse se safar), essas ltimas semanas tinham sido bem legais. 
Terri estava de novo seguindo o programa da Bellchapel, e Krystal no deixava Robbie faltar  escola. O bumbum do menino j estava quase bom. Aparentemente, a nova 
assistente social tambm estava satisfeita, como a colega dela sempre ficava. Krystal tambm estava indo  escola todos os dias, embora tenha faltado s sesses 
de orientao com Tessa, tanto na segunda quanto na quarta. Mas no saberia dizer por qu. s vezes a gente perde a prtica...
     Voltou a olhar para Bola com o rabo do olho. Nunca tinha lhe passado pela cabea se interessar por ele, no at aquele dia na tal festa l na escola. Todo mundo 
conhecia Bola. Algumas das suas piadas circulavam como coisas engraadas que passavam na televiso. (Krystal sempre fingia que tinha televiso em casa. Via uma poro 
de coisas na casa das amigas e na da av Cath e, por isso, vinha conseguindo manter a farsa. " mesmo, foi uma merda!" "Eu sei, quase mijei na cala", dizia ela 
quando os outros falavam dos programas que tinham visto.)
     Bola ficou imaginando como seria ser atacado com uma garrafa quebrada, com o vidro pontiagudo cortando a carne tenra do nosso rosto. Chegou a sentir a queimao 
e as pontadas do ar batendo na pele rasgada, e o calor mido do sangue que jorrava. Sentiu at uma espcie de formigamento na pele ao redor da boca, como se ela 
j estivesse cicatrizando.
     Dane continua andando com uma faca? - perguntou ele.
     Como  que voc sabe que ele tem uma faca? - replicou Krystal.
     Porque ele ameaou Kevin Cooper com ela.
     Ah, t - disse Krystal. - Cooper  um babaca, n?
     Se  - concordou o garoto.
     Dane s anda com a faca por causa dos irmos Riordon - acrescentou Krystal.
     Bola adorava a tranqilidade com que ela dizia aquelas coisas, aceitando a necessidade de uma faca porque havia uma rixa e, portanto, a possibilidade de violncia. 
Essa era a realidade crua da vida. Isso, sim, era o que realmente importava... Mais cedo, antes da chegada de Arf, Pombinho estava insistindo para que Tessa lhe 
dissesse se os seus panfletos de campanha ficariam melhores em papel amarelo ou em papel branco...
     Que tal entrar aqui? - sugeriu ele, depois de uns instantes.
     A direita deles, havia um muro comprido de pedra, e os portes abertos deixavam ver mais pedras e vegetao.
     T bom - disse Krystal. S tinha entrado no cemitrio uma vez, com Nikki e Leanne. Sentaram num tmulo, abriram umas latas de refrigerante, no muito  vontade 
com o que estavam fazendo. At que apareceu uma mulher e comeou a xing-las aos berros. Quando estavam saindo, Leanne atirou uma lata vazia na tal mulher.
     Mas aquilo ali era aberto demais, pensou Bola enquanto os dois seguiam por uma ampla alameda de cho de concreto que ficava entre as sepulturas. Aquele gramado 
e aquelas pedras no escondiam absolutamente nada. De repente, o garoto avistou uns arbustos cerrados que formavam uma cerca, acompanhando o muro do outro lado. 
Pegou um caminho mais estreito que atravessava o cemitrio, e Krystal o seguiu, com as mos nos bolsos. Foram passando entre sepulturas retangulares cobertas de 
cascalho e lpides rachadas e ilegveis. O cemitrio era grande e bem-cuidado. Chegaram ento ao ponto em que havia os tmulos mais novos, de mrmore preto reluzente, 
com letras douradas e lugares onde se via que as pessoas tinham posto flores frescas para os mortos recentes.
     
     Lyndsey Kyle
     15 de setembro de 1960 - 26 de maro de 2008
     Descanse em paz, mame.
     
, acho que ali  um lugar legal - disse Bola, ao avistar o vo escuro entre os arbustos espinhosos com as suas flores amarelas e o muro do cemitrio.
     Agachados, os dois penetraram naquele cantinho sombrio e mido e sentaram no cho, com as costas apoiadas no muro frio. As lpides sumiram entre os troncos 
da planta, mas no havia qualquer forma humana entre elas. Com habilidade de quem entende do assunto, Bola preparou o baseado, na esperana de que Krystal estivesse 
vendo e ficasse impressionada.
     Ela, porm, estava olhando para alm do dossel de folhas escuras e luzidias, pensando em Anne-Marie, que (foi a tia Cheryl quem lhe contou) tinha ido visitar 
a av Cath na quinta-feira. Se ao menos ela houvesse matado aula e ido ao hospital na mesma hora, as duas teriam enfim se conhecido. Tantas vezes imaginou como seria 
o seu encontro com Anne-Marie, quando lhe diria "Sou sua irm"... Nas suas fantasias, a outra ficava encantada. Depois disso, passavam a se ver com freqncia, e 
a irm acabaria sugerindo que Krystal fosse morar com ela. A Anne-Marie imaginria tinha uma casa como a da av Cath, limpa e bem-arrumada, s que muito mais moderna. 
Ultimamente, nas cenas que criava, Krystal passou a incluir um bebezinho rosado, deitado num bero todo enfeitado.
     Pronto - disse Bola, estendendo o baseado para a garota. Ela deu uma tragada, prendeu a fumaa nos pulmes por alguns segundos, e a sua expresso foi se abrandando, 
tornando-se quase sonhadora,  medida que a maconha ia realizando a sua mgica.
     Voc no tem irmos, n? - perguntou ela.
     No - respondeu o garoto, metendo a mo no bolso para ver se as camisinhas que tinha trazido estavam ali dentro.
     Krystal lhe devolveu o cigarro, sentindo a cabea rodar de um jeito gostoso. Bola deu uma tragada caprichada e soltou uns anis de fumaa.
     Sou adotado - disse ele, alguns instantes depois.
 mesmo? - indagou a garota, encarando-o com os olhos arregalados.
     Com os sentidos assim amortecidos e aninhados, as confidncias iam saindo com mais facilidade; tudo, alis, ficava mais fcil.
     A minha irm foi adotada - disse ela, encantada com aquela coincidncia e feliz da vida por falar de Anne-Marie.
     ... Com certeza vim de uma famlia como a sua - observou Bola.
     Mas Krystal no estava ouvindo; o que ela queria era falar.
     Tenho uma irm mais velha e um irmo tambm, Liam, mas, quando eu nasci, os dois j tinham sido levados embora.
     Por qu? - perguntou o garoto, que, a essa altura, estava prestando mais ateno.
     Na poca, a minha me tava com Ritchie Adams - disse Krystal. Deu uma tragada profunda no baseado e soltou a fumaa num jato fino e comprido. - Ele  pirado. 
De verdade. T em priso perptua porque matou um cara. Era superviolento com mame e os meninos. A John e Sue vieram e levaram os dois. A Assistncia Social se 
meteu na histria, e John e Sue acabaram ficando com eles.
     Deu mais uma tragada no baseado, pensando naquele perodo da sua pr-histria, um tempo imerso em sangue, fria, escurido. Tinha ouvido muitas coisas sobre 
Ritchie Adams, contadas principalmente pela sua tia
     Cheryl. Ele tinha apagado cigarros nos braos de Anne-Marie, na poca com um ano de idade, e dado tantos chutes na menininha que ela teve as costelas fraturadas. 
Tinha arrebentado o rosto de Terri: ainda hoje dava para ver que o osso da ma do lado esquerdo era mais afundado que o do lado direito. O vcio da moa se acentuou 
de forma catastrfica. Aparentemente, a deciso de levar embora as duas crianas negligenciadas e seviciadas no abalou a tia Cheryl.
     Tinha que ser assim - dizia ela.
     John e Sue eram uns parentes afastados que no tinham filhos. Krystal nunca soube ao certo como e por que eles faziam parte da sua complicada rvore genealgica 
ou como realizaram aquilo que, nas palavras de Terri, tinha sido um verdadeiro rapto. Depois de muitas brigas judiciais, o casal foi autorizado a adotar as crianas. 
Terri, que ficou com Ritchie at ele ser preso, nunca voltou a ver Anne-Marie ou Liam, por motivos que a garota no entendia muito bem. Toda aquela histria era 
coalhada de dio, de coisas ditas que eram consideradas imperdoveis, de ameaas, de ordens de restrio, e envolveu um monte de agentes do Servio Social.
     E quem  o seu pai? - perguntou Bola.
     E o Grinfa - disse a garota, lutando para lembrar o verdadeiro nome do sujeito. - Barry... - murmurou ela, embora achasse que no era exatamente aquilo. - Barry 
Coates. S uso o nome da minha me, Weedon.
     A lembrana do rapaz morto por overdose cado l no banheiro de Terri voltou  sua cabea, flutuando naquela fumaa doce e pesada. Krystal devolveu ento o 
cigarro a Bola e recostou a cabea na parede de pedra, erguendo os olhos para uma nesga de cu entrecortada de folhas escuras.
     Bola ficou pensando no tal Ritchie Adams, que havia matado um homem, e considerando a possibilidade de seu prprio pai biolgico tambm estar numa priso qualquer, 
um sujeito todo tatuado, como Pikey, atltico e musculoso. Mentalmente, comparou Pombinho com aquele homem autntico, forte e duro. Sabia que havia sido afastado 
da me biolgica quando ainda era um beb, porque havia fotos de Tessa segurando-o no colo, uma coisinha frgil como um passarinho, com um gorro de l branca na 
cabea. Tinha nascido prematuro. Tessa havia lhe contado umas poucas coisas, embora ele mesmo jamais tivesse perguntado nada. Sabia, por exemplo, que a sua me de 
verdade era muito jovem quando ele nasceu. Talvez fosse algum como Krystal, a garota que dava para qualquer um na escola...
     A essa altura, j estava chapado. Ps a mo na nuca de Krystal e a puxou para perto de si. Comeou a beij-la, enfiando bem a lngua na sua boca. Com a outra 
mo, tateou, procurando os seios da garota. A sua cabea estava confusa, as pernas e os braos, pesados. At o seu tato parecia afetado. Com alguma dificuldade, 
ps a mo por baixo da camiseta de Krystal, tentando enfi-la dentro do suti. A boca da garota estava quente, com gosto de tabaco e de maconha, e os seus lbios 
estavam secos e rachados. A excitao de Bola estava ligeiramente entorpecida, como se ele estivesse recebendo todas as informaes sensoriais atravs de uma manta 
invisvel. Desta vez, levou muito mais tempo para tirar a roupa de Krystal e teve dificuldades com a camisinha, porque os seus dedos estavam rgidos e lentos. L 
pelas tantas, apoiou o cotovelo, com todo o peso do prprio corpo, na carne macia da axila da garota, que soltou um grito de dor.
     Krystal estava mais seca que da outra vez, e Bola, decidido a levar adiante o que tinha vindo fazer ali, fez fora para penetrar nela. O tempo parecia lento 
e pegajoso, mas ele podia ouvir a prpria respirao acelerada, o que o deixou tenso, porque ficou imaginando uma pessoa qualquer, agachada naquele vo escuro junto 
deles, espiando e ofegando no seu ouvido. Krystal gemeu um pouco. Assim, com a cabea para trs, o nariz dela ficava bem maior, parecendo at um focinho. O garoto 
levantou a camiseta dela para ver aqueles seios brancos e macios se sacudindo ligeiramente por baixo do suti aberto. Nem percebeu que ia gozar, e pareceu at que 
o seu grunhido de prazer tinha vindo do tal intruso.
     Girou o corpo, saiu de cima de Krystal, tirou a camisinha e a jogou fora. Depois, fechou o zper da cala, sentindo-se inquieto, olhando  sua volta para ver 
se estavam realmente sozinhos ali. A garota puxou a cala para cima com uma das mos, baixou a camiseta com a outra e ps os braos para trs tentando fechar o suti.
     Enquanto estavam atrs daqueles arbustos, escureceu, e o cu ficou coberto de nuvens. Bola sentia um zumbido nos ouvidos; algo que parecia vir de longe. Estava 
com fome. O seu crebro estava lerdo, mas, aparentemente, os seus ouvidos estavam hipersensveis. Continuava sentindo aquele medo de estar sendo observado, talvez 
por cima do muro s suas costas. Quis ir embora.
     - Vamos... - balbuciou ento, e, sem esperar por Krystal, foi se arrastando at sair de trs dos arbustos e se levantou, limpando as roupas. A uns duzentos 
metros, avistou um casal idoso agachado junto de uma sepultura. Estava louco para se livrar daqueles olhos-fantasma que podiam, ou no, ter visto ele trepar com 
Krystal Weedon. Ao mesmo tempo, porm, a tarefa de localizar o ponto de nibus certo e fazer o trajeto at Pagford lhe parecia insuportavelmente difcil. Adoraria 
ser simplesmente transportado, de imediato, para o seu quarto l no sto.
     Krystal tinha vindo atrs dele, com um andar meio trpego. Parou, ajeitando a camiseta e olhando fixo para o gramado aos seus ps.
     Puta que pariu! - murmurou ela.
     Que foi? - exclamou Bola. - Vem, vamos embora.
      o sr. Fairbrother - disse a garota, sem sair do lugar.
     Qu?
     Krystal estava apontando para o tmulo diante deles. Ainda no tinha uma lpide, mas viam-se flores frescas ao seu redor.
     T vendo? - perguntou ela, se agachando e mostrando os cartes grampeados s tiras de celofane. -  o sr. Fairbrother. - Reconhecia aquele nome com facilidade 
por causa das tantas cartas enviadas  sua casa, pedindo a permisso da sua me para ela embarcar no micro-nibus. - "Pra Barry" - disse ela, esforando-se para 
ler direito. - E esse aqui diz "Pro papai" - prosseguiu, praticamente soletrando - "de...".
     Mas empacou diante dos nomes de Niamh e Siobhan.
     E da? - disse Bola. Na verdade, porm, a novidade o deixou apavorado. Aquele caixo de fibra tranada estava bem ali, debaixo deles, e, l dentro, o corpo 
pequeno e a cara animada do melhor amigo de Pombinho, o sujeito que vira tantas vezes na sua casa, ia apodrecendo na terra. O Fantasma de Barry Fairbrother... Ficou 
aflito. Parecia at algum tipo de castigo...
     Vamos! - exclamou, mas Krystal no se moveu. - O que foi?
     Eu remava pra ele, n? - replicou ela, irritada.
     Ah, claro...
     Bola estava aflito como um cavalo nervoso, prestes a refugar.
     Krystal continuava olhando o tmulo, abraando o prprio corpo. Estava se sentindo vazia, triste e suja. Queria que no tivessem transado naquele lugar, to 
perto do sr. Fairbrother. Sentiu frio.  diferena de Bola, ela no estava de casaco.
     Vamos - repetiu o garoto mais uma vez.
     Ela o seguiu at a sada do cemitrio, e nenhum dos dois disse nada. Krystal estava pensando no sr. Fairbrother. Ele sempre a chamava de "Krys", coisa que ningum 
mais fazia. E ela gostava de ser "Krys". O sr. Fairbrother era divertido. Krystal estava com vontade de chorar.
     Bola ia pensando se conseguiria arranjar um jeito engraado de contar aquela histria para Andrew: dizer que tinha ficado chapado; que tinha trepado com Krystal; 
que, de repente, baixou uma parania e ele ficou achando que tinha algum vendo eles transarem. E, depois, quando saram de trs da moita, viram que estavam bem 
pertinho do tmulo de Barry Fairbrother. Mas no conseguia achar graa nenhuma naquilo. Pelo menos, ainda no...
     
     
     Parte Trs
     
     Duplicidade
     
     7.25 Uma resoluo no deve tratar sobre mais de um assunto (...). 
     Negligenciar essa regra geralmente compromete a clareza das discusses e pode levar a uma ao comprometida (...).
     
Charles Arnold-Baker 
Administrao dos Conselhos Locais 
7a edio

I

     - ...saiu daqui correndo, fazendo um escndalo, dizendo que ela era uma vaca paquistanesa, e agora o jornal ligou, querendo uma declarao, porque ela...
     Parminder ouviu a voz da recepcionista, pouco mais alta que um sussurro, quando passou pela porta entreaberta da sala dos funcionrios. Com um movimento rpido 
e certeiro, a mdica escancarou a porta e viu a recepcionista e a auxiliar de enfermagem sentadas, bem prximas uma da outra.
     As duas se viraram de um salto.
     Dra. Jawan...
     Voc se lembra do acordo de confidencialidade que assinou quando comeou a trabalhar aqui, no lembra, Karen?
     A recepcionista estava apavorada.
     Lembro... Eu... Eu no estava... Laura j... Eu vim aqui s para dar esse recado. Ligaram da Gazeta de Yarvil e Adjacncias. A sra. Weedon morreu, e uma das 
suas netas est dizendo...
     E isso a  para mim? - perguntou Parminder com frieza, apontando para o pronturio de um paciente na mo de Karen.
     Ah,  sim - disse Karen, perturbada. - Ele queria ver o dr. Crawford, mas...
      melhor voc voltar para o seu lugar.
     Parminder pegou o pronturio, saiu da sala, furiosa, e voltou para a recepo. Ali, deu uma olhada nos pacientes e percebeu que no sabia quem devia chamar. 
Olhou para a pasta que estava segurando.
     Sr. ... Sr. Mollison.
     Howard se levantou, sorrindo, e se aproximou dela, com aquele jeito de andar adernando o corpo para um lado e para o outro que ela conhecia to bem. A averso 
veio como blis  garganta de Parminder. Ela se virou, foi voltando para o consultrio, e Howard a seguiu.
     Tudo certinho com Parminder? - perguntou ele, enquanto fechava a porta e se acomodava na cadeira dos pacientes sem ter sido convidado a fazer isso.
     Aquele era o seu jeito habitual de cumprimentar as pessoas, mas hoje parecia gozao.
     Qual  o problema? - perguntou ela bruscamente.
     Uma irritaozinha - disse ele. - Bem aqui. Preciso de um creme ou algo parecido.
     Ele tirou a camisa de dentro da cala e a puxou um pouco para cima. Parminder viu uma rea de pele muito vermelha, bem perto daquela prega que a barriga dele 
fazia, caindo em cima das coxas.
     Voc precisa tirar a camisa - disse ela.
     S est coando aqui.
     Preciso examinar a regio toda.
     Ele suspirou e ficou de p. E, enquanto desabotoava a camisa, perguntou:
     Voc recebeu a pauta da reunio, que enviei hoje de manh?
     No, no abri meus e-mails hoje.
     Era mentira. Parminder tinha visto a pauta e ficou furiosa, mas no era hora de falar disso. Detestava que ele trouxesse assuntos do Conselho para o consultrio. 
Via aquilo como uma maneira de lhe lembrar que havia um lugar onde ela estava subordinada a ele, mesmo que ali, naquela sala, pudesse mandar ele tirar a roupa.
     Voc pode, por favor... Tenho que olhar embaixo...
     Ele suspendeu a enorme massa de carne. A parte de cima da cala apareceu e, depois dela, o cs. Com os braos cheios da prpria gordura, ele sorriu para a mdica. 
Ela chegou a cadeira mais perto e ficou com a cabea na altura do cinto dele.
     Uma ferida feia e escamosa tinha se alastrado na dobra escondida da barriga de Howard: era de um vermelho vivo, como uma queimadura, e ia de um lado a outro 
do abdmen, parecendo um imenso sorriso infeccionado. Parminder sentiu um cheiro de carne apodrecida chegar s suas narinas.
     Intertrigo - disse ela - e neurodermatite circunscrita nesse ponto aqui, onde voc coou. Tudo bem, pode pr a camisa de novo.
     Ele deixou a barriga cair e pegou a camisa, sem se abalar.
     Voc vai ver que inclu na pauta da reunio o prdio da Bellchapel. Isso tem despertado um certo interesse da imprensa atualmente.
     A mdica estava digitando alguma coisa no computador e no respondeu.
     A Gazeta de Yarvil e Adjacncias - prosseguiu Howard. - Estou fazendo um artigo para eles. Os dois lados da questo - acrescentou, abotoando a camisa.
     Parminder tentava no escutar o que ele dizia, mas o nome do jornal fez o aperto que sentia na boca do estmago piorar.
     Quando foi a ltima vez que voc mediu a presso, Howard? No estou vendo nenhum registro nos ltimos seis meses.
     Est tudo bem. Estou tomando remdio.
     Vamos dar uma olhada mesmo assim. J que est aqui...
     Ele suspirou de novo e lentamente arregaou a manga da camisa.
     Vo publicar o artigo de Barry antes do meu - disse. - Voc sabia que ele tinha enviado um artigo para o jornal? Sobre Fields?
     Sabia - respondeu ela, mesmo achando que seria melhor no dizer nada.
     Voc no teria uma cpia desse artigo, teria? Assim no corro o risco de dizer no meu algo que ele j tenha dito.
     As mos da mdica tremiam segurando a braadeira do aparelho de presso, que no cabia no brao de Howard. Retirou-a e se levantou para pegar uma maior.
     No - respondeu, de costas para ele. - Nunca vi esse texto.
     Howard ficou olhando a bombinha ser acionada e observou os ponteiros no marcador com o sorriso indulgente de um homem que assiste a um ritual pago.
     Est muito alta - disse ela, quando o ponteiro marcou dezessete por dez.
     Estou tomando um remdio para isso - insistiu ele, coando o lugar onde a braadeira tinha estado e puxando a manga para baixo. - O dr. Crawford acha que est 
tudo bem.
     Ela deu uma olhada na lista de medicamentos aberta na tela do computador.
     Voc est tomando alodipina e bendroflumetiazida para a presso, certo? E sinvastatina para o corao... Mas nenhum betabloqueador...
     Por causa da minha asma - disse Howard, alisando a manga da camisa.
     ...Certo... E aspirina. - Ela se virou para olhar para ele. - Howard, todos os seus problemas de sade se resumem a um s: a gordura. J foi a um nutricionista?
     Tenho uma delicatssen h trinta e cinco anos - disse ele, sempre sorrindo. - No preciso que ningum me ensine nada sobre comida.
     Algumas poucas mudanas no seu estilo de vida fariam uma diferena enorme. Se voc conseguisse perder...
     Com uma piscadela rpida, ele declarou com tranqilidade:
     Vamos facilitar as coisas. Preciso apenas de um creme para a coceira.
     Descontando a raiva no teclado, Parminder prescreveu, ferozmente, cremes antifngicos com corticoides, imprimiu a receita e a entregou a Howard sem dizer mais 
nenhuma palavra.
     Muitssimo obrigado - disse ele, enquanto se levantava. - E tenha um timo dia.

II

     - Que que voc quer?
     Com o corpo todo encolhido, Terri Weedon parecia ainda menor ali no vo da porta. Ela ps as mos ossudas, como garras, nos quadris, tentando parecer mais imponente, 
barrando a entrada da casa. Eram oito da manh. Krystal tinha acabado de sair com Robbie.
     Falar com voc - disse a irm. Grandalhona e com aquele jeito masculino, usando um colete branco e cala de moletom, Cheryl deu uma tragada no cigarro, vislumbrou 
Terri atravs da fumaa e acrescentou: - V Cath morreu.
     Qu?...
     V Cath morreu - repetiu mais alto. - Voc no t nem a, n? Terri tinha ouvido da primeira vez. A notcia a atingiu em cheio, e ela s perguntou para ouvir 
aquilo de novo e entender direito.
     Voc t chapada? - perguntou Cheryl, encarando aquele rosto vazio e tenso.
     No t, nada. Vai se foder.
     Era verdade. Terri no tinha usado nada de manh, nem nas ltimas trs semanas. Mas no tinha do que se orgulhar. No havia nenhum calendrio com os dias riscados 
pendurado na cozinha. Uma vez, ficou sem usar nada por muito mais tempo, meses at. Obbo estava fora h quinze dias, o que tornou tudo mais fcil. Mas as suas coisas 
ainda estavam na velha lata de biscoitos, e a fissura queimava seu corpo frgil como um fogo eterno.
     Morreu ontem. A filha da puta da Danielle s resolveu avisar agora de manh - disse Cheryl. - Eu ia ao hospital hoje pra ver ela de novo. Danielle t de olho 
na casa da v Cath. Aquela vaca interesseira.
     J fazia muito tempo que Terri no ia  pequena casa geminada da Hope Street, mas quando Cheryl disse aquilo, pde ver, nitidamente, as quinquilharias no aparador 
e as cortinas rendadas. Imaginou Danielle l, surrupiando coisas, fuando nos armrios.
     O velrio  na tera, s nove, depois ela vai ser cremada.
     T certo - respondeu Terri.
     Temos direito a essa casa tanto quanto ela - disse Cheryl. - Vou dizer que a gente quer a nossa parte, t?
     T bom.
     Ficou ali olhando e s entrou quando o cabelo amarelo e as tatuagens da irm desapareceram na esquina.
     A av Cath estava morta. Fazia tempo que as duas no se falavam. T lavando as minhas mos. Pra mim chega, Terri. J chega. No entanto, nunca tinha deixado 
de ver Krystal, que era a queridinha dela. Foi at v-la competir naqueles barcos estpidos. E foi o nome de Krystal que ela disse no leito de morte, no o de Terri.
Tudo bem ento, sua vaca velha. T nem a. Agora j era.
     Com um aperto no peito e o corpo tremendo, Terri andou pela cozinha fedida  procura de um cigarro, mas o que queria mesmo era a colher, o isqueiro e a agulha.
     Era tarde demais para dizer  velha o que ela deveria ter dito. Tarde demais para ser de novo Terri-Baby. Meninas grandes no choram... Meninas grandes no 
choram... Muitos anos se passaram at que percebesse que a cano que a av Cath cantava para ela, com aquela voz rouca de fumante, era na verdade "Sherry Baby".
     As mos de Terri vasculharam o lixo como vermes, procurando por maos de cigarro, rasgando-os, encontrando-os todos vazios. Krystal deve ter fumado o ltimo; 
ela era uma vaca interesseira, igual a Danielle, mexendo nas coisas da av Cath, tentando esconder dos outros que ela tinha morrido.
     Havia uma guimba boiando num prato engordurado. Terri a secou na camiseta e foi acend-la na boca do fogo. Mentalmente, ouviu a prpria voz quando tinha onze 
anos.
Quero que voc seja a minha mame.
     No queria lembrar. Ficou encostada ali na pia, fumando, tentando pensar em outra coisa; por exemplo, na disputa que iria acontecer entre as suas irms mais 
velhas. Ningum mexia com o casal Cheryl e Shane: eles estavam sempre prontos para a briga. Recentemente Shane jogou uns trapos em chamas na caixa de correio da 
casa de um filho da puta qualquer. Foi por isso que tinha sido preso dessa ltima vez, e ainda estaria na cadeia se a casa no estivesse vazia na ocasio. Mas Danielle 
tinha armas que Cheryl no tinha: dinheiro e a sua prpria casa, com telefone fixo. Conhecia pessoas nas reparties e sabia como falar com elas. Era do tipo que 
tinha sempre uma carta na manga.
     Ainda assim, Terri duvidava que Danielle fosse ficar com a casa, mesmo com as suas armas secretas. No eram s elas trs. A av Cath teve muitos netos e bisnetos. 
Depois que Terri foi levada para uma instituio, o seu pai ainda teve mais filhos. Nove ao todo, pelos clculos de Cheryl, de cinco mes diferentes. Terri no conhecia 
os seus meios-irmos, mas Krystal lhe contou que a av Cath tinha contato com eles.
     Srio? - retrucou ela ento. - Tomara que roubem tudo dela, aquela vaca velha e estpida...
     Ento, ela conhecia o resto da famlia, mas eles no eram exatamente anjos, pelo que Terri tinha ouvido falar. Mas foi s com ela, que um dia j havia sido 
Terri-Baby, que a av Cath cortou relaes para sempre.
     Quando voc est limpo, lembranas e pensamentos diablicos comeam a brotar da escurido dentro de voc. Parece at que a sua cabea est cheia de moscas pretas 
zumbindo sem parar e pousando por toda a parte.
Quero que voc seja a minha mame.
     A roupa que Terri estava usando hoje deixava o seu brao, o seu pescoo e os seus ombros cheios de cicatrizes totalmente expostos, exibindo a pele retorcida 
em dobras e sulcos, que mais parecia um sorvete derretido. Quando tinha onze anos, ficou internada seis semanas na unidade de queimados do Hospital Geral South West.
     (- Como isso aconteceu, meu bem? - perguntou a me da criana que estava na cama ao lado.
     O pai tinha jogado uma frigideira de leo fervendo em cima dela. E sua camiseta da Human League pegou fogo.
     Foi um acidente - murmurou Terri. Era o que dizia para todo mundo, inclusive para a assistente social e as enfermeiras. Sabia que, no momento em que entregasse 
o pai, teria escolhido ser queimada viva.
     A me foi embora logo depois que ela fez onze anos, deixando as trs filhas para trs. Alguns dias depois, Danielle e Cheryl se mudaram para a casa dos namorados. 
Terri foi a nica que ficou, tentando fazer batata frita para o pai e se agarrando  esperana de que a me iria voltar. Mesmo passando pela agonia e o terror daqueles 
primeiros dias e noites no hospital, ficou contente de que aquilo houvesse acontecido, porque tinha certeza de que a me ia ficar sabendo e voltaria para busc-la. 
O corao da menina disparava toda vez que ela ouvia uma movimentao na porta da enfermaria.
     Mas, durante as seis longas semanas de dor e solido, a nica pessoa que apareceu para visit-la foi a av Cath. Naquelas tardes e noites tranqilas, a av 
Cath vinha se sentar ao lado da neta, lembrando-lhe que devia dizer obrigada s enfermeiras, sempre rgida e de cara amarrada, que deixava escapar s vezes uma ternura 
inesperada.
     A av Cath comprou para ela uma boneca barata de plstico, com uma capa de chuva preta brilhante, mas quando a menina tirou a roupa da boneca no havia nada 
por baixo.
     - Ela no tem calcinha, v.
     E a av Cath deu uma risada. Ela nunca dava risadas.
Quero que voc seja a minha mame.
     Ela queria que a av a levasse para casa. Pediu isso, e ela concordou. s vezes Terri pensava naquelas seis semanas no hospital como a poca mais feliz da sua 
vida, mesmo com a dor. Era tudo to seguro, as pessoas eram boas e tomavam conta dela. Achou que iria para casa com a av Cath, a casa com aquelas cortinas rendadas 
to bonitas... Achou que no voltaria mais para o pai, no voltaria mais para aquele lugar em que a porta do quarto se abria com violncia no meio da noite, fazendo 
balanar o pster de David Essex que Cheryl tinha deixado para trs. Achou que no voltaria mais para o pai e sua mo invasora se aproximando da cama, de onde ela 
implorava para que ele no...)
     A Terri adulta jogou o filtro da guimba do cigarro no cho da cozinha e saiu pela porta da frente. Estava precisando de algo mais forte que nicotina. Passou 
pelo caminho do jardim e depois, j na rua, seguiu na mesma direo de Cheryl. Viu, de relance, dois vizinhos conversando na calada, observando-a passar. Querem 
uma foto minha, porra? A podem levar pra casa. Terri sabia que era motivo permanente de fofocas, sabia o que diziam a seu respeito, s vezes chegavam a gritar isso 
na sua cara. A vaca arrogante da casa ao lado ia sempre reclamar no Conselho sobre o estado do quintal de Terri. Vo se foder, vo se foder, vo se foder...
     Continuava caminhando, tentando escapar das lembranas.
Voc nem sabe quem  o pai, n, sua puta? T lavando as minhas mos, Terri. Pra mim chega, Terri.
     Essa foi a ltima vez que as duas se falaram. A av Cath a chamou do que todo mundo a chamava, e Terri respondeu na mesma moeda.
Vai se foder, ento, sua vaca velha e desgraada, vai se foder.
     Ela nunca disse "Voc me decepcionou, v Cath". Nunca disse "Por que no ficou comigo?". Nunca disse "Amo voc mais do que qualquer outra pessoa, v Cath".
     Ainda bem que Obbo j devia estar voltando. Era para ter chegado hoje; hoje ou amanh. Ela tinha que conseguir pelo menos um pouco. Tinha que conseguir.
     Tudo bem, Terri?
     Viu Obbo por a? - perguntou ela ao garoto que bebia e fumava, encostado no muro, do lado de fora da loja de bebidas. As cicatrizes nas suas costas estavam 
queimando novamente.
     Ele fez que no com a cabea, mascando chiclete e olhando para ela, de alto a baixo, com um sorrisinho malicioso. Terri saiu dali s pressas. Pensava na assistente 
social, em Krystal, em Robbie, e esses pensamentos a perturbavam: mais moscas zumbindo. Eram todos como os vizinhos que olhavam para ela, julgando tudo. No entendiam 
a terrvel urgncia da sua necessidade.
     (A av Cath a pegou no hospital e a instalou num dos quartos da sua casa. Era o quarto mais limpo e mais bonito em que Terri j havia dormido. Nas trs noites 
que passou ali, ela se sentava na cama depois que a av Cath lhe dava um beijo de boa-noite e brincava com os enfeites no parapeito da janela. Havia um vaso com 
um buqu de flores de vidro que tilintavam, um peso de papel cor-de-rosa com uma concha dentro e, o favorito de Terri, um cavalo de cermica empinado, que sorria 
de um jeito bobo.
     Gosto de cavalos - disse para a av Cath.
     Uns dias antes de sua me ir embora, Terri foi com a escola numa exposio de produtos agrcolas. A turma inteira foi ver um cavalo enorme, preto, de patas 
peludas. Ela tinha sido a nica corajosa o bastante para tocar nele. O cheiro a deixou fascinada. Abraou as patas do animal, que mais pareciam umas colunas terminando 
num teto macio e branco, e sentiu a sua carne viva por baixo do pelo. A professora ficou lhe dizendo "Cuidado, Terri, cuidado", mas o homem velho que cuidava do 
cavalo sorriu para ela, afirmando que no havia perigo algum, que Samson no machucaria uma garota to boazinha como ela.
     O cavalo de cermica era de outra cor: amarelo, com a crina e a cauda pretas.
     Pode ficar com ele - disse a av Cath, e Terri conheceu a verdadeira felicidade.
     Mas, no quarto dia, logo de manh, o seu pai chegou.
     Voc vai pra casa comigo - disse ele, com um olhar que a aterrorizou. - No tem nada que ficar com a porra dessa vaca velha dedo-duro. No mesmo. Voc vai comigo, 
sua putinha.
     A av Cath estava to assustada quanto Terri.
     Mikey, no... - gritava ela. Alguns dos vizinhos espiavam pela janela. A av Cath segurava um dos braos de Terri, e o pai puxava o outro.
     Voc vem comigo!
     Ele deu um soco no rosto da av Cath e arrastou Terri para o carro. Quando chegou em casa, espancou a menina, sem saber onde estava batendo e chutando.)
     Viu Obbo por a? - gritou Terri para a vizinha dele, a uns cinqenta metros de distncia. - Ele j chegou?
     Sei l - respondeu a mulher, virando as costas.
     (Quando Michael no estava batendo em Terri, fazia outras coisas com ela, as coisas de que ela no podia falar. A av Cath no voltou mais. Terri fugiu aos 
treze anos, mas no foi para a casa da av, porque no queria que o pai a encontrasse. De qualquer forma, eles a pegaram e a puseram numa instituio.)
     Terri esmurrou a porta de Obbo e ficou esperando. Tentou de novo, mas no tinha ningum em casa. Ento, deixou-se cair sentada no degrau da porta, tremendo, 
e comeou a chorar.
     Duas garotas da Winterdown que estavam matando aula ficaram olhando quando passaram por ela.
      a me de Krystal Weedon - disse uma delas bem alto.
     A piranha? - perguntou a outra, o mais alto que pde.
     Aos prantos, Terri no teve foras para revidar. As garotas foram embora, rindo. - Sua puta! - xingou uma delas l do fim da rua.

III
     
     Gavin podia ter chamado Mary para discutirem sobre a recente troca de correspondncia com a companhia de seguros no seu escritrio, mas, em vez disso, preferiu 
ir at a casa dela. Deixou o fim da tarde livre caso ela o convidasse para ficar mais um pouco e comer alguma coisa. Mary era uma cozinheira fantstica.
     O impulso instintivo de ficar longe do luto pungente de Mary tinha se dissipado com o contato mais regular que estavam tendo. Sempre gostou de Mary, mas no 
convvio social ela era ofuscada pelo marido. No parecia se incomodar com esse papel de coadjuvante; pelo contrrio, sempre dava a impresso de adorar a funo 
de embelezar o cenrio, rindo alegremente das piadas de Barry, feliz da vida pelo simples fato de estar com ele.
     Gavin duvidava que Kay pudesse de alguma forma ser feliz desempenhando um papel secundrio. Subia a Church Row, arranhando as marchas, pensando que ela ficaria 
ofendidssima se lhe pedisse que modificasse seu comportamento ou mudasse de opinio s para satisfazer o seu companheiro, para deix-lo feliz ou melhorar a sua 
auto-estima.
     Ele achava que nunca tinha sido to infeliz num relacionamento como agora. Mesmo nos momentos finais do caso com Lisa, havia trguas temporrias, risadas, lembranas 
repentinas dos bons tempos. A situao com Kay parecia mais uma guerra. s vezes chegava a esquecer que devia haver alguma afeio entre eles e ficava se perguntando 
se ela ao menos gostava dele.
     Na manh seguinte ao jantar de Miles e Samantha, tiveram a pior briga de todas por telefone. Kay chegou a desligar na cara dele. Por vinte e quatro horas inteiras, 
Gavin achou que aquele relacionamento tinha chegado ao fim e, apesar de ser exatamente isso o que queria, sentiu mais medo do que alvio. Em suas fantasias, Kay 
simplesmente ia embora de volta para Londres, mas a verdade  que agora ela estava presa a Pagford por causa do emprego e porque sua filha estudava na Winterdown. 
Imaginou que se esbarrariam o tempo todo naquele vilarejo minsculo. Talvez ela at j estivesse envenenando a todos contra ele. Podia v-la repetindo para Samantha 
ou para aquela velha enxerida da delicatssen, que certa vez lhe deu carne de ganso, algumas das coisas que tinha lhe dito por telefone.
Tirei minha filha da escola, afastei ela dos amigos, deixei meu emprego e me mudei para c s por sua causa, e voc me trata como se eu fosse uma puta que voc no 
tem que pagar!
     As pessoas iam dizer que ele tinha agido muito mal. E talvez tivesse agido mal mesmo. Certamente houve um momento crucial em que deveria ter voltado atrs, 
s que ele no percebeu.
     Gavin passou a semana inteira obcecado com a idia de como seria ser visto como um canalha. Nunca tinha estado nessa situao antes. Quando Lisa o deixou, todos 
foram bons e solidrios com ele, especialmente os Fairbrother. Culpa e pavor o atormentaram at que, na noite de domingo, ele entregou os pontos e pediu desculpas 
a Kay. Agora estava de volta aonde no queria estar, e a odiava por isso.
     Depois de estacionar o carro na entrada da casa dos Fairbrother, como fizera tantas e tantas vezes quando Barry estava vivo, dirigiu-se  porta da frente e 
notou que algum tinha cortado a grama desde a ltima vez que esteve ali. Mary abriu a porta quase no mesmo instante em que ele tocou a campainha.
     Oi, como... O que houve, Mary?
     O rosto dela estava todo molhado, e os olhos brilhavam como diamantes por causa das lgrimas. Ela engoliu em seco uma ou duas vezes, sacudiu a cabea e, de 
repente, sem saber como nem por qu, Gavin se viu abraando-a ali, na porta de entrada.
     Aconteceu alguma coisa, Mary?
     Sentiu ela fazer que sim com a cabea. Extremamente consciente da posio delicada em que se encontravam, ali bem na porta da frente, com a rua toda por trs 
deles, Gavin resolveu lev-la para dentro de casa. Ela era pequena e frgil nos seus braos; as mos se agarravam nele, o rosto pressionava o seu peito. Ele largou 
a pasta da forma mais delicada possvel, mas, com o barulho que ela fez ao bater no cho, Mary se afastou dele, ofegante, cobrindo a boca com a mo.
     Me desculpe... Me desculpe... Ah, meu Deus, Gav...
     O que aconteceu?
     A voz dele soou diferente: forte, enrgica, controladora, parecia at o jeito como Miles falava s vezes durante uma crise no trabalho.
     Algum... Eu no... Algum ps...
     Ela o levou at o escritrio, atulhado, malcuidado, mas aconchegante, com os velhos trofus de remo de Barry nas prateleiras e uma fotografia grande e emoldurada 
pendurada na parede, em que se viam oito garotas dando socos no ar, com medalhas penduradas no pescoo. Mary apontou para a tela do computador, tremendo. Sem tirar 
o casaco, Gavin se sentou e ficou olhando para a rea de mensagens no site do Conselho Distrital de Pagford.
     Eu es-estava na delicatssen hoje de manh, e Maureen Lowe me disse que muitas pessoas tinham deixado mensagens de condolncias no site... Ento eu ia po-postar 
uma mensagem de a-agradecimento. E... Olhe...
Ele leu enquanto ela falava. Por que Simon Price no deve ser eleito para o Conselho Distrital de Pagford, postado pelo Fantasma de Barry Fairbrother.
     Meu Deus! - exclamou Gavin, indignado.
     Mary comeou a chorar novamente. Gavin queria envolv-la nos seus braos, mas ficou com medo de fazer isso, especialmente ali, naquela sala pequena e acolhedora, 
repleta da presena de Barry. Ele a pegou pelo brao e a levou at a cozinha.
     Voc precisa de um drinque - afirmou ele, com aquela voz forte e controladora, to diferente da habitual. - Nada de caf. Onde ficam as bebidas mesmo?
     Antes que ela pudesse responder, ele se lembrou de que tinha visto Barry pegar as garrafas no armrio vrias vezes. Ento, preparou um gim-tnica, a nica bebida 
que ela tomava antes do jantar, pelo que sabia.
     Gav, so quatro da tarde.
     E da? - retrucou ele, com aquela nova voz. - Beba tudo.
     Uma risada nervosa interrompeu os soluos de Mary, que pegou o copo e comeou a bebericar o gim-tnica. Ele apanhou um pedao de papel-toalha para enxugar o 
rosto e os olhos dela.
     Voc  to gentil, Gav. No quer nada? Caf ou... cerveja? - perguntou Mary com outra risadinha, agora mais fraca.
     Ele pegou uma garrafa na geladeira, tirou o casaco e se sentou em frente a ela na bancada que ficava no meio da cozinha. Depois de um tempo, quando j tinha 
bebido quase todo o gim, Mary ficou calma e serena outra vez, exatamente como ele sempre pensava nela.
     Quem voc acha que fez isso? - indagou ela.
     Algum desgraado - respondeu Gavin.
     Todos eles agora esto brigando pela cadeira vaga no Conselho. Discutindo sobre Fields, como sempre. E ele ainda est l, dando a sua opinio a respeito de 
tudo. O Fantasma de Barry Fairbrother. Quem sabe no  ele mesmo que est postando mensagens no site?
     Gavin no sabia ao certo se aquilo era uma brincadeira, ento esboou um meio sorriso, que podia rapidamente ser apagado do rosto, se fosse necessrio.
     Sabe, gosto de pensar que, onde quer que esteja, ele est preocupado conosco, comigo e com as crianas. Mas duvido. Aposto que est mais preocupado com Krystal 
Weedon. Sabe o que provavelmente ele me diria se estivesse aqui?
     Ela tomou o ltimo gole da bebida. Gavin achava que no tinha posto muito gim na mistura, mas as bochechas dela j estavam vermelhas.
     No - disse, com cautela.
     Diria que eu tenho com quem contar - prosseguiu Mary. Para o espanto de Gavin, havia raiva naquela voz que ele sempre acreditou ser apenas gentil. - , ele 
diria: "Voc tem a sua famlia, os seus amigos e as crianas para confort-la, mas Krystal" - a voz de Mary foi ficando mais alta -, "Krystal no tem ningum para 
tomar conta dela". Voc sabe o que ele fez no nosso aniversrio de casamento?
     No - respondeu Gavin outra vez.
     Ficou escrevendo um artigo para o jornal da cidade a respeito de Krystal. De Krystal e de Fields. Esse maldito Fields. Tomara que eu nunca mais precise ouvir 
falar desse lugar. J no era sem tempo. Quero outro gim. Ainda no bebi o bastante.
     Surpreso, Gavin pegou o copo dela e foi at o armrio das bebidas novamente. Sempre achou que o casamento de Barry e Mary era literalmente perfeito. Nunca tinha 
lhe ocorrido que Mary pudesse no aprovar completamente todas as aventuras e cruzadas em que o sempre ocupado Barry se envolvia.
     Treino de remo no fim da tarde, competies nos finais de semana - disse ela, mais alto que o tilintar do gelo que Gavin colocava no seu copo -, e na maioria 
das noites ele ficava na frente do computador, tentando conseguir apoio para ajudar Fields, e, levantando assuntos para a pauta das reunies do Conselho. E todo 
mundo sempre dizia: "Barry no  maravilhoso?!  incrvel como ele consegue fazer tudo isso, estar sempre pronto para ajudar, sempre to envolvido com a comunidade..." 
- Ela tomou um bom gole do gim-tnica recm-preparado. - , maravilhoso. Absolutamente maravilhoso. At que isso o matou. No nosso aniversrio de casamento, ele 
passou o dia inteiro correndo contra o prazo de entrega do artigo. E eles ainda nem o publicaram.
     Gavin no conseguia tirar os olhos dela. A raiva e o lcool trouxeram cor quele rosto novamente. Ela estava sentada bem ereta, e no encurvada e abatida como 
nos ltimos tempos.
     Foi isso que o matou - disse ela com toda a clareza, e sua voz ecoou pela cozinha. - Ele deu tudo para todo mundo. Menos para mim.
     Desde o enterro de Barry, Gavin vinha nutrindo um sentimento de profunda insatisfao consigo mesmo, pensando no pequeno vazio que deixaria na comunidade caso 
morresse. Olhando para Mary, ficou pensando se no seria melhor deixar um vazio enorme no corao de uma pessoa s. Ser que Barry no tinha percebido como Mary 
se sentia? Ser que no havia se dado conta de que era um homem de sorte?
     A porta da frente se abriu com estardalhao. Eram as crianas chegando em casa. Dava para ouvir as suas vozes e os seus passos, o som dos tnis no cho e das 
mochilas jogadas.
     Oi, Gav - disse Fergus, um rapaz de dezoito anos, que beijou a testa de Mary. - Voc est bebendo, me?
      culpa minha - interviu Gavin. - Pode brigar comigo.
     Os filhos dos Fairbrother eram adorveis. Gavin gostava do modo como falavam com a me e a abraavam, como conversam entre si e com ele. Eram francos, educados, 
engraados. Pensou em Gaia e na sua fala agressiva, nos seus silncios que mais pareciam vidro afiado, no seu jeito raivoso quando falava com ele.
     Ainda nem falamos do seguro, Gav - lembrou Mary, e as crianas entraram na cozinha procurando algo para comer e beber.
     No tem problema - respondeu Gavin, sem pensar, mas logo se corrigiu. - Vamos para a sala de estar ou...?
     Vamos.
     Ela cambaleou um pouco ao se levantar da cadeira alta da bancada da cozinha, e mais uma vez ele segurou o seu brao.
     Voc vai ficar para o jantar, Gav? - perguntou Fergus.
     Fique, se quiser - disse Mary. Uma onda de calor o inundou.
     Adoraria - respondeu ele. - Obrigado.

IV

     - Muito triste - disse Howard Mollison, de p, diante da lareira, balanando ligeiramente o corpo. - Muito triste, de fato.
     Maureen tinha acabado de lhes dar a notcia da morte de Catherine Weedon. Sua amiga Karen, a recepcionista daquela noite, lhe contou tudo, inclusive a acusao 
da neta de Cath Weedon. Parecia satisfeita em dizer isso, franzindo o rosto numa expresso de reprovao. Samantha, que estava de mau humor, achou que ela tinha 
ficado com cara de tacho. Miles soltava interjeies de surpresa e pena, e Shirley olhava para o teto, fingindo no estar interessada naquilo. Odiava quando Maureen 
era o centro das atenes, trazendo novidades que ela deveria ser a primeira a saber.
     Minha me conhecia a famlia antigamente - disse Howard a Samantha, que j sabia disso. - Eram vizinhas na Hope Street. Cath at que era bastante decente l 
do jeito dela, sabe? A casa estava sempre muito limpa, e ela trabalhou at os sessenta anos. Era uma batalhadora, a Cath Weedon, no importa que o resto da famlia 
no seja l grande coisa...
     Howard se deliciava elogiando quem merecia ser elogiado.
     O marido perdeu o emprego quando fecharam a fbrica de ao. Um beberro. , as coisas no foram fceis para Cath.
     Samantha nem conseguia fingir interesse por aquele assunto. Felizmente Maureen o interrompeu.
     E a Gazeta est atrs da dra. Jawanda - disse ela, com aquela voz rouca. - Imaginem como ela deve estar se sentindo agora que os jornais esto sabendo de tudo. 
A famlia est botando a boca no trombone, e com razo. Afinal, trs dias cada naquela casa, sozinha... Voc a conhece, Howard? Qual delas  Danielle Fowler?
     Shirley, de avental, levantou-se e saiu da sala. Samantha tomou mais um gole de vinho, sorrindo.
     Deixe-me ver, deixe-me ver... - revelou Howard. Ele se orgulhava de conhecer quase todo mundo em Pagford, mas a ltima gerao dos Weedon pertencia a Yarvil. 
- No pode ser filha. Cath teve quatro meninos. Deve ser neta.
     E ela quer abrir um inqurito - disse Maureen. - Bem, isso ia acabar assim mesmo. Eram favas contadas. Estou surpresa de que tenha demorado tanto. A dra. Jawanda 
no deu um antibitico para o filho dos Hubbards, e ele acabou tendo que ser hospitalizado por causa da asma. Voc sabe se ela fez a residncia na ndia ou...?
     Shirley, que estava na cozinha mexendo o molho da carne, ficou irritada, como sempre ficava, por Maureen estar monopolizando a conversa. Bem, pelo menos era 
assim que explicava o que estava acontecendo. Determinada a no voltar para a sala at que Maureen tivesse acabado, foi para o escritrio checar se algum tinha 
enviado mensagens de psames para serem apresentadas na prxima reunio do Conselho Distrital. Como secretria, j estava organizando a pauta.
     Howard!... Miles!... Venham ver isso aqui!
     A voz de Shirley perdeu a sua suavidade habitual de flauta e soou estridente.
     Howard saiu da sala de estar, adernando o corpo para um lado e para o outro, e foi seguido por Miles, que ainda estava com o terno usado o dia inteiro no trabalho. 
Os olhos de Maureen, cados, avermelhados, com clios espessos de tanto rimei, se fixaram no vo da porta da sala vazia como os de um co de caa. Sua vontade de 
saber o que Shirley tinha encontrado ou visto era quase palpvel. Os dedos de Maureen, garras de articulaes grossas, cobertas por uma pele translcida com manchas 
de leopardo, ficavam deslizando de um lado para o outro o crucifixo e a aliana pendurados na correntinha em volta do seu pescoo. Os sulcos profundos que iam do 
canto da boca at o queixo de Maureen sempre faziam Samantha se lembrar de um boneco de ventrloquo.
Por que voc est sempre aqui?, perguntou Samantha  velha bem alto, mentalmente. J no me bastava a solido de ter que viver debaixo das asas de Howard e Shirley?
     E o nojo cresceu como vmito dentro de Samantha. Queria segurar aquela sala atulhada e superaquecida nas mos e esmag-la at que a porcelana chinesa, a lareira 
e as fotos de Miles em porta-retratos dourados se estilhaassem. E Maureen, cheia de rugas e toda maquiada, ficaria presa no meio dos escombros, berrando. Depois, 
pegaria tudo aquilo e jogaria bem longe, na direo do pr do sol, como uma arremessadora celestial. A sala destruda com a bruxa velha l dentro planaria pelos 
cus na sua imaginao e cairia no oceano ilimitado, deixando Samantha sozinha na quietude sem fim do universo.
     Foi uma tarde terrvel. Ela teve mais uma conversa assustadora com o contador e no se lembrava direito de como tinha voltado de Yarvil. Gostaria de ter desabafado 
um pouco com Miles, mas o marido, depois de pr a pasta no cho e tirar a gravata ainda no corredor de entrada, disse:
     Voc ainda no comeou a jantar, comeou?
     Inspirou ostensivamente e depois respondeu a prpria pergunta.
     No, ainda no. timo, porque papai e mame nos convidaram para jantar. - E antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele acrescentou bruscamente: - No tem 
nada a ver com o Conselho.  apenas para discutirmos os preparativos para o aniversrio de sessenta e cinco anos do papai.
     A raiva era quase um alvio, encobrindo a ansiedade e o medo. Samantha seguiu Miles at o carro, acalentando a sensao de que ele no ligava para ela. Quando 
enfim ele perguntou, j na esquina do Evertree Crescent, "Como foi o seu dia?", ela respondeu: "Absolutamente fantstico."
     Est querendo saber o que aconteceu? - indagou Maureen, quebrando o silncio na sala de estar.
     Samantha deu de ombros. Shirley sempre reunia os homens  sua volta e deixava as mulheres no limbo. Samantha no daria  sogra a satisfao de demonstrar interesse.
     O assoalho sob o tapete do corredor rangeu com os passos de elefante de Howard. Maureen estava de boca aberta de tanta ansiedade.
     Ora, ora, ora - exclamou Howard, com o seu vozeiro, se arrastando de volta para a sala.
     Eu estava dando uma olhada no site do Conselho para ver as justificativas de no comparecimento - disse Shirley, vindo atrs dele ligeiramente sem flego. - 
Para a prxima reunio...
     Algum postou acusaes contra Simon Price - anunciou Miles a Samantha, passando  frente dos pais desta vez.
     Que tipo de acusaes? - perguntou ela.
     Que ele anda envolvido em receptao de mercadoria roubada - respondeu Howard, agora j no centro das atenes - e passa a perna nos chefes, l na grfica.
     Samantha ficou contente de no esboar nenhuma reao. No tinha a menor idia de quem era esse tal de Simon Price.
     Postaram com um pseudnimo - continuou Howard. - Um pseudnimo que no  l de muito bom gosto.
 algo grosseiro? - perguntou Samantha. - Do tipo "A pica grande e grossa" ou algo do gnero?
     A risada de Howard ecoou pela sala. Maureen gritou horrorizada, de um jeito bem afetado, mas Miles fechou a cara, e Shirley olhou para ela furiosa.
     No, no chega a tanto, Sammy - disse Howard. - Colocaram "O Fantasma de Barry Fairbrother".
     Ah... - fez Samantha, com o sorriso desaparecendo aos poucos. No gostou nada disso. Afinal, estava na ambulncia quando enfiaram agulhas e tubos no corpo j 
quase sem vida de Barry. Viu ele morrer com aquela mscara, viu Mary segurando a sua mo, e ouviu os lamentos e o choro dela.
     Ah, no, isso no  nada delicado - disse Maureen, saboreando cada palavra com a sua voz de sapo-boi. - Isso  bem desagradvel. Pr palavras na boca de um 
morto. Usar nomes em vo. Isso no est certo.
     No est, no - concordou Howard. Perdido em pensamentos, caminhou pela sala, pegou a garrafa de vinho, andou na direo de Samantha e encheu-lhe o copo vazio. 
- Mas parece que algum por a no liga para o bom gosto. S est interessado em tirar Simon Price da disputa.
     Voc est pensando o que eu estou pensando, papai? - perguntou Miles. - No era melhor terem me atacado?
     E como voc sabe que no atacaram, Miles?
     O que voc est querendo dizer? - retrucou ele, prontamente.
     Quero dizer - prosseguiu Howard, feliz em ser o centro de todas as atenes - que recebi uma carta annima duas semanas atrs. Nada muito especfico. Apenas 
dizia que voc no era o mais indicado para ocupar o lugar de Fairbrother. No ficaria surpreso de saber que essa carta tem a mesma origem do post. Fairbrother aparece 
nas duas, voc viu?
     Samantha deu um gole mais entusiasmado no vinho, que escorreu pelos cantos da sua boca at o queixo, exatamente onde, com o tempo, surgiriam os seus prprios 
sulcos de boneco de ventrloquo. Ela enxugou o rosto com a manga.
     Onde est essa carta? - perguntou Miles, lutando para no parecer abalado.
     Joguei fora. Era annima. No valia.
     No queramos chatear voc, querido - disse Shirley, dando uns tapinhas no brao do filho.
     De todo modo, eles no devem ter nada contra voc - assegurou Howard - ou teriam usado, como fizeram com Simon Price.
     A esposa de Simon  uma moa adorvel - disse Shirley, lamentando sinceramente. - No consigo acreditar que Ruth soubesse que o marido estava metido em falcatruas. 
Ela  uma amiga l do hospital - explicou para Maureen. - Enfermeira terceirizada.
     No seria a primeira esposa a no se dar conta do que acontece bem debaixo do seu nariz - retrucou Maureen, exibindo conhecimento de causa e sabedoria de vida.
 uma vergonha terem usado o nome de Barry Fairbrother - retomou Shirley, fingindo no ter escutado o que Maureen disse. - Nem pensaram na viva, na famlia... O 
que importa so as suas pretenses. E sacrificariam tudo por elas.
     Isso mostra bem o que vamos enfrentar - disse Howard, e coou a parte debaixo da barriga, pensando. - Estrategicamente isso  inteligente. Vi desde o incio 
que Price ia dividir os votos pr-Fields. Aluga-Ouvido no  boba nem nada. Ela tambm se deu conta disso e quis deix-lo de fora.
     Mas pode no ter nada a ver com Parminder e a eleio - retrucou Samantha. - Isso pode ter vindo de outra pessoa que no conhecemos, algum que tenha raiva 
de Simon Price.
     Ah, Sam - disse Shirley, com uma risadinha cristalina, abanando a cabea. - D para ver que voc  novata na poltica.
Ah, vai se foder, Shirley.
     Ento por que eles iam usar o nome de Barry Fairbrother? - perguntou Miles, dirigindo-se  esposa num tom irritado.
     Bem, postaram no site, no ?  a cadeira dele que est vaga.
     E quem vai navegar no site do Conselho atrs desse tipo de informao? No - disse ele, com ar grave -,  algum l de dentro.
     Algum de dentro... Uma vez Libby disse a Samantha que podia haver milhares de microrganismos numa s gota de gua de um lago. Eram todos completamente ridculos, 
pensou Samantha, sentados ali, na frente dos pratos comemorativos de Shirley, como se estivessem no gabinete do primeiro-ministro, como se um disse me disse no site 
do Conselho Distrital fosse um compl organizado, como se aquilo tudo realmente tivesse alguma importncia.
     Deliberadamente e de forma desafiadora, Samantha desviou a ateno de todos eles. Fixou o olhar na janela e no cu ainda claro do anoitecer, e pensou em Jake, 
o rapaz musculoso da banda favorita de Libby. Hoje, na hora do almoo, Samantha tinha ido comprar sanduches e acabou levando tambm uma revista de msica que trazia 
uma entrevista de Jake e seus colegas de banda. Havia muitas fotos.
      para Libby - disse  sua ajudante na loja.
     Uau, olha s isso. Ah, eu no ia expulsar ele da minha cama, no... - comenta Carly, apontando para Jake. O rapaz estava sem camisa e com a cabea jogada para 
trs, deixando  mostra o pescoo largo e forte. - Pena que ele s tem vinte e um anos. No sou papa-anjo.
     Carly tinha vinte e seis. Samantha no se importava com a diferena de idade entre Jake e ela. Comeu o sanduche, leu a entrevista e olhou atentamente todas 
as fotos. Jake com as mos numa barra sobre a cabea, os bceps saltados por debaixo da manga de uma camiseta preta; Jake com uma camisa branca aberta, deixando 
 mostra os msculos esculpidos do seu abdmen, acima do cs folgado da cala jeans.
     Samantha bebeu o vinho de Howard e ficou olhando para o cu num ponto bem acima da cerca viva de alfena na qual havia uma delicada tonalidade cor-de-rosa. Exatamente 
o mesmo tom de seus mamilos antes de escurecerem e aumentarem de tamanho com a gravidez e a amamentao. Ficou se imaginando aos dezenove anos, com Jake aos vinte 
e um, e aquela silhueta esguia novamente, as curvas precisas nos lugares certos, e uma barriga forte e lisa, que cabia confortavelmente no seu short branco tamanho 
P. Lembrou direitinho como era se sentar no colo de um rapaz com aquele short. O calor e a aspereza do brim exposto ao sol em contato com as suas coxas nuas, as 
mos fortes do rapaz segurando a sua cintura fina. Imaginou tambm a respirao de Jake no seu pescoo. Ela se viraria para olhar dentro dos seus olhos azuis, chegando 
bem perto daquelas mas do rosto to salientes e da boca firme e bem-desenhada.
     ...l no salo da igreja, vamos servir o buf do Bucknoles - disse Howard. - Convidamos todo mundo, Aubrey e Julia... Todo mundo. Se tivermos sorte, ser uma 
dupla comemorao: voc no Conselho, e eu um ano mais jovem.
     Samantha estava ligeiramente embriagada e excitada. Quando iriam comer? Percebeu que Shirley tinha sado da sala, e esperava que fosse para comear a pr a 
mesa.
     O telefone tocou bem ao seu lado, e ela deu um pulo. Antes que qualquer um deles pudesse se mexer, Shirley voltou correndo. Tinha uma luva trmica florida numa 
das mos e, com a outra, pegou o telefone.
     Dois, dois, cinco, nove? - cantarolou, com uma inflexo aguda. - Ah... Ol, Ruth, querida!
     Howard, Miles e Maureen ficaram paralisados e atentos. Shirley se virou e lanou um olhar intenso para o marido, como se os seus olhos pudessem transmitir a 
voz de Ruth direto para dentro da cabea dele.
     Claro - disse Shirley. - Claro...
     Samantha, que estava bem perto do telefone, podia ouvir a voz da outra mulher, mas no conseguia entender o que ela dizia.
      mesmo?...
     Maureen estava de boca aberta de novo, como se fosse um filhote de pssaro arcaico ou, quem sabe, um pterodctilo, faminto por novidades regurgitadas.
     Claro, querida, sei... No... No tem o menor problema... No, no, vou explicar a Howard. No, problema nenhum.
     Os olhos pequenos e castanho-claros de Shirley no se desviaram dos de Howard, azuis, grandes e esbugalhados.
     Ruth, querida - disse Shirley -, no quero preocupar voc, mas j entrou no site do Conselho hoje?... Bem...  algo meio chato, mas acho que voc tem que saber... 
Algum postou uma coisa desagradvel sobre Simon... Bem,  melhor voc mesma ler, eu prefiro no... Certo, querida. Certo. Nos vemos na quarta. Claro. Tchau, tchau.
     E desligou o telefone.
     Ela no sabia de nada - declarou Miles.
     Shirley confirmou com a cabea.
     Por que ela ligou?
     O filho - disse Shirley. - Seu novo ajudante. Ele tem alergia a amendoim.
     Muito conveniente numa delicatssen - disse Howard.
     Queria saber se voc pode deixar uma injeo de adrenalina para ele na geladeira, s por precauo - disse Shirley.
     Maureen fungou.
     - Essas crianas de hoje em dia so todas alrgicas. A mo sem luva de Shirley continuava segurando o aparelho. Inconscientemente, esperava sentir os tremores 
de terra vindo de Hilltop House pela linha telefnica.
     
     
     V
     
     Ruth ficou de p, sozinha na sala de estar iluminada apenas pelo abajur, ainda agarrando com fora o telefone que acabara de devolver  base.
     Hilltop House era pequena e compacta. E era sempre muito fcil dizer exatamente onde cada um dos quatro Price estava, porque a velha casa conduzia, com eficcia, 
vozes, passos e sons de portas se abrindo e fechando. Ruth sabia que o marido ainda estava no banho, porque podia ouvir o boiler, debaixo da escada, apitando e estalando. 
Tinha esperado Simon abrir a gua do chuveiro para ligar para Shirley, pois achava que ele podia pensar que at um simples pedido de uma injeo de adrenalina para 
uma emergncia era confraternizar com o inimigo.
     O computador ficava num dos cantos da sala de estar, bem  vista de Simon, que queria ter certeza de que ningum estava fazendo as contas aumentarem pelas suas 
costas. Ruth largou o telefone e correu para o teclado.
     Levou bastante tempo at que o site do Conselho de Pagford entrasse por completo. Com a mo trmula, Ruth ajeitou os culos de leitura na ponta do nariz e passou 
os olhos pela pgina, at que encontrou a rea de mensagens. O nome do seu marido estava l, em destaque, naquela frase assustadora: Por que Simon Price no deve 
ser eleito para o Conselho Distrital de Pagford.
     Clicou duas vezes em cima do ttulo, fazendo aparecer o pargrafo inteiro, e comeou a ler. Tudo  sua volta parecia girar e balanar.
     - Meu Deus - sussurrou.
     O boiler tinha parado de estalar. Simon devia estar vestindo o pijama deixado sobre o aquecedor. Antes, ele j tinha fechado as cortinas da sala de estar, ligado 
o abajur e acendido a lareira. Assim poderia descer e se esticar no sof para assistir ao telejornal.
     Ruth sabia que teria que contar a ele. No fazer isso, deixar que ele descobrisse por si s, simplesmente no era uma opo. No conseguiria guardar aquilo 
s para si. Estava aterrorizada e se sentia culpada, embora no soubesse por qu.
     Ela o ouviu descer as escadas e depois aparecer na porta da sala com o pijama azul de flanela.
     Si - sussurrou.
     O que foi? - perguntou ele, imediatamente irritado. Pela voz dela, sabia que alguma coisa tinha acontecido e que aquele seu programa magnfico, que combinava 
sof, lareira e notcias, estava prestes a ser cancelado.
     Ruth apontou para a tela do computador, e com a outra mo tapou a boca de um jeito bobo, como se fosse uma menininha. Seu pavor o contaminou. Ele correu para 
o computador e olhou para a tela, j com as sobrancelhas franzidas. Simon no era exatamente um bom leitor. Lia palavra por palavra, linha por linha, com muita dificuldade 
e ateno.
     Quando terminou, ficou mudo por um tempo, repassando mentalmente quem seriam os possveis dedos-duros. Pensou no operador de empilhadeira que mascava chicletes 
e a quem tinha deixado para trs l em Fields, quando foram pegar o novo computador. Pensou em Jim e Tommy, que faziam servios sem nota por baixo dos panos, junto 
com ele. Algum do trabalho deve ter falado. dio e medo se misturaram dentro dele gerando uma reao explosiva.
     Correu at o p da escada e gritou:
     Vocs dois! Desam aqui AGORA!
     Ruth continuava tapando a boca com a mo. Simon sentiu uma vontade sdica de dar um tapa naquela mo e dizer a ela que se controlasse, afinal de contas, era 
ele que estava na merda.
     Andrew entrou na sala primeiro, e Paul veio logo atrs. Andrew viu as insgnias do Conselho Distrital de Pagford na tela do computador e a me, tapando a boca 
com a mo. Andando pelo tapete velho, com os ps descalos, teve a sensao de estar caindo vertiginosamente num elevador quebrado.
     Algum andou falando sobre coisas que comentei aqui dentro de casa - disse Simon, encarando os filhos.
     Paul tinha trazido com ele o livro de exerccios de qumica, e o segurava com as duas mos, aberto na frente do peito. Andrew olhava fixo para o pai, tentando 
fazer uma cara de confuso e curiosidade.
     Quem foi que contou que ficamos com um computador roubado? - perguntou Simon.
     Eu no fui - disse Andrew.
     Paul olhou para o pai, com os olhos arregalados, sem entender, tentando processar a pergunta. Andrew queria que o irmo falasse. Por que tinha que ser to lento?
     E? - grunhiu Simon.
     Eu acho que no...
     Voc acha que no? Voc acha que no contou a ningum?
     E, eu acho que no contei a nin...
     Ah, isso  interessante - retrucou Simon, andando de um lado para o outro na frente de Paul. - Muito interessante.
     Com um tapa, fez o livro de exerccios de Paul sair voando de suas mos.
     Tente se lembrar, seu merda - exclamou ele. - Tente se lembrar, porra! Voc contou a algum que ficamos com um computador roubado?
     Roubado, no - respondeu Paul. - No contei a ningum... Acho que no contei a ningum nem que tnhamos um computador novo.
     Sei - disse Simon. - Ento essa informao se espalhou como num passe de mgica, foi isso?
     Ele apontava para a tela do computador.
     Algum falou, porra! - gritou ele. - Est na porra da inteme E vou ter muita sorte se eu... no... perder... meu... emprego!
     A cada uma dessas cinco palavras, ele dava um soco na cabea de Paul. O garoto se encolhia e olhava para o cho. Um lquido escuro escorria da sua narina esquerda. 
Ele tinha sangramentos nasais vrias vezes na semana.
     E voc? - berrou Simon para a mulher, que ainda estava paralisada ao lado do computador, com os olhos esbugalhados por trs dos culos, a mo grudada na boca 
como uma mordaa. - O que voc andou fofocando por a, porra?!
     Ruth conseguiu falar.
     Nada, Si - sussurrou ela. - Quero dizer, a nica pessoa para quem eu contei que tnhamos um computador novo foi a Shirley, e ela nunca...
Sua burra! Que porra de mulher burra! Por que voc tinha que contar isso pra ele?
     Voc fez o qu? - perguntou Simon, baixinho.
     Contei para a Shirley - disse Ruth, choramingando. - Mas no disse que era roubado, Si. S disse que voc tinha trazido um computador para casa...
     S isso?! Foi s essa merda que voc disse a ela?! - rosnou Simon, e em seguida comeou a gritar. - O babaca do filho dela est concorrendo  eleio.  claro 
que ela vai querer ter algo contra mim, porra!
     Mas foi ela que me contou sobre a mensagem no site ainda agora, ela no teria...
     Ele avanou na direo de Ruth e lhe deu um tapa na cara, como queria ter feito desde que viu aquela sua expresso abobalhada e assustada. Os culos dela voaram 
pelo ar e se espatifaram na estante. Ele a acertou outra vez, com um soco que a fez desabar sobre a mesa do computador que ela tinha comprado, toda orgulhosa, com 
seu primeiro salrio no Hospital Geral South West.
     Andrew tinha feito uma promessa a si mesmo. Parecia se mover em cmera lenta, e tudo  sua volta era frio, pegajoso e levemente irreal.
     No bata nela - disse ele, colocando-se entre os pais. - No...
     Com o lbio cortado pelos prprios dentes, sob o impacto do soco de Simon, ele caiu para trs, por cima da me, que estava sobre o teclado. Simon lhe deu outro 
soco, acertando o brao do filho, que protegia o rosto. Andrew tentava se levantar e sair de cima da me. Simon estava completamente louco, batendo neles onde quer 
que pudesse atingi-los.
     No me diga o que fazer, porra, no me diga o que fazer, seu merdinha covarde, seu zero  esquerda cheio de espinhas...
     Andrew caiu de joelhos, deixando o caminho livre, e Simon lhe deu um chute nas costelas. O garoto ouviu o irmo dizer de maneira pattica "Para com isso!". 
O pai levantou a perna para chutar novamente as costelas de Andrew, mas ele se esquivou. O p de Simon acertou em cheio os tijolos da lareira e, de repente, de forma 
inacreditvel, era ele que estava urrando de dor.
     Meio cambaleando, Andrew tentou se levantar. Simon segurava com fora os dedos do p, dando uns pulos e praguejando com uma voz esganiada. Ruth tinha desabado 
na cadeira giratria, soluando, com o rosto entre as mos. Andrew ficou de p, sentindo na boca o gosto do prprio sangue.
     Qualquer um poderia ter falado sobre o computador - disse ele, ofegante, preparado para mais violncia. Sentia-se com mais coragem agora que tinha comeado, 
agora que a briga estava acontecendo de verdade. A espera o deixava nervoso, vendo a mandbula do pai se projetar para a frente e ouvindo o desejo de violncia crescer 
na sua voz. - Voc disse que um dos seguranas tinha ficado ferido. Qualquer um poderia ter falado. No fomos ns...
     No me... Seu merdinha... Quebrei a porra do dedo - arquejou Simon, caindo sentado numa poltrona, ainda segurando o p. Parecia estar esperando alguma compaixo.
     Andrew se imaginou pegando uma arma e atirando na cara do pai, vendo suas feies explodirem e os seus miolos se espalharem pela sala.
     E Paulinha ficou menstruada outra vez, porra! - gritou Simon, olhando para Paul, que tentava estancar o sangue que lhe escorria do nariz e pingava por entre 
os seus dedos. - Saia de cima do tapete! Saia de cima da porra do tapete, sua bichinha.
     Paul saiu correndo da sala. Andrew apertou a gola da camiseta na boca, que latejava.
     E a parte sobre os servios sem nota? - perguntou Ruth, soluando, com o rosto vermelho por causa do soco e as lgrimas escorrendo, uma a uma, pelo queixo. 
Andrew odiava v-la assim, humilhada e pattica; mas meio que a odiava tambm por fazer isso consigo mesma, quando qualquer idiota teria percebido... - Falaram de 
servios sem nota. Shirley no sabia de nada disso, como ela poderia saber? Algum na grfica deve ter contado. Eu disse, Si, eu disse que voc no devia aceitar 
esse tipo de trabalho, sempre fiquei preocupadssima com...
     Cale a boca, sua vaca chorona. Na hora de gastar o dinheiro voc no ligava - berrou Simon, projetando mais uma vez a mandbula.
     Andrew quis gritar com a me para que ela ficasse quieta: ela ficava falando e falando, quando qualquer idiota via que o melhor a fazer era ficar quieto, e 
ficava quieta quando teria sido melhor gritar a plenos pulmes. Ser que no ia aprender nunca, nunca ia perceber o que podia acontecer?
     Todos ficaram em silncio por um minuto. Ruth esfregava os olhos com o dorso das mos e fungava sem parar. Simon apertava o dedo quebrado com fora, os dentes 
trincados, respirando alto. Andrew lambia o sangue do lbio, que ardia e estava comeando a inchar.
     Isso vai me custar a porra do emprego - disse Simon, olhando pela sala, com olhos arregalados, como se houvesse algum ali que ele tivesse se esquecido de esmurrar. 
- J andam mesmo falando em corte de pessoal na merda daquela grfica. Vai ser o fim. Vai ser... - Deu um tapa no abajur que estava na beira da mesa, mas ele no 
quebrou, apenas rolou pelo cho. Simon o pegou, puxou com toda a fora o fio da tomada, arrancando-o da parede, levantou o abajur acima da cabea e o atirou em Andrew, 
que conseguiu se esquivar novamente.
     Quem foi que falou, porra? - gritou Simon, quando o abajur atingiu a parede e se partiu ao meio. - Algum falou, cacete!
     Foi algum desgraado da grfica - gritou Andrew, com o lbio inchado e latejando, parecendo um gomo de tangerina. - Voc acha que fomos ns... No acha que 
a essa altura j aprendemos a ficar de boca fechada?
     Era como tentar decifrar um animal selvagem. Podia ver o movimento dos msculos na mandbula do pai, mas tambm podia sentir que Simon estava pensando no que 
ele tinha dito.
     Quando foi que colocaram isso a? - rosnou para Ruth. - Olha a! Qual  a data?
     Ainda soluando, ela olhou para o computador, quase encostando o nariz na tela, j que os seus culos estavam quebrados.
     Dia 15 - sussurrou.
     15... Domingo - disse Simon. - Foi domingo, no foi?
     Nem Andrew nem Ruth confirmaram. O garoto no podia acreditar na sua sorte, nem tampouco podia acreditar que ela iria durar.
     Domingo - repetiu Simon. - Ento qualquer um poderia ter... A porra desse dedo... - gritou, enquanto se levantava e, mancando de um jeito exagerado, foi se 
aproximando de Ruth. - Saia da!
     Ela pulou da cadeira e ficou observando-o ler de novo o pargrafo. Estava bufando como um animal, querendo desentupir as vias respiratrias. Andrew pensou que 
talvez pudesse estrangular o pai enquanto ele estava sentado ali, mas no havia nenhum fio  mo.
     Algum conseguiu tudo isso l na grfica - disse Simon, como se tivesse chegado a essa concluso sozinho, sem escutar a mulher e o filho levantarem a hiptese 
para ele. Ps as mos no teclado e se voltou para Andrew. - Como  que eu me livro disso?
     O qu?
     Voc no tem a porra da aula de informtica? Como  que eu apago isso aqui?
     No d... voc no pode - disse Andrew. - S o administrador do site pode fazer isso.
     Ento, voc vai ser o administrador - retrucou Simon, ficando de p e mandando Andrew se sentar na cadeira giratria.
     Mas no posso ser o administrador - respondeu Andrew, com medo de que o pai estivesse se preparando para um segundo acesso de violncia. - Tem que ter o nome 
do usurio e a senha.
     Voc no serve para porra nenhuma, no  mesmo?
     Quando passou por ele, sempre mancando, Simon deu um empurro em Andrew, bem no meio do peito, jogando-o contra a lareira.
     Me passa o telefone aqui! - berrou Simon para a mulher, sentando na poltrona de novo.
     Ruth foi pegar o aparelho, que estava a poucos centmetros de Simon, para entreg-lo ao marido. Ele o arrancou das suas mos e comeou a apertar as teclas com 
toda a fora.
     Andrew e Ruth ficaram esperando em silncio Simon fazer as ligaes, primeiro para Jim, depois para Tommy, os homens com quem tinha feito os tais trabalhos 
depois do expediente l na grfica. A fria de Simon e a desconfiana de seus prprios cmplices foram canalizadas pelo telefone em frases curtas e grossas, cheias 
de palavres.
     Paul no voltou mais para a sala. Talvez porque ainda estivesse tentando estancar o sangramento do nariz, ou, o que era mais provvel, por estar apavorado. 
Andrew pensou que o irmo no estava sendo muito inteligente. O mais seguro era s deixar a sala quando o pai permitisse.
     Assim que terminou as ligaes, Simon estendeu o telefone para Ruth sem dizer nada. Ela o pegou e correu para devolv-lo ao seu lugar.
     Com o dedo quebrado latejando, Simon ficou sentado ali, pensando, suando com o calor da lareira, inundado de uma fria impotente. A violncia com que tratou 
a mulher e filho no o abalava; no perdeu um minuto sequer pensando nisso. Uma coisa terrvel tinha lhe acontecido, e era natural que explodisse com as pessoas 
mais prximas. A vida era assim mesmo. De todo modo, Ruth, aquela vaca estpida, admitiu que tinha contado para Shirley.
     Simon estava construindo sua prpria cadeia dos fatos, tentando imaginar como as coisas tinham acontecido. Um filho da puta qualquer (e suspeitava do operador 
da empilhadeira que mascava chicletes e tinha ficado indignado quando ele o deixou plantado em Fields) falou sobre ele com os Mollison (de algum modo meio incoerente, 
a confisso de Ruth de que tinha comentado sobre o computador com Shirley fazia essa hiptese parecer mais plausvel), e eles (os Mollison, o establishment, o gorducho 
e a desagradvel, que no deixavam ningum ameaar o seu poder) colocaram aquela mensagem no site (Shirley, aquela vaca velha, controlava o site, o que confirmava 
essa teoria).
     Foi a filha da puta da sua amiga - disse Simon  mulher, que ainda estava com o rosto molhado e os lbios trmulos. - A filha da puta da Shirley. Foi ela que 
fez isso. Jogou meu nome na lama para me tirar do caminho do filho dela. E, foi ela, sim.
     Mas, Si...
Cala a boca, cala a boca, sua estpida, pensou Andrew.
     Voc continua do lado dela, no ? - rosnou Simon, fazendo meno de se levantar novamente.
     No! - gritou Ruth. Ele afundou de volta na poltrona, aliviado por poupar o p machucado.
     A direo da Harcourt-Walsh no ficaria nada feliz em saber daqueles servicinhos que eles faziam depois do expediente, pensou Simon. Ele  que no ficaria ali 
esperando para ver a maldita polcia chegar e comear a fuar no computador. De repente, sentiu que precisava fazer alguma coisa com urgncia.
     Voc - disse ele, apontando para Andrew. - Desligue o computador. Tudo, os cabos inclusive. E venha comigo.
     
     
     VI
     
     Coisas negadas, coisas no ditas, coisas escondidas e disfaradas.
     O lamacento rio Orr engoliu os destroos do computador roubado, atirado da velha ponte de pedra  meia-noite. Simon foi para o trabalho mancando por causa do 
dedo quebrado e disse a todo mundo que tinha escorregado na porta de casa. Ruth fez compressa de gelo nos hematomas e tratou de disfar-los de um jeito ou de outro, 
com um resto de base. Uma casca se formou no lbio de Andrew, como tinha acontecido com Dane Tully, e Paul teve outro sangramento nasal no nibus da escola e, ao 
chegar l, teve que ir direto para a enfermaria.
     Shirley Mollison, que tinha ido fazer compras em Yarvil, s atendeu s repetidas ligaes de Ruth no fim da tarde, quando os garotos j haviam chegado da escola. 
Da escada, Andrew ouviu a me falando l na sala de estar. Sabia que Ruth estava tentando resolver as coisas antes que Simon voltasse para casa, porque ele seria 
capaz de tomar o telefone da mo dela s para xingar a sua amiga aos berros.
     -- ...tudo um monte de mentiras absurdas - dizia enfaticamente -, mas ficaramos agradecidos se voc retirasse essa mensagem do site, Shirley.
     Ao ouvir isso, Andrew fez uma careta, e o corte no lbio ainda inchado ameaou abrir novamente. Odiava ouvir a me pedindo um favor quela mulher. Naquele momento 
ficou chateado, de uma maneira irracional, porque o post ainda estava no ar. Mas depois se lembrou de que tinha escrito aquilo, o que acabou desencadeando tudo: 
os machucados no rosto da me, o seu prprio lbio cortado e a atmosfera de terror que impregnava a casa com a expectativa da volta de Simon.
     Claro que entendo que voc tem um monte de coisas... - dizia Ruth, de uma forma desprezivelmente covarde -, mas voc pode imaginar como Simon seria prejudicado 
se as pessoas acreditassem...
     Era assim mesmo que Ruth falava com Simon, pensou Andrew, nas raras ocasies em que se sentia obrigada a desafi-lo: de forma subserviente, hesitante, sempre 
pedindo desculpas. Por que no exigia de uma vez que aquela mulher tirasse o post do ar? Por que era sempre to covarde? Por que se humilhava tanto? Por que no 
largava seu pai?
     Sempre achou que Ruth era diferente, boa, sem mculas. Quando criana, percebia os pais como duas criaturas completamente antagnicas entre si: um era mau e 
assustador; a outra, boa e generosa. Mas,  medida que foi crescendo, tinha se voltado duramente contra a cegueira solcita de Ruth, a sua defesa constante do pai, 
a sua inabalvel lealdade a um falso dolo.
     Quando a ouviu desligar o telefone, Andrew desceu a escada fazendo bastante barulho, e a encontrou saindo da sala de estar.
     Estava ligando para a mulher do site?
     Estava - respondeu Ruth, com uma voz cansada. - Ela vai tirar de l aquelas coisas sobre o papai, e ento, se Deus quiser, essa histria vai acabar.
     Andrew sabia que a me era inteligente e muito mais habilidosa em relao  casa do que o desastrado do pai. Ela era capaz de se sustentar sozinha.
     Se ela  sua amiga, por que no tirou o post do site imediatamente? - perguntou ele, seguindo a me at a cozinha. Pela primeira vez na vida, a pena que sentia 
de Ruth se misturava a um sentimento de frustrao que aumentava a sua raiva.
     Ela est muito ocupada - disse Ruth.
     Um dos seus olhos estava vermelho por causa do soco que Simon lhe dera.
     Voc disse que ela pode ter problemas por deixar coisas difamatrias no site, j que  ela quem controla o que aparece l? Aprendemos isso na aula de infor...
     Eu j disse, Andrew, ela vai tirar - retrucou Ruth, zangada.
     No tinha medo de mostrar aos filhos a raiva que sentia. Seria porque eles no batiam nela, ou por algum outro motivo? Andrew sabia que o rosto da me devia 
estar doendo tanto quanto a sua boca.
     E a, quem voc acha que escreveu essas coisas sobre o papai? - perguntou o menino, aflito.
     Ela se virou para ele, furiosa.
     No sei - respondeu ela -, mas, seja quem for, fez uma coisa desprezvel, covarde. Todo mundo tem algo a esconder. O que aconteceria se o papai colocasse na 
internet algumas coisas que ele sabe sobre outras pessoas? S que ele no faria isso.
     Seria contra os princpios dele, no ? - disse Andrew.
     Voc no conhece o seu pai to bem quanto pensa que conhece - gritou Ruth, com lgrimas nos olhos. - Saia daqui... V j fazer o dever de casa... Ou o que voc 
quiser... mas saia daqui.
     Andrew voltou para o quarto com fome, porque tinha descido para pegar alguma coisa para comer na cozinha. E ficou um bom tempo deitado na cama pensando. Ser 
que aquele post tinha sido um erro terrvel? Ser que s quando Simon machucasse para valer algum da famlia a sua me perceberia que ele no tinha nenhum princpio?
     Nesse meio-tempo, no escritrio de casa, a mais de um quilmetro de distncia de Hilltop House, Shirley Mollison estava tentando lembrar como  que se deleta 
um post da rea de mensagens do site. Posts eram to raros por ali que ela normalmente os deixava no ar por mais de trs
     anos. Finalmente encontrou, no armrio pesado no canto da sala, um guia simplificado que tinha feito para si mesma de como administrar o site, e ento conseguiu, 
depois de vrias tentativas frustradas, remover as acusaes contra Simon. Fez isso apenas porque Ruth, de quem gostava, tinha lhe pedido. No se sentia nem um pouco 
responsvel pelo que havia acontecido.
     No entanto, o fato de ter deletado o post no o removeria da conscincia daqueles que estavam profundamente interessados na disputa cada vez mais prxima pela 
cadeira de Barry. Parminder Jawanda copiou a tal mensagem no seu computador. Vira e mexe voltava a abri-la, submetendo cada frase a uma investigao pormenorizada, 
como se fosse uma legista examinando fibras num cadver, procurando vestgios do DNA literrio de Howard Mollison. Ele provavelmente fizera tudo o que podia para 
disfarar seu tom caracterstico, mas a mdica estava certa de ter reconhecido seu pedantismo em trechos como "O sr. Price conhece por certo muito bem os processos 
de reduo de custos" e em "poderia beneficiar o Conselho fornecendo os nomes dos seus contatos to teis".
     Voc no conhece Simon Price, Minda - disse Tessa Wall. Ela e Colin estavam jantando com os Jawanda na cozinha da antiga casa paroquial, e Parminder falou sobre 
o post praticamente desde a hora em que eles cruzaram a soleira da porta. -  um homem muito desagradvel, e muita gente no gosta dele. Mas, para ser sincera, no 
acredito que tenha sido Howard Mollison. No consigo v-lo fazendo algo to bvio.
     No se iluda, Tessa - disse Parminder. - Howard far qualquer coisa para garantir que Miles seja eleito. Voc vai ver. Agora ele vai pra cima do Colin.
     Colin segurou o garfo com tanta fora que Tessa viu os ns dos seus dedos ficarem brancos, e desejou que Parminder pensasse mais antes de falar. Ela, mais do 
que ningum, sabia como Colin era. Chegou at a lhe receitar Prozac.
     Vikram estava sentado na outra ponta da mesa, em silncio. Seu belo rosto exibiu, de forma espontnea, um sorriso levemente irnico. Tessa se sentia intimidada 
diante do cirurgio, como sempre acontecia na presena de um homem bonito. Embora Parminder fosse uma das suas melhores amigas, Tessa praticamente no conhecia Vikram, 
que trabalhava muitas horas por dia e, ao contrrio da mulher, quase no se envolvia nos assuntos de Pagford.
     Eu falei sobre a pauta, no falei? - perguntou Parminder. - A da prxima reunio? Ele est propondo uma moo sobre Fields, a ser encaminhada por ns ao comit 
de Yarvil responsvel pela reviso dos limites, e uma resoluo para despejar a clnica de reabilitao. Est tentando correr com tudo isso, enquanto a cadeira de 
Barry est vaga.
     Ela ficava levantando para ir buscar coisas, abrindo mais portas de armrios do que o necessrio, completamente distrada. Por duas vezes esqueceu o que tinha 
ido pegar e se sentou de novo, com as mos vazias. Aonde quer que ela fosse, Vikram a observava, com aqueles seus olhos de clios espessos.
     Liguei para Howard ontem  noite - prosseguiu Parminder - e disse a ele que, antes de votar questes importantes, devamos esperar at que estivssemos com 
o nmero total de conselheiros. Ele riu e disse que no podamos esperar. E que Yarvil quer saber a nossa opinio a respeito da reviso dos limites em curso. Mas 
ele est  com medo de Colin se eleger para a vaga de Barry, porque a no vai ser to fcil nos impor tudo isso. Mandei um e-mail para todo mundo que acho que vai 
votar conosco, para ver se no podem pression-lo a adiar a votao para a outra reunio... "O Fantasma de Barry Fairbrother" - acrescentou Parminder, ofegante. 
- Desgraado. Ele no vai usar a morte de Barry para derrot-lo. No se eu puder impedir.
     Tessa pensou ter visto Vikram crispar os lbios. A velha Pagford, liderada por Howard Mollison, geralmente perdoava Vikram pelos crimes que no podia perdoar 
 sua esposa: a tonalidade mais escura da pele, a inteligncia e a riqueza (tudo o que, para Shirley Mollison, cheirava a soberba). Isso era extremamente injusto, 
pensou Tessa. Parminder trabalhava muito em todos os setores da vida de Pagford: festas escolares ou beneficentes, a clnica local e o Conselho Distrital, e sua 
recompensa era a averso implacvel da velha guarda. Vikram, que raramente participava de qualquer uma dessas atividades, era bajulado, incensado, e todos se referiam 
a ele demonstrando grande aprovao.
     Mollison  um megalomanaco - disse Parminder nervosa, empurrando a comida no prato. - Um tirano megalomanaco.
     Vikram largou o garfo e a faca, e se recostou na cadeira.
     Ento, por que ele est satisfeito com a presidncia do Conselho Distrital? - perguntou Vikram. - Por que no tenta o Conselho Municipal?
     Porque para ele Pagford  o centro do universo - respondeu Parminder. - Voc no percebe: ele no deixaria de ser presidente do Conselho Distrital de Pagford 
nem para ser o primeiro-ministro. De todo modo, ele no precisa estar no Conselho em Yarvil; j tem Aubrey Fawley l para impor a pauta. Tudo visando  reviso dos 
limites. Esto trabalhando juntos.
     Parminder sentia a ausncia de Barry como um fantasma  mesa. Ele teria explicado tudo a Vikram, fazendo-o dar boas risadas durante a explicao. Barry imitava 
perfeitamente a maneira de falar de Howard, o seu jeito de andar, com aqueles passos curtos, adernando o corpo de um lado para o outro, e as suas repentinas interrupes 
gastrointestinais.
     Vivo dizendo que ela est ficando muito estressada - comentou Vikram com Tessa, que ficou horrorizada ao perceber que tinha corado levemente quando aqueles 
olhos escuros pousaram nela. - Voc ficou sabendo daquela acusao absurda a respeito da senhora com enfisema?
     Ficou. Tessa ficou sabendo. Todo mundo ficou sabendo. Temos mesmo que discutir isso na mesa do jantar? - cortou Parminder, e, levantando-se de um salto, comeou 
a retirar os pratos.
     Tessa tentou ajud-la, mas Parminder lhe disse, de um jeito meio atravessado, para ficar onde estava. Vikram deu a Tessa um sorrisinho solidrio, fazendo com 
que ela sentisse um aperto na boca do estmago. Ela no conseguia se impedir de lembrar, enquanto Parminder tirava a mesa com estardalhao, que os dois fizeram um 
casamento arranjado.
     (- A famlia s faz as apresentaes - disse Parminder, no incio da amizade delas, meio na defensiva e chateada com a cara que Tessa tinha feito. - Ningum 
obriga ningum a se casar, sabe?!
     No entanto, j tinha falado, em outras ocasies, da enorme presso que a sua me fazia para que ela arranjasse logo um marido.
     Todos os pais siques querem que os seus filhos se casem.  uma verdadeira obsesso - comentou Parminder, com amargura.)
     Colin no se lamentou quando viu o seu prato ser levado embora. A nusea que agitava o seu estmago estava muito pior do que quando ele e Tessa chegaram. Sentia-se 
to distante dos seus trs companheiros de jantar, como se estivesse encapsulado por uma espessa redoma de vidro. Era uma sensao com a qual estava bem familiarizado, 
a de se movimentar dentro de um globo gigante de preocupao, encerrado ali dentro, vendo os seus terrores passando e obscurecendo o mundo l fora.
     Tessa no o ajudava em nada: estava sendo deliberadamente indiferente e nada solidria em relao  sua campanha para ocupar a vaga de Barry. Colin queria consultar 
Parminder a respeito dos panfletinhos que fizera para anunciar a sua candidatura, essa era a principal razo de terem ido jantar ali. Tessa, no entanto, no queria 
se envolver e se esquivava a qualquer conversa sobre o medo que aos poucos vinha tomando conta dele. Estava lhe negando uma vlvula de escape.
     Tentando ser to frio quanto ela, fingindo que no estava, afinal, sucumbindo  presso que ele prprio se impusera, Colin no havia lhe dito nada sobre o telefonema 
que recebera na escola naquele dia. A jornalista da Gazeta de Yarvil e Adjacncias queria falar sobre Krystal Weedon.
Ser que tinha tocado nela?
     Colin disse  tal jornalista que a escola no podia, de forma alguma, se pronunciar sobre um aluno e que ela deveria entrar em contato com os pais da menina.
     - J falei com Krystal - disse a voz do outro lado do telefone. -Queria apenas ter o seu...
     Mas ele desligou o telefone, e o terror embaou tudo  sua volta.
Por que queriam falar sobre Krystal? Por que tinham ligado para ele? Tinha feito alguma coisa? Ser que tinha tocado nela? Ser que ela tinha dado queixa?
     O psiclogo havia lhe dito para no tentar confirmar ou contradizer o contedo desse tipo de pensamento. Tinha apenas que reconhecer a existncia dele e seguir 
em frente, como se tudo fosse absolutamente normal, mas isso era como tentar no coar uma coceira insuportvel. A revelao pblica dos segredos sujos de Simon 
Price no site do Conselho o deixou muito abalado: o pavor da exposio, que dominou boa parte da sua vida, agora tinha um rosto, os seus traos eram os de um velho 
querubim, com um crebro demonaco fervilhando sob cachos grisalhos cobertos por um chapu Sherlock Holmes e por trs de olhos esbugalhados e inquisidores. Ficou 
se lembrando das histrias que Barry contava sobre o inacreditvel crebro de estrategista do dono da delicatssen e sobre a intricada rede de alianas que ligava 
os dezesseis membros do Conselho Distrital de Pagford.
     Colin tinha imaginado vrias vezes como poderia descobrir se tudo j estava acabado: um artigo cauteloso no jornal; rostos virados quando entrasse na Mollison 
& Lowe; um chamado da diretora  sua sala para uma conversa particular. Visualizou a sua queda milhares de vezes: a sua vergonha exposta e pendurada no seu pescoo, 
como um sino de leproso. No daria mais para esconder nada, nunca mais. Seria demitido. E provavelmente acabaria na priso.
     Colin - chamou Tessa baixinho. Vikram estava lhe oferecendo vinho.
     Ela sabia muito bem o que estava se passando dentro daquela cabea; no o que ele estava pensando exatamente, mas o tema da ansiedade do marido tinha sido constante 
durante anos. Sabia que Colin no podia controlar isso; essa era a matria de que era feito. Anos antes, Tessa leu as palavras de W. B. Yeats e soube que eram uma 
verdade: "Uma piedade alm de todo o dizer est escondida no corao do amor." Sorriu ao ler o poema e virou a pgina, consciente de que amava Colin e de que uma 
imensa parte desse amor era compaixo.
     As vezes, no entanto, a sua pacincia se esgotava. s vezes ela tambm queria um pouco de ateno e encorajamento. Quando lhe contou que tinha recebido o diagnstico 
final de portadora de diabetes tipo 2, ele irrompeu num ataque de pnico previsvel, mas bastou convenc-lo de que no estava correndo risco iminente de morrer para 
ele depressa esquecer o assunto e voltar a mergulhar completamente nos seus planos eleitorais.
     (Naquele dia, no caf da manh, ela verificou pela primeira vez a quantidade de acar no sangue com o glicosmetro. Depois pegou a seringa j com a insulina 
e a espetou na prpria barriga. Doeu bem mais do que quando a habilidosa Parminder tinha feito isso.
     Bola pegou a tigela de cereal e virou a cadeira, afastando-se dela, derramando leite na mesa, na manga da camisa do uniforme da escola e no cho da cozinha. 
Irritado, Colin deu um grito quando Bola cuspiu o que tinha na boca de volta na tigela e perguntou  me:
     Voc tem que fazer isso aqui na mesa?
     No seja grosseiro e pare de emporcalhar tudo - gritou Colin. - Sente-se direito. Limpe essa baguna! Veja l como voc fala com a sua me. Pea desculpas!
     Tessa puxou a agulha da barriga to depressa que saiu um pouco de sangue.
     Desculpe por ter vontade de vomitar quando voc est tomando um pico no caf da manh, Tess - disse Bola, que estava debaixo da mesa, limpando o cho com um 
pedao de papel-toalha.
     Sua me no est "tomando um pico", ela est aplicando uma injeo! - vociferou Colin. - E no a chame de "Tess"!
     Sei que voc no gosta de agulhas, Stu - contemporizou Tessa, com os olhos cheios de lgrimas. Tinha se machucado e, alm disso, estava abalada e muito zangada 
com os dois, sentimentos que ainda estavam bem presentes naquela noite.)
     Por que ser que Parminder no dava valor  ateno que recebia de Vikram? Colin nem notava quando ela estava estressada. Talvez haja algo de bom nessa histria 
de casamento arranjado..., pensou Tessa com raiva. Minha me certamente no teria escolhido Colin para mim...
     Para a sobremesa, Parminder espalhou pela mesa umas tigelas com salada de frutas. Tessa ficou imaginando, um pouco indignada, o que ela ofereceria a um convidado 
que no fosse diabtico, e se consolou pensando na barra de chocolate que a esperava na geladeira de casa.
     Parminder, que havia falado cinco vezes mais do que qualquer um deles durante o jantar, comeou a reclamar da filha, Sukhvinder. J tinha contado a Tessa, pelo 
telefone, sobre a traio da menina, e agora ia voltar ao assunto ali na mesa.
     Garonete de Howard Mollison. Eu no... Eu realmente no sei o que ela tem na cabea. Mas Vikram...
     Eles no tm nada na cabea, Minda - afirmou Colin, quebrando o seu silncio. - Adolescentes so assim mesmo. No ligam para nada. So todos iguais.
     Colin, que bobagem - cortou Tessa. - Eles no so todos iguais. Ficaramos felizes se Stu arranjasse um emprego qualquer nos fins de semana. No que seja uma 
possibilidade, longe disso.
     ...mas Vikram no se importa - retomou Parminder, ignorando a interrupo. - Ele no v nada de errado nisso, no ?
     Vikram respondeu com tranqilidade:
     E uma experincia de trabalho. Provavelmente ela no vai para a universidade. E no h vergonha nenhuma nisso. No  mesmo para todo mundo. Acho que Ris vai 
se casar cedo e ser feliz.
Garonete...
     Bem, nem todo mundo tem vocao para os estudos acadmicos, tem?
     No, ela certamente no tem vocao para os estudos acadmicos - disse Parminder, quase tremendo de tanta raiva e tenso. - As notas dela so pavorosas... No 
tem nenhuma aspirao, nenhuma ambio... Garonete... "Vamos encarar os fatos, me, eu no vou pra universidade"... No, voc certamente no vai, no com esse comportamento... 
De Howard Mollison... Ah, ele deve estar adorando isso... Minha filha indo l com o chapu na mo pedir um emprego. O que ela estava... O que ela estava pensando?
     Voc no gostaria que Stu arranjasse um emprego com algum como Mollison - disse Colin para a mulher.
     No me importaria - rebateu Tessa. - Ficaria feliz da vida se ele mostrasse algum interesse por qualquer tipo de trabalho honesto. Pelo que sei, ele s se interessa 
por jogos de computador e...
     Colin no sabia que Stuart fumava. Ela interrompeu a frase no meio, e o marido acrescentou:
     Na verdade isso seria bem o tipo de coisa que Stuart faria. Se meter com algum de quem no gostamos s para nos atingir. Ele adoraria fazer isso.
     Pelo amor de Deus, Colin, Sukhvinder no est tentando atingir Minda - exclamou Tessa.
     Ento voc acha que no estou sendo razovel? - perguntou Parminder, indignada.
     No, no  isso - disse Tessa, sem acreditar na rapidez com que tinham sido envolvidos naquela confuso familiar. - Estou apenas dizendo que no existem muitos 
lugares para um adolescente trabalhar em Pagford, ou existem?
     E por que ela precisa trabalhar? - perguntou Parminder, erguendo as mos, num gesto de profunda exasperao. - O dinheiro que lhe damos no basta?
     E diferente quando ganhamos com o nosso prprio trabalho, voc sabe disso - respondeu.
     Da sua cadeira, Tessa via uma parede coberta de fotografias dos filhos dos Jawanda. J tinha se sentado ali antes e contou quantas vezes cada um deles aparecia 
nas fotos: Jaswant, dezoito; Rajpal, dezenove; e Sukhvinder, nove. S uma nica fotografia registrava um acontecimento especfico na vida da filha mais nova: a equipe 
de remo da Winterdown, no dia em que elas derrotaram a da St. Anne. Barry deu a todos os pais uma cpia ampliada dessa foto. Nela Sukhvinder e Krystal Weedon estavam 
no meio de um grupo de oito meninas, com os braos passados nos ombros umas das outras, sorrindo, radiantes, e pulando, o que fez a imagem ficar um pouco fora de 
foco.
     Barry teria ajudado Parminder a ver as coisas do jeito certo, pensou ela. Ele tinha sido uma ponte entre me e filha, e ambas o adoravam.
     Aquela no era a primeira vez que Tessa ficava se perguntando que diferena fazia ela no ter dado  luz o seu filho. Seria mais fcil aceit-lo como um indivduo 
completamente independente se ele fosse feito da sua carne e do seu sangue? O seu sangue ruim, cheio de glicose...
     Bola recentemente tinha parado de cham-la de "me". Ela teve que fingir que no ligava, porque Colin ficava possesso com aquilo, mas toda vez que Bola dizia 
"Tessa" era como se enfiassem uma agulha no seu corao.
     Os quatro terminaram de comer a sobremesa em silncio.
     
     VII
     
     L no alto, na pequena casa branca acima do resto do vilarejo, Simon Price se angustiava e ficava remoendo sempre as mesmas idias. Os dias se passaram. O post 
com aquela acusao tinha sumido da rea de mensagens, mas ele continuava paralisado. Retirar a sua candidatura poderia parecer admisso de culpa. A polcia no 
bateu  sua porta para investigar sobre o computador, e ele agora meio que lamentava t-lo jogado da velha ponte. Por outro lado, no sabia ao certo se o homem por 
trs do balco da oficina no sop da colina tinha mesmo feito aquela cara feia, quando Simon pegou o seu carto de crdito. Houve muitos boatos no trabalho sobre 
demisses, e ele ainda estava com medo de que o contedo daquele post chegasse aos ouvidos dos seus chefes, e que eles preferissem economizar as indenizaes demitindo, 
por justa causa, a ele, Jim e Tommy.
     Andrew s observava e esperava, perdendo as esperanas a cada dia. Tinha tentado mostrar ao mundo quem era o seu pai, e o mundo, pelo visto, apenas deu de ombros. 
O garoto achava que algum da grfica ou do Conselho iria se levantar e dizer a Simon um sonoro "no": ele no devia entrar na disputa, no servia para o cargo, 
no estava dentro dos padres exigidos e no devia desgraar a si mesmo e a sua famlia. Mas nada aconteceu. Simon apenas parou de falar do Conselho e de dar telefonemas 
na esperana de angariar votos. E os folhetos que ele imprimiu depois do expediente ficaram intocados dentro de uma caixa na varanda.
     Ento, sem nenhum aviso ou alarde, veio a vitria. Na sexta  noite, ao descer as escadas s escuras para buscar alguma coisa para comer, Andrew ouviu Simon 
falando ao telefone da sala de estar num tom formal, e parou para escutar.
     ...retirando minha candidatura - dizia ele. - Claro. Bem, minhas circunstncias pessoais mudaram,  uma questo pessoal. Claro. Claro. , est certo. Ok. Obrigado.
     Andrew ouviu o pai desligar o telefone.
     Bem, tudo acabado - comunicou ele  mulher. - Estou fora, esses merdas conseguiram o que queriam.
     Andrew ouviu a me dar uma resposta abafada e de incentivo, e antes que o garoto tivesse tempo de sair dali, Simon apareceu no corredor, inspirou fundo e gritou 
a primeira slaba do seu nome. Mas logo percebeu que o filho estava bem ali, na sua frente.
     O que est fazendo a?
     Metade do rosto de Simon estava na sombra; a outra metade, iluminada apenas pela luz que vinha da sala de estar.
     Estou com sede - mentiu Andrew, pois sabia que o pai no gostava que eles pegassem comida.
     Voc comea a trabalhar com Mollison neste fim de semana, no ?
.
     Certo, ento preste ateno. Quero que descubra tudo o que puder sobre esse desgraado, entendeu? Toda a sujeira que puder desencavar. E sobre o filho dele 
tambm, se ouvir alguma coisa.
     T bom - disse Andrew.
     E vou colocar tudo na merda daquele site - prosseguiu Simon, voltando para a sala de estar. - Vou ser a porra do "Fantasma de Barry Fairbrother".
     Enquanto tentava pegar alguma coisa para comer, tomando o maior cuidado para que ningum desse falta de nada, tirando uma fatia aqui, um punhado ali, um refro 
ecoava pela cabea de Andrew: Peguei voc, seu filho da puta. Peguei voc.
     Fez exatamente o que havia se proposto a fazer: Simon no tinha a menor idia de quem tinha feito as suas ambies virarem p. O idiota estava inclusive pedindo 
a ajuda de Andrew para se vingar. Uma reviravolta e tanto, j que quando contou aos pais que tinha conseguido um emprego na delicatssen, Simon ficou furioso.
     Seu babaquinha estpido. E a porra da alergia?
     Achei que era s tentar no comer amendoim - disse Andrew.
     No banque o espertinho comigo, seu Cara de Pizza. E se voc comer sem querer, como aconteceu na St. Thomas? Acha que queremos passar por aquela porcaria toda 
de novo?
     Mas Ruth tinha apoiado o filho, alegando que ele j era grande o bastante para se cuidar, para prestar ateno. Quando Simon saiu da sala, ela veio com aquela 
conversa de que ele s estava preocupado com o filho.
     A nica preocupao dele  ter que me levar pro hospital na hora daquela droga de programa de esportes que ele gosta de ver.
     Andrew voltou para o quarto, sentou na cama, enfiando a comida na boca com uma das mos e mandando mensagens de texto para Bola com a outra.
     Achou que estava tudo resolvido, terminado, feito. At ento, nunca tinha precisado observar as primeiras bolhas minsculas que surgem durante o processo de 
fermentao e que contm, dentro de si, uma inevitvel transformao alqumica.
     
     
     
     
     VIII
     
     Mudar-se para Pagford foi uma das piores coisas que aconteceram a Gaia Bawden. Exceto pelas visitas ocasionais que fizera ao pai em Reading, Londres era tudo 
o que ela conhecia. Gaia ficou to surpresa na primeira vez que ouviu Kay dizer que queria se mudar para um minsculo vilarejo da regio do West Country, que s 
algumas semanas antes de isso acontecer levou a ameaa a srio. Pensou que aquilo era mais uma das idias malucas da me, como a histria das duas galinhas que comprou 
para o minsculo quintal dos fundos da casa que tinham em Hackney (uma raposa matou as galinhas na semana seguinte), ou quando inventou de fazer geleia, logo ela, 
que praticamente nunca cozinhava, e acabou estragando metade das panelas da casa e ficando com a mo cheia de marcas de queimadura.
     Gaia teve que abandonar os amigos que tinha desde o tempo da escola primria, a casa em que vivia desde os oito anos, os fins de semana em Londres, que estavam 
se tornando cada vez mais interessantes com todo o tipo de diverso que a cidade oferecia. De uma hora para outra, Gaia tinha sido arrastada, apesar das splicas, 
ameaas e protestos, para uma vida que jamais sonhara existir. Ruas de paraleleppedos, nenhuma loja aberta depois das seis, uma vida comunitria que girava em torno 
da igreja, um lugar onde quase sempre se podia ouvir o canto dos pssaros e... nada mais: Gaia se sentia como se tivesse atravessado um portal para um lugar perdido 
no tempo.
     Ela e Kay sempre foram muito ligadas uma  outra (j que o seu pai nunca tinha morado com elas e que os dois relacionamentos que a me teve depois disso nunca 
chegaram a ser coisa muito sria). Tinham algumas brigas, se consolavam nos momentos de tristeza e, com o passar dos anos, pareciam mais amigas que me e filha. 
Agora, no entanto, Gaia no via nada alm de uma inimiga do outro lado da mesa da cozinha. O seu nico desejo era voltar para Londres de qualquer maneira e, como 
vingana, deixar Kay bem infeliz. No conseguia decidir qual seria a melhor punio: ser reprovada em todos os exames finais, ou passar e tentar convencer o pai 
a deix-la morar com ele, enquanto cursava o ltimo ano da escola em Londres. Nesse meio-tempo, teria que viver nesse territrio aliengena, onde a sua aparncia 
e o seu sotaque, que um dia haviam sido passaporte imediato para os mais seletos crculos sociais, se tornaram moeda estrangeira.
     Gaia no tinha nenhum interesse em se tornar uma daquelas estudantes populares da Winterdown: achava aquelas garotas constrangedoras, com aquele sotaque do 
interior e as suas idias patticas sobre o que era diverso. A sua ligao deliberada com Sukhvinder Jawanda era, em parte, uma maneira de mostrar aos adolescentes 
populares que ela ria da cara deles, e tambm porque sentia uma afinidade natural naquele momento por todos os que estavam  margem.
     O fato de Sukhvinder ter aceitado ser garonete junto com ela fez a amizade das duas se fortalecer. Nos dois tempos de aula de biologia gentica que se seguiram, 
Gaia perdeu a cerimnia como nunca tinha feito antes, e Sukhvinder pde enfim perceber, ao menos em parte, a misteriosa razo que levou essa recm-chegada bonita 
e descolada a se tornar sua amiga. Ajustando o foco do microscpio que dividiam, Gaia murmurou:
     - Isso aqui  de uma brancura do cacete, n?
     Sukhvinder se ouviu dizendo "", antes mesmo de ter parado para pensar na pergunta. Gaia ainda estava falando, mas Sukhvinder s a ouvia parcialmente. "Uma 
brancura do cacete." , achava que era isso mesmo.
     Na St. Thomas, como era a nica criana de pele escura na sala de aula, teve que se levantar e falar sobre a religio sique. Obediente, ficou de p na frente 
da turma e contou a histria do Guru Nanak, o fundador da religio, que desapareceu num rio e todos acreditaram que ele tivesse se afogado. Trs dias depois, porm, 
ele ressurgiu das guas e anunciou: "No h hindus, no h muulmanos."
     As outras crianas debocharam da idia de algum sobreviver debaixo da gua por trs dias. Sukhvinder no teve coragem de dizer que Jesus morreu e depois voltou 
 vida. Ela abreviou a histria do Guru Nanak, desesperada para voltar para o seu lugar. S tinha entrado num gurdwara umas poucas vezes na vida. No havia nenhum 
desses templos sique em Pagford, e o nico que havia em Yarvil era minsculo e dominado, segundo os seus pais, pelos chamars, que eram de uma casta diferente da 
deles. Sukhvinder nem ao menos entendia por que isso era to importante, j que o Guru Nanak condenava explicitamente a distino de castas. Era tudo muito confuso, 
e ela continuou a adorar ovos de Pscoa e a enfeitar rvores de Natal, e achava os livros que contavam a vida dos gurus e os dogmas dos Khalsa, que Parminder obrigava 
os filhos a ler, extremamente difceis.
     As visitas  famlia de sua me em Birmingham, naquelas ruas onde praticamente todo mundo tinha a pele escura e as lojas eram cheias de sris e especiarias 
indianas, sempre a faziam se sentir estranha e deslocada. Seus primos falavam tanto punjabi quanto ingls, e levavam uma vida urbana e sofisticada. As suas primas 
eram atraentes e estavam sempre na moda. Riam dos seus erres longos do interior e da sua total falta de senso esttico, e Sukhvinder odiava que rissem dela. Quando 
Bola Wall ainda no tinha comeado com aquele seu regime dirio de tortura, quando na escola eles ainda no tinham sido divididos por nveis, obrigando-a a ter contato 
dirio com Dane Tully, sempre gostou de voltar para Pagford. Naquela poca, ali era o seu refgio.
     Enquanto estavam manuseando as lminas, mantendo a cabea baixa para no chamar a ateno da sra. Knight, Gaia comeou a lhe contar mil coisas sobre a sua vida 
na Escola Gravener, em Hackney. As palavras iam brotando numa profuso, revelando um certo nervosismo. Descreveu os amigos que deixou para trs. Um deles, Harpreet, 
tinha o mesmo nome do primo mais velho de Sukhvinder. Falou sobre Sherelle, que era negra e a garota mais inteligente do seu grupo, e sobre Jen, cujo irmo tinha 
sido seu primeiro namorado.
     Embora estivesse interessadssima em tudo o que Gaia estava lhe contando, Sukhvinder no podia impedir que os seus pensamentos se dispersassem. Ficou imaginando 
uma escola em que seu olho tivesse que lutar para destacar os componentes individuais de um caleidoscpio composto dos mais diversos tons de pele, indo do branco 
mingau de sempre ao marrom-avermelhado. Aqui na Winterdown, o cabelo preto-azulado das crianas asiticas se destacava com facilidade naquela paisagem montona. 
Num lugar como Gravener, tipos como Bola Wall e Dane Tully deviam ser a minoria.
     Sukhvinder fez uma pergunta tmida:
     Por que voc veio para c?
     Porque minha me queria ficar perto do babaca do namorado dela - murmurou Gaia. - Gavin Hughes, sabe quem ?
     Sukhvinder fez que no com a cabea.
     Com certeza voc j deve ter ouvido eles trepando - disse Gaia.
     A rua inteira ouve quando eles esto trepando. Deixe as suas janelas abertas uma noite dessas.
     Sukhvinder tentava no parecer chocada, mas a idia de ouvir os seus pais, os seus pais casados, fazendo sexo j era bem ruim. A prpria Gaia estava vermelha; 
no por causa do constrangimento, pensou Sukhvinder, mas da raiva.
     Ele vai dar um chute nela. Ela s est se enganando. Ele fica louco para sair de perto dela depois que eles trepam.
     Sukhvinder nunca falaria da me dessa maneira, nem as gmeas Fairbrother (que ainda eram, teoricamente, as suas melhores amigas). Niamh e Siobhan estavam dividindo 
um microscpio ali perto. Desde que tinham perdido o pai, pareciam ter se aproximado ainda mais, sempre escolhendo a companhia uma da outra e se afastando de Sukhvinder.
     Andrew Price ficava olhando para Gaia quase o tempo todo por uma brecha no meio dos rostos brancos em volta delas. Sukhvinder, que havia notado, pensou que 
Gaia no tivesse visto, mas estava enganada. Gaia simplesmente no fazia a menor questo de olhar para ele tambm ou de se ajeitar, porque estava acostumada com 
essa histria de garotos olhando para ela. Isso acontecia desde os seus doze anos. Quando ela tinha que mudar de sala, por exemplo, no intervalo das aulas, dois 
garotos do penltimo ano ficavam circulando pelo corredor. Isso acontecia com tanta freqncia que no podia ser simples coincidncia. E os dois eram bem mais bonitos 
que Andrew. No entanto, nenhum deles se comparava ao garoto com quem Gaia tinha perdido a virgindade pouco antes de vir para Pagford.
     Gaia mal podia suportar a idia de que Marco de Luca ainda estava vivo em algum lugar do universo e separado dela por cento e cinqenta quilmetros de uma distncia 
intil e dolorosa.
     Ele tem dezoito anos - disse ela. -  meio italiano e joga futebol muito bem. Est tentando fazer um teste para o time juvenil do Arsenal.
     Gaia fez sexo com Marco quatro vezes antes de ir embora de Hackney e, em todas elas, roubou camisinhas da mesa de cabeceira de Kay. Meio que queria que a me 
soubesse at onde estava indo para deixar a sua marca na memria de Marco, j que estava sendo obrigada a se separar dele.
     Sukhvinder escutava fascinada, mas sem admitir que j tinha visto Marco na pgina do Facebook da sua nova amiga. No havia nenhum garoto como ele em toda a 
Winterdown: ele se parecia com Johnny Depp.
     Gaia se debruou sobre a bancada, brincando meio distrada com o microscpio, e l do outro lado da sala Andrew Price continuava a observ-la, tomando cuidado 
para que Bola no percebesse.
     Talvez ele seja fiel. Sherelle vai dar uma festa no sbado  noite e convidou ele. Ela me jurou que no vai deixar Marco ficar com ningum. Merda, eu queria...
     Ficou olhando para a bancada com aqueles seus olhos, com manchinhas esverdeadas, completamente enevoados, e Sukhvinder a observava humildemente, encantada com 
a sua aparncia, perdida em admirao pela sua vida. Ter um outro mundo ao qual voc est perfeitamente integrada, onde voc tem um namorado que  jogador de futebol 
e um grupo de amigas devotadas e descoladas, lhe parecia uma situao admirvel e invejvel, mesmo que voc tenha sido arrancada de l  fora.
     Foram bater perna na rua na hora do almoo, algo que Sukhvinder quase nunca fazia. Ela e as gmeas Fairbrother geralmente comiam na cantina da escola.
     Enquanto faziam hora na calada do lado de fora da loja de convenincia onde tinham comprado sanduches, ouviram um grito estridente.
     A filha da puta da sua me matou minha v!
     Perplexos, todos os alunos da Winterdown que estavam aglomerados ali ficaram procurando de onde tinha vindo aquele grito. Sukhvinder fazia a mesma coisa, to 
confusa como os demais. Ento, de repente, viu Krystal Weedon do outro lado da rua, apontando para ela um dedo curto e grosso, como uma arma. Estava com quatro garotas, 
uma do lado da outra na beira da calada, esperando para atravessar.
     A filha da puta da sua me matou minha v. Pode esperar, ela vai ter o que merece, e voc tambm.
     Sukhvinder sentiu o estmago revirar. Todo mundo olhava para ela. Duas meninas mais novas saram dali correndo. Sukhvinder percebeu que as pessoas que estavam 
passando paravam e ficavam olhando interessadas. Krystal e a sua gangue estavam indceis, pulando na ponta dos ps, esperando uma brecha para poder atravessar.
     Do que ela est falando? - perguntou Gaia, mas Sukhvinder estava com a boca to seca que no conseguia responder. No adiantava correr. No ia conseguir mesmo. 
Leanne Carter era a garota mais rpida do ano delas. O mundo estava parado. S os carros pareciam se movimentar, lhe dando uns ltimos segundos de segurana.
     Ento, Jaswant apareceu, acompanhada de vrios garotos do ltimo ano.
     Tudo bem, Ris? - perguntou ela. - Aconteceu alguma coisa?
     Jaswant no tinha ouvido Krystal gritar. Ela passou ali com os amigos por pura sorte. Do outro lado da rua, Krystal e as outras garotas cochichavam.
     Nada - disse Sukhvinder, meio tonta de alvio com a trgua temporria. No podia dizer a Jazz o que estava acontecendo na frente dos garotos. Dois deles tinham 
mais de um metro e oitenta. E estavam todos olhando para Gaia.
     Jazz e os amigos se dirigiram para a porta da loja, e Sukhvinder, lanando um olhar aflito para Gaia, foi atrs deles. Pela vidraa, as duas viram Krystal e 
as outras garotas indo embora, olhando para trs de vez em quando.
     O que foi isso? - perguntou Gaia.
     A bisav dela, que era paciente da minha me, morreu - respondeu Sukhvinder. Estava com tanta vontade de chorar que os msculos da sua garganta chegavam a doer.
     Vaca idiota - exclamou Gaia.
     O choro que Sukhvinder tinha conseguido segurar at agora no era s por causa do medo. Ela gostava muito de Krystal e sabia que a menina tambm gostava dela. 
Todas aquelas tardes no canal, as viagens de micro-nibus... Ela conhecia cada pedacinho das costas e dos ombros de Krystal mais do que qualquer parte do seu prprio 
corpo.
     Elas voltaram para a escola com Jaswant e os seus amigos. O garoto mais bonito comeou a conversar com Gaia. E, quando passaram pelos portes, ele j estava 
implicando com ela por causa do sotaque londrino. Sukhvinder no estava vendo Krystal em lugar nenhum, mas avistou Bola a uma certa distncia, andando com aquelas 
suas passadas largas ao lado de Andrew Price. Teria reconhecido aquela silhueta e aquele jeito de andar em qualquer lugar, da mesma maneira que algo instintivo nos 
faz perceber uma aranha atravessando o cho mal-iluminado na nossa direo.
     A nusea se espalhava em ondas dentro dela  medida que se aproximavam do prdio da escola. De agora em diante seriam os dois: Bola e Krystal. Todo mundo sabia 
que eles estavam saindo. Na cabea de Sukhvinder, uma imagem bem ntida se formou: ela cada no cho, sangrando, Krystal e as garotas chutando o seu corpo, e Bola 
Wall assistindo a tudo e dando boas risadas.
     Preciso ir ao banheiro - disse a Gaia. - Encontro voc l em cima.
     Ela entrou correndo no primeiro banheiro feminino que viu, trancou-se em uma das cabines e se sentou no vaso, em cima da tampa fechada. Queria morrer... Ou 
desaparecer para sempre... Mas a superfcie slida das coisas se recusava a se dissolver ao seu redor, e o seu corpo, aquele odioso corpo hermafrodita, continuava, 
de um jeito obstinado e boal, a viver...
     Ouviu o sinal que indicava o incio das aulas da tarde e, de um salto, saiu do banheiro correndo. Filas de estudantes se formavam ao longo do corredor. Ela 
deu as costas para todos e foi saindo do prdio.
     Outros alunos matavam aula. Krystal fazia isso sempre, e Bola Wall tambm. Se ela pudesse ao menos ficar longe dali esta tarde, talvez conseguisse pensar em 
algum jeito de se proteger antes de ter que voltar. Ou podia atravessar na frente de um carro. Imaginou o carro atingindo o seu corpo violentamente, e os seus ossos 
se partindo em mil pedaos. Em quanto tempo morreria, se fosse atropelada no meio da rua? Continuava
     preferindo morrer afogada, a gua fria e limpa pondo-a para dormir para sempre: um sono sem sonhos...
     Sukhvinder? Sukhvinder!
     Sentiu o estmago revirar mais uma vez. Tessa Wall estava correndo pelo estacionamento, indo na sua direo. Por um momento, teve uma idia maluca: sair correndo, 
mas a inutilidade desse ato a conteve, e ela ficou parada, esperando Tessa alcan-la, com dio daquela sua cara sem graa e estpida e do seu filho diablico.
     Sukhvinder, o que est fazendo? Aonde voc est indo?
     A menina no conseguia nem ao menos pensar numa mentira. J sem esperanas, ela deu de ombros e se rendeu.
     Tessa no tinha compromisso at as trs horas. Devia levar Sukhvinder  secretaria para relatar a sua tentativa de fuga, mas, em vez disso, subiu com ela para 
a sua sala, com aquele pan do Nepal e o pster da Fundao de Amparo  Criana e ao Adolescente. Sukhvinder nunca tinha estado l antes.
     Tessa falava, fazia pequenas pausas encorajadoras, falava mais um pouco, e Sukhvinder ficou sentada ali, com as mos suadas, olhando fixamente para os prprios 
sapatos. Tessa conhecia a sua me... Com certeza ia contar a Parminder que ela tinha tentado matar aula... Se ao menos conseguisse explicar por qu. Ser que Tessa 
intercederia por ela? Poderia fazer isso? No com o seu filho. Todo mundo sabia que ela no conseguia controlar Bola. Mas e Krystal? Krystal vinha muito  sala de 
orientao...
     Ser que ia apanhar se contasse? De toda forma, ia apanhar se no contasse. Krystal estava pronta para pr toda a sua gangue atrs dela...
     ...alguma coisa com voc, Sukhvinder?
     A menina fez que sim com a cabea. E Tessa a encorajou mais uma vez a falar:
     Pode me contar o que foi?
     Ento Sukhvinder contou.
     Ao escut-la, tinha certeza de ter visto, na contrao instantnea das sobrancelhas de Tessa, algo alm da solidariedade. Talvez ela estivesse pensando na reao 
de Parminder ao saber o que estavam gritando pela rua sobre o tratamento que ela tinha dado  sra. Catherine Weedon. Sukhvinder havia pensado nisso tambm quando 
estava l no banheiro, querendo morrer. Ou talvez a expresso de desagrado no rosto de Tessa fosse apenas relutncia em ter que enfrentar Krystal Weedon. Sem dvida 
alguma, Krystal tambm era a sua favorita, como tinha sido do sr. Fairbrother.
     Um senso de injustia feroz e pungente irrompeu em meio a toda a sua tristeza, o seu medo, a sua averso a si mesma. E varreu aquele emaranhado de preocupaes 
e ameaas que a aprisionava diariamente. Pensou em Krystal e nas suas colegas, esperando para faz-la pagar por tudo. Pensou em Bola, sussurrando palavras perversas 
atrs dela em todas as aulas de matemtica, e pensou na mensagem que tinha apagado da sua pgina no Facebook na noite anterior:
Lesbianismo (les.bi:a.nis.mo) sm. Homossexualismo feminino; safismo. [De lesbiano (= 'referente  ilha de Lesbos, Grcia') + -ismo.]
     No sei como ela sabe - disse Sukhvinder, com o corao to acelerado que chegava a ouvir a prpria pulsao.
     Sabe...? - perguntou Tessa, ainda com uma expresso de preocupao.
     Que houve uma acusao contra a mame por causa da bisav dela. Krystal e a me no falam com o resto da famlia. Talvez... - continuou Sukhvinder - Bola tenha 
contado.
     Bola? - repetiu Tessa, sem entender nada.
, porque eles esto saindo - disse Sukhvinder. - Ele e Krystal... Eles esto saindo juntos. , ento ele pode ter contado a ela.
     Ver o ltimo vestgio daquela calma profissional sumir do rosto de Tessa lhe deu uma satisfao amarga.

IX
     
     Kay Bawden nunca mais quis pr os ps na casa de Miles e Samantha. No podia perdo-los por terem testemunhado a demonstrao de indiferena de Gavin, nem podia 
esquecer a risada condescendente de Miles, a sua atitude em relao  Bellchapel, ou o modo insultante com que ele e Samantha falaram de Krystal Weedon.
     Apesar de Gavin ter pedido desculpas e dado algumas demonstraes meio mornas de afeio, Kay no parava de pensar nele sentado bem juntinho de Mary no sof, 
ajudando-a com os pratos e levando-a para casa na escurido. Quando Gavin lhe contou, uns dias depois, que tinha jantado na casa de Mary, Kay teve que controlar 
um acesso de raiva, porque na sua casa, na Hope Street, ele nunca comeu nada alm de torradas.
     Ela no podia fazer nenhum comentrio negativo sobre A Viva, de quem Gavin falava como se fosse a prpria Virgem Maria, mas com os Mollison era diferente.
     No gosto muito de Miles.
     Ele no  exatamente meu melhor amigo.
     Se quer saber, se ele for eleito vai ser uma catstrofe para a clnica de reabilitao.
     Duvido que faa alguma diferena.
     A apatia de Gavin e aquela indiferena pelo sofrimento das pessoas sempre a deixavam furiosa.
     No h ningum l que v defender a Bellchapel?
     Acho que o Colin Wall - respondeu Gavin.
     Ento, s oito horas da noite de segunda, Kay se dirigiu para a casa dos Wall e tocou a campainha. Da porta, ela podia ver o Ford Fiesta vermelho de Samantha 
Mollison estacionado trs casas adiante. Ver aquilo acrescentou um pouco mais de sabor ao seu desejo de comprar aquela briga.
     Uma mulher sem graa, baixinha e gorducha, vestindo uma saia de batique, veio abrir a porta.
     Ol. Eu me chamo Kay Bawden e gostaria de falar com Colin Wall - disse ela.
     Por um segundo, Tessa ficou simplesmente olhando para aquela jovem atraente, que ela nunca tinha visto antes, parada ali na sua porta. Uma idia estranha passou 
pela sua cabea: que Colin estava tendo um caso e que a sua amante tinha vindo contar tudo a ela.
     Ah... Claro... Entre. Eu sou Tessa.
     Kay limpou os ps com cuidado no capacho e seguiu Tessa at a sala de estar, que era menor e com mveis mais velhos que a dos Mollison, mas tambm mais aconchegante. 
Viu um homem alto, que estava ficando careca e tinha uma testa grande, sentado numa poltrona com um notebook no colo e uma caneta na mo.
     Colin, essa  Kay Bawden - disse Tessa. - Ela quer falar com voc.
     Tessa viu a expresso de surpresa e desconfiana no rosto de Colin e imediatamente soube que ele no conhecia aquela mulher. Imagina, pensou ela, um pouco envergonhada, 
o que voc estava pensando?
     Desculpe por aparecer assim, desse jeito, sem avisar - disse Kay, quando Colin se levantou para cumpriment-la. - Queria ter ligado antes, mas vocs...
, no estamos na lista - interrompeu Colin, observando-a com aqueles olhos minsculos por trs das lentes dos culos. - Por favor, sente-se.
     Obrigada.  sobre a eleio - disse Kay. - A eleio para o Conselho Distrital. Voc est concorrendo com Miles Mollison, no est?
     Estou, sim - confirmou Colin, nervoso. Sabia quem era aquela mulher: a reprter que queria falar sobre Krystal. Eles finalmente o tinham encontrado... Tessa 
no devia t-la deixado entrar.
     Fiquei pensando se poderia ajudar de alguma forma - prosseguiu Kay. - Sou assistente social e trabalho principalmente em Fields. Posso lhe dar algumas informaes 
e alguns nmeros sobre a Clnica de Reabilitao Bellchapel, que Mollison parece bem interessado em fechar. Me disseram que voc  a favor da clnica. E que gostaria 
de mant-la aberta.
     Uma descarga de alvio e prazer quase o fez desmaiar.
     Ah, sim, claro - disse Colin. - Gostaria de manter a clnica aberta, sim. Isso era o que o meu predecessor... Quero dizer, o antigo ocupante da cadeira... Barry 
Fairbrother... Ele certamente era contra o fechamento da clnica. E eu tambm sou.
     Bem, tive uma conversa com Miles Mollison, e ele deixou bem claro que acha que no vale a pena manter a clnica aberta. Francamente, acho que ele no sabe de 
nada nem tem a menor idia das causas e do tratamento da dependncia qumica, e da diferena que a Bellchapel est fazendo. Se o Conselho Distrital negar a renovao 
do contrato para a ocupao do prdio e o Conselho Municipal cortar a verba, vamos correr o risco de deixar algumas pessoas muito vulnerveis sem nenhum tipo de 
apoio.
     Claro, claro,  isso mesmo - disse Colin. - Eu concordo, claro.
     Ele estava admirado e lisonjeado por essa mulher jovem e atraente ter sado de casa naquela noite para procur-lo, se oferecendo como aliada.
     Gostaria de uma xcara de ch ou caf, Kay? - perguntou Tessa.
     Ah, muito obrigada - respondeu Kay. - Aceito uma xcara de ch, Tessa. Sem acar, por favor.
     Bola estava na cozinha, pegando comida na geladeira. Ele comia muito, o tempo todo, mas continuava esqueltico, sem engordar nem um nico quilo sequer. Apesar 
de manifestar abertamente a sua averso s injees de Tessa, ele parecia no estar ligando que elas estivessem ali, numa caixa branca de medicamentos, bem perto 
do queijo.
     Tessa pegou a chaleira e voltou a pensar no assunto que a consumia desde que Sukhvinder deu a entender, um pouco mais cedo, que Bola e Krystal "estavam saindo". 
No perguntou nada ao filho e tambm no contou nada a Colin.
     Quanto mais pensava nisso, mais certeza tinha de que no podia ser verdade. Sabia que Bola se tinha em to alta conta que nenhuma garota seria boa o bastante 
para ele, especialmente uma garota como Krystal. Ele com certeza no...
Se rebaixaria?  isso?  isso o que voc acha?
     Quem est a? - perguntou Bola, com a boca cheia de frango gelado, enquanto a me colocava a chaleira no fogo.
     Uma mulher que quer ajudar o papai a se eleger para o Conselho - respondeu Tessa, vasculhando o armrio atrs de biscoitos.
     Por qu? Ela t a fim dele?
     Deixe de ser bobo, Stu - disse Tessa, fazendo cara feia.
     Ele tirou vrias fatias de presunto de um pacote j aberto e foi enfiando todas elas, uma a uma, na boca j cheia, como se fosse um mgico empurrando lenos 
de seda dentro da mo fechada. Bola s vezes ficava quase dez minutos na frente da geladeira aberta, abrindo vasilhas e potes, pegando pedaos de comida e botando 
direto na boca. Colin reprovava essa mania, como reprovava quase todos os outros aspectos do comportamento do filho.
     Srio, por que ela quer ajudar? - perguntou ele, engolindo um pedao de carne.
     Ela quer que a Clnica de Reabilitao Bellchapel continue aberta.
      uma drogada?
     No, no  uma drogada - respondeu Tessa, irritada, porque notou que Bola tinha acabado com os ltimos trs biscoitos de chocolate e deixado os pacotes vazios 
na prateleira. - Ela  assistente social e acha que a clnica est fazendo um bom trabalho. Papai quer mant-la funcionando, mas Miles Mollison acha que no vale 
a pena.
     No deve valer mesmo. Fields est cheio de cheiradores de cola e tomadores de pico.
     Tessa sabia que se tivesse dito que Colin queria fechar a clnica, Bola teria argumentado imediatamente a favor da sua manuteno.
     Voc devia ser advogado, Stu - disse ela, quando a tampa da chaleira comeou a chacoalhar.
     Ao voltar para a sala de estar com a bandeja, Tessa viu Kay mostrando a Colin um material impresso que ela tinha tirado de uma sacola grande.
     ...dois trabalhadores viciados, mantidos em parte graas ao Conselho e em parte graas  Associao de Combate ao Vcio, uma instituio muito boa. E foi a 
assistente social na clnica, Nina, que me deu tudo isso... Ah, obrigada - disse Kay, sorrindo para Tessa, que ps uma caneca de ch na mesinha ao seu lado.
     Kay simpatizou de cara com os Wall, como nunca tinha acontecido com ningum em Pagford. Tessa no a olhou de alto a baixo quando ela entrou na casa deles, no 
ficou procurando alguma imperfeio fsica nela, nem reparou no seu jeito de se vestir. O marido dela, embora nervoso, parecia decente e srio na sua determinao 
de impedir o abandono de Fields.
     Voc  de Londres? - perguntou Tessa, percebendo o seu sotaque e mergulhando um biscoito no ch. Kay assentiu. - E o que a trouxe a Pagford?
     Um relacionamento - disse Kay, sem o menor prazer em afirmar isso, mesmo agora que tinha se reconciliado oficialmente com Gavin. - No entendo muito bem qual 
a relao do Conselho Distrital com a clnica - retomou, voltando-se para Colin.
     Ah, o Conselho  dono do prdio - explicou ele. -  uma antiga igreja. E o contrato est terminando.
     Ento essa seria uma maneira fcil de for-la a sair de l.
     Exatamente. Quando foi que voc falou com Miles Mollison? - perguntou Colin, querendo saber se Miles tinha falado dele, mas tambm com medo do que ele poderia 
ter dito.
     Jantamos juntos numa sexta, h uns quinze dias - explicou Kay. - Gavin e eu...
     Ah, voc  a namorada de Gavin - interrompeu Tessa.
     Sou. E o assunto de Fields acabou vindo  tona...
     Ah, claro... - disse Tessa.
     ...Miles falou sobre a Bellchapel, e eu fiquei muito... muito consternada com a maneira como ele abordou todas aquelas questes. Eu lhe disse que estava trabalhando 
com uma famlia no momento - Kay se lembrou da indiscrio que tinha cometido mencionando os Weedon, e prosseguiu, tomando todo cuidado desta vez -, e que, se a 
me no recebesse a sua dose diria de metadona, muito provavelmente voltaria para as ruas.
     Me parece que voc est falando de Terri Weedon - comentou Tessa, com uma sensao estranha.
     ... Estou. Estou falando dela, sim - admitiu Kay.
     Tessa pegou outro biscoito.
     Sou a orientadora educacional de Krystal na escola. Essa deve ser a segunda vez que a me dela se trata na Bellchapel, no ?
     A terceira - respondeu Kay.
     Conhecemos Krystal desde que ela tinha cinco anos. Ela foi da turma do nosso filho na escola primria - disse Tessa. - A vida dela foi muito difcil mesmo.
     Muito - confirmou Kay. - E  impressionante que ela seja uma menina to encantadora.
     Ah, concordo plenamente - acrescentou Colin, com entusiasmo.
     Tessa ergueu as sobrancelhas, lembrando-se de que Colin tinha se recusado terminantemente a anular a deteno de Krystal depois do episdio do riso no ginsio. 
Ficou se perguntando, ento, com um aperto na boca do estmago, o que Colin diria se Sukhvinder no estivesse mentindo ou enganada. Mas com certeza estava. Ela era 
um menina tmida, ingnua. Provavelmente pegou o bonde andando... Ouviu mal alguma conversa...
     A questo  que praticamente a nica coisa que motiva Terri  o medo de perder os filhos - disse Kay. - Ela est no caminho certo no momento. A terapeuta que 
acompanha o seu caso na clnica me disse que ela est fazendo grandes progressos. Se a Bellchapel fechar, tudo vai por gua abaixo novamente, e s Deus sabe o que 
vai acontecer com aquela famlia.
     Isso tudo  muito til - disse Colin, balanando a cabea de um jeito que afetava importncia, e fazendo anotaes num arquivo novo no notebook. - Muito til 
mesmo. Voc disse que tem dados estatsticos dos pacientes que conseguiram ficar "limpos"?
     Kay folheou o material impresso  procura dessa informao. Tessa teve a impresso de que Colin queria monopolizar a ateno de Kay. Ele sempre foi suscetvel 
a boa aparncia e a solidariedade.
     Tessa mordeu mais um biscoito, ainda pensando em Krystal. As ltimas sesses de orientao no tinham sido muito satisfatrias. Krystal estava arredia, e hoje 
no foi diferente. Conseguiu faz-la prometer que no iria mais perseguir ou atormentar Sukhvinder Jawanda, mas a reao da menina mostrava claramente que estava 
desapontada com Tessa e que no confiava mais nela. A culpa era, provavelmente, da deteno que Colin lhe impusera. Tessa achava que elas tinham construdo uma ligao 
forte o suficiente para resistir a tudo isso, embora soubesse que no era como a ligao que Krystal tinha com Barry.
     (Tessa estava justamente l no dia em que Barry levou um aparelho de remo para a escola, procurando candidatas para a equipe que queria formar. Ela tinha sido 
mandada ao ginsio, porque a professora de educao fsica estava doente, e o nico substituto que puderam encontrar num tempo to curto era um homem.
     As garotas do quarto ano, com os seus shorts e tops, comearam a dar risadinhas quando chegaram ao ginsio e souberam que a srta. Jarvis tinha faltado e encontraram, 
no lugar dela, dois estranhos. Tessa teve que repreender Krystal, Nikki e Leanne, que vieram para a frente e ficaram fazendo observaes maliciosas sobre o professor 
substituto. Ele era um rapaz muito bonito que, infelizmente, corava com facilidade.
     Barry, baixinho, de cabelo e barba castanho-avermelhados, vestia um agasalho de ginstica. Havia tirado a manh de folga. Todo mundo achou aquela idia muito 
estranha e nada realista: escolas como a Winterdown no tinham equipes de remo. Niamh e Siobhan pareciam estar se divertindo, embora tambm estivessem constrangidas 
com a presena do pai.
     Barry explicou que estava l para formar uma equipe. Tinha conseguido uma licena para usar a velha marina nas margens do canal de Yarvil. O remo era um esporte 
fabuloso e daria a elas e  escola a oportunidade de se destacar. Tessa se manteve bem perto de Krystal e das suas amigas, para vigi-las. A pior parte das risadinhas 
j havia passado, mas ainda no estavam completamente sob controle.
     Barry fez uma demonstrao no aparelho de remo e perguntou se algum gostaria de experiment-lo. Ningum se apresentou.
     - Krystal Weedon - disse Barry, apontando para ela. - Vi voc se pendurando naquelas barras l do parque. Voc tem muita fora nos braos. Venha aqui experimentar.
     Krystal ficou radiante de estar em evidncia. Foi cambaleando de propsito at o aparelho e se sentou nele. Mesmo com Tessa encarando as duas com firmeza, Nikki 
e Leanne caram na gargalhada, e o resto da turma se juntou a elas.
     Barry mostrou a Krystal o que fazer. O professor substituto observava Barry pr as mos da menina no manete de madeira com uma certa apreenso profissional, 
mas no disse nada.
     Ela fingiu que puxava o manete com muito esforo, fazendo uma cara engraada para Nikki e Leanne, e todo mundo riu outra vez.
     Olhem para ela - disse Barry, sorrindo. - Leva o maior jeito para a coisa.
     Seria mesmo verdade? Como no entendia nada de remo, Tessa no poderia avaliar.
     Endireite as costas - disse Barry a ela - ou vai se machucar. Isso mesmo. Puxe... Puxe... Vejam como ela sabe... J fez isso antes?
     Krystal, ento, endireitou as costas e fez tudo certo. Parou de ficar olhando para Nikki e Leanne e pegou o ritmo.
     Excelente - elogiou Barry. - Olhem para isso... Excelente.  assim mesmo! E isso a, garota. Agora de novo. De novo. E...
     Isso di! - gritou Krystal.
 claro que di. Mas  assim que voc vai ficar com os braos iguais aos da Jennifer Aniston - disse Barry.
     Houve uma nova onda de risadas, mas, dessa vez, estavam rindo por causa dele. O que  que Barry tinha afinal? Sempre to presente, to natural, sem necessidade 
de agradar a quem quer que fosse.
     Tessa sabia muito bem que adolescentes morriam de medo de parecer ridculos. Aqueles que no tinham esse medo, e Deus sabe que havia alguns poucos no mundo 
dos adultos, exerciam uma autoridade natural sobre os jovens. Essas pessoas deviam ser obrigadas a dar aulas.
     E descansar! - exclamou Barry, e Krystal desabou, com o rosto vermelho, esfregando os braos.
     Vai ter que abrir mo do seu cigarrinho, Krystal - provocou Barry, e, dessa vez, o riso foi geral. - Ok, quem mais gostaria de experimentar?
     Krystal se juntou ao resto da turma; j no estava rindo. Observava cada uma das novas remadoras com cimes e depois olhava fixamente para o rosto barbado de 
Barry, tentando perceber o que ele estava achando delas. Quando Carmen Lewis se atrapalhou toda, Barry pediu:
     Mostre a elas como se faz, Krystal. - E o rosto da garota se iluminou quando voltou para o aparelho.
     Mas no fim da apresentao, quando Barry pediu que as interessadas em se candidatar a uma vaga na equipe levantassem a mo, Krystal permaneceu de braos cruzados. 
Tessa viu que ela balanava a cabea com desdm, ouvindo Nikki cochichar alguma coisa. Barry anotou os nomes das garotas interessadas e depois ergueu os olhos do 
papel.
     E voc, Krystal Weedon - afirmou ele, apontando para a menina. - Voc est na lista tambm. E no balance essa cabea para mim. Vou ficar muito chateado se 
voc no estiver l. Voc tem um talento natural, e no gosto de ver talentos naturais serem desperdiados. Krys... tal - disse em voz alta, pondo o nome dela na 
lista - Wee... don.
     Ser que Krystal pensou sobre o seu talento natural enquanto tomava banho depois da aula? Ser que carregou o dia inteiro, para baixo e para cima, aquela idia, 
como se tivesse recebido um carto inesperado de Dia dos Namorados? Tessa no saberia dizer. O mais surpreendente de tudo, porm, exceto talvez para Barry, foi que 
ela apareceu para fazer os testes.)
     Colin concordava vigorosamente com a cabea  medida que Kay lhe mostrava as taxas de reincidncia na Bellchapel.
     Parminder tem que ver isso - disse ele. - Vou entregar uma cpia para ela. , vai ser muito til mesmo.
     Sentindo-se ligeiramente enjoada, Tessa pegou um quarto biscoito.

X
     
     Nas segundas-feiras, como Parminder sempre trabalhava at tarde e Vikram normalmente estava no hospital, os trs filhos do casal botavam a mesa e preparavam 
o jantar para si mesmos. As vezes discutiam por bobagens; em outras riam o tempo todo. Hoje, porm, estavam to absortos nos seus prprios pensamentos que o trabalho 
foi feito com uma eficincia fora do comum e quase em silncio absoluto.
     Sukhvinder no contou ao irmo nem  irm que havia tentado matar aula, nem que Krystal Weedon tinha ameaado bater nela. Ultimamente o seu hbito de guardar 
segredos estava ainda mais forte. Tinha verdadeiro pavor de fazer confidncias, porque temia que elas pudessem revelar o mundo de estranheza que vivia dentro dela, 
o mundo em que Bola Wall parecia capaz de penetrar com uma facilidade assustadora. Ao mesmo tempo, sabia que os acontecimentos daquele dia no podiam ser escondidos 
indefinidamente. Tessa tinha lhe dito que pretendia ligar para Parminder.
     Tenho que ligar para a sua me, Sukhvinder,  o que sempre fazemos, mas vou explicar a ela por que voc fez isso.
     Sukhvinder quase sentiu um certo carinho por Tessa, mesmo ela sendo a me de Bola Wall. Com medo da reao da sua prpria me, uma minscula fagulha de esperana 
se acendeu dentro ela, imaginando que Tessa pudesse interceder a seu favor. Ser que a compreenso do desespero de Sukhvinder poderia, enfim, provocar uma ruptura 
na desaprovao implacvel da sua me, no seu desapontamento constante, no seu criticismo empedernido e sem fim?
     Quando a porta da frente se abriu, ela ouviu a me falando punjabi.
     Ah, no, essa maldita fazenda outra vez - rosnou Jaswant, que tinha aguado os ouvidos para escutar.
     Os Jawanda possuam um pedao de terra no Punjab que pertenceu aos seus antepassados e que Parminder, a filha mais velha, herdou do pai, j que ele no havia 
tido filhos homens. Jaswant e Sukhvinder j tinham conversado algumas vezes sobre o lugar que essa fazenda ocupava na vida da famlia. Elas achavam curioso, mas 
tambm divertido, que alguns dos seus parentes mais velhos vivessem na expectativa de que a famlia inteira fosse voltar para l um dia. O pai de Parminder mandou 
dinheiro para a fazenda durante toda a sua vida. Ela estava arrendada para uns primos em segundo grau, que pareciam sempre zangados e amargurados. A famlia da me 
discutia com freqncia por causa da fazenda.
     Vov ficou furiosa e j est brigando outra vez - traduziu Jaswant,  medida que a voz abafada da me penetrava pela porta.
     Parminder ensinou  primognita alguma coisa de punjabi, e Jazz aprendeu ainda mais com os primos. J Sukhvinder, por causa da sua dislexia to acentuada, no 
foi capaz de aprender duas lnguas ao mesmo tempo, e a me ento acabou desistindo.
     ...Harpreet continua querendo vend-la para a construo da estrada...
     Sukhvinder ouviu Parminder tirando os sapatos. Queria que a me no se aborrecesse com a fazenda, especialmente naquela noite, pois esse assunto nunca a deixava 
de bom humor. Quando Parminder empurrou a porta da cozinha, e o seu rosto parecia uma mscara de tanta tenso, Sukhvinder perdeu completamente a coragem.
     Parminder acenou para Jaswant e Rajpal, depois apontou para Sukhvinder e, em seguida, para uma das cadeiras da cozinha, indicando que ela devia se sentar e 
esperar a ligao terminar.
     Jaswant e Rajpal saram da cozinha rapidamente e foram para os seus quartos. Obedecendo ao comando silencioso da me, Sukhvinder ficou ali esperando, pregada 
 cadeira, junto  parede dos retratos, na qual sua relativa inadequao era exibida para quem quisesse ver. A ligao durou uma eternidade, at que finalmente Parminder 
se despediu e desligou.
     Quando a me se virou, Sukhvinder soube de imediato, antes mesmo que qualquer palavra fosse dita, que tinha sido um engano alimentar esperanas.
     Ento - disse Parminder -, Tessa ligou para falar comigo l no trabalho. Acho que voc sabe do que se trata.
     Sukhvinder assentiu. A sua boca parecia cheia de bolas de algodo.
     A ira de Parminder estourou como ondas numa correnteza, que iam arrastando Sukhvinder, impedindo-a de pr os ps no cho ou de se levantar.
     Por qu? Por qu? Voc est imitando a garota de Londres outra vez?... Est tentando impression-la? Jazz e Raj nunca se comportaram desse jeito, nunca... Por 
que voc faz isso? O que h de errado com voc? Por acaso tem orgulho de ser preguiosa e desleixada? Acha que  legal agir como uma delinqente? Como voc acha 
que me senti quando Tessa me contou? Ela ligou para o meu trabalho... Nunca fiquei to envergonhada... Voc s me d desgosto, est me ouvindo? Voc no tem tudo 
de que precisa aqui? No ajudamos voc? O que h de errado com voc, Sukhvinder?
     Desesperada, tentando interromper a fria da me, ela mencionou o nome de Krystal Weedon...
     Krystal Weedon! - gritou Parminder. - Aquela garota estpida! Por que se importa com o que ela diz? Voc disse a ela que tentei manter a droga da bisav dela 
viva? Voc disse isso a ela?
     Eu... no...
     Se vai ligar para o que os pares de Krystal Weedon dizem, ento no h mais esperana para voc. Talvez seja esse mesmo o seu mundo, no , Sukhvinder? Voc 
quer matar aula, trabalhar num caf e desperdiar todas as oportunidades de estudar que ns lhe damos? Acha que assim  mais fcil? Foi isso que voc aprendeu com 
Krystal Weedon naquela equipe... a descer at o nvel dela?
     Sukhvinder pensou em Krystal e na sua gangue, impacientes para atravessar a rua, esperando por uma brecha no trnsito. O que podia fazer para que a sua me 
entendesse? Uma hora antes chegou a fantasiar timidamente sobre a possibilidade de, enfim, poder contar  me sobre Bola Wall...
     Saia da minha frente! Vou falar com o seu pai quando ele chegar em casa... Saia daqui!
     Sukhvinder subiu as escadas. Jaswant a chamou da porta do seu quarto.
     O que foi essa gritaria toda?
     Sukhvinder no respondeu. Foi direto para o prprio quarto, fechou a porta e se sentou na beira da cama.
O que h de errado com voc, Sukhvinder?
Voc s me d desgosto.
Por acaso tem orgulho de ser preguiosa e desleixada?
     O que ela esperava? Ser abraada calorosamente e confortada? Quando tinha sido abraada e acolhida por Parminder? Havia mais conforto na lmina afiada da gilete 
escondida no seu coelho de pelcia; mas o desejo, que crescia e se tornava uma necessidade, de se cortar e de sangrar no podia ser satisfeito quela hora, com a 
famlia acordada e o seu pai a caminho de casa.
     O lago negro do desespero e da dor que existia em Sukhvinder e ansiava por libertao estava em chamas, como se tivessem despejado combustvel nas suas guas 
e ateado fogo.
Vamos ver como ela se sente.
     Ela se levantou, deu uns poucos passos at o outro lado do quarto e se jogou bruscamente na cadeira da escrivaninha, debruando-se sobre o teclado do computador.
     Sukhvinder havia ficado quase to interessada quanto Andrew Price quando o idiota daquele professor substituto tentou impression-los, dizendo que sacava tudo 
de computador. Ao contrrio de Andrew e de outros garotos, Sukhvinder no tinha bombardeado o professor com perguntas sobre hackers; simplesmente foi para casa em 
silncio e encontrou tudo on-line. Quase todo site moderno estava protegido contra a injeo SQL padro, mas quando Sukhvinder ouviu a sua me discutindo sobre o 
ataque annimo ao site do Conselho Distrital, pensou que a segurana daquele site velho e precrio devia ser mnima.
     Sukhvinder sempre achou que digitar era melhor que escrever, e ler os cdigos dos computadores, mais fcil do que uma longa sucesso de palavras. No foi difcil 
encontrar um site que desse instrues precisas para a mais simples forma de injeo SQL. E ento entrou no site do Conselho Distrital.
     Levou apenas cinco minutos para hackear o site, e s porque da primeira vez ela transcreveu errado o cdigo. Para o seu espanto, descobriu que quem quer que 
estivesse administrando o site no tinha removido o perfil do usurio de O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother da base, apenas deletado o post. Seria brincadeira de criana, 
ento, postar com o mesmo nome.
     Sukhvinder levou muito mais tempo para escrever a mensagem do que para hackear o site. Tinha guardado aquela acusao secreta durante meses, desde a vspera 
do Ano-Novo, quando notou, surpresa, o rosto da me, s dez para a meia-noite, l do canto da festa onde estava escondida. Digitou bem devagar. O corretor automtico 
a ajudou com a ortografia.
     No teve medo de que Parminder fosse checar o histrico do seu computador. Sua me sabia to pouco sobre ela e sobre o que acontecia naquele quarto que jamais 
suspeitaria da filha preguiosa, burra e desleixada.
     Sukhvinder apertou o boto do mouse como se fosse um gatilho.

XI
     
     Na tera pela manh, Krystal no levou Robbie para a escola. Em vez disso, o arrumou para o velrio da av Cath. Enquanto vestia o irmo com a cala menos surrada 
que ele tinha, que j estava uns bons cinco centmetros acima do seu tornozelo, tentava lhe explicar quem tinha sido a av Cath, mas estava gastando saliva  toa. 
Robbie no se lembrava da av Cath e nem sabia o que significava av. Os nicos parentes que ele conhecia eram a me e a irm. Apesar das insinuaes e histrias 
que nunca eram exatamente as mesmas, Krystal sabia que Terri no tinha a menor idia de quem era o pai dele.
     Ouviu os passos da me na escada.
     - Larga isso - disse para Robbie, que tinha pegado uma lata de cerveja vazia debaixo da poltrona preferida de Terri. - Vem.
     E saiu puxando Robbie pela mo at o corredor. Terri ainda estava com a cala do pijama e a camiseta suja com que tinha dormido, e com os ps descalos.
     Ainda no se trocou? - perguntou Krystal.
     No vou, no - disse Terri, empurrando os filhos para entrar na cozinha. - Mudei de idia.
     Por qu?
     No vou - respondeu Terri, acendendo um cigarro numa das bocas do fogo. - No tenho que ir merda nenhuma.
     Krystal ainda estava segurando a mo de Robbie, que a puxava e se balanava.
     Todo mundo vai - insistiu Krystal. - Cheryl e Shane e todo mundo.
     E da? - retrucou Terri, agressiva.
     Krystal tinha medo que a me pulasse fora no ltimo minuto. O velrio a deixaria cara a cara com Danielle, a irm que fingia que ela no existia, sem falar 
em todos os outros parentes que os haviam abandonado. Anne-Marie provavelmente estaria l. Krystal tinha se agarrado a essa esperana, como a uma tocha na escurido, 
em todas as noites que chorou pela av Cath e pelo sr. Fairbrother.
     Voc tem que ir - disse Krystal.
     Tenho nada.
      a v Cath - insistiu Krystal bem alto.
     E da? - retrucou Terri, novamente.
     Ela fez um monte de coisas pra gente - rebateu Krystal.
     Fez nada - cortou Terri.
     Fez, sim - afirmou a garota, com o rosto quente e a mo agarrando a de Robbie com fora.
     Pra voc, talvez - concordou Terri. - No fez merda nenhuma pra mim. Se voc quer ir se descabelar toda em cima da porra do caixo dela, pode ir. Eu vou ficar 
esperando aqui.
     Pra qu? - perguntou Krystal.
      coisa minha.
     A velha sombra j to conhecida se instalou entre elas.
     Obbo t vindo a, n?
      coisa minha - respondeu Terri, com uma dignidade pattica.
     Vem pro velrio - disse Krystal, mais alto.
     Vai voc.
     V se no usa porra nenhuma - ordenou Krystal, ainda mais alto.
     T - disse Terri, mas se virou e ficou olhando pela vidraa suja da janela o caminho no meio da grama alta e cheia de lixo que chamavam de quintal dos fundos.
     Robbie conseguiu se soltar e foi correndo para a sala de estar. Com as mos enfiadas nos bolsos do moletom e levantando os ombros, Krystal decidia o que fazer. 
Tinha vontade de chorar s de pensar em no ir ao velrio, mas o alvio de no ter que encarar aqueles olhos hostis, que encontrou algumas vezes na casa da av, 
diminua a sua tristeza. Estava zangada com Terri, mas, de alguma forma, entendia o lado dela. Voc nem sabe quem  o pai, n, sua puta? Queria encontrar Anne-Marie, 
mas estava assustada.
     T certo, vou ficar tambm.
     No precisa. Se voc quer ir, vai. No t nem a.
     Mas como tinha certeza de que Obbo apareceria, Krystal ficou. Obbo esteve fora por mais de uma semana, por causa de algum propsito escuso. Krystal queria que 
ele tivesse morrido e nunca mais voltasse.
     Para fazer alguma coisa, comeou a arrumar a casa, fumando um dos cigarros enrolados  mo que Bola Wall tinha lhe dado. No gostava desses cigarros, mas gostava 
de saber que era um presente dele. Estavam guardados naquela caixinha de jias de plstico, junto com o relgio de Tessa.
     Achou que no veria Bola nunca mais depois que eles treparam no cemitrio, porque ele no tinha falado nada quando acabaram e mal se despediu ao ir embora. 
Mas depois disso, j haviam se encontrado no parquinho. E pelo visto ele tinha gostado mais dessa vez do que da ltima: no estavam chapados, e ele no fez as coisas 
to depressa. Ficaram deitados um ao lado do outro, na grama, debaixo dos arbustos, fumando, e quando ela falou da morte da av Cath, ele lhe contou que a me de 
Sukhvinder Jawanda tinha dado  sua bisav a medicao errada ou algo parecido; no sabia muito bem o que havia acontecido.
     Krystal ficou horrorizada. Ento a av Cath no precisava ter morrido. Ainda podia estar na casinha toda arrumada da Hope Street, onde, se Krystal precisasse, 
encontraria o abrigo da cama confortvel com lenis limpos, da cozinha minscula, repleta de comida e loua desparelhada, da televisozinha no canto da sala de 
estar: Eu no quero ver porcaria, Krystal, desliga isso a.
     Krystal gostava de Sukhvinder, mas a me dela tinha matado a av Cath. E no se deve fazer distino entre os membros de uma tribo inimiga. Krystal declarou 
sua inteno de acabar com Sukhvinder, mas depois Tessa Wall entrou na histria. Krystal no se lembrava dos detalhes do que Tessa lhe disse, mas parecia que Bola 
tinha entendido tudo errado, ou, pelo menos, no tinha entendido direito. Muito a contragosto, prometeu a Tessa no ir atrs de Sukhvinder, mas esse tipo de promessa 
s podia ser mesmo temporria no mundo em constante mudana de Krystal.
     Larga isso - gritou Krystal para Robbie, que estava tentando abrir a tampa da lata de biscoitos onde Terri guardava as suas coisas.
     Arrancou a lata das mos do menino e a pegou como se estivesse segurando uma criatura viva, algo que fosse lutar para continuar vivendo e cuja destruio pudesse 
ter conseqncias terrveis. Havia uma imagem toda arranhada na tampa: uma carruagem cheia de bagagens empilhadas no teto, sendo puxada, pelo meio da neve, por quatro 
cavalos castanhos, com um cocheiro de cartola segurando uma cometa. Enquanto Terri fumava sentada na cozinha, Krystal levou a lata l para cima e a escondeu no seu 
quarto. Robbie a seguiu.
     Qu binc no pque...
     s vezes ela o levava e o empurrava no balano e no gira-gira.
     Hoje no, Robbie.
     O menino chorou at ela gritar para ele calar a boca.
     Mais tarde, quando estava escuro - depois que Krystal havia feito o macarro instantneo de Robbie e lhe dado um banho, e quando o velrio j havia terminado 
h muito tempo -, Obbo bateu  porta da frente. Krystal o viu pela janela do quarto do irmo e tentou chegar l embaixo primeiro, mas Terri j estava abrindo a porta.
     E a, Ter? - disse ele, ainda na soleira da porta, antes de ser convidado a entrar. - Me disseram que voc me procurou semana passada.
     Embora a irm tivesse lhe dito para ficar no quarto, Robbie a seguiu e desceu a escada. Dava para sentir o cheiro do seu cabelo recm-lavado com xampu misturado 
ao cheiro de cigarro e de suor azedo que exalava de Obbo e da sua velha jaqueta de couro. Obbo j tinha tomado umas e outras, e, quando sorriu maliciosamente para 
ela, Krystal pde sentir tambm o bafo de cerveja.
     E a, Obbo? - cumprimentou Terri, com aquele tom de voz conciliatrio, acomodado, que Krystal no percebia em outras ocasies, como que permitindo que aquele 
homem tivesse direitos naquela casa. - Onde voc tava?
     Bristol - respondeu ele. - T tudo bem, Ter?
     Ela no quer nada - interrompeu Krystal.
     Ele a observou, piscando por trs das lentes grossas dos culos. Robbie estava agarrando a perna da irm com tanta fora que ela podia sentir as unhas dele 
enfiadas na sua pele.
     Que que  isso, Ter? - gritou Obbo. -  a sua me?
     Terri riu. Krystal o encarou, com Robbie sempre agarrado  sua coxa. E foi para ele que Obbo voltou o olhar enevoado.
     E como t o meu garoto?
     Ele no  o seu garoto porra nenhuma.
     Como  que voc sabe? - perguntou Obbo calmamente, com um sorriso de deboche.
     Vai se foder. Ela no quer nada. Diz pra ele - gritava Krystal para a me. - Diz pra ele que voc no quer nada.
     Assustada e aprisionada entre aquelas duas vontades to mais fortes do que a dela prpria, Terri disse:
     Ele s veio ver...
     No veio ver nada - interrompeu Krystal. - No veio ver porra nenhuma. Diz pra ele. Ela no quer nada - rosnou a garota, feroz, voltando-se para aquela cara 
sorridente de Obbo. - Ela t limpa um tempo.
     Verdade, Terri? - perguntou Obbo, ainda sorrindo.
,  verdade - respondeu Krystal, j que Terri ficou muda. - Ela ainda t na Bellchapel.
     No por muito tempo - retrucou Obbo.
     Vai se foder! - exclamou Krystal, indignada.
     Vo fechar ela - disse Obbo.
     Vo mesmo? - indagou Terri, repentinamente em pnico. - Eles no vo fazer isso, vo?
     Claro que vo - respondeu Obbo. - To fazendo uns cortes.
     Voc no sabe de nada - disse Krystal. -  mentira - acrescentou, voltando-se para a me. - Eles no avisaram nada, avisaram?
     Cortes - insistiu Obbo, batendo nos bolsos cheios,  procura de cigarro.
     To reavaliando o nosso caso - lembrou Krystal. - Voc no pode usar nada. No pode usar!
     Que que  isso? - perguntou Obbo, brincando com o isqueiro, mas ningum respondeu. Terri encarou a filha por no mais do que dois segundos. Baixou os olhos, 
relutante, e viu Robbie de pijama, ainda agarrado  perna da irm.
     E, vou indo pra cama, Obbo - resmungou ela, sem olhar para ele. - A gente se v outro dia.
     Soube que a sua v morreu - disse ele. - Cheryl veio me contar.
     A dor contorceu o rosto de Terri. Ela parecia to velha quanto a av Cath.
     , eu vou pra cama. Vem, Robbie, vem comigo.
     Robbie no quis se soltar de Krystal com Obbo ainda ali. Terri estendeu aquela mo ossuda, que mais parecia uma garra.
     E, vai, Robbie - insistiu Krystal com o menino. Dependendo do seu estado de esprito, Terri abraava o filho como se ele fosse um ursinho de pelcia; melhor 
Robbie que tomar pico. - Vai. Vai com a mame.
     Algo na voz de Krystal tranqilizou o menino, que deixou que Terri o levasse l para cima.
     At mais - disse Krystal, sem olhar para Obbo, afastando-se dele bem depressa, indo na direo da cozinha. Tirou do bolso o ltimo cigarro dado por Bola Wall 
e se debruou sobre o fogo para acend-lo. Ouviu a porta da frente se fechar e se sentiu vitoriosa. Vai se foder.
     Voc ficou com uma bunda bem gostosa, Krystal.
     Com o susto, ela deu um pulo to grande que chegou a esbarrar nuns pratos que estavam empilhados ali do lado, e um deles se espatifou naquele cho imundo. Ele 
no tinha ido embora. Seguiu-a at a cozinha e agora estava olhando para o seu peito naquela camiseta apertada.
     Vai se foder, porra - gritou ela.
     Voc j t bem grandinha, hein?
     Vai se foder, filho da puta.
     Ouvi dizer que voc d isso tudo de graa - disse Obbo, se aproximando. - Pode ganhar mais grana do que a sua me.
     Seu filho da...
     Obbo colocou uma das mos no peito de Krystal. Ela usou toda a sua fora para se livrar daquela mo, mas ele a segurou pelo pulso com a outra. O cigarro que 
ela segurava queimou o rosto de Obbo, e ele lhe deu dois socos no ouvido. Mais pratos se espatifaram no cho, e ento, enquanto lutavam, ela escorregou e caiu, batendo 
com a parte de trs da cabea. Ele montou em cima dela e comeou a abaixar a sua cala.
     No, porra... Seu filho da puta... No!
     Sentia os dedos dele na sua barriga e percebeu que ele estava abrindo o zper da prpria cala... Tentou gritar, mas Obbo lhe deu uns tapas na cara... O cheiro 
daquele homem ficou impregnado nas suas narinas quando ele rosnou no seu ouvido:
     Se gritar, vou cortar voc.
     Ele entrou nela. Estava doendo muito. Krystal ouvia os grunhidos dele e o seu prprio choro abafado. Estava at com vergonha do barulho que fazia, to amedrontada 
e pequena debaixo dele.
     Obbo gozou e saiu de cima dela. Mais que depressa, a garota puxou a cala para cima e ficou de p, encarando-o. As lgrimas escorriam pelo seu rosto enquanto 
ele sorria com deboche.
     Eu vou contar pro sr. Fairbrother - se ouviu dizer, soluando. No sabia de onde tinha tirado aquilo. Era a coisa mais idiota que podia ter dito.
     Quem  esse merda? - perguntou Obbo, puxando o zper e acendendo um cigarro, sem pressa, bloqueando a passagem. - T fodendo com ele tambm, t, sua piranhinha?
     Foi andando pelo corredor e saiu porta afora.
     Krystal tremia como nunca antes na vida. Pensou que estivesse doente; podia sentir o cheiro dele em todo o seu corpo. A parte de trs da sua cabea latejava. 
Havia uma dor dentro dela e aquela coisa mida escorria para a sua calcinha. Foi para a sala de estar e ficou ali, de p, tremendo, os braos envolvendo o prprio 
corpo. Ento ficou com medo de que ele voltasse e correu at a porta da frente para tranc-la.
     De volta  sala de estar, achou uma guimba de cigarro no cinzeiro e a acendeu. Desabou na poltrona de Terri, fumando, tremendo e soluando. Ouviu passos na 
escada e deu um pulo. Terri entrou na sala, parecendo confusa e desconfiada.
     O que voc tem?
     Krystal gaguejou algumas palavras.
     Ele... Ele me fodeu.
     O qu? - perguntou Terri.
     Obbo... Ele...
     Ele no ia fazer isso.
     Era a mesma negao instintiva com a qual Terri encarava tudo na vida: ele no ia fazer isso, no, eu nunca, no, no usei.
     Krystal voou para cima dela e a empurrou. Magra como estava, Terri caiu para trs no meio do corredor, gritando e xingando. Krystal correu para a porta que 
tinha acabado de trancar, atrapalhando-se toda para abri-la novamente, e saiu correndo de casa.
     J tinha andado uns vinte metros na escurido da rua, ainda soluando, quando pensou que Obbo podia estar observando tudo, esperando por ela ali fora. Cortou 
caminho, correndo pelo jardim de um vizinho, e fez um trajeto sinuoso, pelos fundos, para chegar  casa de Nikki. Durante todo esse tempo, sentia a umidade se espalhando 
na sua calcinha e achou que ia vomitar.
     Krystal sabia que aquilo tinha sido um estupro. Era o que tinha acontecido com a irm mais velha de Leanne no estacionamento de uma boate em Bristol. Sabia 
que algumas garotas teriam ido  polcia, ela sabia. Mas voc no convida a polcia a entrar na sua casa quando a sua me  Terri Weedon.
Eu vou contar pro sr. Fairbrother.
     Ela soluava cada vez mais forte. Poderia ter contado para o sr. Fairbrother. Ele conheceu a realidade da vida. Um dos seus irmos tinha ido em cana. Ele lhe 
contou histrias da sua adolescncia. No, no tinha sido como a dela - ningum era to baixo quanto ela, sabia disso -, mas, sim, como a de Nikki e a de Leanne. 
Eles ficaram sem dinheiro, a sua me comprou uma casa financiada pelo Conselho, mas no conseguiu manter as prestaes em dia. Eles tiveram que viver por um tempo 
num trailer emprestado por um tio.
     O sr. Fairbrother tomava conta das coisas; ele resolvia as coisas. Foi  sua casa para conversar com Terri sobre o remo, porque tinha havido uma discusso, 
e ela estava se recusando a assinar os papis para Krystal viajar com a equipe. E no ficou enojado ali, ou pelo menos no demonstrou ter ficado, o que dava na mesma. 
Terri, que no gostava de ningum, no confiava em ningum, chegou a dizer "Ele parece gente boa" e assinou.
     Certa vez, o sr. Fairbrother lhe disse:
     - Vai ser mais difcil para voc do que para os outros, Krys. Foi mais difcil para mim tambm. Voc pode fazer melhor. No tem que seguir o mesmo caminho.
     Ele estava falando de dar duro na escola e essas coisas, mas j era muito tarde para isso, e, de todo modo, ela achava tudo aquilo um monte de besteiras. Saber 
ler direito ia ajudar em que agora?
E como t o meu garoto?
Ele no  o seu garoto porra nenhuma.
Como  que voc sabe?
     A irm de Leanne tinha tomado a plula do dia seguinte. Krystal perguntaria a Leanne sobre essa tal plula e ia tratar de conseguir uma. No podia ter um filho 
de Obbo. S de pensar nisso ficou com vontade de vomitar outra vez.
Vou cair fora daqui.
     Chegou a pensar em Kay, mas logo descartou essa idia: quase to ruim quanto ir  polcia era contar a uma assistente social que Obbo entrava e saa da sua 
casa, estuprando pessoas. Com certeza ela levaria Robbie embora se soubesse disso.
     Uma voz clara e lcida dentro da cabea de Krystal estava falando com o sr. Fairbrother, o nico adulto que dizia o que ela precisava ouvir, muito diferente 
da sra. Wall, to bem-intencionada e to cega, e da av Cath, que se recusava a ouvir toda a verdade.
Vou tirar Robbie daqui. Como eu fao pra me mandar? Eu vou me mandar.
     O seu nico refgio certo, a pequena casa na Hope Street, j estava sendo devorado por parentes disputando ninharias.
     Quase correndo, dobrou uma esquina, onde havia um poste de luz, sempre olhando para trs para ver se Obbo, por acaso, a estava observando ou seguindo.
     E, ento, a resposta veio at ela, como se o sr. Fairbrother tivesse lhe mostrado o caminho.
     Se ficasse grvida de Bola Wall, poderia ter a sua prpria casa financiada pelo Conselho. E poderia levar Robbie para morar com ela e o beb, se Terri voltasse 
a tomar pico. E Obbo jamais entraria na sua casa, jamais. Ia pr cadeados, correntes e fechaduras na porta, e a sua casa seria limpa, sempre limpa, como a da av 
Cath.
     Krystal praticamente corria pela rua escura e ia parando de soluar aos poucos.
     Os Wall provavelmente lhe dariam dinheiro. Eles eram assim. Podia imaginar a cara sem graa e preocupada de Tessa, debruando-se sobre um bero. Krystal teria 
o neto deles.
     Perderia Bola ficando grvida; eles sempre vo embora quando voc est esperando um filho. Era o que via acontecer quase sempre em Fields.
     Mas, talvez, ele pudesse se interessar; ele era muito estranho. No que isso importasse de alguma forma. O seu interesse por ele, tirando a parte de ser essencial 
para o plano dar certo, tinha se reduzido a quase nada. O que ela queria era o beb: ele era o meio para um determinado fim. Gostava de bebs. Amou Robbie desde 
sempre. Queria manter os dois a salvo, e juntos. Seria uma espcie de av Cath para a sua famlia, melhor, mais jovem e mais amorosa.
     Anne-Marie poderia visit-los, j que Krystal no estaria mais com Terri. Os seus filhos seriam primos. Uma imagem muito ntida de si mesma e de Anne-Marie 
se formou na cabea da garota: estavam no porto da escola St. Thomas, em Pagford, acenando para duas garotinhas de vestidos azul-claros e meias curtas.
     Como sempre, as luzes estavam acesas na casa de Nikki. Krystal comeou a correr.
     
     Parte Quatro
     
     Lunticos
     
     5.11 Para a jurisprudncia, os idiotas so considerados permanentemente incapacitados para o voto, mas as pessoas que sofrem de distrbios mentais podem votar 
durante intervalos de lucidez.
     
     Charles Amold-Baker 
     Administrao dos Conselhos Locais 
     7a edio
     I
     
     Samantha Mollison comprou os trs DVDs lanados pela banda favorita de Libby. Ela os mantinha escondidos na gaveta de meias-calas, ao lado do diafragma. E 
j tinha uma histria pronta para o caso de Miles encontr-los: eram um presente para a filha. Algumas vezes no trabalho, quando no havia praticamente movimento 
algum, ela procurava fotos de Jake na internet. Numa dessas buscas - Jake de terno, mas sem camisa; Jake de jeans e colete branco -, descobriu que a banda ia tocar 
em Wembley dali a duas semanas.
     Tinha uma amiga da poca da faculdade que morava em West Ealing. Poderia ficar na casa dela e vender a idia para Libby como uma chance nica, uma oportunidade 
de ficarem juntas. Com um entusiasmo genuno, que j no sentia h muito tempo, Samantha conseguiu comprar dois ingressos para os melhores lugares do show. Quando 
chegou em casa naquela noite, estava radiante com aquele segredo delicioso, quase como se estivesse vindo de um encontro.
     Miles j estava na cozinha, ainda com o terno do trabalho e com o telefone na mo. Viu quando ela entrou, e sua expresso estava estranha, difcil de decifrar.
     O que houve? - perguntou Samantha, ligeiramente na defensiva.
     No consigo falar com o papai. A droga do telefone est ocupado. Colocaram um novo post.
     Samantha pareceu no compreender direito, ento ele lhe explicou com impacincia:
     O Fantasma de Barry Fairbrother! Outra mensagem! No site do Conselho.
     Ah - disse ela, desenrolando a echarpe do pescoo. - Entendi.
, acabei de encontrar com Betty Rossiter, chegando da rua. Ela sabia de tudo. Entrei na rea de mensagens do site, mas no consegui ver. Mame j deve ter tirado 
do ar... Bem, espero que tenha feito isso mesmo.  ela quem vai estar na linha de fogo se Aluga-Ouvido procurar um advogado.
     Dessa vez foi sobre Parminder Jawanda? - indagou Samantha, com um tom propositadamente indiferente. No perguntou o que dizia o post porque estava decidida 
a no parecer intrometida e fofoqueira como Shirley e Maureen, e tambm por achar que j sabia o que tinham escrito: que Parminder era a responsvel pela morte da 
velha Cath Weedon. Depois de um ou dois minutos, acrescentou, mostrando-se vagamente interessada: - Por que disse que a sua me vai estar na linha de fogo?
     Ora, ela  a administradora do site, e portanto  responsvel por divulgar contedo difamatrio ou potencialmente difamatrio. No sei se ela e papai tm noo 
do quanto isso pode ser srio.
     Voc pode defender a sua me, ela ia adorar.
     Miles no ouviu o que ela disse. Apertou a tecla de rediscagem e franziu as sobrancelhas porque o celular do pai ainda estava ocupado.
     Isso est comeando a ficar srio - disse ele.
     Voc ficou bem feliz quando Simon Price foi atacado. Qual a diferena agora?
     Se isso  uma campanha contra os membros do Conselho ou contra quem est se candidatando...
     Samantha se virou para esconder o sorriso. Ento, a preocupao dele no era com Shirley.
     Mas por que algum escreveria alguma coisa sobre voc? - perguntou ela, toda inocente. - Voc no tem nada a esconder.
Talvez voc fosse bem mais interessante se tivesse.
     E aquela carta?
     Que carta?
     Deus do cu... Mame e papai disseram que receberam uma carta, uma carta annima sobre mim. Diziam que eu no era adequado para ocupar o lugar de Barry Fairbrother.
     Samantha abriu o congelador e ficou olhando para aquelas comidas pouco apetitosas ali dentro, consciente de que Miles no podia mais ver o seu rosto com a porta 
aberta.
     Voc no est achando que algum tem alguma coisa contra voc, est? - perguntou ela.
     No... Mas sou advogado, no sou? Deve ter gente por a com raiva de mim. No acho que essa coisa de carta annima... Quero dizer, at agora o alvo tem sido 
apenas o outro lado, mas pode haver represlias... No estou gostando nada do rumo que as coisas esto tomando.
     Bem, poltica  assim mesmo, Miles - disse Samantha, nitidamente se divertindo. -  um negcio sujo.
     Miles foi bufando para a sala, mas ela nem ligou. Seus pensamentos estavam voltados novamente para aquele rosto esculpido, aquelas sobrancelhas bem-desenhadas, 
aqueles msculos abdominais rgidos e definidos. Agora j tinha aprendido a maioria das msicas. Estava pensando em comprar uma camiseta da banda para usar - e uma 
para Libby tambm. Jake danaria a apenas alguns metros dela. Ia se divertir como no fazia h anos.
     Nesse meio-tempo, Howard andava de um lado para o outro, na delicatssen fechada, com o celular grudado no ouvido. As persianas estavam abaixadas, e as luzes, 
acesas, e do outro lado do salo, depois do vo formado pelo arco aberto na parede, Shirley e Maureen se ocupavam com os preparativos para a inaugurao do caf, 
que aconteceria em breve. As duas desempacotavam louas e copos, falando em voz baixa, mas animadas, e ouvindo Howard murmurar ao telefone monossilabicamente.
     Sim... Hum, hum... Claro...
     ...gritando comigo - disse Shirley. - Gritando e xingando: "Tire essa maldita mensagem imediatamente." E eu respondi: "Vou tirar, dra. Jawanda, mas agradeceria 
se no dissesse palavres."
     Se ela tivesse falado comigo assim, eu teria deixado l por mais algumas horas - disse Maureen.
     Shirley sorriu. Foi exatamente o que ela tinha feito. Resolveu ir tomar uma xcara de ch, deixando o post annimo sobre Parminder no site por mais uns quarenta 
e cinco minutos. Maureen e ela j tinham esmiuado cada detalhe daquele post at deixarem  mostra todas as suas nuances. Havia muitas possibilidades para discusses 
posteriores, mas a fome imediata estava saciada. Shirley, no entanto, j pensava com voracidade no que iria acontecer, na reao de Parminder depois de ter o seu 
segredo revelado.
     Ento no pode ter sido ela que colocou o post sobre Simon Price - observou Maureen.
     No, obviamente no foi ela - concordou Shirley, enquanto enxugava a loua azul e branca que escolhera, deixando de lado a rosa, que era a preferida de Maureen. 
s vezes, embora no diretamente envolvida nos negcios, Shirley gostava de lembrar a Maureen que ela ainda tinha uma influncia imensa ali, uma vez que era a esposa 
de Howard.
     Claro... - dizia ele ao telefone. - Mas no seria melhor que...? H, h...
     E quem voc acha que fez isso? - perguntou Maureen.
     Sinceramente, no fao a menor idia - respondeu Shirley com uma voz extremamente educada, como quem diz que no se rebaixa a esse tipo de informao ou suspeita.
     Algum que conhece os Price e os Jawanda - concluiu Maureen.
     Obviamente - disse Shirley.
     Finalmente Howard desligou.
     Aubrey concorda - disse para as duas, entrando no caf com aquele seu andar caracterstico. Estava com a edio do dia da Gazeta de Yarvil e Adjacncias nas 
mos. - Muito fraco. Realmente muito fraco.
     As duas mulheres levaram uns segundos para lembrar que deviam parecer interessadas no artigo pstumo de Barry Fairbrother, publicado no jornal local. O Fantasma 
de Barry era to mais interessante...
     Ah,  mesmo. Achei o artigo muito sem graa assim que o li - disse Shirley, se apressando em entrar no assunto.
     A entrevista com Krystal Weedon foi mais engraada - debochou Maureen. - Tentando nos fazer acreditar que ela tem algum interesse por arte. S se o que ela 
chama de arte for rabiscar as carteiras da escola.
     Howard deu uma gargalhada. Como desculpa para virar as costas, Shirley pegou do balco a injeo de adrenalina de Andrew Price que Ruth tinha deixado na delicatssen 
naquela manh, para o caso de uma emergncia. Shirley havia procurado se informar sobre isso no seu site de medicina favorito, e se sentia completamente apta a explicar 
como a adrenalina agia no corpo. Como ningum perguntou nada, ela ps o pequeno tubo branco no armrio e fechou a porta, fazendo tanto barulho quanto pde para interromper 
algum outro dito espirituoso de Maureen.
     O telefone tocou na mo imensa de Howard.
     Al? Ah, Miles, sei... J sabemos sobre o post. Mame o viu esta manh - disse ele, rindo. - J, j tirou... No sei... Acho que foi postado ontem... Ah, eu 
no diria isso. H anos que todo mundo sabia dessa histria de Aluga-Ouvido.
     Mas o bom humor de Howard foi murchando  medida que Miles falava. Depois de um tempo, ele disse:
     Sim, eu entendo... Claro. No, no tinha pensado nisso por esse... Talvez seja melhor chamar algum para dar uma olhada na segurana...
     O som de um carro l fora na praa, ao anoitecer, passou praticamente despercebido pelos trs dentro da delicatssen, mas o motorista viu a enorme sombra de 
Howard Mollison se mexendo por trs das persianas cor de creme. Gavin pisava fundo, ansioso para ver Mary. A voz dela estava desesperada no telefone.
     Quem est fazendo isso? Quem pode ser? Quem me odeia tanto assim?
     Ningum, Mary - disse ele. - Quem poderia odiar voc? No saia da. Estou indo o mais rpido que posso.
     Ele estacionou do lado de fora da casa, bateu a porta do carro com fora e correu pelo caminho da entrada. Ela abriu a porta da frente antes que ele batesse. 
Mais uma vez os seus olhos estavam inchados, cheios de lgrimas, e ela estava usando um robe de chenile que ia at o cho e fazia com que parecesse mais baixa. No 
era nem um pouco sedutor; era, na verdade, a anttese perfeita do quimono vermelho de Kay, mas a sua simplicidade, o seu desalinho indicavam que eles haviam alcanado 
um outro nvel de intimidade.
     Os quatro filhos de Mary estavam na sala. Ela, ento, com um gesto, o chamou para a cozinha.
     Eles sabem? - perguntou Gavin.
     S Fergus. Algum na escola contou a ele. E pedi que no comentasse nada com os outros. Sinceramente, Gavin... estou chegando ao meu limite... O rancor...
     No  verdade - disse Gavin, e ento a curiosidade suplantou o que havia de melhor dentro dele -, ou ?
     No! - exclamou ela, ultrajada. - Quer dizer... No sei... No a conheo... Mas faz-lo falar desse jeito... Pr palavras na sua boca... Eles no ligam para 
o que isso significa para mim?
     E caiu no choro novamente. Gavin sentiu que no devia abra-la enquanto estivesse vestindo aquele robe, e ficou feliz de no ter feito isso, pois Fergus entrou 
na cozinha logo em seguida.
     Oi, Gav.
     O garoto parecia cansado, mais velho do que era, com os seus dezoito anos. Gavin o viu abraar Mary, e ela recostou a cabea no ombro do filho, esfregando os 
olhos na manga do robe, como uma criana.
     No acho que seja a mesma pessoa - observou Fergus, sem fazer qualquer prembulo. - Dei uma lida na mensagem de novo. O estilo  completamente diferente.
     Ele tinha salvado a tal mensagem no celular e comeou a l-la em voz alta:
A conselheira dra. Parminder Jawanda, que se diz to devotada a cuidar dos pobres e carentes da regio, teve sempre um motivo secreto para as suas boas aes. Ela 
sempre foi...
     Fergus, no - disse Mary, deixando-se cair numa das cadeiras da mesa da cozinha. - No agento isso. Juro que no consigo. E ainda por cima o artigo dele saiu 
no jornal de hoje...
     Ela tapou o rosto com as mos e recomeou a chorar silenciosamente. Gavin, ento, viu a Gazeta de Yarvil e Adjacncias em cima da mesa. Nunca tinha lido esse 
jornal. Sem perguntar ou oferecer, foi at o armrio e lhe preparou um drinque.
     Obrigada, Gavin - disse ela, pensativa, quando ele lhe deu o copo.
     Deve ter sido Howard Mollison - sugeriu, sentando-se ao lado dela. - Por causa do que Barry disse sobre ele.
     No acredito - retrucou Mary, enxugando os olhos com a mo. -  muito cruel. Ele nunca fez nada parecido quando Barry estava - e deu mais um soluo - vivo.
     Voltando-se para o filho, pediu:
     Jogue esse jornal fora, Fergus.
     O garoto parecia confuso e magoado.
     Mas e o artigo do...
     Jogue fora! - insistiu Mary, com uma ponta de histeria na voz. - Posso ler no computador, se eu quiser. Foi a ltima coisa que ele fez no dia do nosso aniversrio 
de casamento.
     Fergus pegou o jornal em cima da mesa e ficou parado por um instante, olhando a me, que enterrou o rosto nas mos de novo. Ento, com um olhar rpido para 
Gavin, o rapaz saiu da cozinha, levando a Gazeta.
     Depois de alguns minutos, quando Gavin achou que Fergus no iria mais voltar, ps a mo no brao de Mary, acariciando-o para consol-la. Ficaram ali sentados 
por um tempo, e ele se sentia muito mais feliz sem o jornal na mesa.
     
     II
     
     Parminder no iria trabalhar na manh seguinte, mas tinha uma reunio em Yarvil. Assim que os filhos saram para a escola, comeou a organizar as coisas metodicamente, 
para ter certeza de que levaria tudo de que ia precisar. Quando o telefone tocou, ela levou um susto to grande que deixou a bolsa cair no cho.
     Al? - atendeu, com um grito agudo. Do outro lado da linha, Tessa ficou preocupada.
     Minda, sou eu... Voc est bem?
     Estou... estou... O toque do telefone me assustou - disse Parminder, recolhendo chaves, papis, moedas e tampes pelo cho da cozinha. - O que foi?
     Nada - disse Tessa. - S estou ligando para conversar e saber como voc est.
     O assunto do post annimo pairava entre elas como um monstro zombeteiro, se balanando na linha do telefone. Parminder quase no tinha deixado a amiga falar 
sobre isso durante a ligao da vspera. Ficou gritando sem parar:
 mentira, uma mentira imunda, e no venha me dizer que Howard Mollison no est por trs disso!
     Tessa no ousou insistir naquele assunto.
     No posso falar agora - disse Parminder. - Tenho uma reunio em Yarvil. A reviso do caso de um menininho com classificao de potencial situao de risco.
     Ah, tudo bem. Desculpe. Podemos nos falar mais tarde, ento?
     Claro - respondeu a mdica. - timo. At mais tarde.
     Parminder pegou as coisas que tinham cado da bolsa e saiu correndo de casa, voltando apressada do porto do jardim para ver se tinha trancado a porta direito.
     Enquanto dirigia, vrias vezes se deu conta de que no tinha noo do que se passara no ltimo quilmetro, e dizia a si mesma, com raiva, para prestar ateno. 
Mas as palavras maliciosas do post annimo voltavam a toda hora na sua cabea. Ela j sabia o texto de cor.
A conselheira dra. Parminder Jawanda, que se diz to devotada a cuidar dos pobres e carentes da regio, teve sempre um motivo secreto para as suas boas aes. Ela 
sempre foi apaixonada por mim, e mal conseguia esconder isso cada vez que me olhava. Em todas as reunies do Conselho, sempre votou de acordo com o que eu lhe dissesse. 
Agora que estou morto, ela ser intil como conselheira, porque perdeu o crebro que a comandava.
     Tinha visto a mensagem na manh do dia anterior, quando abriu o site do Conselho para checar a ata da ltima reunio. O choque foi quase fsico: a sua respirao 
se acelerou e ela ficou ofegante, como nos momentos mais excruciantes do trabalho de parto, quando tentava se abstrair da dor, se libertando da agonia daquele momento.
     Agora todo mundo saberia. No havia onde se esconder. Os pensamentos mais estranhos passavam pela sua cabea. Por exemplo, o que a sua av diria se soubesse 
que ela estava sendo acusada, em frum pblico, de amar o marido de outra mulher, um gora, um homem branco, alm de tudo. Quase conseguia ver a sua bebe cobrindo 
o rosto com uma das dobras do sri, sacudindo a cabea e balanando o corpo para a frente e para trs, como fazia toda vez que um golpe duro atingia a famlia.
     Alguns maridos iam querer saber se isso  verdade - tinha lhe dito Vikram na noite passada, e ela notou que havia uma contrao diferente no seu sorriso sarcstico.
 claro que no  verdade - respondeu, com uma das mos tremendo sobre a boca. - Como voc pode me perguntar uma coisa dessas?  claro que no  verdade. Voc o 
conhecia. Ele era meu amigo... Apenas um amigo!
     Estava passando pela Bellchapel. Como  que tinha chegado at ali sem perceber? Dirigia de maneira perigosa, porque no estava prestando a mnima ateno.
     Lembrou-se da noite em que ela e Vikram foram a um restaurante, quase vinte anos atrs, a noite em que concordaram em se casar. Ela lhe contou sobre o rebulio 
que a famlia tinha feito quando Stephen Hoyle a levou em casa, e ele tambm achou que aquilo no tinha cabimento algum. Naquela poca, ele tinha entendido. Mas 
no entendia quando era Howard Mollison que a acusava, e no os seus parentes tacanhos. Aparentemente, no percebia que goras podiam ser tacanhos, mentirosos e maldosos...
     Parminder passou da entrada do retorno. Tinha de se concentrar, tinha de prestar ateno.
     Estou atrasada? - perguntou, de longe, correndo pelo estacionamento, para se encontrar com Kay Bawden. Tinha visto a assistente social apenas uma vez na vida, 
quando ela foi ao seu consultrio pegar uma receita de plula anticoncepcional.
     De jeito nenhum - disse Kay. - Estou esperando para ir com voc at a sala de reunio porque l dentro  um verdadeiro labirinto.
     O Departamento de Assistncia Social de Yarvil ficava num prdio de escritrios horroroso da dcada de 1970. Enquanto subiam no elevador, Parminder ficou se 
perguntando se Kay sabia sobre o post annimo no site do Conselho, ou sobre as acusaes feitas contra ela pela famlia de Catherine Weedon. Imaginou a porta do 
elevador se abrindo e uma fila de pessoas de toga esperando para acus-la e conden-la. E se a reavaliao do caso de Robbie Weedon fosse apenas uma armadilha, e 
ela estivesse indo para o seu prprio julgamento...?
     Kay a conduziu pelo corredor da instituio, deserto e em pssimo estado, at a sala de reunio. Trs outras mulheres j estavam sentadas l e sorriram para 
Parminder.
     Essa  Nina, que trabalha com a me de Robbie na Bellchapel - disse Kay, sentando-se com as costas voltadas para as janelas com venezianas. - Essa  minha supervisora, 
Gillian, e essa  Louise Harper, que dirige a Pr-Escola Anchor Road. Dra. Parminder Jawanda, a mdica de Robbie - acrescentou Kay.
     Parminder aceitou um caf. As outras quatro mulheres comearam a conversar sem a incluir.
(A conselheira dra. Parminder Jawanda, que se diz to devotada a cuidar dos pobres e carentes da regio...
     Que se diz to devotada. Howard Mollison, seu desgraado. Ele sempre a achara uma hipcrita; Barry tinha lhe dito isso.
     Ele pensa que, s porque vim de Fields, quero que Pagford seja ocupada pelos yarvilianos. Mas voc, que  de classe mdia alta, ele acha que no tem o direito 
de estar do lado de Fields. Acha que voc  uma hipcrita ou gosta de fazer confuso s para se divertir.)
     ...entender por que a famlia tem um mdico de Pagford? - perguntou uma das trs assistentes sociais desconhecidas, cujo nome Parminder j tinha esquecido.
     Muitas famlias em Fields tm registro de sade em Pagford - disse Parminder imediatamente. - Mas acho que houve algum problema entre os Weedon e o mdico...
, eles foram expulsos da clnica de Cantermill - disse Kay, que tinha  sua frente uma pilha de papis maior do que qualquer outra ali.
     Terri atacou uma enfermeira. E ento eles foram mandados para voc. H quanto tempo?
     Quase cinco anos - respondeu Parminder, que tinha repassado todos os detalhes do caso na clnica.
     (Ela tinha visto Howard na igreja, no velrio de Barry, fingindo que estava rezando, com as mos gordas e grandes postas diante do peito, e os Fawley ajoelhados 
ao seu lado. Parminder sabia que os cristos supostamente acreditavam nisso. Ama ao teu prximo como a ti mesmo... Se Howard fosse honesto, ele se viraria para o 
lado e rezaria para Aubrey...
Ela sempre foi apaixonada por mim, e mal conseguia esconder isso, cada vez que me olhava...
     Ser que no conseguia mesmo?)
     ...a ltima vez que voc o viu, Parminder? - perguntou Kay.
     Quando a irm dele o levou  clnica por causa de uma infeco de ouvido - disse a mdica. - H uns dois meses.
     E como estava a sua condio fsica geral na poca? - perguntou uma das outras mulheres.
     De uma maneira geral, ele estava bem - respondeu Parminder, retirando da bolsa a cpia de registros. - Eu o examinei cuidadosamente, porque... bem, porque conheo 
o histrico da famlia. Ele estava com peso adequado, embora eu duvide que a sua dieta seja saudvel. No tinha piolhos nem lndeas ou algo do gnero. Estava um 
pouco assado, e lembro que a irm disse que s vezes ele ainda fazia xixi na cala.
     Elas pem fralda nele de vez em quando - disse Kay.
     Mas voc no teria maiores preocupaes com relao  sade dele? - indagou a mulher que tinha feito a primeira pergunta a Parminder.
     No havia nenhum sinal de maus-tratos - disse ela. - Tirei a roupa dele e examinei o seu corpo todo com bastante ateno. No havia hematomas ou qualquer outro 
tipo de machucado.
     No h nenhum homem na casa - interveio Kay.
     E a infeco no ouvido? - perguntou a supervisora.
     Foi uma infeco bacteriana bastante comum, que provavelmente se aproveitou de uma virose. Nada de estranho nisso. Tpico em crianas da idade dele.
     Ento, de um modo geral...
     J vi crianas em situaes bem piores - acrescentou Parminder.
     Voc disse que foi a irm que o levou  clnica e no a me? Voc tambm  mdica de Terri?
     Acho que no vejo Terri l na clnica h uns cinco anos - disse Parminder, e a supervisora se voltou para Nina.
     Como ela est indo com a metadona?
(Ela sempre foi apaixonada por mim...
Talvez o Fantasma seja Shirley ou Maureen, e no Howard... Era mais o feitio delas ficar prestando ateno em todos os detalhes, quando ela estava ao lado de Barry, 
querendo captar alguma coisa com as suas mentes sujas de mulher velha..., pensou Parminder.)
     ...at agora por mais tempo no programa - disse Nina. - Ela tem falado muito na reavaliao do caso. Tenho a impresso de que sabe que est tendo a sua ltima 
chance. E ela no quer perder Robbie. Disse isso algumas vezes. Acho que voc conseguiu que ela finalmente entendesse a situao, Kay. Percebo que ela est assumindo 
mais responsabilidades agora, pela primeira vez desde que a conheo.
     Obrigada, mas no quero ficar muito entusiasmada. A situao ainda  bastante precria - disse Kay. Aquelas palavras cautelosas, porm, contrastavam com o leve 
e irrepreensvel sorriso de satisfao em seu rosto. - E como vo as coisas na escola, Louise?
     Bom, ele voltou - disse a quarta assistente social. - H trs semanas que no falta nem um dia sequer, o que  uma mudana e tanto. A irm adolescente  que 
vai lev-lo. As roupas so pequenas demais para ele, e quase sempre sujas. Mas ele fala sobre a hora do banho e das refeies em casa.
     E o comportamento?
     Ele est atrasado no desenvolvimento. Sua linguagem  bem pobre, e ele no gosta de homens. Quando algum pai aparece na escola, ele no chega perto. Fica rodeando 
as professoras e ajudantes, e parece muito ansioso. E uma ou duas vezes - acrescentou, virando uma pgina das suas anotaes - ele fez com as menininhas menores 
ou perto delas gestos que imitavam nitidamente o ato sexual.
     Seja qual for a nossa deciso, acho que ele no deve ser retirado da classificao de potencial situao de risco - disse Kay, e houve um murmrio de aprovao 
na sala.
     Parece que tudo depende de Terri permanecer no programa ou no - disse a supervisora, voltando-se para Nina - e de ficar longe das drogas.
 isso mesmo, com toda a certeza - concordou Kay. - Mas estou preocupada tambm com o fato de que, mesmo que fique sem usar herona, ela no seja uma me de verdade 
para Robbie. Parece que Krystal  que cuida dele, e ela tem dezesseis anos e um monte de problemas tambm.
     (Parminder se lembrou do que ela disse para Sukhvinder duas noites atrs.
Krystal Weedon! Aquela garota estpida! Foi isso que voc aprendeu com a Krystal Weedon naquela equipe... a descer at o nvel dela?
     Barry gostava de Krystal. Via nela qualidades invisveis aos olhos das outras pessoas.
     Uma vez, j h um certo tempo, Parminder contou a Barry a histria de Bhai Kanhaiya, o heri sique que cuidava das necessidades dos feridos em combate, fossem 
eles amigos ou inimigos. Quando lhe perguntaram por que ele ajudava a todos indiscriminadamente, Bhai Kanhaiya respondeu que a luz de Deus brilha em todas as almas 
e que, por isso, ele no podia fazer distino entre os homens.
A luz de Deus brilha em todas as almas.
     Ela tinha chamado Krystal Weedon de estpida e dito que ela era de um nvel mais baixo.
     Barry nunca teria dito isso.
     Sentia-se envergonhada.)
     ...quando a bisav dava a eles algum suporte em termos de cuidado, mas...
     Ela morreu - disse Parminder, se apressando em dizer isso antes que algum o fizesse. - Enfisema e AVC.
     Isso mesmo - concordou Kay, ainda olhando para as prprias anotaes. - Ento voltamos a Terri. Ela esteve numa instituio quando era criana. Terri freqenta 
os grupos de orientao para pais?
     J lhe oferecemos, mas ela no tinha nenhuma condio de freqentar um grupo - explicou a representante da escola.
     Se ela concordasse em participar de um grupo e o freqentasse seriamente, seria um grande passo - observou Kay.
     Se fecharmos - disse Nina, que trabalhava na Bellchapel, se dirigindo a Parminder com um suspiro -, acho que ela vai ter que ir  sua clnica para receber a 
metadona.
     Tenho medo que ela no v - interrompeu Kay, antes que Parminder pudesse responder.
     O que voc quer dizer com isso? - perguntou a mdica, zangada.
     Todas as outras olharam para ela.
     Apenas que pegar nibus e se lembrar de compromissos no so o forte de Terri - disse Kay. - Para ir at a Bellchapel ela precisa apenas subir a rua.
     Ah - disse Parminder, mortificada. - Claro. Me desculpe. Claro, acho que voc tem toda a razo.
     (Pensou que Kay estivesse se referindo  acusao contra ela por causa da morte de Catherine Weedon, que achasse que Terri Weedon no confiaria nela por causa 
disso.
Concentre-se no que elas esto dizendo. O que h de errado com voc?)
     Ento, resumindo - props a supervisora, olhando para as suas prprias anotaes. - Temos aqui um caso de negligncia com intervalos de cuidados adequados. 
- Ela suspirou, mas havia mais exasperao do que tristeza nesse gesto. - A crise foi controlada. Terri no est mais se drogando, Robbie voltou para a escola, onde 
podemos ficar de olho nele, e no h nenhuma preocupao imediata quanto  sua segurana. Como disse Kay, ele deve permanecer na classificao de potencial situao 
de risco... E acho realmente que devemos marcar outra reunio sobre o caso daqui a um ms...
     A reunio demorou mais uns quarenta minutos.
     Depois Kay acompanhou Parminder at o estacionamento.
     Foi timo voc ter vindo pessoalmente. A maioria dos mdicos s envia o relatrio.
     Eu tinha a manh de folga - disse Parminder. A explicao para a sua presena na reunio era bem simples: odiava ficar sentada em casa sem ter o que fazer. 
Mas Kay achou que ela estava esperando mais elogios e no se fez de rogada.
     Quando chegaram ao carro da mdica, Kay lhe disse:
     Voc  membro do Conselho, no ? Colin lhe deu as estatsticas sobre Bellchapel que passei para ele?
     - Deu, sim - respondeu Parminder. - Seria muito bom se pudssemos conversar a respeito disso qualquer hora dessas. O assunto est na pauta da prxima reunio 
do Conselho.
     Mas quando Kay foi embora, depois de lhe dar o seu nmero de telefone e lhe fazer mais alguns sinceros agradecimentos, Parminder voltou a pensar em Barry, no 
Fantasma e nos Mollison. Estava passando por Fields quando aquela idia simples, que tanto tentou encobrir e abafar, conseguiu finalmente romper a barreira das suas 
defesas.
Talvez eu o tenha amado realmente.

III
     
     Andrew passou horas tentando decidir que roupa usar no seu primeiro dia de trabalho no Copper Kettle. Acabou escolhendo mesmo uma das roupas que estavam no 
encosto da cadeira no seu quarto. Uma espinha enorme tinha aparecido justamente hoje, com uma ponta de pus brilhante, no lado esquerdo do seu rosto. Andrew chegou 
ao cmulo de tentar disfar-la com a base de Ruth, que pegou escondido da gaveta da penteadeira da me. Estava na cozinha na noite de sexta, pensando em Gaia e 
nas sete horas que passaria junto dela e que ainda iam demorar para chegar, quando o seu pai voltou do trabalho num estado que ele jamais tinha visto. Simon parecia 
assustado, quase desorientado.
     Onde est a sua me?
     Ruth estava vindo da despensa, toda animada.
     Oi, Docinho de Coco. Como... O que houve?
     Tive que pedir demisso.
     Ruth ps as mos no rosto, horrorizada, depois correu para o marido e passou os braos pelo seu pescoo, abraando-o.
     Por qu? - sussurrou ela.
     Aquela mensagem - disse Simon. - Na porra do site. Eles fizeram Jim e Tommy se demitirem tambm. Era pedir demisso ou justa causa. Um acordo de merda. Eles 
no vo me pagar nem o que deram a Brian Grant.
     Andrew ficou absolutamente imvel, petrificando-se devagar como uma esttua de culpa.
     Merda - disse Simon, no ombro de Ruth.
     Voc vai arrumar outra coisa - sussurrou ela novamente.
     No aqui por perto - retrucou o marido.
     Ele se sentou numa das cadeiras da cozinha, ainda de casaco, e ficou olhando em volta, aparentemente muito aturdido para falar qualquer coisa. Ruth ficava dando 
voltas ao seu redor, consternada, carinhosa e  beira das lgrimas. Andrew ficou contente de detectar naquele olhar catatnico de Simon traos do seu costumeiro 
exagero teatral. Isso o fez se sentir um pouco menos culpado. Simon continuava sentado sem dizer uma palavra sequer.
     O jantar foi tenso. Paul, ao saber das novidades, ficou aterrorizado, porque o pai podia acus-lo de ter causado tudo isso. No incio da refeio, Simon agia 
como um mrtir cristo, ferido, mas digno diante da perseguio implacvel. At que...
     Vou pagar algum para acertar aquele gordo filho da puta pelas costas - explodiu, enquanto engolia uma colherada do crumble de ma, e a famlia entendeu que 
ele estava falando de Howard Mollison.
     Sabe, Si, colocaram outra mensagem no site do Conselho - disse Ruth, ofegante. - No foi apenas com voc. Shir... Me contaram l no trabalho. A mesma pessoa... 
o Fantasma de Barry Fairbrother... colocou algo terrvel sobre a dra. Jawanda. Ento Shirley e Howard chamaram algum para dar uma olhada no site, e a pessoa descobriu 
que seja l quem for que tenha escrito as mensagens estava usando o login de Barry Fairbrother. Ento, para dar mais segurana, eles o removeram... da base de dados 
ou coisa que o valha...
E isso vai trazer a porra do meu emprego de volta?
     Ruth no falou nada por alguns minutos.
     Andrew estava nervoso com o que a sua me tinha acabado de contar. Era preocupante que O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother estivesse sendo investigado, e assustador 
que outra pessoa tivesse seguido o seu exemplo.
     Quem mais teria a idia de usar o login de Barry Fairbrother, a no ser Bola? Mas por que Bola atacaria a dra. Jawanda? Ou era apenas mais uma maneira de implicar 
com Sukhvinder? Andrew no estava gostando nada disso...
     Qual  o problema? - rosnou Simon do outro lado da mesa.
     Nada... - murmurou Andrew, mas ento decidiu acrescentar: -  que estou chocado... ... Por voc ter perdido o emprego...
     Ah, voc est chocado, ? - vociferou Simon, e Paul deixou cair a colher, lambuzando-se todo de sorvete. - (Limpe isso, Paulinha, sua bichinha!) Esse  o mundo 
real, Cara de Pizza - gritou para Andrew. - Tem filhos da puta por toda a parte querendo derrubar a gente. Ento voc - e apontou para o filho mais velho -, trate 
de conseguir algum podre de Mollison, ou no precisa se preocupar em voltar para casa amanh!
     Si...
     Simon empurrou a cadeira para trs, jogou longe a colher, que caiu no cho com estardalhao, e saiu da cozinha, batendo a porta atrs de si. Andrew esperou 
pelo inevitvel e no se decepcionou.
     Foi um choque terrvel para ele - sussurrou Ruth para os filhos, tremendo. - Depois de todos esses anos de dedicao  empresa... E ele est preocupado, porque 
no sabe como vai cuidar de ns...
     Quando o despertador tocou s seis e meia da manh seguinte, Andrew o desligou com um tapa e literalmente pulou da cama. Sentindo-se como se fosse Natal, ele 
se lavou e se vestiu apressadamente, mas depois gastou quarenta minutos cuidando do cabelo e do rosto, espalhando pequenas pores de base por cima das espinhas 
mais visveis.
     Ficou esperando que Simon estivesse no corredor quando passou na frente da porta do quarto dos pais, mas no havia ningum ali, e, depois de engolir o caf 
da manh, saiu da garagem, pedalando a bicicleta de corrida de Simon, e desceu a colina em direo a Pagford.
     Era uma manh enevoada, o que prometia um belo dia de sol mais tarde. As persianas da delicatssen ainda estavam abaixadas, mas a porta se abriu quando ele 
a empurrou, fazendo soar uma campainha.
     Por a no - gritou Howard, se arrastando na direo dele. - Voc entra pelos fundos. E pode botar a bicicleta perto das lixeiras. Tire ela a da frente.
     Para chegar ao pequeno ptio de pedra, frio e mido, nos fundos da delicatssen, passava-se por um beco estreito. O ptio era cercado por muros altos, e havia 
ali umas lixeiras industriais de metal e um alapo que se abria para uma escada bem ngreme que levava ao poro.
     Voc pode prend-la a em qualquer lugar, desde que no atrapalhe a passagem - disse Howard, que apareceu na porta dos fundos, respirando com dificuldade e 
com o rosto todo suado. Enquanto Andrew lutava tentando fechar o cadeado da corrente, Howard enxugou a testa com o avental. - Certo, vamos comear pelo poro - disse 
ele, apontando para o alapo, quando Andrew terminou de prender a bicicleta. - Desa e d uma olhada l embaixo.
     Ele se debruou sobre a abertura enquanto Andrew descia os degraus. Havia muitos anos Howard j no conseguia descer ao seu prprio poro. Maureen geralmente 
cambaleava escada abaixo e acima algumas vezes por semana. Mas agora que as mercadorias se acumulavam para a abertura do caf, pernas mais jovens tinham se tornado 
indispensveis.
     D uma boa olhada em volta - gritou ele, quando j no podia mais ver Andrew. - Est vendo onde guardamos os bolos e a ptisserie? Os grandes sacos de gros 
de caf e as caixas de ch? E, no canto, est vendo o papel higinico e os sacos de lixo?
     Estou vendo, sim - respondeu Andrew, e a sua voz ecoou l das profundezas.
     Voc pode me chamar de sr. Mollison - disse Howard, com um tom levemente mordaz na voz rouca.
     L embaixo, no poro, Andrew se perguntava se devia comear a fazer isso imediatamente.
     Ok... sr. Mollison.
     Soou meio debochado, e ele se apressou em tentar desfazer essa impresso com uma pergunta interessada.
     O que tem dentro desses armrios grandes?
     D uma olhada - disse Howard, impaciente. -  para isso que est a. Para saber onde deve guardar as coisas e onde deve ir busc-las.
     Howard ouviu os sons abafados de Andrew abrindo as portas pesadas do armrio, e torceu para que o garoto no fosse muito idiota e no precisasse de muita orientao. 
A sua asma estava particularmente ruim hoje, o nvel de plen no ar devia estar bastante alto, e alm disso havia todo o trabalho extra, a excitao e os pequenos 
aborrecimentos com a inaugurao do caf. Estava suando tanto que talvez tivesse que ligar para Shirley lhe pedindo que trouxesse uma camisa limpa antes da abertura 
da loja.
     O furgo chegou - gritou Howard, quando ouviu o barulho do motor do outro lado do beco. - Suba aqui. Voc vai carregar as coisas at o poro e guard-las nos 
lugares certos, ok? E me traga cinco litros de leite para o caf, entendeu?
     Entendi... sr. Mollison - disse Andrew l de baixo.
     Howard foi voltando lentamente para pegar a bombinha que tinha deixado no bolso do casaco pendurado na sala dos funcionrios, atrs do balco da delicatssen. 
Depois de us-la, sentiu-se muito melhor. Enxugando o rosto com o avental outra vez, sentou-se numa das cadeiras que rangiam para descansar um pouco.
     Desde que foi ver a dra. Jawanda por causa da ferida na pele, Howard pensou vrias vezes no que ela tinha falado sobre o seu peso: que era a origem de todos 
os seus problemas de sade.
     Obviamente, uma tolice. Vejam o garoto dos Hubbard: um varapau, com aquela asma violenta. Howard sempre tinha sido grande, desde que se entendia por gente. 
Nas pouqussimas fotografias em que aparecia com o pai, que abandonou a famlia quando Howard tinha uns quatro, cinco anos, ele era apenas cheinho. Depois que o 
pai foi embora, a me ps Howard sentado na cabeceira da mesa, entre ela e a av, e ficava chateada se ele no repetisse o prato. Aos poucos, ele foi crescendo para 
preencher o espao entre as duas mulheres. Aos doze anos, j pesava tanto quanto o pai que os tinha deixado. Howard ento passou a associar um apetite voraz  masculinidade. 
O corpanzil era uma das suas caractersticas marcantes. E fora construdo, com prazer, pelas mulheres que o amavam. Pensou que era tpico de Aluga-Ouvido, aquela 
desmancha-prazeres castradora, querer que ele perdesse peso.
     Mas, s vezes, nos momentos de fraqueza, quando ficava difcil respirar ou andar, Howard sentia medo. Era muito fcil para Shirley fingir que o marido nunca 
tinha estado em perigo, mas ele se lembrava das longas noites no hospital depois da cirurgia de ponte de safena, quando no conseguia dormir com medo de que o seu 
corao vacilasse e parasse. Toda vez que via Vikram Jawanda, lembrava-se de que aqueles dedos escuros e longos tinham tocado o corao que batia no seu peito aberto. 
A cordialidade com que envolvia cada um desses encontros era a sua maneira de afastar o terror instintivo e primitivo. Tinham lhe dito no hospital, depois da cirurgia, 
que ele precisava perder um pouco de peso, mas j tinha emagrecido naturalmente treze quilos por causa daquela comida horrorosa, e Shirley estava determinada a engord-lo 
de novo assim que ele sasse de l.
     Howard ficou sentado por mais alguns minutos, desfrutando da facilidade de respirar depois de usar a bombinha. O dia de hoje seria muito importante. Trinta 
e cinco anos atrs, ele apresentou a Pagford todas aquelas iguarias finas, com o entusiasmo de um aventureiro do sculo XVI voltando para casa com delcias do outro 
lado do mundo. E Pagford, depois de uma desconfiana inicial, comeou a farejar timidamente o seu estoque com certa curiosidade. Pensou melancolicamente na me, 
que havia falecido recentemente e que sempre tivera orgulho dele e do seu tino para os negcios. Queria que ela estivesse ali para ver o caf. Howard se ergueu novamente, 
pegou o chapu Sherlock Holmes do cabideiro e o colocou cuidadosamente na cabea, como se estivesse coroando a si mesmo.
     As novas garonetes chegaram juntas s oito e meia. Ele tinha uma surpresa para elas.
     Tomem, isso  para vocs - disse, segurando os uniformes, uns vestidos pretos com um aventalzinho branco de babado, exatamente como tinha imaginado. - Devem 
caber. Maureen disse que sabia o tamanho certo. Ela tambm vai usar um.
     Gaia segurou o riso quando Maureen entrou na delicatssen vindo do caf e sorriu para elas. Ela estava usando tamancos Dr. Scholl com uma meia preta. E o seu 
vestido terminava uns cinco centmetros acima daqueles joelhos enrugados.
     Vocs podem se trocar na sala dos funcionrios, garotas - disse ela, indicando o lugar de onde Howard tinha acabado de sair.
     Gaia j estava tirando a cala jeans no banheiro dos funcionrios quando viu a expresso no rosto de Sukhvinder.
     Que que h, Sukh? - perguntou.
     O novo apelido lhe deu coragem para dizer o que, do contrrio, seria incapaz de pronunciar.
     No posso vestir isso - sussurrou ela.
     Por qu? - perguntou Gaia. - Vai ficar legal.
     Mas o vestido preto tinha mangas curtas.
     No posso.
     Por q... Minha nossa! - disse Gaia.
     Sukhvinder tinha arregaado as mangas do suter. A parte interna dos seus braos estava coberta de cicatrizes e de cortes recm-fechados, que iam do pulso at 
quase o ombro.
     Sukh - disse Gaia baixinho. - Que que voc anda fazendo?
     Sukhvinder balanou a cabea, com os olhos cheios de lgrimas.
     Gaia pensou por um momento e ento disse:
     J sei... Venha.
     Ela estava tirando a camiseta de manga comprida.
     Algum empurrou a porta com fora, e o ferrolho, que no estava no lugar certo, se abriu: Andrew, suando em bicas, j ia entrando, carregando dois pacotes enormes 
de papel higinico, quando um grito zangado de Gaia o deteve. Ele voltou tropeando na direo de Maureen.
     Elas esto se trocando l dentro... - repreendeu-o Maureen, com um tom ferino na voz.
     O sr. Mollison me disse para guardar esses pacotes no banheiro dos funcionrios.
     Caralho, caralho. Ela estava s de calcinha e suti. Ele tinha visto quase tudo.
     Desculpe - gritou Andrew na frente da porta fechada. O seu rosto chegava a latejar de to vermelho.
     Punheteiro - resmungou Gaia do outro lado. Estava entregando a camiseta para Sukhvinder. - Ponha por baixo do vestido.
     Vai ficar estranho.
     Azar. Voc arranja uma preta para a semana que vem. Vai parecer que voc s usa mangas compridas. Ns contamos uma histria qualquer... Eczema, ela t com eczema 
- anunciou Gaia, quando saram da sala dos funcionrios, vestidas e de avental. - Pelo brao todo. T soltando uma casquinha.
     Ah... - disse Howard, olhando para os braos brancos da camiseta de Sukhvinder, e depois outra vez para Gaia, que estava deslumbrante, como ele havia imaginado.
     Vou arranjar uma camiseta preta na semana que vem - disse Sukhvinder, incapaz de olhar nos olhos de Howard.
     Tudo bem - exclamou ele, dando tapinhas na parte de baixo das costas de Gaia, bem acima da sua cintura, indicando que elas fossem para o caf. - Preparem-se 
- disse a todos os funcionrios. - Vamos abrir em alguns instantes... Por favor, Maureen, abra as portas!
     J havia um pequeno grupo de clientes esperando na calada. Um cartaz do lado de fora dizia: Copper Kettle - Inaugurao hoje - Primeiros cafs de graa!
     Por horas a fio Andrew no viu mais Gaia. Howard o manteve ocupado, carregando leite e suco de fruta para cima e para baixo, pelas escadas do poro, e esfregando 
o cho da pequena cozinha dos fundos. E o seu horrio de almoo foi antes do das duas garonetes. S vislumbrou Gaia rapidamente quando Howard o convocou l no balco 
do caf, e eles se cruzaram, passando a poucos centmetros um do outro, ela indo na direo da sala dos fundos.
     Estamos cheios de trabalho, sr. Price - disse Howard, de muito bom humor. - Pegue um avental limpo e passe um pano nas mesas para mim, enquanto Gaia almoa.
     Miles e Samantha Mollison se sentaram com as duas filhas e Shirley na mesa da janela.
     Parece que as coisas esto indo s mil maravilhas, no  mesmo? - disse Shirley, dando uma olhadinha em volta. - Mas o que a garota dos Jawanda est usando 
por baixo do vestido?
     Ataduras? - sugeriu Miles, apertando os olhos.
     Oi, Sukhvinder - gritou Lexie, que a conhecia da escola primria.
     No grite, querida - repreendeu Shirley, o que deixou Samantha irritada.
     Maureen saiu de trs do balco com o seu vestido curto preto e o avental de babado, e Shirley comeou a rir.
     Ah, querida - disse ela calmamente, vendo Maureen se aproximar radiante.
     Era verdade, pensou Samantha, Maureen estava ridcula, especialmente ao lado das duas garotas de dezesseis anos que usavam o mesmo uniforme, mas no daria a 
Shirley a satisfao de concordar com ela. Ela se virou ostensivamente para o outro lado, vendo o garoto que limpava as mesas ao redor. Ele era magro, mas tinha 
ombros suficientemente largos. Dava para ver os seus msculos debaixo da camiseta folgada. Era incrvel pensar que o traseiro grande e gordo de Miles j tinha sido 
to pequeno e rijo... Ento o garoto virou para a luz, e ela viu as suas espinhas.
     No est nada mal, no ? - disse Maureen, com aquela sua voz rouca, dirigindo-se a Miles. - O caf ficou lotado o dia inteiro.
     Certo, meninas - disse Miles. - E que tal se a gente aumentasse os lucros do vov?
     Samantha imediatamente pediu uma sopa quando Howard veio se arrastando l da delicatssen. Ele ficou andando de um lado para o outro o dia todo, entrando no 
caf a cada dez minutos para cumprimentar os clientes e checar o dinheiro no caixa.
     Um tremendo sucesso - disse a Miles, se apertando na mesa. - O que achou, Sammy? Ainda no tinha visto, tinha? Gostou da pintura na parede? E da loua?
     Ah... - disse Samantha. - Est lindo.
     Eu estava pensando em comemorar os meus sessenta e cinco anos aqui - disse Howard, distraidamente coando a ferida que os cremes de Parminder ainda no tinham 
curado -, mas no  grande o suficiente. Acho que vamos ter que ficar com o salo da igreja.
     Quando vai ser, vov? - perguntou Lexie, toda animada. - Eu posso ir?
     Dia 29. Voc est com... dezesseis?... Claro que pode ir - disse Howard, feliz.
     Dia 29? - perguntou Samantha. - Ah, mas...
     Shirley lhe deu uma olhada.
     Howard est planejando isso h meses. Temos falado sobre isso o tempo todo.
     ... a noite do show de Libby - disse Samantha.
      alguma coisa da escola? - perguntou Howard.
     No - respondeu Libby. - Mame comprou ingressos para o show da minha banda favorita.  em Londres.
     E eu vou junto - disse Samantha. - Ela no pode ir sozinha.
     A me de Harriet falou que ela podia...
     J disse que, se voc vai para Londres, eu vou com voc, Libby.
     Dia 29? - perguntou Miles, olhando feio para Samantha. - O dia seguinte  eleio?
     Samantha soltou a gargalhada de deboche que tinha deixado de dar quando viu Maureen.
     E o Conselho Distrital, Miles. No vai haver coletiva de imprensa.
     Bom, vamos sentir a sua falta, Sammy - disse Howard, se levantando com a ajuda do encosto da cadeira. - Melhor pegar um... Certo, Andrew, voc j acabou aqui... 
V ver se precisamos de alguma coisa do poro.
     Andrew teve de esperar ao lado do balco que as pessoas passassem, indo e voltando do banheiro. Maureen estava entregando a Sukhvinder pratos de sanduches.
     Como est a sua me? - perguntou  garota repentinamente, como se a idia tivesse acabado de lhe ocorrer.
     Bem - respondeu Sukhvinder, ficando vermelha.
     No est muito chateada com aquelas coisas desagradveis que escreveram sobre ela no site do Conselho?
     No - disse Sukhvinder, com lgrimas nos olhos.
     Andrew seguiu para o ptio dos fundos, que agora, no incio da tarde, era quente e ensolarado. Ele tinha esperana de que Gaia estivesse ali, pegando um pouco 
de ar, mas ela devia ter ido para a sala dos funcionrios. Desapontado, acendeu um cigarro. Mal tinha acabado de aspirar a fumaa, Gaia surgiu do caf. Havia terminado 
de almoar e estava com uma lata de refrigerante na mo.
     Oi - disse Andrew, com a boca seca.
     Oi - disse ela. Ento, depois de um ou dois minutos, perguntou:
     Ei, por que aquele seu amigo  to filho da puta com Sukhvinder?  pessoal ou ele  racista?
     Ele no  racista - respondeu Andrew. E tirou o cigarro da boca, tentando manter as mos firmes, sem tremer, mas no pde pensar em mais nada para falar. O 
sol que batia nas lixeiras aquecia as suas costas suadas. A proximidade dela, naquele vestidinho preto apertado, o massacrava, especialmente agora que j tinha vislumbrado 
o que havia ali debaixo. Deu mais uma tragada, sem saber quando se sentiu assim antes, to deslumbrado, to vivo.
     O que foi que ela fez para ele, ento?
     A curva dos quadris para a cintura fina, a perfeio dos olhos grandes e cheios de manchinhas esverdeadas por cima da lata de Sprite. Andrew teve vontade de 
dizer: Nada, ele  um babaca. Posso bater nele se me deixar tocar em voc...
     Sukhvinder apareceu no ptio, piscando por causa da luz do sol. Estava muito desconfortvel e com calor por causa da camiseta de Gaia.
     Ele est chamando voc - disse a garota.
     Ele que espere - retrucou Gaia tranqilamente. - Estou terminando aqui. S gastei quarenta minutos da hora do almoo.
     Andrew e Sukhvinder ficaram olhando a garota dar outro gole no refrigerante, embasbacados com a sua arrogncia e a sua beleza.
     Aquela vaca velha estava dizendo alguma coisa sobre a sua me? - perguntou Gaia.
     Sukhvinder assentiu.
     Eu acho que deve ter sido o amigo dele - disse a garota, encarando Andrew novamente, e ele achou a nfase no dele extremante sensual, mesmo que a inteno fosse 
depreci-lo - que ps a mensagem sobre a sua me no site.
     No pode ser - disse Andrew, e a sua voz vacilou ligeiramente.
     Quem quer que tenha feito isso atacou o meu pai tambm, h duas semanas.
     O qu? - perguntou Gaia. - A mesma pessoa postou alguma coisa sobre o seu pai?
     Ele fez que sim, feliz com o interesse dela.
     Alguma coisa sobre roubo, no foi? - perguntou Sukhvinder, com um atrevimento notvel.
 - disse Andrew. - E ele foi mandado embora ontem. Ento, a me dela - e encarou os olhos brilhantes de Gaia quase com firmeza - no  a nica que est sofrendo.
     Que merda - disse Gaia, virando a lata de cabea para baixo e, em seguida, jogando-a na lixeira. - As pessoas aqui so completamente doidas.
     
     
     
     
     
     IV
     
     O post sobre Parminder no site do Conselho fez os medos de Colin Wall atingirem nveis de pesadelo. No tinha a menor idia de onde os Mollison estavam recebendo 
informaes, mas se sabiam disso sobre Parminder...
     - Pelo amor de Deus, Colin! - exclamou Tessa. - E apenas uma fofoca maldosa! No tem fundamento nenhum.
     Mas Colin no teve coragem de acreditar nela. Era dado, por temperamento, a pensar que os outros tambm viviam escondendo segredos que os deixavam loucos. E 
nem ao menos podia encontrar algum conforto no fato de que tinha vivido a maior parte da sua vida adulta com medo de catstrofes que no aconteceram, porque, pela 
lei das probabilidades, isso no significava que elas no pudessem vir a acontecer de fato, um dia desses.
     Estava pensando sobre a sua exposio iminente, como de costume, enquanto voltava do aougue s duas e meia, e s percebeu onde estava quando o tumulto na frente 
do novo caf chamou a sua ateno. Teria atravessado para o outro lado da praa se j no estivesse bem na frente do Copper Kettle. A proximidade com qualquer um 
dos Mollison agora o assustava. E, ento, viu algo pela vidraa da janela do caf que o fez entender tudo.
     Quando entrou na cozinha de casa dez minutos depois, viu Tessa ao telefone, falando com a irm. Colocou a perna de cordeiro na geladeira e subiu as escadas, 
direto para o quarto de Bola, no sto. Empurrou a porta de repente e, como esperava, o quarto estava vazio.
     Nem se lembrava da ltima vez em que tinha estado ali. O cho estava coberto de roupa suja. E havia um cheiro estranho, embora Bola deixasse sempre a clarabia 
aberta. Colin notou uma caixa de fsforos grande sobre a escrivaninha. Ele a abriu e viu, quase sem acreditar, pequenas baganas. Perto da caixa, ao lado do computador, 
para quem quisesse ver, havia uma embalagem daquelas folhas finas para enrolar cigarros.
     O corao de Colin batia to forte que parecia que ia sair pela boca.
     Colin? Onde voc est? - perguntou Tessa l de baixo.
     Aqui em cima! - grunhiu ele.
     Ela apareceu na porta do quarto de Bola com um ar assustado, ansioso. Sem dizer nada, ele pegou a caixa de fsforos e mostrou a ela o que havia l dentro.
     Ah - exclamou Tessa baixinho.
     Ele disse que ia sair com Andrew Price hoje - prosseguiu Colin. Tessa ficou assustada ao ver o msculo na mandbula de Colin pulsando, para baixo e para cima. 
- Acabei de passar pelo novo caf na praa, e Andrew Price est trabalhando l, limpando as mesas. Ento, onde est Stuart?
     Por vrias semanas, Tessa tinha fingido acreditar no filho quando ele dizia que ia sair com Andrew. Ela ficava afirmando para si mesma que Sukhvinder devia 
estar enganada em pensar que Bola estava saindo (ou teria de algum modo consentido em sair) com Krystal Weedon.
     No sei - respondeu ela. - Vamos descer que eu fao um ch para voc. Vou ligar para ele.
     Acho que vou esperar aqui - disse Colin, sentando-se na cama toda desarrumada.
     Venha, Colin... Venha comigo - pediu Tessa.
     Ela estava apavorada de deix-lo ali no quarto. No sabia o que ele podia achar nas gavetas ou na mochila de Bola. E no queria que ele ficasse vasculhando 
o computador ou debaixo da cama. Alimentava ainda mais segredos, recusando-se terminantemente a tirar aquela histria a limpo.
     Venha, Colin. Vamos l para baixo - insistiu ela.
     No - disse Colin, e cruzou os braos como se fosse uma criana mimada, com aquele msculo saltando na mandbula. - Usando drogas... O filho do vice-diretor!
     Tessa se sentou na cadeira da escrivaninha em frente ao computador e comeou a sentir que a mesma raiva de sempre tomava conta dela. Sabia que se preocupar 
consigo mesmo era uma conseqncia inevitvel da doena de Colin, mas s vezes...
     Muitos adolescentes experimentam... - principiou Tessa.
     Voc ainda o defende, no ? Ser que no percebe que  justamente porque voc est sempre passando a mo na cabea de Stuart que ele acha que pode se safar 
de qualquer situao sem maiores conseqncias?
     Ela estava tentando manter a raiva sob controle, porque sabia que devia ser um elo entre os dois.
     Desculpe, Colin, mas voc e o seu trabalho no so as nicas coisas que existem...
     Sei, ento se eu for demitido...
     Por que cargas-d'gua voc seria demitido?
     Pelo amor de Deus - gritou Colin, indignado. - Isso tudo me atinge... As coisas j esto muito ruins... Ele  o aluno mais problemtico da...
     Isso no  verdade - retrucou Tessa. - Ningum, a no ser voc, acha que o Stuart  um adolescente problemtico. Ele no  Dane Tully.
     Mas est indo pelo mesmo caminho... Usando drogas...
     Eu disse que voc devia t-lo mandado para a Paxton High. Sabia que, se ele fosse para a Winterdown, voc ia achar que tudo o que ele fizesse era um ataque 
pessoal! No me admira que ele esteja se rebelando, j que tudo o que ele faz ou deixa de fazer acaba se refletindo em voc. Nunca quis que Stuart fosse para a sua 
escola.
     E eu - explodiu Colin, se levantando da cama bruscamente - nunca o quis de jeito nenhum.
     No diga uma coisa dessas - gaguejou Tessa. - Sei que est com raiva... Mas no diga uma coisa dessas.
     A porta da frente bateu l embaixo. Tessa olhou ao seu redor, assustada, como se Bola pudesse se materializar instantaneamente ao lado deles. Mas no foi apenas 
o barulho que a assustou. Stuart nunca batia a porta; ele normalmente entrava e saa sorrateiramente, como se deslizasse por entre as frestas.
     Ouviu os passos do filho na escada... Ser que sabia ou suspeitava que eles estavam no seu quarto? Colin ficou esperando, com os punhos cerrados ao lado do 
corpo. Tessa ouviu aquele ltimo degrau que rangia, e ento Bola apareceu na frente deles. Tinha certeza de que ele havia estudado aquela expresso antes de entrar: 
uma mistura de tdio e desdm.
     Boa tarde - disse o garoto, olhando da me para o pai, rgido e tenso. Ele tinha a serenidade que Colin jamais teve. - Que surpresa!
     Desesperada, Tessa tentou preparar o terreno.
     Papai estava preocupado porque no sabamos onde voc estava - disse ela, com um tom de splica na voz. - Voc disse que ia sair com Arf hoje, mas papai viu...
     E, mudana de planos - disse Bola.
     Ele olhou de relance para o lugar onde tinha deixado a caixa de fsforos.
     Ento voc no quer nos contar onde esteve? - perguntou Colin. Havia manchas brancas em volta da sua boca.
     Claro, se vocs querem saber... - respondeu Bola, e esperou pela reao deles.
     Stu... - disse Tessa, meio sussurrando, meio gemendo.
     Sa com Krystal Weedon - declarou ele.
Ah, Deus do cu, no, pensou Tessa. No, no, no...
     Voc o qu? - indagou Colin, to surpreso que se esqueceu de colocar agressividade na voz.
     Eu sa com Krystal Weedon - repetiu Bola, um pouco mais alto.
     E desde quando - disse Colin, depois de uma breve pausa - ela  sua amiga?
     Tem um tempo - respondeu o garoto.
     Tessa percebeu que o marido lutava para fazer uma pergunta absurda demais para ser formulada.
     Voc devia ter nos contado, Stu - disse ela.
     Contado o qu? - perguntou ele.
     Ela estava com medo de que aquela discusso tomasse um rumo perigoso.
     Aonde voc estava indo - respondeu ela, levantando-se e tentando no demonstrar nenhuma emoo. - Da prxima vez, ligue para a gente.
     Tessa olhou para Colin na esperana de que ele fosse seguir o seu exemplo, andando na direo da porta. Mas ele ficou parado no meio do quarto, olhando para 
Bola com horror.
     Voc est... envolvido com Krystal Weedon? - perguntou Colin.
     Pai e filho se encararam. Colin era mais alto alguns centmetros, mas era Bola que tinha o poder.
     "Envolvido"? - repetiu o garoto. - O que voc quer dizer com "envolvido"?
     Voc sabe muito bem... - retrucou Colin, com o rosto ficando vermelho.
     Voc quer saber se eu t trepando com ela?
     O gritinho de Tessa, "Stu!", foi completamente abafado pelo berro de Colin, "Como  que voc se atreve?!".
     Bola ficou apenas olhando para Colin, com um sorriso de deboche. Tudo nele era desafio e ironia.
     O qu?! - perguntou Bola.
     Voc est... - cada vez mais vermelho, Colin tentava achar as palavras - ...dormindo com Krystal Weedon?
     E se eu tivesse, algum problema? - objetou ele, e olhou para a me enquanto dizia: - Vocs esto tentando ajudar Krystal, no esto?
     Ajudar...
     No esto tentando manter a clnica de reabilitao aberta pra ajudar a famlia de Krystal?
     O que isso tem a ver...?
     Ento no vejo problema nenhum se eu estiver saindo com ela.
     E voc est saindo com ela? - indagou Tessa rispidamente. Se Bola queria levar a discusso para esse lado, que fosse. - Voc est saindo com ela, Stuart?
     Seu sorriso de deboche a enojou. Ele no parecia nem disposto a fingir algum respeito.
     Bom, como ns no transamos nem aqui nem na casa dela, sim, estou...
     Colin levantou o brao com o punho cerrado e deu um soco, que acertou em cheio o rosto de Bola. O garoto, que estava prestando ateno na me, foi pego de surpresa. 
Ele cambaleou para o lado, bateu na escrivaninha e caiu no cho. Mas, logo em seguida, j tinha se levantado, e Tessa agora estava entre os dois, de frente para 
o filho.
     Atrs dela, Colin ficava repetindo: Seu desgraado! Seu desgraado!
     Ah, ?! - disse Bola, agora sem o sorriso de deboche. - Melhor ser desgraado do que ser um babaca que nem voc!
     No! - gritava Tessa. -- Colin, saia daqui. Saia daqui!
     Horrorizado, furioso e tremendo da cabea aos ps, Colin hesitou um momento e depois saiu do quarto, pisando duro. Eles o ouviram tropear aqui e ali, descendo 
a escada.
     Como voc pde? - sussurrou Tessa.
     Como voc pde o qu, porra? - perguntou Stuart, e o olhar no seu rosto a deixou to apreensiva que ela correu para trancar a porta do quarto.
     Voc est se aproveitando daquela garota, Stuart, e sabe disso, e a maneira como falou com o seu...
     Porra nenhuma - gritou Bola, andando de um lado para o outro. Toda aquela aparncia de indiferena tinha ido embora. - No t me aproveitando dela porra nenhuma. 
Ela sabe exatamente o que quer... No  porque mora naquele bairro de merda que no sabe o que quer... A verdade  que voc e Pombinho no querem que eu trepe com 
ela porque ela no  do mesmo nvel...
     Isso no  verdade - disse Tessa, muito embora fosse, e, apesar de toda a preocupao que tivesse com relao a Krystal, adoraria saber que Bola teve discernimento 
suficiente para usar camisinha.
     Vocs so dois hipcritas de merda, voc e Pombinho - disse ele, ainda andando de um lado para o outro. - Ficam repetindo todas essas babaquices sobre ajudar 
os Weedon, mas no querem...
     Chega! - gritou Tessa. - No se atreva a falar comigo desse jeito. Ser que voc no percebe... no entende... que est sendo muito egosta...?
     No conseguiu ir adiante. Virou de costas, andou at a porta, furiosa., e saiu, batendo-a atrs de si.
     Quando Tessa saiu do quarto, Bola estranhamente parou de andar de um lado para o outro e ficou olhando a porta fechada por alguns minutos. Ento enfiou a mo 
no bolso, pegou um cigarro e o acendeu, sem se preocupar em soprar a fumaa pela claraboia. Ficou andando em crculos pelo quarto, e no tinha nenhum controle sobre 
os prprios pensamentos: imagens soltas, desconexas tomaram conta da sua cabea, passando muito rpido numa onda de fria.
     Ele se lembrou de uma sexta-feira  noite, quase um ano antes, quando Tessa veio ao seu quarto lhe dizer que o pai queria lev-lo para jogar futebol com Barry 
e os filhos dele.
     (-O qu?! - Bola ficou atordoado. Aquela proposta no tinha nenhum cabimento.
     S de brincadeira. E uma pelada - disse Tessa, comeando a recolher a roupa suja pelo cho para evitar o olhar do filho.
     Por qu?
     - Papai acha que pode ser legal - respondeu Tessa, se abaixando para pegar uma camisa da escola. - Declan quer treinar, ou algo assim. Ele vai ter um jogo importante.
     Na verdade, Bola jogava futebol muito bem. As pessoas achavam isso surpreendente; achavam que algum como ele no devia gostar de esportes e, com certeza, desprezava 
essa coisa de time. Mas ele jogava como falava, com muita habilidade: driblava os adversrios, fazia lanamentos, arriscava jogadas, sem se preocupar com o resultado.
     Eu nem sabia que ele jogava.
     Papai joga muito bem. Quando nos conhecemos, ele jogava duas vezes por semana - disse Tessa, impaciente. - Amanh de manh, s dez horas, certo? Vou lavar a 
sua cala de moletom.)
     Bola deu uma tragada no cigarro, lembrando-se disso quase sem querer. Por que tinha concordado com aquilo? Hoje em dia, teria simplesmente se recusado a participar 
da farsa de Pombinho. Ficaria na cama at que eles cansassem de cham-lo. Mas, um ano antes, ainda no sabia nada sobre autenticidade.
     (Em vez disso, saiu de casa com Pombinho e suportou a caminhada de cinco minutos ao lado do pai, em silncio absoluto; um e outro igualmente conscientes do 
abismo que os separava.
     O campo pertencia  Escola St. Thomas. Estava ensolarado e vazio. Eles se dividiram em dois times de trs, porque Declan tinha convidado um amigo para passar 
o fim de semana na casa dele. O tal amigo, que claramente admirava Bola, veio com ele e o seu pai.
     Bola e Pombinho passavam um pelo outro em silncio, enquanto Barry, de longe o pior jogador, ficava encorajando, incentivando e aplaudindo o tempo todo, com 
aquele seu sotaque de Yarvil, correndo para cima e para baixo pelo campo que delimitaram usando suteres. Quando Fergus marcou um gol, Barry correu na sua direo 
para que pulassem juntos, comemorando, e batessem peito com peito, mas calculou mal a distncia e deu uma cabeada no queixo do filho. Os dois caram no cho, Fergus 
gemendo de dor e rindo, e Barry pedindo desculpas em meio a gargalhadas de genuna alegria. Bola se pegou rindo daquela cena, mas ento ouviu a risada forada e 
desajeitada de Pombinho, e se afastou, de cara amarrada.
     E ento veio aquele momento, aquele momento constrangedor, lamentvel, quando o jogo estava empatado, e faltavam poucos minutos para o fim da partida. Ele conseguiu 
roubar a bola de Fergus, e Pombinho gritou:
     - Vamos l, cara!
     "Cara". Pombinho nunca tinha usado essa expresso na vida. Aquilo soou vazio, forado, digno de pena. Ele estava tentando ser como Barry, imitando aquele seu 
jeito espontneo de encorajar os filhos. Pombinho estava querendo impressionar Barry.
     A bola saiu voando dos seus ps como uma bala de canho, e antes mesmo que atingisse o rosto desprevenido e abobalhado de Pombinho, antes que os seus culos 
se quebrassem, antes que o sangue comeasse a escorrer do seu superclio, o garoto percebeu qual tinha sido a sua verdadeira inteno: ele quis efetivamente acertar 
Pombinho, e chutou aquela bola como uma punio.)
     Os dois nunca mais jogaram futebol juntos. Aquela breve experincia, condenada ao fracasso, de relacionamento entre pai e filho foi arquivada como tantas outras 
antes dela.
E eu nunca o quis de jeito nenhum.
     Tinha certeza de que escutou aquilo. Pombinho devia estar falando dele. Eles estavam no seu quarto. De quem mais estariam falando?
     No to nem a, pensou Bola. Sempre tinha desconfiado disso. S no sabia por que aquela sensao de frio se espalhava no seu peito. Bola recolocou a cadeira 
da escrivaninha no lugar onde estava, antes de cair sobre ela ao ser atingido pelo soco de Pombinho. Uma reao autntica teria sido tirar a me da frente e acertar 
um soco na cara dele tambm. Quebrar os seus culos mais uma vez. Faz-lo sangrar. Bola ficou com dio de si mesmo por no ter feito isso.
     Mas havia outras maneiras. H anos vinha ouvindo coisas. E sabia muito mais sobre os medos absurdos do pai do que eles imaginavam.
     Os seus dedos estavam mais vagarosos que de costume. A cinza do cigarro na sua boca caiu no teclado enquanto ele entrava no site do Conselho Distrital. Semanas 
antes, tinha procurado por injees SQL na internet e achou o cdigo que Andrew no quis lhe dar. Depois de analisar a rea de mensagens por alguns minutos, fez 
o login, sem dificuldade, como Beth Rossiter, mudou o nome do usurio para O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother e comeou a digitar.
     
     V
     
     Shirley Mollison estava convencida de que o marido e o filho tinham exagerado: no podia ser to perigoso assim deixar os posts do Fantasma no ar. No conseguia 
ver em que essas mensagens eram piores que uma fofoca qualquer, e isso, pelo que soubesse, ainda no era punido por lei. Tambm no acreditava que a lei fosse to 
tola e irracional a ponto de responsabiliz-la pelo que outra pessoa escreveu. Isso seria terrivelmente injusto. Por mais orgulho que tivesse do diploma de advogado 
de Miles, tinha certeza de que dessa vez ele estava redondamente enganado.
     Checava as mensagens no site com mais freqncia do que Miles e Howard a tinham aconselhado a fazer, mas no porque estivesse com medo das possveis conseqncias 
legais. Certa de que o Fantasma de Barry Fairbrother ainda no havia concludo a tarefa que se imps de destruir os que eram pr-Fields, estava ansiosa para ser 
a primeira a colocar os olhos no prximo post. Vrias vezes por dia corria para o antigo quarto de Patrcia e entrava na pgina. As vezes um leve arrepio percorria 
o seu corpo enquanto descascava batatas ou passava o aspirador de p, e ela voava para o escritrio, apenas para se desapontar mais uma vez.
     Shirley sentia uma afinidade especial e secreta com o Fantasma. Ele escolhera o site dela como frum para expor a hipocrisia dos oponentes de Howard, e isso 
lhe dava o orgulho de um naturalista que tinha criado um hbitat no qual espcies raras se dignavam a construir os seus ninhos. Mas no era s isso. Shirley apreciava 
a raiva do Fantasma, a sua ferocidade, a sua audcia. Ela se perguntava quem poderia ser, visualizando um homem forte e sombrio ao lado dela e de Howard, apoiando-os, 
abrindo caminho para eles em meio aos adversrios, que iam caindo  medida que ele os atingia com as suas prprias e repulsivas verdades.
     De algum modo, nenhum dos homens de Pagford parecia digno de ser o Fantasma, e ficaria desapontada em saber que ele era um dos membros da faco anti-Fields 
que conhecia.
     Isso se ele for realmente um homem - disse Maureen.
     Bem-pensado - retrucou Howard.
     Acho que  um homem - disse Shirley, tranqilamente.
     Quando Howard saiu para o caf no domingo de manh, Shirley, ainda de robe e com uma xcara de ch na mo, foi direto para o escritrio e entrou no site.
As fantasias de um vice-diretor, postado por O_Fantasma_de_Barry__ Fairbrother.
     Ela se sentou com as mos trmulas, clicou no post e o leu, boquiaberta. Depois correu para o saguo, pegou o telefone e ligou para o caf, mas estava ocupado.
     Apenas cinco minutos depois, Parminder Jawanda, que agora tambm tinha o hbito de olhar as mensagens no site do Conselho com mais freqncia que antes, abriu 
a pgina e viu o tal post. Como Shirley, a sua reao imediata foi pegar o telefone.
     Tessa e Colin Wall estavam tomando caf da manh sem o filho, que ainda dormia l no quarto do sto. Quando Tessa atendeu, Parminder nem deixou que a amiga 
acabasse de falar.
     Tem um post sobre Colin no site do Conselho. No sei como, mas no deixe que ele veja isso.
     Os olhos assustados de Tessa se voltaram para o marido, mas Colin estava muito prximo do aparelho e ouviu cada palavra de Parminder.
     Ligo para voc mais tarde - disse Tessa, apressada. - Colin... - chamou ela, atrapalhando-se toda para desligar o aparelho. - Colin, espere...
     Mas ele j tinha sado da cozinha, como uma bala, com aquele seu andar meio saltitante, os braos colados ao corpo, e Tessa teve que correr para alcan-lo.
     Talvez seja melhor no olhar... - pediu ela, mas a mo grande e ossuda de Colin j movimentava o mouse em cima da mesa. - Ou eu posso ler e...
     
As fantasias de um vice-diretor
Um dos homens que espera representar a nossa comunidade no Conselho Distrital  Colin Wall, vice-diretor da Escola Secundria Winterdown. Os eleitores talvez se 
interessem em saber que Wall, um disciplinador severo, tem fantasias bem incomuns. O sr. Wall tem tanto medo que um aluno venha a acus-lo de assdio sexual que 
freqentemente tem que se ausentar do trabalho para se acalmar. Se o sr. Wall efetivamente acariciou um aluno do primeiro ano, isso  algo que o Fantasma no pode 
afirmar. No entanto, o fervor das suas fantasias febris sugere que, mesmo que ele no tenha feito isso, adoraria faz-lo.

Foi Stuart que escreveu isso, pensou Tessa imediatamente.
     O rosto de Colin estava assustador  luz que vinha do monitor. Era assim que ela imaginava que ele ficaria se tivesse um derrame.
     Colin...
     Eu acho que Fiona Shawcross contou para todo mundo - sussurrou ele.
     A catstrofe que havia temido desde sempre se abateu sobre ele. Era o fim de tudo. Sempre se imaginou tomando plulas para dormir. Ser que havia o suficiente 
em casa?
     Tessa, que ficou momentaneamente confusa com aquela meno  diretora, retrucou:
     Fiona no faria isso... De todo modo... ela no sabe...
     Ela sabe que tenho TOC.
     E, mas ela no sabe... do que voc tem medo...
     Sabe, sim - respondeu Colin. - Eu disse a ela na ltima vez em que tirei licena.
     Por qu? - esbravejou Tessa. - Deus do cu, por que voc foi contar isso a ela?
     Queria explicar por que era to importante que eu me afastasse um tempo - respondeu Colin, quase humilde. - Achei que ela tinha que saber como era srio.
     Tessa controlou um desejo intenso de gritar com ele. A averso que se podia perceber na forma como Fiona o tratava ou falava dele agora estava explicada. Tessa 
nunca tinha gostado dela, sempre muito dura e pouco solidria.
     Seja como for - disse ela -, no acho que Fiona tenha alguma coisa a ver com...
     No diretamente - interrompeu Colin, enxugando o suor de cima dos lbios com a mo trmula. - Mas Mollison deve ter ouvido alguma fofoca sabe-se l onde.
     No foi Mollison. Stuart escreveu isso, sei que foi ele. Tessa podia reconhecer o filho em cada linha. Era impressionante que Colin no visse isso, que no 
tivesse ligado a mensagem  briga de ontem, ao soco que tinha dado no filho. Ele no pde nem resistir a terminar com uma aliterao. Deve ter escrito todas as mensagens... 
Simon Price. Parminder. Tessa estava horrorizada.
     Mas Colin no estava pensando em Stuart. Estava evocando pensamentos to vividos quanto lembranas, quanto impresses sensoriais, idias violentas e vis: a 
mo que apalpava e agarrava quando ele ia passando em meio  massa compacta de corpos juvenis; um grito de dor, o rosto contorcido de uma criana. E ele se perguntando 
incessantemente: tinha mesmo feito aquilo? Tinha gostado? No conseguia se lembrar. Sabia apenas que continuava pensando naquilo, vendo aquilo acontecer, sentindo 
aquilo acontecer. Carnes macias em uniformes de algodo azul; apalpar e agarrar, dor, choque, violao. Quantas vezes? No sabia. Ficava horas se perguntando quantas 
crianas conheciam o seu segredo, se elas tinham falado umas com as outras, quanto tempo levaria at que fosse descoberto.
     Sem saber ao certo quantas vezes molestou algum, e incapaz de confiar em si mesmo, Colin andava sempre carregado de papis e pastas para manter as mos ocupadas 
e no poder atacar ningum, quando passava pelos corredores. Gritava, pedindo ao bando de crianas que sasse da frente, que se afastasse para deix-lo passar. Mas 
no adiantava. Sempre havia os atrasados, que passavam por ele correndo, esbarrando nele, e, com as mos ocupadas, Colin imaginava outras formas de contatos inapropriados: 
um movimento de ombros para que o cotovelo roasse num seio; um passo para o lado para garantir que os corpos se tocassem; uma perna acidentalmente enrascada para 
que sentisse a virilha na sua carne.
     - Colin - disse Tessa.
     Mas ele comeou a chorar, soluando tanto que o seu corpo grande e desengonado se sacudia todo. E quando ela o abraou e apertou o rosto contra o dele, as 
suas lgrimas se misturaram.
     A alguns quilmetros de distncia, em Hilltop House, Simon Price estava sentado na sala de estar, na frente de um computador novinho em folha. Ao ver Andrew 
sair pela manh, de bicicleta, para o trabalho de fim de semana com Howard Mollison, e ao lembrar que teve que pagar o preo de mercado por aquele computador, Simon 
ficou irritado e ainda por cima se sentindo injustiado. No voltou a entrar no site do Conselho Distrital desde a noite em que havia jogado fora o computador roubado, 
mas hoje lhe ocorreu, por uma associao de idias, checar se a mensagem que tinha lhe custado o emprego ainda estava l, podendo ser vista por possveis empregadores.
     No estava. Simon no sabia se devia isso  mulher, porque Ruth, por medo, no queria admitir que havia ligado para Shirley, mesmo que tivesse sido para pedir 
a remoo do post. Animado pelo fato de a mensagem no estar mais l, procurou pelo post sobre Parminder, que tambm j havia sido removido.
     J estava quase fechando a pgina quando viu o post mais recente, intitulado As fantasias de um vice-diretor. Ele o leu duas vezes e ento, sozinho na sala 
de estar, comeou a rir. Foi uma risada selvagem, triunfante. Nunca tinha gostado daquele homem grande e saltitante, com aquela testa enorme. Era bom saber que, 
comparado a esse sujeito, ele prprio at que tinha se dado bem.
     Ruth entrou na sala, sorrindo timidamente. Estava contente de ouvir Simon rir, porque ele andava num humor medonho desde que perdera o emprego.
     Do que voc est rindo?
     Sabe o pai de Bola? Wall, o vice-diretor?... Ele  um maldito pedfilo.
     O sorriso de Ruth desapareceu. E ela correu para ler o post.
     Vou tomar um banho - disse Simon, no maior bom humor.
     Ruth esperou at que ele tivesse sado da sala para ligar para a amiga Shirley e alert-la sobre esse novo escndalo, mas o telefone dos Mollison estava ocupado.
     Shirley tinha, finalmente, conseguido falar com Howard na delicatssen. Ela ainda estava de robe, e ele andava de um lado para o outro, na pequena sala atrs 
do balco.
     ...estava tentando falar com voc h um tempo...
     Mo estava no telefone. O que est escrito? Devagar.
     Shirley leu a mensagem sobre Colin, pronunciando cada palavra como se fosse uma apresentadora de jornal. No chegou ao fim da mensagem; Howard a interrompeu 
antes.
     Voc copiou a mensagem em algum lugar?
     O qu?
     Est lendo da tela? Isso ainda est no site? Voc ainda no tirou isso de l?
     Estou tirando agora - mentiu Shirley, assustada. - Pensei que voc ia gostar...
     Tire logo! Deus do cu, Shirley, isso est ficando fora de controle... No podemos deixar esse tipo de coisa no site.
     S achei que voc devia...
     - Trate de se livrar disso imediatamente e conversamos quando eu chegar - gritou Howard.
     Shirley ficou furiosa: eles nunca tinham levantado a voz um para o outro.

VI
     
     A prxima reunio do Conselho Distrital, a primeira depois da morte de Barry, seria fundamental para a batalha que vinha se travando com relao a Fields. Howard 
se recusou a adiar a votao sobre o futuro da Clnica de Reabilitao Bellchapel e sobre o desejo do vilarejo de transferir a jurisdio do bairro para Yarvil.
     Por isso Parminder tinha sugerido que ela, Colin e Kay se encontrassem  noite, na vspera da reunio, para traarem uma estratgia.
     Pagford no pode decidir unilateralmente alterar os limites do distrito, pode? - perguntou Kay.
     No - respondeu Parminder, com toda a pacincia (Kay continuava sendo uma recm-chegada) -, mas o Conselho Municipal consulta Pagford, e Howard est determinado 
a fazer com que a opinio dele seja aprovada.
     O encontro foi na casa dos Wall, porque Tessa tinha pressionado Colin a convid-las, para que pudesse ouvir a conversa. Tessa serviu o vinho, colocou uma vasilha 
grande com batata frita sobre a mesinha de centro e se sentou em silncio, ouvindo os outros trs falar.
     Estava exausta e zangada. O post annimo sobre Colin o fez ter uma das crises de ansiedade mais agudas que jamais tivera. Foi to grave que ele no pde ir 
 escola. Parminder sabia como ele estava doente - foi ela que assinou o atestado para justificar as faltas -, mas ainda assim o convocou para essa reunio estratgica, 
sem se importar, ao que parecia, com possveis novas efuses de parania e angstia, com que Tessa teria de lidar durante a noite.
     H definitivamente uma indignao no ar com relao  maneira como os Mollison esto agindo - dizia Colin, naquele tom imponente e erudito que por vezes adotava 
quando fingia no saber o que eram o medo e a parania. - Eles pensam que podem falar em nome de Pagford, e acho que isso est comeando a irritar as pessoas. Pelo 
menos foi essa a impresso que tive quando andei conversando com as pessoas.
     Seria to bom, pensou Tessa com amargura, se s vezes Colin pudesse usar essa capacidade de dissimulao em benefcio dela. Algum tempo atrs, teria gostado 
de ser a nica confidente dele, o repositrio dos seus terrores e a fonte de toda a sua confiana, mas agora no ficava mais envaidecida com isso. Colin continuava 
acordando-a s duas da manh para que, at as trs e meia, ela o visse se balanar para a frente e para trs sentado na beira da cama, gemendo e chorando, dizendo 
que queria morrer, que no podia suportar aquilo, que desejava nunca ter se candidatado quela cadeira, que estava arruinado...
     Tessa ouviu os passos de Bola na escada e ficou tensa, mas o filho passou pela porta aberta na direo da cozinha sem fazer nada, a no ser lanar um olhar 
sarcstico para Colin, que estava empoleirado num pufe de couro na frente da lareira, com os joelhos quase encostados no peito.
     Talvez a candidatura de Miles esteja efetivamente desagradando a todos... Mesmo os que naturalmente apoiam os Mollison - disse Kay, esperanosa.
      possvel - concordou Colin, balanando a cabea.
     Kay se virou para Parminder.
     Voc acha que o Conselho vai realmente votar para despejar a Bellchapel? Sei que as pessoas reclamam das agulhas descartveis e dos viciados perambulando pela 
vizinhana, mas a clnica fica a quilmetros de distncia... Por que Pagford se incomoda tanto com isso?
     Howard e Aubrey apoiam um ao outro - explicou Parminder, com o rosto tenso e umas olheiras arroxeadas. (Era ela que iria participar da reunio do Conselho no 
dia seguinte e lutar contra Howard Mollison e os seus comparsas sem Barry ao seu lado.) - Esto precisando fazer uns cortes nos gastos da administrao municipal. 
Se Howard expulsa a clnica daquele prdio, vai ser muito mais caro encontrar outro lugar para abrig-la. Fawley pode alegar ento que os custos aumentaram e justificar 
assim o corte da verba do Conselho. Ento, ele far o possvel para que Fields seja reintegrado a Yarvil.
     Cansada de tantas explicaes, Parminder fingiu que examinava a nova pilha de documentos sobre a Bellchapel que Kay havia levado, para descansar um pouco daquela 
conversa.
     Por que estou fazendo isso?, perguntou a si mesma.
     Podia ter ficado em casa, ao lado de Vikram, que estava assistindo a uma comdia na televiso com Jaswant e Rajpal quando ela saiu. O som da risada deles a 
abalou. Quando foi que ela tinha rido pela ltima vez? Por que estava ali, bebendo um vinho horroroso, lutando por uma clnica de que nunca ia precisar e pela moradia 
de pessoas de quem provavelmente no gostaria, se as conhecesse? No era Bhai Kanhaiya, que no via diferena entre a alma dos aliados e dos inimigos; no via a 
luz de Deus brilhando em Howard Mollison. E tinha mais prazer em pensar na derrota de Howard do que na possibilidade de as crianas de Fields continuarem freqentando 
a St. Thomas ou de os viciados do bairro se curarem na Bellchapel, embora, de uma maneira fria e desapaixonada, reconhecesse que todas essas coisas eram boas...
     (Mas sabia por que realmente estava fazendo aquilo tudo. Queria vencer por Barry. Ele lhe contou tudo sobre quando foi estudar na St. Thomas. Os seus colegas 
de turma o convidavam para brincar na casa deles. Como na poca estava vivendo num trailer com a me e os dois irmos, ficou encantado com aquelas casas limpas e 
confortveis da Hope Street, deslumbrado com os casares vitorianos da Church Row. Chegou a ir a uma festa de aniversrio naquela casa estranha, com formato de cabea 
de vaca, que acabou comprando, tempos depois, para criar os quatro filhos.
     Ele se apaixonou por Pagford, com o seu rio, os seus campos e as suas casas de paredes slidas. E se imaginava vivendo numa delas, com um jardim para brincar, 
uma rvore para pendurar um balano, espao e verde por todos os lados. Ele catava castanhas e as levava para Fields. Depois de brilhar na St. Thomas, onde sempre 
teve as melhores notas, Barry foi o primeiro da famlia a ir para a universidade.
     Amor e dio, pensou Parminder, um pouco assustada com a prpria honestidade. Amor e dio,  por isso que estou aqui...)
     Virou a pgina de um dos documentos de Kay, fingindo que se concentrava nele.
     Kay ficou feliz por ver a doutora examinando atentamente os relatrios que ela havia trazido, j que teve muito trabalho e levou um bom tempo para apront-los. 
No podia acreditar que algum, depois de ler esse material, no ficasse imediatamente convencido de que a Clnica Bellchapel tinha que permanecer exatamente onde 
estava.
     Mas para Kay, em meio a todas aquelas estatsticas, aqueles estudos de caso annimos e depoimentos pessoais, s uma paciente naquela clnica interessava: Terri 
Weedon. Podia sentir que Terri estava diferente, o que a deixava a um s tempo orgulhosa e assustada. Ela vinha dando uns sinais bem frgeis de comear a ter algum 
controle sobre sua prpria vida. Nos ltimos tempos, por duas vezes, disse a Kay: "Eles no vo levar Robbie. No vou deixar", e isso no era apenas uma agressividade 
impotente descarregada contra o destino, mas uma verdadeira carta de intenes.
     Eu levei ele pra escola ontem - disse a Kay, que cometeu o erro de demonstrar o seu espanto. - Por que essa cara, porra? No acredita que levei ele pra merda 
da escola?
     Se as portas da Bellchapel se fecharem para Terri, com certeza a estrutura delicada que elas estavam tentando construir com os destroos de uma vida iria pelos 
ares, em mil pedaos. Terri parecia ter um medo visceral de Pagford que Kay no conseguia entender.
     Odeio a porra daquele lugar - disse ela, quando Kay o mencionou por acaso.
     Tudo que Kay sabia sobre a relao de Terri com Pagford era que a sua falecida av sempre tinha morado no vilarejo. No entanto, a idia de ver Terri obrigada 
a ir at l toda semana para conseguir a metadona a deixava apavorada: achava que o seu auto-controle ia desmoronar e, com ele, a frgil segurana que a famlia 
vinha adquirindo.
     Colin resolveu prosseguir de onde Parminder tinha parado, explicando a histria de Fields; Kay assentia, entediada, dizendo "h, h", mas os seus pensamentos 
estavam muito longe dali.
     Ele estava profundamente lisonjeado por ver essa mulher jovem e atraente beber cada uma das suas palavras. Sentia-se um pouco mais calmo essa noite, pela primeira 
vez desde que tinha lido aquele post j removido do site. Nenhuma das catstrofes que ficava imaginando quando se deitava na cama aconteceu. No tinha sido demitido. 
No precisou enfrentar uma multido raivosa  sua porta. Ningum no site do Conselho de Pagford, ou tampouco em nenhum outro site na internet (tinha feito vrias 
pesquisas no Google), estava pedindo que fosse vigiado ou levado para a priso.
     Bola passou novamente pela porta aberta, tomando um iogurte s colheradas. Olhou de relance para a sala e, por um breve instante, encontrou os olhos de Colin, 
que imediatamente perdeu o fio do que estava dizendo.
     ...e... bem, sim, resumindo,  isso - concluiu ele, de forma lamentvel. Voltou-se para Tessa em busca de confiana, mas a mulher estava olhando impassvel 
para o nada. Colin ficou um pouco magoado. Achava que Tessa ia gostar de v-lo se sentindo to melhor, to mais controlado, depois daquelas noites insones e miserveis. 
A medonha sensao do pavor atacava o seu estmago, mas ficava bem ao lado de Parminder, que, como ele, era vtima e bode expiatrio nessa histria toda, e da assistente 
social jovem e bonita que lhe dava uma ateno solidria.
     Ao contrrio de Kay, Tessa havia escutado cada palavra que Colin tinha acabado de dizer sobre o direito de Fields permanecer ligado a Pagford. No havia, na 
sua opinio, nenhuma convico por trs das palavras de Colin. Ele queria acreditar no que Barry tinha acreditado, e queria derrotar os Mollison porque era isso 
o que Barry queria fazer. Colin no gostava de Krystal Weedon, mas, como Barry gostava muito dela, admitia que devia haver mais valor naquela garota do que ele podia 
perceber. Tessa sabia muito bem que ele era uma mistura estranha de arrogncia e humildade, convices inabalveis e insegurana.
     Esto completamente iludidos, pensou Tessa, olhando os trs enquanto examinavam um grfico que Parminder tinha extrado das anotaes de Kay. Pensam que vo 
reverter sessenta anos de raiva e ressentimento com algumas pginas de estatsticas. Nenhum deles era Barry. Ele tinha sido um exemplo vivo do que as pessoas propunham 
na teoria: atravs da educao, sair da pobreza para a riqueza, da falta de poder e dependncia para dar uma contribuio valiosa  sociedade. Ser que no viam 
que advogados inteis eles eram, comparados quele homem que tinha morrido?
     As pessoas esto muito irritadas porque os Mollison esto tentando comandar tudo - disse Colin.
     E acho - reforou Kay - que vai ser difcil para eles, depois de ler esse material, fingirem que a clnica no est fazendo um trabalho fundamental.
     Nem todo mundo se esqueceu de Barry l no Conselho - acrescentou Parminder, com um ligeiro tremor na voz.
     Tessa percebeu que os seus dedos engordurados estavam tentando pegar alguma coisa no vazio. Enquanto os outros trs falavam, ela acabou sozinha com a vasilha 
de batata frita.
     
     VII
     
     Era uma manh clara e quente, e o laboratrio de informtica da Winterdown foi ficando abafado  medida que a hora do almoo se aproximava, e as janelas sujas 
da sala salpicavam os monitores empoeirados com pontos de luz que ajudavam a desviar a ateno. Mesmo que Gaia e Bola no estivessem ali para distra-lo, Andrew 
Price no conseguia se concentrar. No pensava em outra coisa, a no ser na conversa dos pais que tinha escutado na noite anterior. Estavam pensando em se mudar 
para Reading, onde a irm e o cunhado de Ruth moravam. Atento s vozes que vinham da porta aberta da cozinha, Andrew ficou parado no pequeno corredor escuro e ouviu 
tudo: aparentemente, Simon tinha recebido uma oferta de emprego, ou havia a possibilidade de receber, do tio que Andrew e Paul mal conheciam, porque o seu pai no 
gostava dele.
     Vou ganhar menos - disse Simon.
     Voc no sabe. Ele no falou...
     Deve ser. E tudo l  mais caro.
     Ruth fez um barulhinho indefinido. Quase sem respirar ali no corredor, Andrew poderia afirmar, apenas pelo simples fato de a sua me no ter se apressado em 
concordar com Simon, que ela queria ir.
     O garoto achava impossvel imaginar os seus pais morando em outra casa que no fosse Hilltop House, ou em outro cenrio que no Pagford. Tinha certeza de que 
os dois viveriam ali para sempre. Ele, Andrew, um dia iria para Londres, mas Simon e Ruth ficariam enraizados quele vale como rvores, at morrerem.
     P ante p, voltou para o quarto e ficou vendo pela janela as luzes cintilantes de Pagford no fundo escuro do vale entre as colinas. Parecia at que nunca tinha 
visto aquela paisagem antes. Em algum lugar l embaixo, Bola estava fumando no seu quarto no sto, provavelmente vendo sites de pornografia. Gaia tambm estava 
l, absorta nos misteriosos rituais, tpico das garotas. Ocorreu a Andrew que ela tinha passado por isso, foi arrancada do lugar em que vivia e transplantada para 
Pagford. Enfim teriam algo em comum. E sentiu um prazer melanclico ao pensar que, se fosse embora, partilharia algo com ela.
     Mas Gaia no causou o seu prprio desenraizamento. Com um aperto na boca do estmago, pegou o celular e mandou uma mensagem para Bola:
Docinho de Coco tem oferta de emprego em Reading. Deve aceitar.
     Bola ainda no havia respondido, e Andrew no o viu durante toda a manh, porque no tinham as mesmas aulas naquele dia. Tambm no esteve com Bola nos ltimos 
fins de semana, porque estava trabalhando no Copper Kettle. A ltima conversa que tiveram foi sobre o post de Bola falando de Pombinho no site do Conselho.
     Acho que Tessa t desconfiada - disse Bola. - Ela fica me olhando como se soubesse.
     E o que voc vai dizer? - murmurou Andrew, assustado.
     Conhecia muito bem o desejo de glria e reconhecimento de Bola, e tambm a sua paixo por empunhar a verdade como uma arma, mas no tinha certeza se o amigo 
compreendia que o seu papel de protagonista nas atividades do Fantasma de Barry Fairbrother jamais devia ser revelado. Nunca havia sido muito fcil explicar a Bola 
o que era ter Simon como pai e, de um modo geral, estava ficando cada vez mais difcil explicar as coisas para o amigo.
     Quando o professor de informtica passou por ele e ficou parado num ngulo de onde no poderia v-lo, Andrew buscou Reading na internet. A cidade era imensa 
em comparao a Pagford. Tinha um festival de msica anual e ficava apenas a uns sessenta quilmetros de Londres. Deu uma olhada nos horrios dos trens. Talvez pudesse 
ir  capital nos fins de semana, exatamente como fazia pegando o nibus para Yarvil. Mas aquilo tudo parecia irreal: Pagford era tudo o que conhecia, e no conseguia 
imaginar a famlia existindo em outro lugar.
     Na hora do almoo, foi direto para a rua procurar por Bola. Acendeu um cigarro assim que saiu do ptio e ficou feliz em ouvir, enquanto guardava o isqueiro 
no bolso, uma voz feminina, que disse:
     E a?!
     Gaia e Sukhvinder o alcanaram.
     Tudo bem? - perguntou ele, soprando a fumaa do cigarro longe do rosto lindo de Gaia.
     Os trs tinham agora alguma coisa que ningum mais tinha. Dois fins de semana de trabalho no caf haviam criado uma ligao tnue entre eles. Conheciam todo 
o repertrio de frases de Howard e suportaram o interesse lascivo de Maureen pelas suas vidas particulares. Riram juntos dos joelhos enrugados da mulher, naquele 
vestido de garonete curto demais, e trocaram, como comerciantes em terra estrangeira, pequenas prolas de informao pessoal. As garotas sabiam que o pai de Andrew 
tinha perdido o emprego. Andrew e Sukhvinder sabiam que Gaia estava trabalhando para juntar dinheiro e comprar uma passagem de trem para Hackney. Gaia e Andrew sabiam 
que a me de Sukhvinder odiava que a filha trabalhasse para Howard Mollison.
     Onde est o seu amigo Bola? - perguntou ela, quando os trs comearam a andar juntos.
     Sei no - respondeu Andrew. - No vi ele ainda.
     Melhor assim - disse Gaia. - Quantos desse a voc fuma por dia?
     No fico contando - respondeu ele, animado ao ver o interesse dela. - Quer um?
     No - disse Gaia. - Detesto cigarro.
     Imediatamente Andrew ficou imaginando se ela tambm detestava beijar quem fuma. Niamh Fairbrother no tinha reclamado quando ele enfiou a lngua na sua boca, 
na festa da escola.
     Marco no fuma? - perguntou Sukhvinder.
     No, ele  atleta - respondeu Gaia.
     A essa altura, Andrew j estava quase acostumado  figura de Marco de Luca. Na verdade, havia algumas vantagens naquela situao: apaixonada por algum de fora 
de Pagford, Gaia estava de certa forma protegida. Com o tempo, o impacto das fotografias dos dois juntos na pgina do Facebook j tinha se atenuado. No conseguia 
decidir se aquilo era s um desejo seu ou no, mas achava que as mensagens que deixavam um para o outro por l estavam se tomando menos freqentes e menos carinhosas. 
No podia saber o que acontecia pelo telefone ou por e-mail, mas tinha certeza, pelo rosto de Gaia quando algum mencionava o nome de Marco, de que ela no estava 
muito animada.
     Olha ele ali - disse Gaia.
     No, ela no estava falando do bonito do Marco, mas de Bola Wall, que conversava com Dane Tully do lado de fora da loja de convenincia.
     Sukhvinder parou de repente, mas Gaia a puxou pelo brao.
     Voc pode andar por onde quiser - disse Gaia, empurrando-a delicadamente e apertando os olhos, enquanto se aproximavam do lugar onde Bola e Dane estavam.
     E a, Arf! - saudou Bola, quando os trs se aproximaram.
     Fala - disse Andrew.
     Tentando evitar problemas, principalmente que Bola resolvesse implicar com Sukhvinder na frente de Gaia, perguntou:
     Viu a minha mensagem?
     Que mensagem? - perguntou Bola. - Ah, vi... Aquela histria do Si? Voc vai embora, ento,  isso?
     Disse aquilo de um jeito to indiferente... Andrew s podia atribuir aquela atitude  presena de Dane Tully.
     , talvez - respondeu Andrew.
     Pra onde voc vai? - perguntou Gaia.
     O meu pai recebeu uma oferta de emprego em Reading - disse Andrew.
     Ah,  onde o meu pai mora - retrucou Gaia, surpresa. - Podemos sair juntos quando eu for pra l. O festival  o mximo. Voc quer um sanduche, Sukh?
     Andrew ficou to atordoado com a proposta de Gaia que, quando conseguiu esboar alguma reao, ela j tinha desaparecido dentro da loja de convenincia. Por 
um instante, o ponto de nibus imundo, a loja de convenincia e at mesmo Dane Tully, com as suas tatuagens, a camiseta e a cala de moletom surradas, pareciam emanar 
uma luz celestial.
     At mais, tenho umas coisas pra fazer - disse Bola.
     Dane deu uma risadinha. E antes que Andrew pudesse dizer qualquer coisa ou se oferecer para acompanh-lo, Bola j tinha ido embora.
     Bola sabia que Andrew ficaria perplexo e magoado com o seu comportamento indiferente, e estava contente com isso. No quis entender por que estava contente 
ou por que aquele desejo generalizado de provocar sofrimento vinha sendo a sua emoo dominante nos ltimos dias. Recentemente, tinha decidido que questionar os 
seus prprios motivos era uma forma de inautenticidade; um aperfeioamento da sua filosofia, o que a tornava, de modo geral, mais fcil de ser seguida.
     Enquanto se dirigia a Fields, Bola ia pensando no que tinha acontecido na sua casa, na noite anterior. A me entrou no seu quarto pela primeira vez desde que 
Pombinho lhe deu aquele soco.
     (- Aquela mensagem sobre o seu pai no site do Conselho Distrital - disse ela. - Tenho que perguntar isso, Stuart, e espero... Stuart, foi voc que escreveu 
aquela mensagem?
     Ela levou alguns dias para criar coragem de acus-lo, e ele estava preparado.
     No - respondeu.
     Talvez tivesse sido mais autntico dizer sim, mas tinha preferido no falar nada, e no via por que deveria se justificar para si mesmo.
     No foi voc? - perguntou ela, sem alterar a voz ou a expresso do rosto.
     No - repetiu ele.
     Porque muito, muito poucas pessoas sabem o que papai... com o que ele se preocupa.
     , mas no fui eu.
     O post foi colocado na mesma noite em que voc e papai tiveram aquela discusso e ele lhe deu...
     J disse que no fui eu.
     Voc sabe que ele  doente.
     , voc vive me dizendo isso.
     Eu vivo dizendo isso porque  verdade! Ele no pode evitar... Tem uma doena mental sria, que causa enorme angstia e sofrimento.
     O celular de Bola deu um toque, e ele olhou de relance para a mensagem de Andrew, que aparecia na tela. O texto foi um verdadeiro soco na boca do estmago: 
Arf ia embora para sempre...
     Estou falando com voc, Stuart...
     T bom... O que ?
     Todos esses posts... Simon Price, Parminder, papai... Voc conhece todas essas pessoas. Se est por trs de tudo isso...
     J disse, no fui eu.
     ...est causando um mal enorme. Um mal muito srio e terrvel, Stuart,  vida das pessoas.
     Bola tentou imaginar a vida sem Andrew. Eles se conheciam desde que tinham cinco anos.
     No fui eu - disse mais uma vez.)
Um mal muito srio e terrvel  vida das pessoas.
     Foram eles que fizeram as suas prprias vidas, pensou com ironia, dobrando a esquina da Foley Road. As vtimas do Fantasma de Barry Fairbrother estavam atoladas 
na lama da hipocrisia e das mentiras, e no gostavam de escndalos. Eram insetos estpidos que fugiam da luz brilhante. No sabiam nada da vida real.
     Viu uma casa logo  frente, com um pneu careca na grama no meio do quintal. Tinha uma forte desconfiana de que aquela fosse a casa de Krystal, e, quando viu 
o nmero, soube que tinha razo. Nunca estivera ali antes e nunca teria aceitado encontr-la em casa, na hora do almoo, quinze dias atrs. Mas as coisas haviam 
mudado. Ele havia mudado.
     Diziam que a me dela era prostituta. Com certeza era viciada. Krystal lhe disse que estaria sozinha em casa porque a me iria  Clnica de Reabilitao Bellchapel 
receber a sua dose de metadona. Bola caminhou pelo quintal sem diminuir o passo, mas com uma ansiedade inesperada.
     Krystal estava olhando da janela do quarto para ver quando ele chegasse. Fechou as portas de todos os cmodos l embaixo, de modo que ele s pudesse ver o corredor. 
Pegou tudo o que estava espalhado e jogou dentro da sala e da cozinha. O carpete estava gasto e queimado em algumas partes, e o papel de parede, manchado, mas ela 
no podia fazer nada a respeito disso. No tinha sobrado nenhum desinfetante com cheiro de pinho. Ela borrifou a cozinha e o banheiro, de onde vinha o cheiro ruim 
da casa, com um resto de gua sanitria que conseguiu encontrar.
     Quando Bola bateu, ela desceu correndo. No tinham a tarde toda pela frente. Terri devia estar de volta com Robbie  uma hora. No era muito tempo para se fazer 
um beb.
     Oi - disse ela, abrindo a porta.
     Tudo bem? - perguntou Bola, soltando a fumaa do cigarro pelo nariz.
     No sabia muito bem o que esperava encontrar ali. A primeira impresso que teve do interior da casa foi a de estar dentro de uma caixa encardida e vazia. No 
havia mveis, e as portas fechadas  sua esquerda e em frente eram estranhamente ameaadoras.
     Estamos sozinhos? - perguntou o garoto, assim que cruzou a soleira da porta.
     Estamos. Vamos l pra cima. Pro meu quarto.
     Ela o levou. Quanto mais se embrenhava na casa, pior ficava aquele cheiro de gua sanitria misturado a imundcie. Bola tentava no ligar. Todos os cmodos 
do andar de cima estavam com a porta fechada, exceto um. Krystal entrou nele.
     O garoto no queria parecer chocado, mas no havia nada no quarto a no ser um colcho, coberto com um lenol e um edredom velho, e uma pequena pilha de roupas 
amontoadas no canto. Na parede, umas fotos recortadas de revistas foram grudadas com fita adesiva; era uma mistura de astros da msica e outras celebridades.
     Krystal tinha feito a colagem na vspera, imitando a que havia na parede do quarto de Nikki. Como sabia que Bola viria, quis deixar o quarto mais acolhedor. 
Fechou as cortinas finas, o que deu uma tonalidade azulada  luz do dia.
     Me d um cigarro. T fissurada.
     Ele acendeu um para ela. Estava mais nervosa do que nunca; ele a preferia convencida e experiente.
     No temos muito tempo - disse ela, com o cigarro na boca, comeando a tirar a roupa. - Minha me vai voltar logo.
, t na Bellchapel, n? - perguntou Bola, tentando de algum modo recuperar aquela Krystal durona.
 - respondeu, sentando-se no colcho e tirando a cala de moletom.
     O que vai acontecer se eles fecharem? - perguntou o garoto, tirando o blazer. - Ouvi dizer que esto pensando nisso.
     No sei - respondeu Krystal, mas na verdade estava assustada. A fora de vontade da me, frgil e vulnervel como um passarinho ainda no ninho, podia vacilar 
com a mais nfima ameaa.
     Ela j estava s de calcinha e suti. Bola tirava os sapatos quando percebeu alguma coisa escondida debaixo das roupas amontoadas: a caixinha de jias de plstico 
aberta e, enrolado dentro dela, um relgio que ele conhecia.
     Isso  da minha me? - perguntou, surpreso.
     O qu? - retrucou Krystal, em pnico. - No - mentiu. - Era da minha v Cath. No...!
     Ele o tirou da caixa.
      dela - disse o garoto, reconhecendo a pulseira.
     No  porra nenhuma.
     A garota estava aterrorizada. J tinha praticamente esquecido que tinha roubado aquele relgio e de quem ele era. Bola ficou calado, e ela no gostou nada daquilo.
     O relgio na mo dele a um s tempo o desafiava e repreendia. Numa sucesso rpida de imagens, se viu indo embora, colocando-o descuidadamente no bolso, ou 
devolvendo-o a Krystal, dando de ombros.
      meu - disse ela.
     Ele no queria dar uma de polcia. Queria ser sem lei. Mas s o devolveu a ela e continuou tirando a roupa quando lembrou que aquele relgio tinha sido um presente 
de Pombinho. Vermelha, Krystal tirou a calcinha e o suti e entrou, nua, debaixo do edredom.
     Bola se aproximou dela, de cueca samba-cano, segurando uma camisinha ainda na embalagem.
     No vamos precisar disso - disse ela, com firmeza. - T tomando plula agora.
     Ah, t?
     Ela se afastou para dar lugar a ele no colcho. Bola entrou debaixo do edredom.
     Enquanto tirava a cueca, ficou se perguntando se ela estaria mentindo sobre a plula como estava sobre o relgio. Mas queria experimentar sem camisinha, para 
variar.
     Vai logo - sussurrou ela, pegando o pacotinho quadrado da mo dele e o atirando sobre o blazer largado no cho.
     Bola imaginou Krystal grvida de um filho seu; a cara que Tessa e Pombinho fariam quando lhes desse a notcia. Um filho em Fields, a sua carne e o seu sangue. 
Pombinho jamais agentaria um baque desses.
     Foi para cima dela. Isso, ele sabia, era a vida real.

VIII
     
s seis e meia da tarde, Howard e Shirley Mollison entraram no salo da igreja de Pagford. Shirley estava carregando uma pilha de papis, e Howard usava o colar 
oficial de presidente do Conselho, decorado com as cores azul e branca das insgnias de Pagford.
     O assoalho rangeu sob o peso macio de Howard, enquanto ele se dirigia  cabeceira das mesas arranhadas, que j estavam dispostas ali, uma colada  outra. Howard 
gostava tanto desse salo quanto da sua prpria loja. As escoteiras o usavam nas teras, e o Instituto das Mulheres, nas quartas. Ele tinha sediado bazares beneficentes 
e comemoraes de datas especiais, recepes de casamento e velrios, e cheirava a todas essas coisas: a roupas usadas e caf; a bolo caseiro e salada de batata; 
a poeira e corpos humanos; mas fundamentalmente a madeira envelhecida e pedra. Lustres em bronze batido pendiam das vigas do teto em grossos cabos pretos, e as portas 
de mogno entalhadas conduziam at a cozinha.
     Shirley circulava de um lado para o outro, distribuindo papis. Adorava as reunies do Conselho. Alm de ficar orgulhosa e se divertir vendo Howard presidi-las, 
Maureen no participava delas. Como no tinha nenhuma obrigao oficial, devia se contentar com as migalhas que Shirley se dignasse a partilhar com ela.
     Os outros conselheiros foram chegando sozinhos ou aos pares. Howard os cumprimentava efusivamente, a voz trovejante ecoando pelas vigas do teto. Era raro os 
dezesseis membros do Conselho comparecerem s reunies; hoje ele esperava que viessem doze.
     Metade das cadeiras j estava ocupada quando Aubrey Fawley chegou, andando daquele seu jeito habitual, como se estivesse enfrentando uma ventania, parecendo 
fazer um grande esforo, com o tronco ligeiramente encurvado e a cabea baixa.
     Aubrey! - exclamou Howard, alegremente, e pela primeira vez se adiantou para cumprimentar um recm-chegado. - Como vai? E Julia? Receberam o meu convite?
     Desculpe, eu no...
     Para os meus sessenta e cinco anos? Aqui... no sbado... depois da eleio.
     Ah, claro, claro. Howard, tem uma jovem l fora... Ela disse que  da Gazeta de Yarvil e Adjacncias. Alison qualquer coisa.
     Ah... - replicou Howard. - Estranho. Acabei de mandar o meu artigo para ela, sabe, o que escrevi em resposta ao de Fairbrother... Talvez tenha alguma coisa 
a ver com isso. Vou at l.
     Ele se afastou, adernando o corpo de um lado para o outro, cheio de pressentimentos vagos. Parminder Jawanda entrou quando ele se aproximava da porta. Com as 
sobrancelhas franzidas, como de costume, passou direto por ele, sem o cumprimentar, e pela primeira vez Howard no perguntou "Tudo certinho com Parminder?".
     L fora, no ptio, encontrou uma mulher jovem e loura, atarracada e de ombros largos, com uma aura de animao imperturbvel, com a qual Howard se identificou 
de imediato. Ela estava segurando um notebook, observando as iniciais esculpidas na porta dupla.
     Ol, ol - disse Howard, respirando com certa dificuldade. - Alison, no ? Howard Mollison. Voc veio at aqui s para me dizer que escrevo muito mal?
     Ela sorriu e apertou a mo que ele lhe estendeu.
     Ah, no, gostamos do artigo - assegurou ela. -  que, como as coisas esto ficando bem interessantes, pensei em vir assistir  reunio. Tem algum problema? 
A presena de jornalistas  permitida, no ? Andei dando uma olhada no regulamento.
     Ela se dirigia para a porta enquanto falava.
     Claro, claro, os jornalistas podem assistir s reunies do Conselho - disse Howard, seguindo-a. Deteve-se, porm, na porta do salo, num gesto corts, para 
deixar que ela entrasse primeiro. - Exceto quando h casos que precisam ser discutidos a portas fechadas.
     Ela o encarou, e ele pde ver os seus dentes, mesmo na luz fraca do fim de tarde.
     Como todas essas mensagens annimas no seu site, fazendo acusaes? Do Fantasma de Barry Fairbrother?
     Ah, querida - respondeu Howard, chiando a cada expirao e sorrindo para ela. - Com certeza elas no interessam ao seu jornal. So s uns comentrios tolos 
de internet.
     Foram somente alguns? Disseram que a maior parte foi removida do site.
     No, no, esto enganados - respondeu Howard. - Foram apenas dois ou trs, que eu saiba. Brincadeiras de mau gosto. Pessoalmente - acrescentou ele, improvisando 
mais que depressa -, acho que isso  coisa de garoto.
     Garoto?
     , adolescentes se divertindo.
     Adolescentes teriam como alvo os conselheiros distritais? - perguntou ela, ainda sorrindo. - Ouvi dizer que uma das vtimas perdeu o emprego. Possivelmente 
por causa das alegaes feitas contra ele no seu site.
     Isso  novidade para mim - disse Howard, mentindo. Shirley tinha encontrado com Ruth l no hospital na vspera e ficou sabendo dessa histria.
     Vi na pauta - disse Alison, quando os dois finalmente entraram na sala toda iluminada - que vocs vo discutir sobre a Bellchapel. O sr. Fairbrother e o senhor 
fizeram boas observaes sobre os dois lados da questo nos seus artigos... Recebemos algumas cartas depois da publicao do texto do sr. Fairbrother. Meu editor 
ficou satisfeito. Qualquer coisa que faa as pessoas escreverem para o jornal...
, li essas cartas - comentou Howard. - Ningum parece ter nada de bom a dizer sobre a clnica, no ?
     Os conselheiros  mesa estavam observando os dois. Alison Jenkins olhou para eles, com um sorriso imperturbvel.
     Deixe-me pegar uma cadeira para voc -- disse Howard. Ligeiramente ofegante, levantou uma delas e a colocou a uns trinta centmetros da mesa.
     Obrigada - disse Alison, puxando a cadeira uns quinze centmetros mais para perto.
     Senhoras e senhores - alertou Howard. - A imprensa estar presente na nossa sesso de hoje  noite. Apresento-lhes a srta. Alison Jenkins, da Gazeta de Yarvil 
e Adjacncias.
     Alguns dos conselheiros se mostraram interessados na presena de Alison e at contentes com isso, mas a maioria parecia desconfiada. Howard voltou com dificuldade 
para o seu lugar na cabeceira da mesa, perto de Aubrey e Shirley, que o observavam sem entender nada.
     O Fantasma de Barry Fairbrother - disse a eles, em voz baixa, enquanto se sentava com todo o cuidado numa cadeira de plstico (tinha quebrado uma delas duas 
reunies antes). - E Bellchapel. Ah, a est voc, Tony - gritou ele, dando o maior susto em Aubrey. - Venha, Tony... E vamos dar mais uns minutinhos para Henry 
e Sheila chegarem tambm, pode ser?
     O burburinho da conversa em volta da mesa estava levemente mais baixo do que de costume. Alison Jenkins j escrevia algo no seu notebook. Tudo culpa de Barry 
Fairbrother, pensou Howard, irritado. Ele era o conselheiro que convidava a imprensa para as reunies. Por um breve instante, Howard pensou em Barry e no seu Fantasma 
como uma nica e mesma pessoa, um encrenqueiro vivo ou morto.
     Como Shirley, Parminder havia trazido um monte de papis para a reunio. No alto daquela pilha estava a pauta, que ela fingia ler para no ter de falar com 
ningum. Na verdade, estava pensando na mulher sentada praticamente atrs dela. A Gazeta de Yarvil e Adjacncias publicou uma nota sobre a morte de Catherine Weedon 
e a acusao da famlia contra a mdica. O nome de Parminder no tinha sido citado, mas, sem dvida alguma, a jornalista sabia quem ela era. Talvez Alison tambm 
soubesse do post annimo a seu respeito no site do Conselho.
Calma! Voc est ficando igual a Colin.
     Howard j estava lendo as justificativas de no comparecimento e pedindo para alterar a ordem de alguns tpicos previstos na pauta, mas Parminder mal podia 
ouvi-lo por causa do som do prprio sangue pulsando nos seus ouvidos.
     Agora, a menos que algum tenha alguma objeo - anunciou Howard -, vamos tratar dos itens oito e nove primeiro, porque o conselheiro municipal Fawley tem novidades 
a respeito de ambos, e no vai poder ficar conosco por muito tempo...
     Tenho que sair s oito e meia - disse Aubrey, olhando para o relgio.
     ...claro, ento, a menos que haja alguma objeo... Ningum?... A palavra  sua, Aubrey.
     Aubrey comeou a falar de um jeito simples e desapaixonado. Havia uma nova reviso de limites a caminho, e, pela primeira vez, fora de Pagford, manifestava-se 
o desejo de reintegrar Fields a Yarvil. Aparentemente, arcar com os custos relativamente baixos que Pagford tinha com Fields era algo que valia a pena aos olhos 
daqueles que esperam trazer para Yarvil votos de oposio ao governo. Ali, eles fariam uma diferena considervel, ao passo que em Pagford, que desde os anos 1950 
vinha se mantendo como um reduto conservador, eles estariam sendo desperdiados. A coisa toda poderia ser feita a pretexto de simplificao e eficincia: afinal, 
Yarvil j fornece quase todos os servios para o bairro.
     Aubrey concluiu dizendo que, se Pagford realmente desejava eliminar aquele bairro da sua jurisdio, seria muito til que o vilarejo comunicasse o seu desejo 
ao Conselho Municipal.
     ...uma mensagem clara e direta... - disse ele -, e acho que realmente dessa vez...
     Nunca funcionou antes - disse um fazendeiro, e ouviu-se um burburinho geral de concordncia.
     Mas agora vai funcionar, John. Ns nunca fomos convidados a dar a nossa opinio antes - retrucou Howard.
     No devamos decidir qual  a nossa posio antes de declar-la publicamente? - perguntou Parminder, com voz glida.
     Certo - disse Howard, indiferente. - Gostaria de comear, dra. Jawanda?
     No sei quantas pessoas leram o artigo de Barry na Gazeta - principiou Parminder. Todos os rostos se voltaram para a mdica, e ela tentou no pensar no post 
annimo ou na jornalista sentada bem ali atrs. - Acho que ele apresenta argumentos convincentes para que Fields seja mantido como parte de Pagford.
     Parminder viu Shirley, que estava escrevendo diligentemente, dar um sorrisinho para a caneta.
     Dizendo como isso beneficiou pessoas como Krystal Weedon? - perguntou Betty, uma senhora idosa que estava na ponta da mesa. Parminder sempre odiou aquela mulher.
     Lembrando que as pessoas que moram em Fields tambm fazem parte da nossa comunidade - respondeu ela.
     Eles se consideram parte de Yarvil - disse o fazendeiro. - Sempre foi assim.
     Eu me lembro do dia em que Krystal Weedon empurrou outra criana no rio durante um passeio da escola - afirmou Betty.
     No foi bem assim - contestou Parminder, com raiva. - Minha filha estava l... Foram dois garotos brigando... De todo modo...
     Ouvi dizer que tinha sido Krystal Weedon - insistiu Betty.
     Ouviu errado - retrucou Parminder, to exaltada que chegou a gritar.
     Todos ficaram chocados. Ela tambm. O eco da sua voz reverberou nas paredes velhas. Parminder mal podia engolir; manteve a cabea baixa, olhando fixamente para 
a pauta, e ouviu a voz de John vinda l do outro lado.
     Barry teria feito melhor se tivesse falado de si mesmo, e no daquela garota. Ele, sim, foi muito beneficiado por estudar na St. Thomas.
     O problema  que, para cada Barry - disse outra mulher -, ficamos com um monte de marginais.
     Eles so gente de Yarvil, ponto final - sentenciou um homem. - Eles pertencem a Yarvil.
     Isso no  verdade - rebateu Parminder, mantendo deliberadamente a voz baixa, embora todos tenham se calado para ouvi-la, esperando v-la gritar outra vez. 
- No  verdade mesmo. Vejam os Weedon. Esse era o ponto central do artigo de Barry. Eles so uma famlia de Pagford h muitas geraes, mas...
     Mas se mudaram para Yarvil! - disse Betty.
     No havia moradia aqui - disse Parminder, lutando contra a prpria raiva -, e nenhum de vocs queria novas construes na periferia da cidade.
     Vocs no estavam aqui, sinto muito - disse Betty, com o rosto vermelho, olhando ostensivamente para o lado oposto de Parminder. - Vocs no conhecem a histria.
     Todos comearam a falar ao mesmo tempo. De repente, havia uma srie de grupinhos conversando, e Parminder no conseguia ouvir nada do que eles diziam. Com um 
n na garganta, no se atrevia a olhar ningum nos olhos.
     Vamos votar? - perguntou Howard, gritando da cabeceira da mesa, e todos fizeram silncio novamente. - Quem for a favor de informar ao Conselho Municipal que 
Pagford ficar feliz com a redefinio dos limites, tirando Fields da nossa jurisdio, levante a mo.
     As mos de Parminder estavam fechadas no seu colo com tanta fora que ela podia sentir as unhas entrando na prpria carne. Houve um rudo de braos se erguendo 
ao redor dela.
     Excelente! - exclamou Howard, e o xtase na sua voz ressoou triunfante pelas vigas do teto. - Bem, Tony, Helen e eu vamos redigir um texto e o enviaremos a 
todos vocs. Se for aprovado, acabamos logo com isso. Excelente!
     Alguns conselheiros aplaudiram. Os olhos de Parminder ficaram enevoados, e ela comeou a piscar com fora. A pauta parecia girar, entrando e saindo de foco. 
Fez-se um silncio to longo que ela acabou erguendo os olhos: Howard, em sua excitao, teve que recorrer  bombinha, e a maioria dos conselheiros o observava com 
ar solcito.
     Bem, ento - disse Howard, ainda chiando ao respirar. Ps a bombinha de lado, com o rosto vermelho e sorridente, e prosseguiu. - A menos que algum tenha algo 
mais a acrescentar - fez uma ligeira pausa -, podemos passar ao item nove. A Bellchapel. Aubrey tem algo a nos dizer sobre essa questo tambm.
Barry no deixaria isso acontecer. Ele teria discutido. Teria feito John rir e votar conosco. Ele devia ter escrito sobre si mesmo e no sobre Krystal.., Eu o decepcionei.
     Obrigado, Howard - disse Aubrey, enquanto o sangue latejava nos ouvidos de Parminder, e ela enfiava ainda mais as unhas nas palmas das mos. - Como todos sabem, 
temos que fazer cortes drsticos na administrao municipal...
Ela sempre foi apaixonada por mim, e mal conseguia esconder isso cada vez que me olhava...
     ...e um dos projetos que temos que examinar  a Bellchapel - prosseguiu Aubrey. - Achei que devia dizer algumas palavras, porque, como sabem, o prdio pertence 
ao distrito de Pagford...
     ...e o contrato est chegando ao fim - acrescentou Howard. -  isso.
     Mas ningum est interessado naquele lugar, est? - perguntou um contador aposentado do outro lado da mesa. - Est em muito mau estado, pelo que ouvi dizer.
     Ah, tenho certeza de que a gente pode achar um novo inquilino - disse Howard, com toda a tranqilidade -, mas essa no  a questo. A questo aqui  saber se 
achamos que a clnica est fazendo um bom...
     Essa no  a questo aqui, de jeito nenhum - disse Parminder, cortando-o. - No  atribuio do Conselho Distrital decidir se a clnica est fazendo um bom 
trabalho ou no. Ns no destinamos recursos para financiar o trabalho deles. Ento isso no  da nossa competncia.
     Mas somos os donos do prdio - disse Howard, ainda sorrindo, sempre educado -, ento acredito que  natural que queiramos considerar...
     Se vamos considerar as informaes sobre o trabalho da clnica, acho que  muito importante que tenhamos um retrato justo do que  feito por l - retrucou Parminder.
     Me desculpe - disse Shirley, voltando-se para Parminder, piscando os olhos. - Mas ser que poderia fazer a gentileza de no interromper o presidente, dra. Jawanda? 
 dificlimo tomar notas quando as pessoas falam junto com as outras. E agora fui eu que interrompi - acrescentou, sorrindo. - Me desculpe.
     Imagino que a comunidade queira manter os recursos que arrecadamos com o prdio - disse Parminder, ignorando Shirley. - E, que eu saiba, no temos outro potencial 
inquilino em vista. Ento me pergunto por que teramos que considerar o fim do contrato com a clnica.
     Eles no curam os pacientes - disse Betty. - Simplesmente lhes do mais drogas. E eu ficaria bem feliz de v-los fora dali.
     Ns vamos ter que tomar decises bem difceis no Conselho Municipal - afirmou Aubrey Fawley. - O governo est querendo uma economia de mais de um bilho das 
administraes locais. No vamos poder continuar oferecendo determinados servios como fazamos antes. Essa  a realidade.
     Parminder odiava o modo como os conselheiros agiam com Aubrey, bebendo as suas palavras ditas com aquela voz profunda e modulada, e as- sentindo gentilmente 
enquanto ele falava. Sabia perfeitamente que alguns deles a chamavam de Aluga-Ouvido.
     Pesquisas mostram que o uso de drogas ilcitas aumenta durante perodos de recesso - disse Parminder.
     Porque eles querem - falou Betty. - Ningum os obriga a usar drogas.
     A mdica olhou ao seu redor, buscando apoio para o que tinha dito. Shirley sorriu para ela.
     Vamos ter que fazer escolhas duras - disse Aubrey.
     Ento esto de acordo com Howard - interrompeu-o Parminder -, e j decidiram que vo dar  clnica um empurrozinho, obrigando-a a sair do prdio.
     Posso listar maneiras muito melhores de gastar o dinheiro do que com um bando de criminosos - disse o contador.
     Eu cortaria todos os benefcios deles - declarou Betty.
     Fui convidado para essa reunio para deix-los a par do que est acontecendo na administrao municipal - disse Aubrey calmamente. - Nada alm disso, dra. Jawanda.
     Helen - bradou Howard, apontando para outra conselheira, cuja mo estava levantada e que, havia alguns minutos, tentava dar a sua opinio.
     Parminder no ouviu nada do que a mulher disse. J tinha at se esquecido da pilha de papis que estava debaixo da pauta,  qual Kay Bawden dedicou tanto tempo: 
as estatsticas, o perfil dos casos de sucesso, a explicao dos benefcios do uso da metadona contra a dependncia de herona, estudos mostrando o custo financeiro 
e social dessa dependncia. Tudo  sua volta parecia estar se dissolvendo, tornando-se ligeiramente irreal. Sabia que explodiria como jamais havia explodido na vida, 
e no havia mais como lamentar, prevenir ou fazer qualquer coisa, exceto ver acontecer. Era tarde, tarde demais...
     ...a cultura dos direitos adquiridos - disse Aubrey. - Pessoas que praticamente nunca trabalharam um dia sequer na vida.
     E, convenhamos - pontificou Howard -, esse  um problema com uma soluo muito simples. Parem de usar drogas.
     Ele se virou para Parminder sorrindo, conciliador.
     Chamam isso de abstinncia, no  assim, dra. Jawanda?
     Ah, ento voc acha que eles devem assumir a responsabilidade pelo seu vcio e mudar o seu comportamento,  isso? - perguntou Parminder.
     De forma simplificada, sim.
     Antes que gastem mais dinheiro do governo.
     Exata...
     E voc? - perguntou Parminder bem alto, enquanto a exploso silenciosa comeava a tomar conta dela. - Sabe quantos milhares de libras voc, Howard Mollison, 
custa ao servio de sade, por causa de sua incapacidade de parar de se empanturrar?
     Uma mancha vermelho-escura intensa se espalhava pelo pescoo de Howard e ia subindo pelo seu rosto.
     Sabe quanto a sua ponte de safena custou ao governo, e os remdios, e a sua longa estada no hospital? E as consultas mdicas a que voc vai por causa da asma, 
da presso alta e daquela erupo cutnea horrorosa...? Tudo isso causado pela sua recusa em perder peso.
 medida que a voz de Parminder ia se transformando em gritos estridentes, outros conselheiros comearam a protestar em defesa de Howard. Shirley se ps de p, e 
Parminder continuava berrando, recolhendo os papis que, sabe-se l como, tinham se espalhado enquanto ela gesticulava.
     E quanto ao sigilo mdico? - berrava Shirley. - Ultrajante. Isso  absolutamente ultrajante.
     Parminder j passava apressada pela porta, quando ouviu, a despeito do seu prprio choro convulsivo, Betty pedir a sua expulso imediata do Conselho. Estava 
fugindo do salo sabendo que tinha provocado um cataclismo, e no queria mais nada alm de ser tragada pela escurido e desaparecer para sempre.

IX
     
     A Gazeta de Yarvil e Adjacncias foi, no mnimo, excessivamente cautelosa ao relatar o que havia sido dito durante a mais custica reunio do Conselho Distrital 
de Pagford. Fez pouca diferena. O relato atenuado do jornal foi generosamente aumentado pelas vividas descries das testemunhas oculares, oferecidas por todos 
os que estiveram presentes, e ainda gerava um falatrio indiscriminado. Para piorar ainda mais as coisas, uma matria de primeira pgina detalhava os ataques annimos 
na internet com o nome do homem morto, que, para citar Alison Jenkins, "causaram muita especulao e raiva. Ver reportagem integral na pgina quatro". Ainda que 
os nomes dos acusados e os detalhes das suas supostas transgresses no tenham sido revelados, ver os termos "alegaes srias" e "atividades criminosas" impressos 
no papel perturbou Howard muito mais do que os posts originais.
     Ns devamos ter reforado a segurana do site assim que o primeiro post apareceu - disse ele, se dirigindo  mulher e  scia em frente  lareira.
     Uma chuvinha mida de primavera batia na janela, e a grama escura reluzia com minsculos pontinhos avermelhados de luz. Howard chegava a tremer e monopolizava 
todo o calor que emanava do carvo artificial. Por vrios dias, quase todo cliente da delicatssen e do caf falava sobre os posts annimos, sobre o Fantasma de 
Barry Fairbrother e sobre a exploso de Parminder Jawanda na reunio do Conselho. Howard odiava que todos agora estivessem comentando o que ela lhe disse, aos berros. 
Pela primeira vez na vida, no se sentia  vontade na sua loja e estava preocupado com a sua reputao antes inabalvel em Pagford. A eleio para a substituio 
de Barry Fairbrother no Conselho aconteceria no dia seguinte, e, se antes isso o deixava animado e otimista, agora gerava preocupao e nervosismo.
     Toda essa histria causou um mal enorme. Um mal enorme - repetia ele.
     A sua mo avanava pela barriga para se coar, mas ele a tirava rapidamente dali, suportando a coceira com a resignao de um mrtir. No esqueceria to cedo 
o que a dra. Jawanda havia gritado para o Conselho e para a imprensa. Ele e Shirley j tinham examinado as determinaes do Conselho Geral de Medicina, procurado 
o dr. Crawford e apresentado uma queixa formal. Parminder no tinha sido vista no trabalho desde ento, porque sem dvida j se arrependera daquela exploso. No 
entanto, Howard no podia esquecer o que viu no seu rosto enquanto ela gritava. Nunca havia visto tanto dio no rosto de um outro ser humano, e isso o deixou transtornado.
     Daqui a pouco ningum mais vai falar sobre isso - assegurou-lhe Shirley.
     No tenho tanta certeza - disse Howard. - No tenho tanta certeza. Isso denigre a nossa imagem. A do Conselho. Brigas na frente da imprensa. Parece que estamos 
divididos. Aubrey disse que o Conselho Municipal no ficou nada satisfeito. Essa coisa toda enfraquece a nossa deciso sobre Fields. Bate-boca em pblico, tudo vai 
ficando enlameado... Fica parecendo que o Conselho no est falando em nome do vilarejo.
     Mas estamos - disse Shirley, com uma risadinha. - Ningum mais quer Fields em Pagford... Bem, quase ningum.
     A reportagem fez parecer que o nosso lado est se impondo sobre os pr-Fields. Que tentamos intimid-los - disse Howard, sucumbindo  tentao de se coar e 
fazendo isso com vontade. - Tudo bem que Aubrey sabe que no foi ningum do nosso lado, mas no foi isso que aquela jornalista fez parecer. E vou lhe dizer uma coisa: 
se Yarvil nos fizer parecer desonestos e ineptos... Eles procuram por uma chance de nos colocar sob a sua jurisdio h anos.
     Isso no vai acontecer - rebateu Shirley imediatamente. - Isso no pode acontecer.
     Eu pensei que tivesse acabado - disse Howard, ignorando a mulher e falando de Fields. - Pensei que havamos conseguido. Que tnhamos nos livrado deles.
     O artigo ao qual dedicara tanto tempo, explicando por que o bairro e a Clnica de Reabilitao Bellchapel drenavam os recursos de Pagford e manchavam o seu 
nome, tinha sido completamente obscurecido pelo escndalo da exploso de Parminder e pelo Fantasma de Barry Fairbrother. Howard agora j nem se lembrava do prazer 
que sentiu ao ler as acusaes contra Simon Price, e que no lhe passara pela cabea remover o tal post at que a mulher de Simon pediu que o tirassem de l.
     O Conselho Municipal me mandou um e-mail - disse ele a Maureen - com uma srie de perguntas sobre o site. Queriam saber que precaues estamos tomando para 
evitar a difamao. Acham que a segurana  negligente.
     Shirley, que viu nesse comentrio uma crtica pessoal, retrucou friamente:
     Eu disse que j cuidei disso, Howard.
     O sobrinho de uns amigos do casal tinha passado por l na vspera, enquanto Howard estava no trabalho. O rapaz estava quase se formando em cincia da computao. 
Recomendou a Shirley que tirassem do ar aquele site ridiculamente fcil de ser hackeado e chamassem "algum que saiba o que est fazendo" para desenvolver um novo.
     Shirley mal entendeu todo o jargo tcnico que ele havia usado. Sabia que hackear era violar sistemas ilegalmente, e, quando o estudante parou de falar aquela 
lngua incompreensvel, ficou toda confusa, com a impresso de que o Fantasma havia conseguido de alguma maneira descobrir a senha das pessoas, talvez apenas perguntando 
a elas astuciosamente durante uma conversao casual.
     J tinha mandado e-mails pedindo a todos que trocassem as suas senhas e no as revelassem a ningum. Era o que queria dizer com "j cuidei disso".
     Quanto  sugesto de tirar do ar o site do qual era curadora e guardi, Shirley no tomou nenhuma providncia e nem sequer comentou o fato com Howard. Tinha 
medo de que um site com todas as medidas de segurana sugeridas por aquele rapaz pretensioso estivesse muito alm das suas habilidades tcnicas e administrativas. 
J tinha atingido o limite da sua capacidade, mas estava determinada a manter o posto de administradora.
     Se Miles for eleito... - principiou Shirley, mas logo foi interrompida pela voz grave de Maureen.
     Vamos torcer para que toda essa coisa desagradvel no arranhe a sua candidatura. Vamos torcer para que no haja nenhuma repercusso contra ele.
     As pessoas sabem que Miles no tem nada a ver com isso - disse Shirley, com frieza.
     Sabem mesmo? - retrucou Maureen, e Shirley a odiou. Como se atrevia a se sentar na sala dela e contradiz-la? E, o que era pior, Howard estava balanando a 
cabea, concordando com Maureen.
     Essa  a minha preocupao - disse ele. - E precisamos de Miles mais do que nunca, para dar novamente alguma coeso ao Conselho. Depois que Aluga-Ouvido disse 
o que disse... depois de todo aquele tumulto... ns nem votamos sobre a Bellchapel. Precisamos de Miles.
     Shirley j tinha sado da sala, num protesto mudo por Howard ter ficado do lado de Maureen. Foi para a cozinha preparar o ch, irritada, pensando se no devia 
levar s duas xcaras, para a outra entender que no era bem-vinda, afinal, ela bem que merecia.
     No fundo, tudo o que sentia pelo Fantasma era uma admirao desafiadora. As acusaes dele tinham exibido toda a verdade sobre pessoas das quais ela no gostava 
e a quem desprezava; pessoas que eram teimosas e destrutivas. Tinha certeza de que o eleitorado de Pagford veria as coisas como ela e votaria em Miles, e no naquele 
homem repulsivo, o tal Colin Wall.
     Quando temos que ir votar? - perguntou Shirley, entrando na sala novamente com a bandeja de ch tilintando, e ignorando Maureen de forma proposital (porque 
era o nome do filho deles que todos marcariam na cdula).
     Mas, para piorar a sua irritao, ouviu Howard sugerir que eles trs fossem juntos, depois de fechar a loja.
     Miles Mollison estava quase to preocupado quanto o pai, achando que aquele clima de irritao sem precedentes nos dias que antecediam a eleio pudesse afetar 
as suas chances eleitorais. Naquela manh, entrou na loja de convenincia da praa e ouviu um pedao da conversa entre a mulher do caixa e um cliente j bem idoso.
     ...Mollison sempre achou que era o rei de Pagford - dizia o velho, sem ligar para a expresso impassvel da atendente da loja. - Eu gostava de Barry Fairbrother. 
Foi uma tragdia. Uma tragdia. O filho do Mollison fez nossos testamentos, e achei ele muito metido a besta.
     Ao ouvir isso, Miles ficou sem jeito, deu meia-volta e saiu dali, com o rosto pegando fogo como um garoto de escola. Perguntava-se se no teria sido este velho 
to bem-articulado que enviou aquela carta annima. A sua crena de que todos gostavam muito dele estava abalada, e ficou tentando imaginar como se sentiria se ningum 
votasse nele no dia seguinte.
     Quando estava se despindo para ir deitar naquela noite, ficou observando o reflexo da esposa no espelho da penteadeira. H dias Samantha vinha sendo sarcstica 
sempre que ele mencionava a eleio. Gostaria de receber algum apoio, algum conforto naquela noite. E estava excitado tambm. J fazia muito tempo. Parando para 
pensar, achou que havia sido na noite anterior  morte de Barry Fairbrother. Ela estava um pouco bbada. Mas, nos ltimos tempos, ela sempre precisava estar um pouco 
bbada.
     Como foi o trabalho? - perguntou ele, vendo-a tirar o suti na frente do espelho.
     Samantha no respondeu imediatamente. Esfregou as marcas vermelhas deixadas pelo suti apertado debaixo dos braos e ento disse, sem olhar para Miles:
     Estava mesmo querendo conversar com voc sobre isso.
     Detestava ter que tocar nesse assunto. Era algo que vinha adiando h semanas.
     Roy acha que tenho que fechar a loja. Ela no est indo muito bem.
     No dava para lhe dizer at que ponto os negcios iam mal: isso seria um choque para Miles. Ela prpria ficou chocada quando o contador exps a situao em 
termos bem claros. Ela j sabia e no sabia.  estranho como a nossa cabea pode saber o que o corao se recusa a aceitar.
     Ah - exclamou Miles. - Mas vai ficar com o site?
     Vou.
     Isso  bom - disse Miles, encorajando-a. Esperou quase um minuto, em respeito  morte da loja, e ento prosseguiu: - Imagino que voc no tenha visto a Gazeta 
hoje.
     Samantha pegou a camisola em cima do travesseiro, e ele deu uma boa olhada nos seios dela. Sem dvida, sexo hoje o ajudaria a relaxar.
     E uma pena, Sam - disse ele, engatinhando pela cama s suas costas e esperando que ela vestisse a camisola, para s ento abra-la. - Essa histria da loja. 
Era um lugarzinho fantstico. E j so quantos anos... dez?
     Quatorze - respondeu ela.
     Sabia o que ele queria. Pensou em dizer para ele ir se foder e fugir para o quarto de hspedes, mas o problema era que ento haveria discusso e ficaria um 
climo entre eles, e o que ela queria mais do que tudo no mundo era poder ir para Londres com Libby dali a dois dias, usando a camiseta que tinha comprado para as 
duas, e ficar bem perto de Jake e dos seus companheiros de banda por uma noite inteira. Samantha tinha depositado toda a sua felicidade na perspectiva daquela viagem. 
Mas no era s isso: o sexo podia amenizar o aborrecimento que Miles vinha demonstrando por ela no ir ao aniversrio de Howard.
     Deixou ento que ele a abraasse e beijasse. Fechou os olhos, subiu em cima do marido e se imaginou cavalgando Jake numa praia deserta de areia branca, ela 
com dezenove anos, e ele com vinte e um. E gozou imaginando que Miles os observava, furioso, com um binculo, de um pedalinho distante.
s nove da manh do dia da eleio para a vaga de Barry no Conselho Distrital, Parminder deixou a antiga casa paroquial e subiu a Church Row, para passar na casa 
dos Wall. Bateu  porta e esperou at que, finalmente, Colin apareceu.
     Ele estava com olheiras profundas, os olhos vermelhos e o rosto encovado. A sua pele parecia ter se tornado mais fina, e as suas roupas, maiores. Ainda no 
tinha voltado ao trabalho. Saber que Parminder havia revelado informaes mdicas confidenciais sobre Howard em pblico aos berros interrompeu o processo ainda to 
incipiente da sua recuperao. Aquele Colin robusto de algumas noites atrs, que se sentou no pufe de couro e fingia estar confiante na vitria, parecia nunca ter 
existido.
     Est tudo bem? - perguntou ele, fechando a porta, desconfiado.
     Est, sim - respondeu ela. - Pensei que voc quisesse ir at o salo da igreja comigo para votarmos.
     Eu... no - replicou ele, de forma quase inaudvel. - Desculpe.
     Sei como se sente, Colin - disse a mdica em voz baixa, mas firme. - Mas, se no votar, eles vo vencer. E no vou deixar eles vencerem. Vou at l e vou votar 
em voc, e quero que venha comigo.
     Parminder tinha sido efetivamente suspensa do trabalho. Os Mollison apresentaram queixa formal a todas as associaes profissionais cujo endereo conseguiram 
achar, e o dr. Crawford aconselhou Parminder a tirar uma licena. Para a sua grande surpresa, ela se sentiu estranhamente aliviada.
     Mas Colin insistia, fazendo que no com a cabea. E Parminder achou que tinha visto lgrimas nos seus olhos.
     No consigo, Minda.
     Consegue, sim - disse ela. - Voc consegue, Colin! Tem que fazer frente a eles. Pense em Barry!
     No consigo... Desculpe... Eu...
     Ele pareceu engasgar, e ento caiu no choro. Colin j tinha chorado na frente dela antes, l na clnica, soluando convulsivamente, desesperado com o peso do 
medo que carregava todos os dias da sua vida.
     Venha comigo - disse ela, sem ficar constrangida, e o segurou pelo brao, conduzindo-o at a cozinha. L lhe estendeu um papel-toalha e o deixou se entregar 
ao choro. - Onde est Tessa?
     No trabalho - gaguejou ele, enxugando os olhos.
     Havia um convite para a festa de aniversrio de sessenta e cinco anos de Howard Mollison na mesa da cozinha; algum o tinha rasgado bem no meio.
     Recebi um desses tambm - disse Parminder. - Antes de gritar com ele. Oua, Colin. Votar...
     No consigo - sussurrou Colin.
     ...vai mostrar a eles que no nos derrotaram.
     Mas eles nos derrotaram - respondeu Colin.
     Parminder caiu na gargalhada. Depois de ficar olhando para ela por um instante, boquiaberto, Colin comeou a rir tambm: uma risada sonora como o latido de 
um cachorro grande.
     Certo, eles nos tiraram dos nossos empregos - disse Parminder -, e nenhum de ns est querendo sair de casa, mas, fora isso, acho que, na verdade, estamos muito 
bem.
     Colin tirou os culos e pressionou o papel-toalha nos olhos molhados, sorrindo.
     Vamos l, Colin. Quero votar em voc. Ainda no acabou. Depois que eu perdi as estribeiras e disse a Howard que ele no era melhor do que um drogado na frente 
do Conselho inteiro e da imprensa local...
     Colin comeou a rir de novo, e ela ficou contente. No o via rir assim desde o Ano-Novo, e foi Barry que o tinha feito rir.
     ...eles se esqueceram de votar o despejo da Clnica Bellchapel. Ento, por favor, pegue o seu casaco. Vamos at l juntos.
     Colin parou de fungar e de dar risadinhas nervosas. Olhava as prprias mos, esfregando uma na outra, como se as estivesse lavando.
     Ainda temos uma chance, Colin. Voc pode fazer a diferena. As pessoas no gostam dos Mollison. Se voc entrar, vamos ficar numa posio muito mais forte para 
lutar. Por favor, Colin.
     Est certo - concordou ele, depois de alguns instantes, impressionado com a prpria ousadia.
     Era uma caminhada curta no ar fresco e puro, cada um segurando com fora o seu ttulo de eleitor. No havia ningum votando quela hora no salo da igreja, 
exceto eles. Os dois fizeram um X ao lado do nome de Colin e saram dali com a sensao de alvio de quem no foi apanhado em flagrante.
     At o meio-dia, Miles Mollison no tinha ido votar. Quando estava saindo do escritrio, parou na porta da sala do seu scio.
     Estou indo votar, Gav - anunciou.
     Gavin fez sinal mostrando que estava ao telefone; falava com a companhia de seguros de Mary.
     Ah... Desculpe... Estou indo votar, Shona - disse Miles, se virando para a secretria.
     No custava nada lembrar que contava com o apoio deles. Desceu a escada correndo e se dirigiu para o Copper Kettle, onde tinha combinado de encontrar a mulher, 
numa conversa breve depois do sexo da vspera, para que pudessem ir juntos at o salo da igreja.
     Samantha passou a manh em casa, deixando a loja aos cuidados da sua funcionria. Sabia que no podia mais adiar; tinha que contar a Carly que a loja ia fechar 
e que ela ficaria desempregada, mas no conseguiu fazer isso antes do fim de semana e do show em Londres. Quando Miles apareceu com aquele sorrisinho animado, foi 
tomada pela fria.
     Papai no vem? - foram as primeiras palavras dele.
     Eles vo mais tarde, depois que fecharem a loja - respondeu Samantha.
     Havia duas senhoras votando quando ela e Miles chegaram l. Samantha ficou esperando, olhando para os seus cabelos de um cinza-metlico, os seus casacos grossos 
e os seus tornozelos mais grossos ainda. Era assim que ela ficaria um dia. A mais curvada das duas notou a presena de Miles e, ao sair, sorriu e disse:
     Acabei de votar em voc!
     Muito obrigado - disse Miles, encantado.
     Samantha entrou na cabine de votao e ficou olhando para os dois nomes na cdula, Miles Mollison e Colin Wall, segurando o lpis que estava amarrado com um 
barbante. Ento escreveu, desleixadamente, "Eu odeio Pagford" no meio da cdula, dobrou-a, atravessou a sala na direo da urna e a depositou l dentro.
     Obrigado, amor - disse Miles baixinho, dando um tapinha nas costas da mulher.
     Tessa Wall, que jamais havia deixado de votar numa eleio, passou pela igreja quando voltava da escola para casa e no parou. Ruth e Simon Price ficaram o 
dia inteiro conversando sobre a possibilidade de se mudarem para Reading. Ruth tinha jogado fora o ttulo de eleitor deles quando limpou a mesa da cozinha para o 
jantar.
     Gavin nunca teve a inteno de votar. Se Barry estivesse vivo e concorrendo, ele votaria, mas no tinha vontade nenhuma de ajudar Miles a conquistar mais um 
dos seus objetivos. s cinco e meia, arrumou as suas coisas, irritado e triste, porque tinha esgotado de vez o estoque de desculpas para no ir jantar na casa de 
Kay. E, pelo visto, hoje seria particularmente desagradvel, porque a companhia de seguros tinha lhe dado alguma esperana de que ia finalmente beneficiar Mary, 
e ele queria muito ir at a casa dela para lhe dar a notcia pessoalmente. Isso significava que teria que guardar as novidades at o dia seguinte, j que no ia 
desperdi-las pelo telefone.
     Quando Kay abriu a porta daquele jeito apressado e zangado, Gavin soube que ela estava de mau humor.
     Desculpe, hoje foi um dia terrvel - disse Kay, embora ele no tivesse reclamado de nada; na verdade, mal tinham se cumprimentado. - Cheguei tarde em casa. 
Pretendia j estar com tudo quase pronto.
     Do andar de cima vinha uma batida forte e repetitiva de bateria e um solo de guitarra estridente. Gavin achou incrvel que os vizinhos no estivessem reclamando. 
Kay o viu olhando para o teto e disse:
     Ah, Gaia est furiosa porque um garoto de quem ela gostava l em Hackney comeou a sair com outra garota.
     Pegou a taa de vinho que j estava bebendo e tomou um generoso gole. Ficou com uma certa dor na conscincia por ter chamado Marco de Luca de "um garoto". Ele 
praticamente se mudou para a casa delas, algumas semanas antes de deixarem Londres. Kay o tinha achado encantador, atencioso e prestativo. Gostaria de ter tido um 
filho como Marco.
     Ela vai sobreviver - disse Kay, afastando tais lembranas, e voltou para as batatas que estavam no fogo. - Tem dezesseis anos, e, nessa idade, a gente se recupera 
logo. Pegue um pouco de vinho.
     Gavin se sentou numa das cadeiras da mesa da cozinha, esperando que Kay conseguisse fazer Gaia diminuir o som. Ela tinha literalmente que gritar para superar 
a vibrao da guitarra, o chacoalhar das tampas das panelas e o barulho do exaustor. E, mais uma vez, ele desejava ardentemente a melancolia calma da cozinha de 
Mary, a sua gratido, a necessidade que ela tinha dele.
     O qu? - indagou ele bem alto, porque percebeu que Kay tinha lhe dito alguma coisa.
     Perguntei se voc votou.
     Se eu votei?
     Na eleio do Conselho Distrital - disse ela.
     No - respondeu Gavin. - No estou nem a para isso.
     No tinha certeza se ela tinha ouvido. Kay estava falando novamente, e apenas quando se virou para a mesa, com facas e garfos na mo, ele conseguiu escutar 
o que ela dizia.
     ...um absurdo total, na verdade, os conselheiros estarem de conluio com Aubrey Fawley. Eu acho que a Bellchapel vai fechar se Miles ganhar...
     Foi escorrer as batatas na pia, e o barulho da gua caindo abafou a voz dela de novo.
     ...se aquela idiota no tivesse perdido a calma, poderamos ter uma chance melhor. Dei a ela um monte de material sobre a clnica, e acho que no usou nada. 
Ficou s gritando com Howard Mollison, dizendo que ele era enorme de gordo. O cmulo da falta de profissionalismo...
     Gavin tinha ouvido uns comentrios sobre a exploso da dra. Jawanda, e achava aquilo tudo de certa forma engraado.
     ...e toda essa incerteza  muito prejudicial para os funcionrios da clnica, sem falar nos pacientes.
     Mas Gavin no conseguia sentir nem pena nem indignao; apenas ficava muito chateado ao ver o interesse que Kay parecia ter pelas relaes e personagens envolvidos 
nas misteriosas questes locais. Ainda por cima, isso mostrava claramente como ela estava criando razes cada vez mais profundas em Pagford, e no ia ser fcil tir-la 
dali.
     Voltou-se para a janela e olhou o quintal l fora, cuja grama estava bem alta. Tinha se oferecido para ajudar Mary e Fergus a cuidar do jardim deles no fim 
de semana. Com sorte, pensou, Mary iria convid-lo para jantar outra vez, e, nesse caso, poderia faltar quela festa de aniversrio de Howard Mollison, que Miles 
pelo visto achava que ele no queria perder de jeito nenhum.
     ...queria manter os Weedon, mas no, Gillian disse que temos que dar vez a todos, que no podemos ficar escolhendo. Voc diria que isso  ficar escolhendo?
     Desculpe, o que disse?
     Mattie est de volta - respondeu ela, e ele se esforou muito para lembrar que Mattie era uma colega de trabalho, cujos casos ela estava cobrindo. Eu queria 
continuar trabalhando com os Weedon, porque s vezes voc cria um vnculo especial com determinada famlia, mas Gillian no quer deixar. E muito doido isso.
     Pelo que ouvi dizer, voc deve ser a nica pessoa no mundo que quer continuar com os Weedon - disse Gavin.
     Kay teve que se munir de toda a sua fora de vontade para no responder  altura. Foi tirar os fils de salmo do forno. A msica de Gaia estava to alta que 
podia senti-la vibrando na assadeira que largou em cima do fogo.
     Gaia! - gritou ela, furiosa, correndo at a escada, e Gavin tomou o maior susto. - GAIA! Abaixe isso! Estou falando srio! ABAIXE ISSO!
     Gaia baixou o volume da msica quase imperceptivelmente. Kay voltou para a cozinha, bufando. A discusso com a filha, antes de Gavin chegar, havia sido uma 
das piores que j tiveram. Gaia disse expressamente que pretendia ligar para o pai e pedir para ir morar com ele.
     Bem, ento boa sorte - gritou Kay.
     Mas talvez Brendan dissesse sim. Ele a deixara quando Gaia tinha apenas um ms. Mas agora estava casado e com trs outros filhos. Tinha uma casa enorme e um 
bom emprego. E se dissesse sim?
     Gavin ficou contente de no terem que conversar enquanto comiam. O barulho ensurdecedor da msica preenchia o silncio, e ele podia pensar em Mary em paz. Contaria 
a ela amanh que a companhia de seguros parecia interessada em fazer um acordo, e receberia sua gratido e admirao.
     Ele tinha quase limpado o prato quando percebeu que Kay no havia comido nada. Estava olhando para ele do outro lado da mesa, e a expresso no seu rosto deixou 
Gavin preocupado. Ser que, de algum modo, ele havia revelado os seus pensamentos mais ntimos?...
     L em cima, a msica de Gaia parou de repente, e a quietude pulsante que se seguiu o aterrorizou. Gavin desejou que Gaia pusesse depressa outra msica nas alturas.
     Voc nem ao menos tenta - disse Kay, com um olhar triste. - Nem ao menos finge que se interessa, Gavin.
     Ele tentou pegar o atalho mais fcil.
     Kay, tive um dia cheio hoje - justificou ele. - Desculpe se no estava preparado para as mincias da poltica local assim que entr...
     No estou falando da poltica local - retrucou ela. - Voc se senta a e parece que preferia estar em qualquer outro lugar... ...  ultrajante. O que voc 
quer, Gavin?
     Ele viu a cozinha, e o rosto suave de Mary.
     Tenho que implorar para ver voc - prosseguiu Kay -, e, quando vem aqui, s consegue deixar ainda mais claro que no queria ter vindo.
     Queria que ele dissesse "isso no  verdade". Mas o momento em que ainda seria possvel negar alguma coisa j havia passado. Estavam se aproximando, a uma velocidade 
crescente, da crise que Gavin a um s tempo temia e desejava ardentemente.
     Diga o que voc quer - pediu ela, exausta. - S peo isso.
     Os dois podiam sentir que a relao deles estava desmoronando sob o peso de tudo que Gavin se recusava a dizer. E foi com a sensao de estar pondo um fim  
infelicidade dos dois que ele encontrou as palavras que no queria dizer em voz alta, talvez nunca, mas que, de algum modo, pareciam desculpar a ambos.
     Eu no queria que isso acontecesse - disse Gavin, com toda a sinceridade. - No tive a inteno. Sinto muito, Kay, mas acho que estou apaixonado por Mary Fairbrother.
     Ele viu pela expresso no seu rosto que ela no estava preparada para isso.
     Mary Fairbrother? - repetiu ela.
 - disse ele (e sentiu um certo prazer em falar sobre isso, embora sabendo que a estava ferindo. Nunca tinha sido capaz de falar sobre isso com ningum) -acho que 
estou apaixonado por ela h muito tempo. Nunca admiti isso... Quero dizer, quando Barry estava vivo, eu nunca tive...
     Pensei que ele fosse o seu melhor amigo - sussurrou ela.
     E era.
     No faz nem um ms que ele morreu!
     Gavin no gostou de ouvir isso.
     Olhe - disse ele -, estou tentando ser honesto com voc. Estou tentando ser correto.
     Voc est tentando ser correto?
     Ele sempre tinha imaginado que tudo terminaria num acesso de fria, mas ela ficou parada ali, olhando-o vestir o casaco, com lgrimas nos olhos.
     Desculpe - disse Gavin, e saiu daquela casa pela ltima vez.
     O que sentiu ao chegar  calada foi uma onda de euforia, e correu para o carro. Poderia contar a Mary sobre a companhia de seguros ainda naquela noite.
     
     Parte Cinco
     
     Privilgio
     
     7.32 A pessoa que fez uma declarao difamatria pode requerer privilgio se provar que o fez sem maldade e no cumprimento de um dever pblico.
     
     Charles Arnold-Baker 
     Administrao dos Conselhos Locais 
     7a edio
     
     
     I
     
     Terri Weedon estava acostumada a ser abandonada. O primeiro e pior abandono tinha sido o de sua me, que nem sequer se despediu, simplesmente saiu de casa um 
dia, levando uma mala, enquanto Terri estava na escola.
     Houve muitas assistentes sociais e cuidadoras depois que ela fugiu de casa aos quatorze anos, e algumas delas foram bastante boas, mas todas iam embora quando 
acabava o trabalho no fim do expediente. Cada nova partida acrescentava outra fina camada  crosta que encobria o seu ser.
     Fez amigos nos abrigos, mas aos dezesseis anos todos iam embora, e a vida os dispersou. Conheceu Ritchie Adams e teve dois filhos com ele. Minsculas coisinhas 
rosadas, puras e belas como nunca tinha visto nada igual no mundo: e tinham sado dela. Por duas vezes, durante algumas horas felizes no hospital, sentiu-se como 
se ela mesma estivesse renascendo.
     E ento as crianas foram levadas embora, e ela nunca mais voltou a v-las.
     Grinfa a abandonou. A av Cath a abandonou. Quase todo mundo tinha ido embora, quase ningum ficou. A essa altura j devia estar acostumada.
     Quando Mattie, a assistente social que cuidava do seu caso, reapareceu, Terri perguntou:
     Cad a outra?
     Kay? Ela s me substituiu enquanto estive doente - disse Mattie. - E ento, onde est Liam? Quer dizer... Robbie, no ?
     Terri no gostava de Mattie. Por um nico motivo: ela no tinha filhos. Como  que algum que no tinha filhos podia lhe dizer como criar os seus? O que entendia 
disso? Na verdade, tambm no gostava de Kay... mas sentia uma sensao estranha quando estava com ela, o mesmo que sentia quando estava com a av Cath, antes de 
ela a chamar de puta e lhe dizer que nunca mais queria voltar a v-la... Dava para sentir que Kay - mesmo carregando aquelas pastas como todas as outras, mesmo insistindo 
em fazer a reavaliao do caso dela - queria que as coisas dessem certo para ela, e no apenas para os formulrios. Dava realmente para sentir isso. Mas ela tinha 
ido embora, e com certeza j nem lembra que a gente existe, pensou Terri, furiosa.
     Na sexta  tarde, Mattie contou a Terri que era quase certo que a Bell- chapel fosse fechar.
 pura poltica - disse rispidamente. - Querem economizar dinheiro, e o tratamento com metadona  muito criticado no Conselho Municipal. Alm disso, Pagford quer 
o prdio de volta. Tudo isso saiu no jornal, talvez voc tenha visto.
s vezes ela falava com Terri desse jeito, entrando numa conversa do tipo afinal-estamos-nisso-juntas, o que era chocante, porque ao mesmo tempo ela perguntava se 
Terri no estava se esquecendo de alimentar o filho. Mas dessa vez foi o que ela disse e no o modo como disse que deixou Terri zangada.
     Vo fechar, ? - repetiu ela.
     Parece que sim - respondeu Mattie, sem prestar muita ateno. - Mas isso no vai fazer diferena nenhuma para voc. Bom,  claro que...
     Terri comeou trs vezes o tratamento na Bellchapel. O interior empoeirado da antiga igreja, com as suas divisrias, os seus folhetos, o banheiro com aquela 
luz neon azulada (assim no dava para encontrar uma veia e se aplicar) tinham se tornado familiares, quase amigveis. Ultimamente, comeou a perceber uma mudana 
no jeito como os funcionrios falavam com ela. No comeo, todos esperavam que ela fracassasse novamente, mas aos poucos passaram a falar com ela exatamente como 
Kay falava: como se soubessem que havia uma pessoa ali dentro daquele seu corpo cheio de marcas de picadas e cicatrizes de queimadura.
     ... claro que vai ser diferente, mas voc pode pegar a metadona com o mdico - disse Mattie. Ela folheou pginas e pginas do extenso dossi com todas as informaes 
sobre a vida de Terri. - Voc tem registro com a dra. Jawanda em Pagford, certo? Pagford... Por que ir to longe?
     Acertei uma enfermeira em Cantermill - respondeu Terri, com ar meio distrado.
     Depois que Mattie foi embora, Terri ficou um bom tempo sentada naquela cadeira imunda da sala de estar, roendo as unhas at tirar sangue.
     Quando Krystal chegou, trazendo Robbie da escola, Terri lhe contou que iam fechar a Bellchapel.
     Ainda no t nada certo - disse Krystal, com autoridade.
     Como  que voc sabe? - perguntou Terry. - Vo fechar, sim, e querem me mandar pra porra de Pagford, com aquela vaca que matou a v Cath. Pra l eu no vou 
nem morta.
     Voc tem que ir - retrucou a garota.
     Krystal estava assim h dias, mandando na me, agindo como se ela fosse a adulta.
     No tenho que ir porra nenhuma - esbravejou Terri. - Sua vaca atrevida - acrescentou, s por precauo.
     Se voc comear a usar essa merda de novo - disse Krystal, com o rosto vermelho -, eles vo levar Robbie embora.
     O menino, que ainda estava segurando a mo da irm, comeou a chorar.
     T vendo? - gritaram as duas, uma para a outra.
 voc que est fazendo isso com ele - disse Krystal, aos berros. - E a doutora no fez nada pra v Cath. Cheryl  que fica falando merda. Aquela gente no sabe 
porra nenhuma!
     E voc  que sabe tudo, no ? - berrou Terri. - Voc sabe de tudo quanto  merda...
     Krystal cuspiu nela.
     Sai daqui! - exclamou Terri, e, como a filha era maior e mais pesada que ela, pegou um sapato do cho e ameaou jog-lo na garota. - Sai daqui!
     Vou sair mesmo - gritou Krystal. - E vou levar Robbie comigo. Voc pode ficar aqui, fodendo com o merda do Obbo, e fazer outro filho com ele!
     E antes que Terri pudesse det-la, saiu arrastando Robbie, que continuava a chorar.
     Krystal foi com o irmo pedir abrigo na casa de Nikki. Nem lembrou que, quela hora da tarde, ela ainda estaria perambulando pela rua. Foi a me de Nikki que 
abriu a porta, com o uniforme da loja de departamentos onde trabalhava.
     Ele no pode ficar aqui - disse a mulher com firmeza, enquanto Robbie chorava e tentava se soltar da mo da irm, que o segurava com fora. - Onde est a sua 
me?
     Em casa - respondeu Krystal, e tudo o que ela pretendia dizer se evaporou diante do olhar severo daquela mulher.
     Ento ela voltou com Robbie para a Foley Road, onde Terri, com um ar triunfante que chegava a ser cruel, agarrou o filho pelo brao, levou-o para dentro e barrou 
a entrada de Krystal.
     - J t cheia dele - zombou Terri, e os seus gritos abafaram o choro do menino. - Cai fora.
     E bateu a porta.
     Naquela noite, Terri fez Robbie dormir junto com ela, no colcho. Ficou acordada, pensando que no precisava de Krystal para nada, mas sentia falta dela tanto 
quanto da herona.
     Krystal andava com muita raiva h vrios dias. Aquilo que ela disse sobre Obbo...
     (- Ela disse o qu? - perguntou ele, rindo, com ar incrdulo, quando se encontraram na rua, e Terri murmurou alguma coisa sobre Krystal estar chateada.)
     ...ele no faria aquilo. No poderia ter feito aquilo.
     Obbo era um dos poucos que tinham ficado por perto. Terri o conhecia desde os quinze anos. Freqentaram a mesma escola, perambulavam por Yarvil quando ela estava 
no abrigo, tomavam sidra debaixo das rvores do caminho que passava pela fazenda ao lado de Fields. E dividiram o primeiro baseado.
     Krystal nunca gostou dele. Cimes, pensou Terri, vendo Robbie dormir  luz do poste que entrava pelas cortinas finas. Puro cime. Ele fez mais por mim que qualquer 
outro, pensou Terri, desafiadora, porque para ela bondade no casava com abandono. Por isso todos os cuidados da av Cath tinham sido aniquilados pela rejeio.
     Mas Obbo a ajudou a se esconder de Ritchie, o pai dos seus dois filhos mais velhos, naquele dia que ela fugiu de casa, descala e sangrando. s vezes lhe dava 
herona de graa. Para ela, isso era o mesmo que bondade. Procurar abrigo com ele era muito mais seguro que ir para aquela casinha da Hope Street, que certa vez, 
por trs dias gloriosos, ela chegou a achar que fosse um lar.
     Krystal no voltou no sbado pela manh, mas isso no era novidade. Terri sabia que ela devia estar na casa de Nikki. Com raiva porque no havia praticamente 
nada para comer em casa e estava sem cigarro, e porque Robbie no parava de chorar chamando pela irm, Terri entrou no quarto da filha e comeou a revirar as roupas 
que encontrava,  procura de dinheiro ou quem sabe algum cigarro perdido. Alguma coisa fez barulho ao cair no cho quando ela afastou as velhas roupas de remo de 
Krystal, completamente amarrotadas. Viu ento a caixinha de plstico, virada, com a medalha que Krystal tinha ganhado e o relgio de Tessa Wall debaixo dela.
     Terri pegou o relgio e ficou olhando para ele. Era a primeira vez que o via. Ficou se perguntando onde Krystal teria arranjado aquilo. A primeira coisa que 
lhe passou pela cabea foi que a filha o tivesse roubado, mas depois achou que poderia ter sido um presente da av Cath, ou algo que ela houvesse deixado para a 
bisneta em testamento. E isso era mais perturbador do que a idia do roubo. Pensar que aquela vaca falsa escondeu o relgio o tempo todo, muito bem-guardado, sem 
nunca tocar no assunto...
     Terri enfiou o relgio no bolso da cala de moletom e chamou Robbie para ir com ela at a loja. Levou horas para calar os sapatos nele. Acabou perdendo a pacincia 
e lhe deu um tapa. Adoraria ir sozinha, mas as assistentes sociais no gostavam dessa histria de deixar as crianas em casa, mesmo que, sem ele, ela fizesse tudo 
muito mais depressa.
     Cad Krystal? - perguntou Robbie, choramingando, enquanto a me o puxava pela mo. - Qu Krystal!
     No sei onde aquela piranha est - respondeu ela, arrastando-o pela rua.
     Obbo estava na esquina do supermercado, conversando com dois homens. Quando a viu, se despediu dos sujeitos, que foram embora.
     Tudo bem, Ter?
     Indo - mentiu. - Larga, Robbie.
     Robbie estava agarrando sua perna magra com tanta fora que chegava a machucar.
     Escuta - disse Obbo -, voc pode ficar com umas coisas pra mim por um tempo?
     Que coisas? - perguntou Terri, arrancando Robbie da sua perna e o segurando pela mo.
     Umas sacolas com umas coisas - respondeu Obbo. - Vai me quebrar um galho, Ter.
     Quanto tempo?
     S uns dias. Posso levar pra voc hoje  noite?
     Terri pensou em Krystal e no que ela diria se soubesse.
     T certo, pode levar - disse Terri.
     Ela se lembrou de outra coisa, ento tirou o relgio de Tessa do bolso.
     Queria vender isso, o que voc acha?
     Nada mau - respondeu Obbo, sentindo o peso do relgio na palma da mo. - Dou vinte por ele. Posso levar hoje  noite tambm.
     Terri achou que o relgio valesse mais, mas no queria contrari-lo.
     T bom, ento.
     Foi entrando no supermercado, de mos dadas com Robbie, mas de repente se virou.
     No t usando - disse ela. - Ento no leva...
     T de novo no tratamento? - perguntou ele, sorrindo para ela por trs das lentes grossas dos culos. - Abre o olho, a Bellchapel vai fechar. Saiu no jornal.
 - respondeu ela, infeliz, e puxou Robbie para dentro do supermercado. - T sabendo.
     No vou pra Pagford, pensou ela, pegando uns biscoitos na prateleira. Pra l eu no vou.
     Estava quase acostumada s crticas e  avaliao constantes, aos olhares de esguelha dos que passavam por ela, aos insultos dos vizinhos, mas no iria de jeito 
nenhum para aquele vilarejo presunoso receber ajuda hipcrita. No iria viajar no tempo, uma vez por semana, para aquele lugar onde a av Cath tinha dito que ficava 
com ela, mas depois a abandonou. Teria que passar por aquela escolinha toda bonita que mandou umas cartas horrveis sobre Krystal, dizendo que as roupas dela estavam 
muito pequenas e muito sujas e que o seu comportamento era inaceitvel. Tinha medo de encontrar os parentes j h muito esquecidos na Hope Street, disputando a casa 
da av Cath. E do que Cheryl diria se soubesse que ela tinha ido procurar, por livre e espontnea vontade, a vaca paquistanesa que matou a av Cath. Mais uma acusao 
contra ela, da famlia que a desprezava.
     Ningum vai me obrigar a ir pra porra daquele lugar - murmurou Terri em voz alta, puxando Robbie para o caixa.

II

     - Prepare-se - disse Howard Mollison ao filho, em tom de provocao, ao meio-dia daquele sbado. - Mame vai postar o resultado da eleio no site. Quer esperar 
ou posso lhe contar agora?
     Miles se virou instintivamente para Samantha, que estava sentada na frente dele na bancada, no meio da cozinha. Estavam tomando caf antes que ela e Libby fossem 
para a estao, para irem ao show em Londres. Com o telefone colado ao ouvido, ele disse:
     Pode falar.
     Voc venceu. Com folga. Quase cinqenta por cento a mais que Wall.
     Miles sorriu para a porta da cozinha.
     Ok - disse ele, mantendo a voz o mais firme que pde. - Bom saber.
     No desligue - pediu Howard. - Mame quer falar com voc.
     Parabns, querido - exclamou Shirley, exultante. - Que notcia maravilhosa! Sabia que voc ia vencer.
     Obrigado, mame - disse Miles.
     Bastaram aquelas duas palavras para Samantha entender tudo, mas ela tinha decidido no ser debochada nem sarcstica. A camiseta da banda j estava na mala, 
ela tinha feito o cabelo e comprado sapatos novos. Mal podia esperar para ir embora.
     Ento agora voc  o conselheiro Mollison, no ? - perguntou ela, quando ele desligou.
     Isso mesmo - confirmou o marido, com certa cautela.
     Parabns - disse ela. - Vai ser uma comemorao e tanto hoje  noite. Sinto muito no poder ir - mentiu, entusiasmada com a proximidade da fuga. Comovido, Miles 
se inclinou para a frente e apertou a mo dela.
     Libby entrou na cozinha chorando e com o celular na mo.
     O que houve? - perguntou Samantha, assustada.
     Voc pode ligar pra me da Harriet, por favor?
     Por qu?
     Voc pode ligar, por favor?
     Por qu, Libby?
     Porque ela quer falar com voc - prosseguiu a garota, enxugando os olhos e o nariz com o dorso da mo -, porque Harriet e eu tivemos uma briga feia. Voc pode, 
por favor, ligar pra ela?
     Samantha pegou o telefone e foi para a sala. Tinha apenas uma vaga idia de quem era aquela mulher. Desde que as meninas entraram no internato, ela praticamente 
no tinha nenhum contato com os pais das amigas delas.
     Sinto muitssimo ter que fazer isso - disse a me de Harriet. - Prometi a Harriet que falaria com voc. J tentei explicar que no  que Libby no queira que 
ela v... Voc sabe como elas so amigas, e detesto ver as duas desse jeito...
     Samantha olhou para o relgio. Tinham que sair em dez minutos, no mximo.
     Harriet meteu na cabea que Libby tinha um ingresso sobrando, mas no queria que ela fosse. J disse a ela que no  verdade... Que voc tinha ficado com o 
ingresso porque no queria que Libby fosse sozinha, no ?
     Claro - replicou Samantha. - Ela no pode ir sozinha.
     Eu sabia - disse a outra, e sua voz soou estranhamente triunfante. - Compreendo perfeitamente que voc queira proteg-la, e nunca faria essa sugesto se no 
achasse que isso vai lhe poupar muita chateao.  que as garotas so to amigas... E Harriet  totalmente obcecada por essa banda estpida... Pelo que a sua filha 
acabou de dizer a Harriet no telefone, acho que ela tambm est louca para a amiga ir junto. Entendo perfeitamente por que voc quer ficar de olho em Libby, mas 
acontece que a minha irm vai levar as duas filhas ao show, ento haver um adulto l com elas. Posso levar Libby e Harriet essa tarde, ns nos encontraramos com 
minha irm e as filhas na porta do estdio e poderamos passar a noite na casa da minha irm. Pode ficar tranqila, minha irm ou eu vamos estar com Libby o tempo 
todo.
     Ah... E muito gentil da sua parte. Mas uma amiga minha - respondeu Samantha, com um zumbido estranho nos ouvidos - est esperando por ns, entende...
     Mas voc pode ir visitar a sua amiga... O que estou querendo dizer  que no h necessidade nenhuma de voc ir ao show, se vai haver sempre algum mais com 
as meninas... E Harriet est absolutamente desesperada, desesperada mesmo... No queria me meter, mas isso estava ameaando a amizade delas... E  claro que compraramos 
o seu ingresso - acrescentou ela, num tom menos efusivo.
     No havia mais nenhum lugar para ir, nenhum lugar para se esconder.
     Ah - disse Samantha. - Claro, s achei que seria bom ir junto com ela.
     Elas preferem ficar uma com a outra - disse a me de Harriet, com firmeza. - E voc no vai ter que ficar agachada, atrs de um bando de
     patricinhas, ha ha ha... Para a minha irm no tem problema, ela s tem um metro e meio.
     
     III
     
     Para a decepo de Gavin, estava parecendo que, afinal, ele teria que comparecer  festa de aniversrio de Howard Mollison. Se Mary, cliente do escritrio e 
viva do seu melhor amigo, tivesse pedido que ficasse para o jantar, ele consideraria essa justificativa mais do que suficiente para no ir... Mas Mary no disse 
nada. Ela recebeu a visita de alguns parentes e ficou estranhamente perturbada quando ele apareceu.
     Ela no quer que eles saibam, pensou Gavin, consolando-se com essa suposta precauo de Mary, enquanto ela o acompanhava at a porta.
     Voltou ao Smithy, relembrando a conversa que tinha tido com Kay.
Pensei que ele fosse o seu melhor amigo. No faz nem um ms que ele morreu!
, e estou cuidando dela por Barry, respondeu ele mentalmente. Tenho certeza que ele iria querer que fosse assim. No espervamos que isso fosse acontecer. Barry 
est morto. E isso no pode mago-lo agora.
     Sozinho no Smithy, procurou um terno limpo para ir  festa, porque o convite dizia "passeio completo", e ficou imaginando Pagford, aquele vilarejo fofoqueiro, 
se deliciando com a histria de Gavin e Mary.
E da?, pensou ele, impressionado com a prpria coragem. Ela por acaso vai ficar sozinha para sempre? Acontece. Vou cuidar dela.
     E, apesar da relutncia em ir  festa, que, tinha certeza, seria enfadonha e cansativa, estava envolto numa bolha de felicidade e entusiasmo.
     L no alto, em Hilltop House, Andrew Price fazia um penteado diferente no cabelo, usando o secador da me. Nunca esteve to ansioso para ir a uma festa como 
hoje. Ele, Gaia e Sukhvinder tinham sido contratados por Howard para servir as comidas e as bebidas aos convidados. E havia alugado um uniforme para Andrew, especialmente 
para a ocasio: camisa branca, cala preta e gravata-borboleta. Trabalharia ao lado de Gaia como garom, e no como ajudante.
     Mas havia mais um motivo para aquela ansiedade. Gaia tinha terminado com o lendrio Marco de Luca. Ele a encontrou chorando nos fundos do Copper Kettle naquela 
tarde, quando saiu para fumar um cigarro.
     Ele  que saiu perdendo - tinha dito Andrew, tentando evitar qualquer trao de contentamento na voz.
     Valeu, Andrew - respondera ela, fungando.
     Seu viadinho - disse Simon, quando Andrew finalmente desligou o secador. Estava esperando para dizer isso h alguns minutos, de p no corredor escuro, olhando 
pela porta entreaberta, vendo Andrew se arrumar na frente do espelho. O garoto levou o maior susto e depois riu. Seu bom humor desconcertou Simon. - Que figura! 
- exclamou o pai, ridicularizando-o, quando Andrew passou por ele no corredor de camisa e gravata. - Com essa gravatinha ridcula... Voc est parecendo um imbecil.
Imbecil  voc! T desempregado, e fui eu que fiz isso.
     O sentimento de Andrew em relao ao que tinha feito ao pai mudava praticamente de hora em hora. s vezes a culpa o massacrava, contaminando tudo, mas depois 
se dissolvia, deixando-o radiante com o seu triunfo secreto. Hoje  noite, esse pensamento aquecia ainda mais o entusiasmo que ardia no seu peito, por baixo da camisa 
branca fina, e fazia a pele do seu corpo inteiro formigar, prolongando o arrepio provocado pelo ar frio da noite, enquanto ele descia a colina a toda pedalando a 
bicicleta de corrida de Simon. Estava empolgado, cheio de esperana. Gaia estava disponvel e vulnervel. E o pai dela morava em Reading.
     Quando ele chegou ao salo da igreja, Shirley Mollison estava do lado de fora, num vestido de festa, amarrando nas grades gigantescos bales de gs dourados 
que tinham a forma dos nmeros seis e cinco.
     Ol, Andrew - exclamou ela, quase cantarolando. - No deixe a bicicleta aqui na entrada, por favor.
     Ele seguiu pedalando at o lado da igreja, passando por um BMW verde, conversvel, novinho em folha, estacionado a poucos metros da entrada. Quando voltou, 
andou em volta do carro, dando uma olhada naquele interior luxuoso.
     Que bom que voc chegou, Andy!
     Andrew percebeu imediatamente que o chefe estava to bem-humorado e animado quanto ele mesmo. Parecia at um mgico, seguindo a caminho do salo com aquele 
imenso smoking de veludo. Havia apenas cinco ou seis pessoas aqui e ali: faltavam ainda vinte minutos para a festa comear. Havia bales azuis, brancos e dourados 
amarrados por todo lado. Numa enorme
     mesa de madeira, pilhas de travessas estavam cobertas por panos de prato, e na parte mais alta do salo um DJ de meia-idade preparava os seus equipamentos.
     V ajudar Maureen, Andrew, por favor.
     Ela arrumava os copos do outro lado da mesa, sob a luz intensa e nada lisonjeira da luminria do teto.
     Ora, ora, como voc est bonito - grasnou ela, quando o garoto se aproximou.
     Maureen usava um vestido muito curto, justo e brilhante, que revelava todos os contornos do seu corpo ossudo. Aqui e ali, porm, viam-se pregas e pneuzinhos 
inesperados, expostos pelo tecido inclemente. De algum lugar veio um "oi" meio abafado. Gaia estava agachada no cho, na frente de uma caixa de pratos.
     Tire os copos das caixas, por favor, Andy - pediu Maureen -, e coloque tudo aqui em cima, onde vamos fazer o bar.
     O garoto obedeceu. Enquanto estava abrindo uma das caixas, uma mulher que ele nunca tinha visto antes se aproximou, trazendo vrias garrafas de champanhe.
     Coloque isso na geladeira, por favor, se  que tem alguma aqui.
     Ela tinha o nariz reto de Howard, os enormes olhos azuis de Howard e os cabelos encaracolados de Howard, e, embora os traos dele fossem meio femininos, suavizados 
pela gordura, a sua filha - s podia ser filha dele - no era nada bonita, ainda que fosse atraente, com as sobrancelhas grossas, os olhos grandes e uma covinha 
no queixo. Ela estava de cala comprida e camisa de seda, desabotoada na altura do pescoo. Depois de largar as garrafas em cima da mesa, afastou-se. Pelo seu jeito 
e por alguma coisa na qualidade das roupas que vestia, Andrew teve certeza de que ela era a dona daquele BMW l fora.
     Essa  a Patrcia - sussurrou Gaia no seu ouvido, e mais uma vez ele ficou arrepiado, como se tivesse levado um choque eltrico. - A filha de Howard.
     E, d pra ver - disse ele, muito mais interessado em observar Gaia abrindo uma garrafa de vodca e colocando uma dose num copo. Enquanto ele olhava, ela bebeu 
tudo, de um gole s, sacudindo o corpo todo depois de fazer isso. Gaia mal tinha fechado a garrafa quando Maureen reapareceu ao lado deles com uma cuba de gelo.
     Que velha assanhada - disse Gaia, vendo Maureen se afastar, e Andrew sentiu o cheiro do lcool na boca da garota. - Que roupa  aquela?
     Ele riu, virou, mas parou de repente, porque Shirley estava bem ao lado deles com aquele seu sorrisinho meigo.
     A srta. Jawanda ainda no chegou? - perguntou ela.
     Deve estar chegando, acabou de me mandar uma mensagem - respondeu Gaia.
     Mas Shirley no estava nem a para Sukhvinder. Tinha escutado os comentrios dos adolescentes, o que lhe devolveu o bom humor ligeiramente abalado pelo prazer 
evidente de Maureen com a prpria roupa. No era fcil atingir uma autoestima to cega, to iludida, mas enquanto se afastava e caminhava na direo do DJ, Shirley 
planejava o que diria a Howard da prxima vez que o encontrasse sozinho.
Acho que os garotos esto... rindo de Maureen...  uma pena que esteja usando aquele vestido... Odeio v-la fazendo papel de boba.
     E como estava precisando de um pequeno estmulo essa noite, lembrou-se de que havia muitas coisas com que se alegrar. Ela, Howard e Miles estariam no Conselho 
juntos, e isso seria maravilhoso, simplesmente maravilhoso.
     Perguntou ao DJ se ele sabia que a cano favorita de Howard era "The Green, Green Grass of Home", na verso de Tom Jones. O verde verdssimo da relva do lar. 
Um clssico. Era mesmo a cara do marido. Olhou ao seu redor para ver se havia outros pequenos detalhes a serem resolvidos, mas deparou com o motivo pelo qual a sua 
felicidade naquela noite no seria to perfeita como tinha sonhado.
     Patrcia estava sozinha, observando as insgnias de Pagford na parede, sem fazer nenhum esforo para falar com quem quer que fosse. Shirley adoraria que Patrcia 
usasse uma saia de vez em quando, mas, pelo menos, ela tinha vindo sozinha. Teve medo de que houvesse mais algum no BMW, e quando viu a filha descer do carro sem 
mais ningum, achou que tinha sado no lucro.
     Ningum imagina que uma me possa no gostar do prprio filho; pelo contrrio, espera-se que ela goste dele no importa o que acontea, mesmo que ele no seja 
o que se espera, mesmo que venha a ser do tipo de pessoa que, se no fosse seu parente, voc atravessaria a rua para evitar qualquer tipo de contato. Howard tinha 
uma viso menos rgida das coisas; at fazia piadinhas inofensivas quando Patrcia no estava presente. Shirley no conseguia alcanar esse nvel de desprendimento. 
Sentiu-se obrigada a se aproximar da filha, numa esperana vaga e inconsciente de conseguir diluir a estranheza que, receava ela, todos percebiam na sua forma caracterstica 
de se vestir e agir.
     Quer alguma coisa para beber, querida?
     Agora no - respondeu Patrcia, ainda olhando para as insgnias de Pagford. - No passei muito bem ontem  noite. Acho que exagerei um pouco. Samos para beber 
com os colegas de trabalho de Melly.
     Shirley esboou um sorriso para o braso acima delas.
     Melly est bem, obrigada por perguntar - disse Patricia.
     Ah, que bom - replicou Shirley.
     Gostei do convite - provocou Patricia. - Pat e acompanhante.
     Desculpe, querida, mas  assim que se faz quando as pessoas..., voc sabe, no so casadas.
     Ah,  isso que diz no seu manual de etiqueta preferido, no ? Bem, Melly no quis vir, j que o nome dela nem ao menos estava no convite. Chegamos at a brigar, 
e acabei vindo sozinha. Deu certo, no?
     Patricia saiu, pisando duro, em direo ao bar, deixando para trs uma Shirley meio trmula. A raiva de Patricia era assustadora desde que ela era criana.
     Est atrasada, srta. Jawanda - exclamou ela, recuperando a calma quando viu Sukhvinder se aproximar correndo, toda afobada. Na opinio de Shirley, a garota 
estava sendo um tanto ou quanto insolente, aparecendo assim mesmo, depois do que a me tinha dito a Howard, ali, naquele mesmo salo. Ficou observando-a correr e 
se juntar a Andrew e Gaia, e pensou que diria a Howard que eles deviam dispensar Sukhvinder. Ela era mole, e com certeza aquele eczema que ela escondia debaixo da 
camiseta preta de mangas compridas era um problema em termos de higiene. Shirley decidiu que seria bom procurar, no seu site de medicina favorito, se aquilo era 
contagioso.
     Os convidados comearam a chegar pontualmente s oito. Howard pediu a Gaia que ficasse ao seu lado na porta, para recolher os casacos, porque queria que todos 
o vissem mandando e desmandando naquela garota de vestidinho preto com avental de babado e chamando-a pelo primeiro nome. Mas logo havia casacos demais para que 
ela os carregasse sozinha, ento ele teve que chamar Andrew para ajudar tambm.
     Pega uma garrafa - disse Gaia, dirigindo-se a Andrew, enquanto os dois penduravam os casacos, uns por cima dos outros, no minsculo vestirio - e esconde l 
na cozinha. A gente pode se revezar para ir l tomar uns goles.
     Ok - assentiu Andrew, encantado.
     Gavin! - gritou Howard, quando o scio do filho entrou pela porta sozinho, s oito e meia.
     Kay no veio? - perguntou Shirley mais que depressa. (Maureen estava atrs da mesa, calando uns sapatos altssimos, cheios de brilho, ento tinha pouco tempo 
para passar a sua frente.)
     No, ela infelizmente no pde vir - respondeu Gavin, mas, para o seu horror, deu de cara com Gaia, que aguardava para levar o seu casaco.
     A minha me podia vir, sim - disse a garota bem alto, encarando-o. - Mas voc deu o fora nela, no foi, Gav?
     Howard deu uns tapinhas no ombro de Gavin, fingindo no ter ouvido nada.
timo ver voc, pegue um drinque - acrescentou, com aquele seu vozeiro.
     Shirley ficou impassvel, mas a excitao daquele momento no se dispersou rapidamente, e, ao receber os prximos convidados, estava meio confusa e distrada. 
Quando Maureen veio se juntar a eles, com aquele vestido horroroso e se equilibrando em cima dos saltos altssimos, Shirley sentiu um imenso prazer em lhe contar 
baixinho:
     Acabamos de ter uma ceninha muito constrangedora. Muito constrangedora. Gavin e a me de Gaia... Ah, querida... Se ns soubssemos.
     O qu? O que aconteceu?
     Mas Shirley balanou a cabea, saboreando o intenso prazer de frustrar a curiosidade de Maureen, e abriu bem os braos quando Miles, Samantha e Lexie entraram 
no salo.
     Aqui est ele! O conselheiro Miles Mollison!
     Samantha viu Shirley abraar Miles como se no estivesse ali. Saiu to bruscamente de um estado de felicidade e expectativa para o choque e a decepo que os 
seus pensamentos pareciam um zumbido constante, e ela tinha que fazer um esforo enorme para se dar conta do mundo  sua volta.
     (Miles tinha dito:
     Que timo. Ento voc pode ir  festa do papai. Ainda agora mesmo voc estava dizendo...
      - respondeu ela -, eu sei.  timo, no ?
     Mas ficou perplexo quando a viu de cala jeans e com a camiseta da banda, com a qual tinha se imaginado por mais de uma semana.
     O traje  passeio completo.
     Miles,  no salo da igreja de Pagford.
     Eu sei, mas o convite...
     Eu vou assim.)
     Ol, Sammy - disse Howard. - Voc est linda. Nem precisa se arrumar.
     Ele a abraou, lascivo como sempre, e lhe deu uma palmadinha no traseiro apertado dentro da cala jeans.
     Samantha sorriu para Shirley de um jeito frio e forado e passou direto por ela, encaminhando-se para o bar. Dentro dela, uma vozinha desagradvel no parava 
de perguntar: Mas, afinal, o que achava que ia acontecer no show? O que estava querendo? O que esperava encontrar?
Nada. S um pouco de diverso.
     O sonho de braos jovens e musculosos, de muitas risadas; o que ela queria era uma espcie de catarse naquela noite, algum segurando a sua cintura fina outra 
vez e o sabor picante do novo, do ainda inexplorado. A sua fantasia tinha perdido as asas e se espatifado no cho.
Eu s queria ver.
     Voc t linda, Sammy.
     Valeu, Pat.
     No via a cunhada h mais de um ano.
Gosto de voc mais do que qualquer um nessa famlia, Pat.
     Miles se aproximou e beijou a irm.
     Como vai? E Mel? No veio?
     No, ela no quis vir - respondeu Patricia. Estava tomando champanhe, mas, pela cara que fez, parecia at que era vinagre. - O convite veio em nome de Pat e 
acompanhante... Foi uma briga horrvel. Um a zero pra mame.
     Ah, Pat, tambm no  assim - disse Miles, sorrindo.
     Tambm no  assim o qu, porra?
     Uma alegria furiosa tomou conta de Samantha: um pretexto para atacar.
 de uma grosseria do cacete convidar a companheira da sua irm desse jeito, e voc sabe disso, Miles. A sua me tinha que ter umas aulas de etiqueta, se quer saber.
     Ele estava certamente mais gordo do que um ano atrs. Dava para ver o pescoo apertado no colarinho da camisa. Perdia o flego rapidamente.
     E aquela mania de ficar parado, meio quicando nas pontas dos ps, que tinha herdado do pai no ajudava em nada. Samantha sentiu um nojo profundo do marido e 
se afastou, indo at a ponta da mesa, onde Andrew e Sukhvinder preparavam os drinques.
     Tem gim? Quero um duplo.
     Mal reconheceu Andrew. Ele lhe serviu uma dose, tentando no olhar para os seios dela, completamente  mostra naquela camiseta, mas era como tentar no apertar 
os olhos sob um sol forte.
     Voc conhece eles? - perguntou Samantha, depois de tomar a metade do gim-tnica de uma s vez.
     Andrew ficou vermelho antes de conseguir pensar em alguma coisa para dizer. Para piorar ainda mais as coisas, ela deu uma risada cnica e acrescentou:
     A banda. Estou falando da banda.
     , eu... , j ouvi falar. Eu no... No gosto muito...
 mesmo? - indagou ela, depois de virar o restante do gim. - Quero outro... por favor.
     Ela percebeu ento quem ele era: o garoto sem graa da delicatssen. Parecia mais velho naquele uniforme. Quem sabe aquelas semanas carregando caixas para cima 
e para baixo no tinham lhe dado alguns msculos.
     Ah - exclamou Samantha, apontando para um homem que atravessava o salo cada vez mais cheio, indo na direo oposta -, olhe l o Gavin. O segundo homem mais 
chato de Pagford, depois do meu marido, claro.
     Saiu dali contente consigo mesma e segurando outro copo. O gim provocou exatamente o efeito de que ela precisava, anestesiando-a e estimulando-a ao mesmo tempo. 
Enquanto andava, pensou: Ele gostou dos meus peitos; vamos ver o que acha da minha bunda.
     Gavin viu Samantha se aproximando e tentou escapar, puxando conversa com qualquer um... A pessoa mais prxima era Howard, e Gavin se infiltrou rapidamente no 
grupo que cercava o anfitrio.
     Resolvi arriscar - dizia Howard para trs outros homens. Gesticulava com um charuto na mo e deixou cair um pouco da cinza no smoking de veludo. - Resolvi arriscar 
e arregacei as mangas. Simples assim. Sem frmulas mgicas. Ningum me ajudou... Ah, Sammy. Quem so esses rapazes?
     Enquanto os quatro velhos olhavam para o grupo pop, esticado por causa dos seus seios, Samantha se virou para Gavin.
     Oi - disse ela, se inclinando e forando-o a beij-la. - Kay no veio?
     No - respondeu Gavin, secamente.
     Estamos falando de negcios, Sammy - declarou Howard, todo contente, e Samantha pensou na prpria loja, falida e acabada. - Sempre fui um empreendedor - informou 
ao grupo, repetindo o que todos j estavam cansados de ouvir. - Simples assim. No precisa de mais nada. Sempre fui um empreendedor.
     Enorme e redondo, ele era como um sol de veludo em miniatura, irradiando satisfao e contentamento. Graas ao brandy que tinha na mo, a sua voz j estava 
mais branda e agradvel.
     Estava disposto a correr o risco... Podia ter perdido tudo.
     Bem, acho que a sua me  que poderia ter perdido tudo - corrigiu Samantha. - Hilda no hipotecou a casa para cobrir metade do dinheiro investido na loja?
     Ela viu Howard piscar os olhos vrias vezes, mas ele continuava sorrindo.
     Todo o crdito para minha me, ento - disse ele -, por ter trabalhado muito e economizado muito para dar ao filho um empurro. Multipliquei o que ela me deu, 
e estou devolvendo tudo  famlia... Pagando para as suas filhas estudarem na St. Anne, por exemplo. Tudo o que vai volta, no , Sammy?
     Ela esperava isso de Shirley, mas no de Howard. Os dois esvaziaram os seus copos. Samantha viu Gavin se afastar e no tentou det-lo.
     Gavin estava se perguntando se seria possvel ir embora sem ser notado. Estava nervoso, e o barulho s piorava tudo. Desde que encontrou Gaia na entrada do 
salo, uma idia terrvel o assombrava. E se Kay tivesse contado tudo  filha? E se a garota soubesse que ele estava apaixonado por Mary Fairbrother, e tivesse contado 
a outras pessoas? Isso era perfeitamente possvel vindo de uma garota vingativa de dezesseis anos.
     A ltima coisa que queria era que o vilarejo inteiro soubesse que estava apaixonado por Mary antes que ele mesmo tivesse a chance de contar a ela. Pretendia 
falar com ela dali a uns meses, um ano talvez... Depois do primeiro aniversrio da morte de Barry... E, nesse meio-tempo, iria alimentando as minsculas sementes 
de confiana e dedicao que j estavam ali, at que Mary percebesse a realidade dos prprios sentimentos, exatamente como tinha acontecido com ele.
     No est bebendo nada, Gav! - disse Miles. - Temos que dar um jeito nisso.
     Decidido, levou o scio at a mesa de bebidas e pegou uma cerveja para ele. Enquanto isso, no parou de falar e, como Howard, exalava uma aura de felicidade 
e orgulho quase visvel.
     Voc sabia que ganhei a eleio?
     Gavin no sabia, mas no quis fingir surpresa.
     . Parabns.
     Como est Mary? - perguntou ele, alegremente; esta noite era amigo de todo o vilarejo que o tinha elegido. - Ela est bem?
     Acho que sim...
     Ouvi dizer que ela deve ir para Liverpool. Tomara que seja melhor para ela.
     O qu? - perguntou Gavin, muito srio.
     Maureen estava falando sobre isso hoje de manh, que a irm de Mary veio convenc-la a voltar para casa com as crianas. Ela ainda tem famlia em Liver...
     A casa dela  aqui.
     Acho que era Barry que gostava de Pagford. No sei se Mary vai querer ficar aqui sem ele.
     Gaia observava Gavin por uma fresta da porta da cozinha. Estava segurando um copo de papel com uma boa dose de vodca que Andrew tinha roubado para ela.
     Esse cara  um filho da puta! - exclamou a garota. - Se ele no tivesse feito a minha me acreditar que gostava dela, a gente ainda estaria em Hackney. Ela 
 to burra. Eu devia ter dito a ela que ele no estava assim to a fim. Nunca chamava ela pra sair. Depois que eles trepavam, ele ficava louco pra ir embora.
     Andrew, que estava arrumando mais sanduches numa bandeja quase vazia, mal podia acreditar que ela falasse daquele jeito. A Gaia dos seus sonhos, que povoava 
todas as suas fantasias, era uma virgem, sexualmente criativa e aventureira. No sabia o que a Gaia real tinha feito ou deixado de fazer com Marco de Luca. Mas, 
falando da me daquele jeito, ela parecia saber como os homens se comportavam depois do sexo se estivessem realmente interessados...
     Bebe um pouco - disse ela, aproximando o copo de papel da boca de Andrew, quando ele j estava quase saindo com a bandeja. Ele tomou alguns goles de vodca, 
e com uma risadinha ela se afastou para deix-lo passar, acrescentando: - Diz a Sukh pra dar um pulo aqui pra beber tambm.
     O salo estava cheio e barulhento. Andrew deixou os sanduches frescos sobre a mesa, mas ningum parecia muito interessado em comida. Sukhvinder se virava para 
atender todos os pedidos na mesa das bebidas, mas muita gente comeou a se servir sozinha.
     Gaia t chamando voc l na cozinha - disse Andrew, e a substituiu. Nem precisava bancar o barman. Foi enchendo todos os copos que encontrava pela frente, deixando-os 
em cima da mesa para as pessoas se servirem.
     Oi, Amendoim! - exclamou Lexie Mollison. - Voc me d um champanhe?
     Eles estudaram juntos na St. Thomas, mas no se viam h muito tempo. O seu jeito de falar tinha mudado um pouco depois que ela foi para a St. Anne. E ele detestava 
ser chamado de Amendoim.
     T bem a na sua frente - disse ele, apontando umas taas.
     Lexie, voc no vai beber - exclamou Samantha, surgindo do meio da multido. - Nem pensar.
     Vov disse...
     No quero saber o que ele disse.
     Todo mundo...
     J disse que no!
     Lexie saiu batendo os ps. Andrew, contente de v-la ir embora, sorriu para Samantha, e ficou surpreso quando ela sorriu para ele tambm.
     Voc responde assim aos seus pais?
     Claro - disse ele, e ela riu. Os seus seios eram realmente imensos.
     Senhoras e senhores - ecoou uma voz pelo microfone, e todo mundo parou para escutar Howard. - Queria dizer algumas palavras... A maioria de vocs provavelmente 
j sabe que o meu filho Miles foi eleito para o Conselho Distrital!
     Os convidados aplaudiram, e Miles levantou o copo que tinha na mo acima da cabea, agradecendo. Andrew ficou assustado ao ouvir Samantha dizer baixinho, mas 
de forma bem audvel:
     Uhu, seu merda!
     Como ningum vinha pegar bebidas, Andrew fugiu para a cozinha. Gaia e Sukhvinder estavam sozinhas, bebendo e rindo, e, quando o viram chegar, gritaram:
Andy!
     Ele riu tambm.
     Vocs esto bbadas?
     Estou - respondeu Gaia.
     No - respondeu Sukhvinder. - Mas ela est.
     T nem a - disse Gaia. - Mollison pode me mandar embora se quiser. No preciso mais economizar pra comprar a passagem pra Hackney.
     Ele nunca vai mandar voc embora - disse Andrew, servindo-se de um pouco de vodca. - Voc  a favorita dele.
      - concordou Gaia. - Velho babo.
     E os trs caram na gargalhada.
     A voz rouca de Maureen entrou pela porta da cozinha, amplificada pelo microfone.
     Venha, ento, Howard! Venha... Um dueto pelo seu aniversrio! Venha. Senhoras e senhores... A cano favorita de Howard!
     Os adolescentes se entreolharam horrorizados, mas se divertindo com aquilo. Gaia foi rindo e cambaleando at a porta, e a abriu.
     Os primeiros acordes de "The Green, Green Grass of Home" ecoaram, e em seguida ouviram-se a voz de baixo de Howard e a de contralto grave de Maureen.
     
The old home town looks the same,
As I step down from the train...

     "A velha cidade natal parece a mesma, assim que deso do trem..." Gavin era o nico que estava ouvindo as gargalhadas. Olhou ao seu redor, mas tudo o que viu 
foram as portas da cozinha, escancaradas, ainda balanando um pouco.
     Miles tinha sado para conversar com Aubrey e Julia Fawley, que chegaram mais tarde, cheios de sorrisos corteses. Gavin estava preso num redemoinho de pavor 
e ansiedade. Aquela breve e iluminada sensao de liberdade e felicidade tinha sido obscurecida pela dupla ameaa de Gaia contar a todo mundo o que ele tinha dito 
 me dela e de Mary ir embora de Pagford para sempre. O que fazer?
     
Down the lane I walk, with my sweet Mary,
Hair ofgold and lips like cherries...

     Kay no veio? - perguntou Samantha, enquanto ouviam "Pela estrada eu vou com a minha doce Mary, cabelos dourados e lbios de cereja...".
     Ela se aproximou, debruando-se sobre a mesa ao lado dele com um sorriso irnico.
     Voc j me perguntou isso - respondeu Gavin. - No veio, no.
     Est tudo bem entre vocs?
     Isso no  da sua conta - replicou ele, sem conseguir se conter. Estava cansado do seu deboche e das suas constantes provocaes. Os dois estavam sozinhos, 
talvez pela primeira vez, pois Miles ainda estava s voltas com os Fawley.
     Ela fez questo de se mostrar chocada, chegou at a exagerar na reao. Estava com os olhos vermelhos e caprichou na resposta que lhe deu. Pela primeira vez, 
Gavin se sentiu mais enojado do que intimidado.
     Desculpe. Eu estava apenas...
     Perguntando. Eu sei - disse ele, enquanto Howard e Maureen faziam uma dancinha, de braos dados.
     Gostaria de ver voc se arrumar. Voc e Kay formam um belo par.
. Mas gosto da minha liberdade - retrucou Gavin. - E no conheo muitos casais felizes.
     Samantha tinha bebido muito para compreender totalmente aquela insinuao, mas ficou com a impresso de que era uma alfinetada.
     O casamento  sempre um mistrio para quem est de fora - disse ela, cautelosa. - Ningum pode saber o que acontece entre duas pessoas, s elas mesmas. Voc 
no devia julgar ningum, Gavin.
     Obrigado pelo conselho - rebateu ele, no limite da irritao. Colocou o copo de cerveja sobre a mesa e se dirigiu para o vestirio.
     Samantha o viu se afastar, certa de que tinha levado a melhor na discusso. Depois voltou a sua ateno para a sogra, que estava no meio do salo, vendo Howard 
e Maureen cantarem. Saboreou a raiva de Shirley, que podia ser percebida claramente no sorriso mais frio e forado que o seu rosto j tinha exibido durante aquela 
noite. Ao longo de todos esses anos de convivncia, Howard e Maureen sempre cantaram juntos. Ele adorava cantar, e, no passado, Maureen j tinha feito backing vocais 
para uma banda de skiffle. Quando a msica acabou,
     Shirley bateu palmas apenas uma vez, como se estivesse chamando um lacaio. Samantha caiu na gargalhada e foi at o bar na ponta da mesa, mas ficou decepcionada 
quando no encontrou o garoto de gravata-borboleta por l.
     Andrew, Gaia e Sukhvinder ainda estavam rindo loucamente na cozinha. Riam porque Howard e Maureen fizeram aquele dueto e porque j tinham tomado dois teros 
da garrafa de vodca, mas principalmente riam porque estavam rindo, alimentando os prprios risos at no agentarem mais.
     A janelinha que ficava sobre a pia, deixada entreaberta para que a cozinha no ficasse muito abafada, balanou e se abriu, fazendo barulho. E eles viram a cabea 
de Bola surgir na abertura.
     Boa noite - disse o garoto. Certamente tinha subido em alguma coisa para alcanar a janela, porque deu para ouvir o barulho de algo caindo quando ele deu impulso 
com o corpo e veio aterrissar bem em cima do escorredor de loua, derrubando vrios copos, que se espatifaram no cho.
     No mesmo instante, Sukhvinder saiu da cozinha. E imediatamente Andrew soube que no queria que Bola ficasse ali. Apenas Gaia parecia no se importar com a presena 
dele. Ainda rindo, ela disse:
     Sabia que esse lugar aqui tem porta?
     No brinca?! - retrucou Bola. - Cad a bebida?
     Essa  nossa - disse Gaia, segurando a garrafa nos braos como se fosse um beb. - Andy pegou pra gente. Vai pegar uma pra voc.
     Sem problemas - disse Bola, impassvel, e foi para o salo.
     Preciso ir ao banheiro... - murmurou Gaia, escondendo de volta a garrafa debaixo da pia e saindo da cozinha tambm.
     Andrew a seguiu. Sukhvinder tinha voltado para o bar. Gaia entrou no banheiro, e Bola estava encostado na mesa, com uma cerveja numa das mos e um sanduche 
na outra.
     Achei que voc no ia querer vir a essa festa - disse Andrew.
     Fui convidado, cara - respondeu Bola. - Estava no convite. Famlia Wall.
     Pombinho sabe que voc est aqui?
     Sei l - respondeu o garoto. - Ele t se escondendo. Afinal, no conseguiu a cadeira do velho Barry. Todo o tecido social vai ruir agora que Pombinho no estar 
l para impedir isso. Puta que pariu, isso aqui t uma droga - acrescentou ele, cuspindo um pedao do sanduche. - Quer um cigarro?
     O salo estava to barulhento, e os convidados j to bbados a essa altura, que ningum mais parecia se importar com onde Andrew poderia estar. Quando chegaram 
l fora, encontraram Patrcia Mollison, sozinha, encostada no seu carro esportivo, olhando para o cu estrelado e fumando.
     Querem um desses? - ofereceu ela, estendendo-lhes o mao.
     Depois de acender o cigarro dos garotos, ficou parada ali, com uma das mos enfiada no bolso. Havia alguma coisa naquela mulher que intimidava Andrew, e ele 
no conseguia nem ao menos olhar para Bola para ver o que ele achava.
     Sou Pat - disse ela, depois de alguns segundos. - A filha de Howard e Shirley.
     Oi - disse Andrew. - Eu sou Andrew.
     Stuart - se apresentou Bola.
     Aparentemente, ela no estava a fim de continuar aquela conversa. Andrew sentiu aquilo como uma espcie de elogio e tentou imitar a indiferena dela. O silncio 
foi rompido por passos e pelo som abafado de vozes femininas.
     Gaia vinha puxando Sukhvinder pela mo. Estava rindo, e, ao v-la, Andrew percebeu que o efeito da vodca no tinha diminudo absolutamente.
     Voc - disse a garota, dirigindo-se a Bola - tem sido um monstro com Sukhvinder.
     Para com isso - exclamou a outra, tentando se livrar da mo da amiga. - T falando srio... Me solta...
     Mas  verdade - insistiu Gaia, ofegante. - Um monstro! Andou postando umas coisas no Facebook dela?
     Para! - gritou Sukhvinder, que conseguiu enfim se soltar e voltou correndo para o salo.
     Voc tem sido um monstro com ela - insistiu Gaia, agarrando-se  grade para se equilibrar. - Fica chamando ela de lsbica e aquelas coisas todas...
     No tem nada de mais em ser lsbica - disse Patrcia, estreitando os olhos por causa da fumaa do cigarro. - Mas, na idade de vocs, a gente acha que tem.
     Andrew percebeu que Bola olhou para Pat com o rabo do olho.
     Eu nunca disse que tinha problema. Era s sacanagem - explicou o garoto.
     Gaia foi escorregando pela grade e sentou no cho frio, apoiando a cabea nos braos.
     T tudo bem? - perguntou Andrew. Se Bola no estivesse ali, ele bem que sentaria ao lado dela.
     T muito bbada - murmurou ela.
     Talvez seja melhor meter o dedo na garganta de uma vez - sugeriu Patrcia, olhando para ela, com ar impassvel.
     Belo carro - disse Bola, observando o BMW.
     Verdade - replicou Patrcia. -  novo. Ganho duas vezes mais do que meu irmo - prosseguiu ela. - Mas Miles  o Menino Jesus, o Messias... Conselheiro Mollison 
Segundo... de Pagford. Voc gosta de Pagford? - perguntou, dirigindo-se a Bola, enquanto Andrew se preocupava com Gaia, que respirava fundo com a cabea entre os 
joelhos.
     No - respondeu o garoto. - Isso aqui  o fim do mundo.
... Eu pessoalmente vivia louca para ir embora. Conheceu Barry Fairbrother?
     Mais ou menos - disse Bola.
     Alguma coisa na voz do amigo deixou Andrew preocupado.
     Ele era o meu mentor de literatura l na St. Thomas - disse Patrcia, sempre com os olhos fixos no fim da rua. - Um cara legal. Adoraria ter vindo para o enterro, 
mas Melly e eu estvamos em Zermatt. Que histria  essa de um Fantasma de Barry que est deixando a minha me to empolgada?...
     Algum est postando umas coisas no site do Conselho - respondeu Andrew mais que depressa, antes que Bola pudesse dizer alguma coisa. - Boatos e coisas do gnero.
     , minha me adora isso - observou Patrcia.
     O que ser que o Fantasma vai dizer no prximo post? - perguntou Bola, dando uma olhadela para o amigo.
 capaz de no ter mais post agora que a eleio acabou - balbu- ciou Andrew.
     Ah, no sei, no - disse Bola. - Ainda pode ter mais coisa irritando o fantasma do velho Barry...
     Bola sabia que estava deixando o amigo aflito, e adorava a idia. Andrew vinha passando o tempo todo naquele emprego de merda, e logo, logo ia embora de Pagford. 
Bola no lhe devia nada. A verdadeira autenticidade no pode conviver com culpa e obrigao.
     Melhorou? - perguntou Patricia, dirigindo-se a Gaia, que fez que sim com a cabea, com o rosto ainda escondido. - O que foi que deixou voc assim, a bebida 
ou o dueto?
     Andrew deu uma risadinha, por educao, mas tambm porque queria desviar a conversa do assunto sobre o Fantasma de Barry Fairbrother.
     Tambm fiquei com o estmago embrulhado - prosseguiu Patricia. - Maureen e meu pai cantando juntos, lado a lado, de braos dados. - Deu a ltima tragada profunda 
no cigarro, jogou a guimba no cho e pisou nela com o salto do sapato. - Quando eu tinha doze anos, peguei Maureen chupando o meu pai. E ele me deu uma nota de cinco 
para eu no contar nada para a minha me.
     Andrew e Bola ficaram chocados, com medo at de olhar um para o outro. Patricia enxugou o rosto com o dorso da mo: estava chorando.
     Eu no devia ter vindo a essa maldita festa - exclamou. - Sabia que no devia ter vindo.
     Entrou no BMW, e os dois garotos ficaram olhando, atnitos, ela ligar o carro, dar marcha a r e ir embora noite adentro.
     Puta que pariu! - exclamou Bola.
     Acho que vou vomitar - murmurou Gaia.
     O sr. Mollison t chamando... pra servir as bebidas.
     Assim que deu o recado, Sukhvinder voltou para o salo.
     No consigo - sussurrou Gaia.
     Andrew a deixou ali. Quando abriu a porta, chegou a se assustar com a barulheira que vinha do salo. Todo mundo estava danando. Teve que se afastar para dar 
passagem a Aubrey e Julia Fawley. J de costas para a festa, os dois pareciam bem contentes de sair dali.
     Samantha Mollison no estava danando. Continuava encostada naquela mesa que, ainda agora mesmo, estava repleta de bebidas j servidas. Enquanto Sukhvinder 
se apressava em recolher os copos vazios, Andrew foi abrir a ltima caixa. Trouxe ento os copos limpos para o salo e comeou a ench-los.
     Sua gravata est torta - disse Samantha, e se debruou sobre a mesa para ajeit-la. Constrangido, o garoto fugiu para a cozinha assim que ela o soltou. Entre 
cada leva de copos que ia botando na lava-loua, tomava um gole da vodca que tinha roubado. Queria ficar to bbado quanto Gaia: queria voltar quele momento em 
que estavam rindo juntos loucamente, antes de Bola aparecer.
     Dez minutos depois, voltou para ver como estavam as bebidas l na mesa. Samantha continuava no mesmo lugar, com os olhos vidrados, e tinha  sua disposio 
vrios copos recm-servidos. Howard saltitava no meio da pista de dana, com o suor a lhe escorrer pelo rosto, rindo s gargalhadas de alguma coisa que Maureen tinha 
lhe dito. Abrindo caminho em meio  multido, Andrew voltou l para fora.
     De incio no conseguiu localiz-la, mas de repente viu os dois. Gaia e Bola estavam agarrados, a uns dez metros da porta, encostados nas grades do porto, 
os corpos bem colados, a lngua de um na boca do outro.
     - Andrew, desculpe, mas no consigo sozinha - disse Sukhvinder, s suas costas, meio desesperada. Mas ento ela avistou Bola e Gaia, e deixou escapar algo que 
era um misto de grito e gemido. O garoto voltou com ela para o salo, inteiramente atordoado. Na cozinha, despejou o resto da vodca num copo e bebeu tudo de um s 
gole. Mecanicamente, encheu a pia e comeou a lavar os copos que no cabiam na lava-loua.
     O lcool no era como a maconha. Estava se sentindo vazio, mas tambm pronto para bater em algum: em Bola, por exemplo.
     Algum tempo depois, percebeu que o relgio de plstico da parede da cozinha tinha passado da meia-noite para uma hora e que as pessoas j estavam indo embora.
     Ele devia ir pegar os casacos no vestirio. Bem que tentou fazer isso por alguns minutos, mas depois foi tropeando para a cozinha, deixando a tarefa por conta 
de Sukhvinder.
     Samantha estava recostada na geladeira, sozinha, com um copo na mo. Andrew percebeu que a sua viso no estava nada ntida, como se tudo  sua frente fosse 
uma srie de fotogramas. Gaia no voltou. Com certeza j tinha ido embora com Bola h muito tempo. Samantha dizia alguma coisa. Ela tambm estava bbada. A sua presena 
j no o deixava constrangido. Andrew comeou a achar que logo, logo ia vomitar.
     ...odeio Pagford... - disse ela -, mas voc ainda tem idade para cair fora daqui.
     Verdade - concordou ele, sem conseguir sentir os prprios lbios. - E vou mesmo. Logo, logo.
     Ela afastou o cabelo que lhe caa na testa e o chamou de querido. A imagem de Gaia com a lngua enfiada na boca de Bola ameaava fazer tudo desaparecer. Sentia 
o perfume de Samantha, vindo em ondas daquela pele quente.
     Essa banda  uma merda - disse ele, apontando para o peito dela, mas no achava que ela pudesse ouvi-lo.
     A boca de Samantha era spera e quente, e aqueles seus seios enormes estavam apertados contra o seu peito. As costas dela eram to largas quanto as dele...
     Que porra  essa?!
     Andrew estava cado em cima do escorredor de loua, e Samantha estava sendo arrastada para fora da cozinha por um homem grandalho, de cabelo curto e grisalho. 
Tinha a vaga idia de que algo ruim havia acontecido, mas a estranha inconsistncia da realidade estava ficando cada vez mais forte. De repente, s havia uma coisa 
a fazer: correr at a lixeira e vomitar, vomitar, vomitar.
     Desculpe, no d pra entrar - dizia a voz de Sukhvinder. - Tem umas coisas empilhadas aqui atrs da porta.
     Andrew amarrou bem o saco de lixo onde havia vomitado. Sukhvinder o ajudou a limpar a cozinha. Precisou vomitar mais duas vezes, mas em ambas as ocasies conseguiu 
chegar ao banheiro.
     J eram quase duas horas da manh quando Howard, suado, mas sorridente, veio agradecer e se despedir.
     Vocs fizeram um timo trabalho - disse ele. - At amanh, ento. Um timo... Mas onde est a srta. Bawden?
     Andrew deixou que Sukhvinder inventasse uma mentira qualquer. L fora, soltou a corrente que prendia a bicicleta de Simon e saiu pedalando pela escurido.
     O frio durante o longo caminho de volta at Hilltop House clareou as suas idias, mas no amenizou nem a sua amargura, nem a sua tristeza.
     Ser que ele tinha dito a Bola que estava a fim de Gaia? Talvez no, mas Bola sabia. Ele sabia que Bola sabia... Ser que a essa hora eles estavam trepando?
     Bom, mas estou mesmo indo embora, pensou o garoto, que ia empurrando a bicicleta colina acima, com o tronco inclinado para a frente e tremendo de frio. Ento, 
quero mais que eles se fodam...
     Nesse momento, uma outra idia lhe passou pela cabea:  melhor mesmo eu ir embora... Ser que ele tinha se agarrado com a me de Lexie Mollison? Ser que o 
marido dela pegou os dois juntos? Isso aconteceu mesmo?
     Estava com medo de Miles, mas tambm estava louco para contar essa histria para Bola. Queria ver a cara que ele ia fazer...
     Quando entrou em casa, exausto, ouviu a voz de Simon vindo l da cozinha s escuras.
     Guardou a bicicleta na garagem?
     Ele estava sentado  mesa da cozinha, comendo uma tigela de cereais. J eram quase duas e meia da madrugada.
     No conseguia dormir - disse Simon.
     Por incrvel que parea, ele no estava zangado. Como Ruth no estava por perto, ele no precisava provar que era mais forte ou mais esperto que os filhos. 
Parecia pequeno e cansado.
     Acho que vamos ter que nos mudar para Reading, Cara de Pizza - comentou ele. E aquilo era quase um tratado de paz.
     Ligeiramente trmulo, sentindo-se velho, confuso e terrivelmente culpado, Andrew quis dar ao pai algo que pudesse compensar o que ele tinha feito. Era hora 
de recuperar o equilbrio e ver Simon como um aliado. Eles eram uma famlia. Iam embora juntos. Talvez em algum outro lugar as coisas fossem melhorar.
     Tenho uma coisa pra voc - disse o garoto. - Vem c. Aprendi a fazer isso na escola.
     E levou o pai at o computador.
     
     
     
     IV
     
     Um cu azul enevoado se estendia como uma cpula sobre Pagford e Fields. A luz do amanhecer reluziu na velha pedra do memorial de guerra no meio da praa, nas 
fachadas de concreto rachado da Foley Road, e tingia as paredes brancas de Hilltop House de um dourado plido. Entrando no carro para mais um longo planto no hospital, 
Ruth Price olhou para o rio Orr l embaixo, brilhando ao longe como uma fita prateada, e achou que seria uma imensa injustia outra pessoa possuir a sua casa e a 
sua vista dentro em breve.
     A pouco mais de um quilmetro dali, na Church Row, Samantha Mollison ainda dormia a sono solto no quarto de hspedes. A porta no tinha chave, mas ela tinha 
feito uma espcie de barricada com a poltrona, antes de desabar na cama, ainda meio vestida. Os sinais de uma forte dor de cabea perturbavam o seu torpor, e o sol, 
que penetrava por uma fresta das cortinas, vinha cair como um raio laser bem no canto de um dos seus olhos. Ela se remexeu um pouco, nas profundezas daquela sonolncia 
em que se encontrava, aflita, com a boca seca, e os seus sonhos eram estranhos e cheios de culpa.
     L embaixo, na cozinha clara e limpa, Miles estava sentado, ereto e sozinho, fitando a geladeira, com uma xcara de ch intocada  sua frente. Mentalmente voltou 
a ver a cena em que se lanava sobre a esposa embriagada, aos beijos com um garoto de dezesseis anos.
     Trs casas adiante, Bola Wall estava deitado no quarto, fumando, ainda com as roupas que tinha usado na festa de aniversrio de Howard Mollison. Quis passar 
a noite acordado, e conseguiu. Tinha a boca ligeiramente entorpecida e meio dormente pela quantidade de cigarros que havia fumado, mas o cansao acabou provocando 
o efeito contrrio ao que ele desejava: no estava conseguindo pensar com clareza, mas a sua infelicidade e a sua apreenso estavam mais aguadas que nunca.
     Banhado de suor, Colin Wall acordou de mais um dos pesadelos que o atormentavam h anos. Sempre fazia coisas terrveis nos seus sonhos, aquelas coisas que passava 
o tempo todo temendo quando estava acordado. Dessa vez, tinha matado Barry Fairbrother, a polcia conseguiu encontr-lo e veio lhe dizer que sabia que ele tinha 
eliminado Fairbrother. J haviam feito a autpsia.
     Olhando para a to conhecida sombra do lustre no teto, Colin se perguntou por que nunca tinha pensado na possibilidade de ter matado Barry; e de imediato a 
pergunta surgiu na sua mente: Como sabe que no matou?
     No trreo, Tessa estava aplicando a injeo de insulina na barriga. Sabia que Bola tinha voltado para casa na noite anterior porque podia sentir o cheiro de 
cigarro que vinha l de cima quando chegava perto da escada que levava ao seu quarto. No sabia aonde ele tinha ido nem a que horas tinha voltado, o que a deixava 
assustada. Como as coisas tinham chegado a esse ponto?
     Feliz da vida, Howard Mollison dormia profundamente na sua cama de casal. As cortinas estampadas cobriam-no de ptalas cor-de-rosa, protegendo-o de um despertar 
mais brusco, mas os seus chiados e os seus sonoros roncos j haviam acordado a sua esposa. Na cozinha, Shirley comia umas torradas e tomava um caf, de culos, envergando 
o seu robe de chenile. Via Maureen danando de braos dados com o seu marido no salo da igreja, e ficou com tanta raiva que nem conseguia sentir o gosto do que 
estava comendo.
     No Smithy, a alguns quilmetros do centro de Pagford, Gavin Hughes se ensaboava sob a ducha quente perguntando-se por que jamais tivera a coragem de outros 
homens, e como eles conseguiam fazer a escolha certa entre alternativas quase infinitas. No fundo desejava uma vida que havia vislumbrado, mas jamais experimentara. 
No entanto, essa mesma vida desejada o assustava. Escolher  algo perigoso: quando escolhemos, temos que abrir mo de todas as outras possibilidades.
     Kay Bawden estava deitada na sua cama da Hope Street, acordada e exausta, ouvindo a quietude do amanhecer em Pagford e vendo Gaia, que dormia ao seu lado na 
cama de casal, plida e sem foras  luz do dia que raiava. No cho, perto da garota, havia um balde que Kay decidira pr ali, depois de levar a filha praticamente 
carregada at o banheiro vrias vezes naquela madrugada e passar uma hora segurando o cabelo dela para que ele no entrasse na privada.
     - Por que voc nos trouxe pra c? - choramingava Gaia, vomitando dentro do vaso sanitrio. - Me larga. Me deixa em paz. Porra!... Odeio voc.
     Olhando o rosto da filha adormecida, Kay ficou se lembrando do bebezinho lindo que dormia ao seu lado, dezesseis anos atrs. Lembrou tambm que as duas choraram 
juntas quando ela se separou de Steve, seu companheiro por oito anos. Steve, que freqentava as reunies de pais da escola de Gaia e que a ensinou a andar de bicicleta. 
Pensou na fantasia que nutriu por tanto tempo (pensando bem agora, uma fantasia to boba quanto a de Gaia, que aos quatro anos queria ter um unicrnio) de formar 
uma famlia com Gavin e finalmente dar a Gaia um verdadeiro padrasto e uma bonita casa no campo. Sonhou tanto com um final feliz, com uma vida para a qual Gaia quisesse 
sempre voltar. Porque a partida da filha vinha se aproximando dela como um meteorito, e Kay via a perda de Gaia como uma catstrofe que poderia destruir o seu mundo.
     Estendeu o brao por baixo do edredom e segurou o da filha. Ao tocar aquele corpo quente que ela havia posto no mundo por acidente, Kay comeou a chorar baixinho, 
mas com tanta violncia que o colcho chegava a sacudir.
     No final da Church Row, Parminder Jawanda colocou um casaco por cima da camisola e foi tomar caf no quintal dos fundos. Sentada num banco de madeira, sob aquele 
sol ainda glido, percebeu que um dia lindo se anunciava, mas parecia haver um bloqueio entre os seus olhos e o seu corao. O imenso peso que sentia no peito amortecia 
todo o resto.
     A notcia da vitria de Miles Mollison na eleio para o Conselho Distrital no foi nenhuma surpresa, mas, ao ver o pequeno anncio postado por Shirley no site 
da instituio, sentiu mais um lampejo daquela loucura que se havia apoderado dela na ltima reunio: um desejo de atacar quase imediatamente suplantado por uma 
profunda desesperana.
     Vou renunciar ao cargo de conselheira - disse a Vikram. - Para que continuar?
     Mas voc gosta tanto - replicou ele.
     Gostava, sim, mas quando Barry tambm fazia parte daquele Conselho. Era fcil pensar nele naquela manh, quando tudo estava quieto, imvel. Um homenzinho, de 
barba avermelhada... Ela tinha bem uns dez centmetros a mais que ele. Nunca sentiu a menor atrao fsica por ele. O que era amor, afinal?, pensou Parminder, enquanto 
um vento brando soprava a cerca alta de ciprestes, que contornava o extenso gramado dos fundos da casa dos Jawanda. O amor  quando algum preenchia um espao na 
sua vida, um espao que ficava inteiramente vazio quando essa pessoa ia embora?
Eu adorava rir, pensou Parminder. Sinto muita falta disso.
     E foi a lembrana do riso que fez, enfim, as lgrimas brotarem dos seus olhos, escorrerem pelo seu nariz e carem no caf, formando uns minsculos furinhos, 
que pareciam de pequenas balas de revlver. Estava chorando porque pelo visto nunca mais ia voltar a rir, e tambm porque na vspera, enquanto ouviam a msica alegre 
que vinha l do salo da igreja, Vikram lhe dissera:
     Por que no vamos a Amritsar no vero?
     O Templo Dourado, o santurio mais sagrado da religio  qual o seu marido era completamente indiferente. Entendeu de imediato o que Vikram estava tentando 
fazer. Pela primeira vez na vida, o tempo ficou suspenso e vazio nas suas mos. Nenhum dos dois sabia o que o Conselho Geral de Medicina decidiria a seu respeito 
se considerasse a sua atitude com relao a Howard Mollison uma violao  tica profissional.
     Mandeep diz que o lugar  uma grande armadilha para turistas - replicou ela, rejeitando de vez a sugesto do marido.
Porque fui dizer aquilo?, perguntou-se Parminder, chorando ainda mais ali no jardim, com o caf esfriando na xcara. Seria bom levar as crianas para conhecer Amritsar. 
Ele est tentando ser gentil. Porque no concordei?
     Teve uma vaga sensao de haver trado algo ao recusar a visita ao Templo Dourado. A imagem do santurio surgiu em meio s suas lgrimas, com a cpula em forma 
de flor de ltus refletida num espelho de gua, aquela cpula de um mel brilhante, que se destacava contra um fundo de mrmore branco.
     Me.
     Sukhvinder tinha vindo pelo gramado sem que ela notasse. Estava de jeans e com um suter bem largo. Parminder se apressou em enxugar o rosto e apertou os olhos 
para enxergar melhor a filha, que estava contra o sol.
     No quero ir trabalhar hoje.
     A reao de Parminder foi imediata, seguindo aquele mesmo esprito de contradio que a fizera recusar a viagem a Amritsar.
     Voc assumiu um compromisso, Sukhvinder.
     No t me sentindo bem.
     Voc quer dizer que est cansada. Foi voc que quis trabalhar. Agora, cumpra com as suas obrigaes.
     Mas...
     Voc vai para o trabalho, sim - cortou a mdica, e parecia at que ela estava pronunciando uma sentena. - No vai dar aos Mollison mais um motivo para reclamarem.
     Depois que a filha voltou para dentro de casa, Parminder se sentiu culpada. Esteve a ponto de cham-la de volta. Limitou-se, porm, a pensar que precisava arranjar 
algum tempo para se sentar com Sukhvinder e conversar com ela sem brigar.

V
     
     Krystal andava pela Foley Road no sol das primeiras horas da manh, comendo uma banana. No conseguia saber se gostava ou no daquela fruta com um sabor e uma 
textura to estranhos. Ela e a me nunca compravam frutas.
     A me de Nikki tinha acabado de expuls-la de casa sem a menor cerimnia.
     Temos coisas para fazer, Krystal - disse ela. - Vamos jantar na casa da av de Nikki.
     Depois disso, resolveu lhe dar aquela banana como caf da manh. Krystal foi embora sem reclamar. A famlia toda de Nikki mal cabia  mesa da cozinha.
     Fields no ficava mais bonito banhado pelos raios de sol da manh. Pelo contrrio, a luz do dia realava ainda mais a sujeira e os estragos, as rachaduras nas 
paredes de concreto, as janelas tapadas com tbuas e o lixo acumulado.
     A praa de Pagford parecia recm-pintada sempre que o sol brilhava. Duas vezes por ano, as crianas da escola primria passavam pelo centro do vilarejo, duas 
a duas, em fila, a caminho da igreja, para o servio religioso do Natal e da Pscoa. (Ningum jamais quis dar a mo a Krystal. Bola havia dito a todo mundo que ela 
tinha piolho. Ela ficou se perguntando se ele ainda se lembrava disso.) Havia corbelhas cheias de flores, pinceladas de roxo, rosa e verde, e sempre que ela passava 
pelas jardineiras que ficavam na frente do Black Canon arrancava uma ptala de uma flor qualquer. De incio, todas eram frescas e macias entre os seus dedos, mas 
logo escureciam e se tornavam pegajosas  medida que ela as esmagava. Em geral, se livrava delas esfregando a mo debaixo de um dos bancos de madeira da Igreja de 
So Miguel.
     Entrou em casa e logo percebeu, pela porta aberta  sua esquerda, que Terri no tinha ido para a cama. Estava sentada na poltrona de sempre, de olhos fechados 
e com a boca aberta. Krystal bateu a porta com fora, mas Terri nem se mexeu.
     Mais que depressa, se aproximou da me e sacudiu o seu brao fino. A cabea de Terri pendeu para a frente, encostando no seu peito encarquilhado, e ela soltou 
um ronco.
     Krystal a soltou. A imagem do homem morto no banheiro voltou  sua memria.
     Sua vaca estpida - exclamou a garota.
     Mas, de repente, percebeu que Robbie no estava por ali. Subiu a escada correndo, chamando por ele.
     T aqui - ouviu-o dizer, por trs da porta fechada do quarto dela.
     Quando forou a porta e conseguiu abri-la, viu Robbie parado ali, nu. Atrs dele, deitado no seu colcho, sem camisa e coando o peito, estava Obbo.
     Tudo bem, Krys? - perguntou ele, com um risinho.
     Ela passou a mo em Robbie e o carregou para o seu prprio quarto. As suas mos tremiam tanto que ela levou horas para vesti-lo.
     Ele fez alguma coisa com voc? - perguntou ao menino, bem baixinho.
     T com fome - disse Robbie.
     Depois de vesti-lo, ela o pegou no colo e desceu correndo. Dava para ouvir Obbo circulando pelo seu quarto.
     Que que ele t fazendo aqui? - gritou ela, dirigindo-se a Terri, que estava inteiramente grogue, atirada na poltrona. - Por que que ele tava com Robbie?
     O menino se debatia para sair do seu colo; ele odiava que gritassem.
     E que porra  essa a? - perguntou Krystal, sempre aos berros, percebendo s agora duas sacolas pretas no cho, ao lado da poltrona de Terri.
     Nada - respondeu a mulher vagamente.
     Mas Krystal j tinha aberto o zper de uma delas.
     No  nada!!! - esbravejou Terri.
     Ali dentro havia uns pacotes de haxixe, grandes como tijolos, embalados cuidadosamente em folhas de polietileno: Krystal, que mal sabia ler, que era praticamente 
incapaz de identificar metade dos legumes expostos num supermercado, que no fazia idia do nome do primeiro-ministro, sabia perfeitamente que o contedo daquela 
sacola, se descoberto, significava priso para a sua me. Viu, ento, a lata com os cavalos e o cocheiro de cartola na tampa, meio escondida na poltrona em que Terri 
estava sentada.
     Voc usou - exclamou a garota, ofegante, como se uma calamidade invisvel houvesse desabado sobre ela e tudo ao seu redor estivesse destrudo. - Voc usou a 
porra da...
     Ouviu Obbo descendo a escada e pegou Robbie no colo novamente. O menino comeou a chorar e se debateu nos seus braos, assustado com a sua raiva, mas Krystal 
o segurou com toda a fora.
     Solta ele, porra - gritava Terri, inutilmente. Krystal j tinha aberto a porta e, correndo o mais rpido que podia, apesar do peso do irmo, que se debatia 
e gemia, voltou para a rua.
     
     VI
     
     Shirley tomou banho e tirou uma roupa do armrio enquanto Howard continuava a dormir, roncando. O sino da Igreja de So Miguel e Todos os Santos soando para 
o servio das dez horas chegou aos seus ouvidos quando ela estava abotoando o casaco. Sempre achou que aquele barulho devia ser altssimo na casa dos Jawanda, que 
moravam bem em frente, e torceu para que eles ouvissem aquele som como a proclamao, em altos brados, do apoio de Pagford aos velhos costumes e tradies, de que 
eles, obviamente, no faziam parte.
     Sem pensar muito, porque era o que quase sempre fazia, Shirley saiu pelo corredor, entrou no antigo quarto de Patrcia e sentou-se na frente do computador.
     A filha devia estar ali, dormindo no sof-cama que Shirley havia preparado para ela. Mas era um alvio no ter que lidar com ela naquela manh. Howard, que 
ainda cantarolava "The Green, Green Grass of Home" quando chegaram de volta a Ambleside j de madrugada, s deu pela falta de Patrcia quando Shirley enfiou a chave 
na porta da frente.
     Onde est Pat? - perguntou ele, num sussurro, recostado no portal.
     Ah, ela ficou chateada porque Melly no quis vir - respondeu Shirley com um suspiro. - Tiveram uma briga ou algo assim... Deve ter voltado para casa para tentar 
acertar as coisas.
     Sempre uma emoo extra - exclamou ele, esbarrando nas paredes do estreito corredor, a caminho do quarto.
     Shirley entrou no seu site de medicina favorito. Quando digitou a primeira letra do termo que queria procurar, o site exibiu novamente as definies das injees 
de adrenalina. Ela ento aproveitou para rever rapidamente como agiam e como deviam ser utilizadas, porque talvez ainda tivesse a chance de salvar a vida do rapazinho 
que trabalhava no caf. Em seguida digitou com todo o cuidado a palavra "eczema", e ficou sabendo, no sem alguma decepo, que a doena no era infecciosa, e portanto 
no poderia ser usada como desculpa para demitir Sukhvinder Jawanda.
     Por pura fora do hbito, digitou o endereo do site do Conselho Distrital de Pagford e clicou na rea de mensagens.
     Agora era capaz de reconhecer de cara, s pelo formato e pelo tamanho, o nome O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother, exatamente como um apaixonado reconhece de imediato 
a nuca da mulher amada, ou a forma de seus ombros ou o seu jeito de andar.
     Bastou uma olhada nas mensagens recentes para quase explodir de empolgao: o Fantasma no a tinha abandonado. Sabia que a exploso da dra. Jawanda no poderia 
passar em branco.

O caso do representante mximo de Pagford
     
     Leu a frase, mas a princpio no entendeu nada. Estava esperando ver ali o nome de Parminder. Leu de novo e quase perdeu o flego, como algum que  atingido 
por um balde de gua fria.
H anos que Howard Mollison, o representante mximo de Pagford, e Maureen Lowe, moradora de longa data do vilarejo, so muito mais do que meros scios.  do conhecimento 
de todos que Maureen prova regularmente os mais finos salames de Howard. Aparentemente a nica pessoa que no est a par desse segredo  Shirley, esposa de Howard.
     
     Paralisada na cadeira, Shirley pensou: No  verdade. No podia ser verdade.
     Tinha desconfiado disso uma ou duas vezes... Chegou at a fazer algumas insinuaes a Howard...
     No, no ia acreditar naquilo. No podia acreditar naquilo. Mas os outros acreditariam. Acreditariam no Fantasma. Todos acreditavam nele.
     Quando tentou remover a mensagem do site, atrapalhou-se toda, porque as suas mos pareciam at luvas vazias, inertes, desajeitadas. Enquanto aquela mensagem 
permanecesse ali, a cada segundo mais algum poderia l-la, acreditar nela, rir dela, transmiti-la para o jornal local... Howard e Maureen... Howard e Maureen...
     A mensagem foi apagada. Shirley ficou sentada ali, olhando para o monitor, com os pensamentos correndo como ratos numa caixa de vidro, tentando escapar, mas 
no havia nenhuma sada, nenhum apoio para os ps, nenhuma maneira de voltar para aquele lugar feliz onde ela vivia antes de ver aquela coisa horrorosa, exibida 
publicamente para o mundo inteiro ver... Ele tinha rido de Maureen.
     No, ela tinha rido de Maureen. Howard tinha rido de Kenneth.
     Sempre juntos: nas frias, no trabalho, nos passeios de fim de semana...
     
...a nica pessoa que no est a par desse segredo...

     ...ela e Howard no precisavam de sexo: dormindo h anos em camas separadas, tinham um acordo tcito...
     
...prova regularmente os mais finos salames de Howard...

     (A me de Shirley estava viva ali no quarto ao seu lado: rindo e debochando dela, derramando o vinho que bebia... Shirley no suportava esse tipo de riso. Nunca 
conseguiu agentar obscenidades e escrnio.)
     Levantou-se de um salto, tropeando nos ps da cadeira, e correu para o quarto. Howard ainda estava dormindo, deitado de barriga para cima, roncando como um 
porco.
     Howard - disse ela. - Howard.
     Ele demorou alguns minutos para acordar. Estava confuso e desorientado, mas, parada ali ao seu lado, Shirley ainda o via como um cavaleiro protetor que poderia 
salv-la.
     Howard, o Fantasma de Barry Fairbrother postou mais uma mensagem.
     Ligeiramente irritado por ter sido acordado assim to bruscamente, Howard fez um grunhido e enfiou o rosto no travesseiro.
      sobre voc - disse Shirley.
     Em geral, ela e Howard no diziam claramente o que pensavam. E Shirley sempre gostou disso. Mas hoje queria ir direto ao assunto.
 sobre voc - repetiu ela - e Maureen. Segundo ele, vocs tm... um caso.
     Howard passou a mo enorme pelo rosto e esfregou os olhos. Shirley estava convencida de que ele os esfregou muito mais do que o necessrio.
     O qu? - indagou ele, enquanto tinha o rosto protegido pela mo.
     Que voc e Maureen tm um caso.
     De onde ele tirou isso?
     No havia naquela pergunta negao, nem ofensa, nem riso de incredulidade. Apenas a preocupao com relao  fonte daquela informao.
     Dali em diante, Shirley sempre se lembraria daquele momento como uma morte, uma vida efetivamente encerrada.
     
     VII
     
     - Porra, Robbie! Cala a boca.
     Krystal foi arrastando Robbie at um ponto de nibus vrias ruas adiante, para que nem Obbo, nem Terri pudessem encontr-los. No sabia se tinha dinheiro para 
a passagem, mas estava decidida a ir para Pagford. A av Cath tinha morrido, o sr. Fairbrother tinha morrido, mas Bola estava l, e ela precisava engravidar dele.
     Por que ele tava l no quarto com voc? - perguntou ela aos gritos, mas Robbie continuava chorando e no respondeu.
     O celular de Terri estava quase sem bateria. Krystal ligou para Bola, mas caiu na caixa postal.
     L na Church Row, o garoto estava ocupado, comendo umas torradas e ouvindo os pais terem mais uma daquelas conversas esquisitas no escritrio, do outro lado 
do corredor. Essa era uma tima maneira de se desligar dos seus prprios pensamentos. No seu bolso, o telefone vibrou, mas ele no atendeu. No havia ningum com 
quem quisesse falar. Andrew no era. No depois da noite de ontem.
     Colin, voc sabe muito bem o que deve fazer - dizia a sua me. Pela voz, parecia exausta. - Por favor, Colin...
     Ns jantamos com eles no sbado  noite. Na vspera da morte dele. Fui eu que fiz o jantar. E se...
     Colin, voc no colocou nada na comida... Pelo amor de Deus! Eu estou aqui fazendo isso... No tenho nada que fazer isso, Colin, voc sabe muito bem que eu 
no tenho que entrar nesse jogo.  o seu TOC que est fazendo voc pensar essas coisas.
     Mas eu posso ter colocado, Tess. De repente me passou pela cabea: e se eu pus alguma coisa...
     Ento por que  que ns estamos vivos, voc, eu e Mary? Eles fizeram uma autpsia, Colin!
     Mas ningum nos deu nenhum detalhe. Mary no nos disse nada. Acho que  por isso que ela no quer mais falar comigo. Est desconfiada.
     Colin, pelo amor de Deus...
     A voz de Tessa era agora um sussurro insistente, baixo demais para ser ouvido. O celular de Bola vibrou novamente. O garoto tirou o aparelho do bolso. Era o 
nmero de Krystal. Ele atendeu.
     - Oi - disse Krystal, e ele ouviu alguma coisa que parecia uma criana gritando. - A gente pode se encontrar?
     No sei, no - respondeu ele, bocejando. Estava pretendendo ir para a cama.
     T indo pra Pagford de nibus. A gente podia dar uma volta.
     Na vspera, ele agarrou Gaia Bawden l na grade, do lado de fora do salo da igreja, at ela o empurrar e comear a vomitar. Depois, quando ela comeou a brigar 
com ele de novo, Bola decidiu voltar para casa e deixar ela ali.
     No sei, no - repetiu ele. Estava se sentindo muito cansado, muito triste.
     Ah, vamos - insistiu a garota.
     Bola ouviu a voz de Colin vindo l do escritrio.
     Isso  o que voc diz, mas ser que ia aparecer? E se eu...
     No podemos continuar com isso, Colin... Voc sabe que no deve levar essas idias a srio.
     Como pode dizer isso? Como no levar isso a srio? Se eu for o responsvel...
     T bom - disse Bola. - Encontro voc daqui a vinte minutos em frente ao pub l na praa.

VIII
     
     Finalmente, Samantha teve que sair do quarto de hspedes, porque estava com muita vontade de fazer xixi. Tomou uns goles de gua gelada direto da torneira do 
banheiro at se sentir enjoada, engoliu dois comprimidos de paracetamol que apanhou no armrio de remdios acima da pia e depois tomou um banho.
     Vestiu-se sem se olhar no espelho. Fez tudo isso tentando distinguir algum rudo que lhe indicasse onde estaria Miles, mas a casa parecia completamente silenciosa. 
Talvez ele tivesse levado Lexie a algum lugar, pensou ela, longe da me bbada, devassa e papa-anjo...
     (- Ele era da turma de Lexie na escola! - esbravejou Miles, quando ficaram sozinhos no quarto. Ela esperou at ele se afastar da porta, correu ento para abri-la 
e fugiu para o quarto de hspedes.)
     A nusea e a mortificao a inundavam. Adoraria poder esquecer, apagar aquilo tudo, mas ainda via nitidamente o rosto do garoto quando ela se atirou sobre ele... 
Lembrava direitinho a sensao do corpo dele contra o seu, aquele corpo to magro, to jovem...
     Se ao menos fosse Vikram Jawanda, poderia haver alguma dignidade naquilo tudo... Estava precisando de um caf. No podia ficar ali no banheiro para sempre. 
Quando porm se virou para abrir a porta, viu o prprio reflexo no espelho e quase perdeu a coragem. Estava com o rosto inchado, mal podia abrir os olhos, e as linhas 
da sua pele pareciam mais acentuadas por causa da noite maldormida e da desidratao.
Ah, meu Deus, o que ele deve ter pensado de mim...
     Miles estava sentado na cozinha quando ela entrou. Samantha nem olhou para o marido. Foi direto at o armrio onde ficava o caf. Mas, antes mesmo que abrisse 
a porta, ele lhe disse:
     Tem caf aqui.
     Obrigada - murmurou ela, e encheu uma caneca com a bebida, evitando encar-lo.
     Mandei Lexie para a casa dos meus pais - disse Miles. - Precisamos conversar.
     Samantha se sentou.
     Ento vamos l - disse ela.
     "Vamos l"...  tudo o que tem a dizer?
      voc que quer conversar.
     Ontem  noite, na festa de aniversrio do meu pai, sa procurando voc e fui encontr-la agarrada com um garoto de dezesseis anos...
, de dezesseis anos - confirmou Samantha. - J  maior de idade. Menos mal.
     Ele a olhava, atnito.
     Voc acha isso engraado? Se me visse to bbado a ponto de nem me dar conta...
     Mas eu me dei conta - interrompeu Samantha.
     Recusava-se a ser outra Shirley, que encobria tudo com os panos quentes de uma fico bem-comportada. Queria ser honesta, queria atravessar aquela espessa camada 
de complacncia que encobria o rapaz que tinha amado um dia e que mal conseguia reconhecer.
     Voc se deu conta... de qu? - perguntou Miles.
     Ficou to bvio que ele esperava constrangimento e arrependimento que ela quase riu.
     De que estava beijando o garoto - respondeu Samantha.
     Miles a encarou bem nos olhos, e ela perdeu a coragem, porque sabia exatamente o que ele diria em seguida.
     E se Lexie tivesse entrado naquela cozinha?
     Samantha no tinha resposta para aquela pergunta. A idia de Lexie ficar sabendo do que tinha acontecido lhe deu vontade de fugir dali e nunca mais voltar... 
E se o garoto lhe contasse? Eles foram colegas de escola. Ela tinha esquecido como era Pagford...
     Que diabos est acontecendo com voc? - indagou o marido.
     Estou... infeliz - respondeu Samantha.
     Por qu? - perguntou ele, mas logo acrescentou: -  por causa da loja?  isso?
     Tambm - replicou ela. - Mas odeio morar em Pagford. Odeio viver to perto assim dos seus pais. E, s vezes - acrescentou, bem devagar -, odeio acordar ao seu 
lado.
     Achou que Miles fosse ficar com raiva, ele porm se limitou a perguntar tranqilamente:
     Est dizendo que no me ama mais?
     No sei - respondeu Samantha.
     Com a camisa aberta no pescoo, ele parecia mais magro. Pela primeira vez em muito tempo, ela achou que tinha visto algum conhecido e vulnervel dentro daquele 
corpo que envelhecia e que estava sentado do outro lado da mesa. E ele ainda me quer, pensou, espantada, lembrando aquele rosto todo amassado que vira no espelho 
l em cima.
     Mas, na noite em que Barry Fairbrother morreu - acrescentou ela -, fiquei feliz por voc ainda estar vivo. Acho que sonhei que estava morto... Acordei e sei 
que fiquei feliz quando ouvi a sua respirao.
     Isso ... Isso  tudo o que tem a me dizer? Que ficou feliz por eu no estar morto?
     E pensou que ele no estava zangado. Que bobagem... Ele s tinha ficado chocado.
     Isso  tudo o que tem a me dizer? Voc fica completamente bbada na festa de aniversrio do meu pai...
     Seria melhor se no tivesse acontecido na maldita festa do seu pai? - perguntou ela, aos berros, pois a raiva dele provocava a sua prpria. - Afinal, qual  
o verdadeiro problema? Eu ter deixado voc constrangido na frente da mame e do papai?
Voc estava beijando um garoto de dezesseis anos...
     Talvez ele seja o primeiro de muitos outros - gritou Samantha, levantando-se da mesa e colocando a caneca na pia com fora. A asa da caneca quebrou e ficou 
na sua mo. - Voc no entende, Miles? No agento mais! Odeio a porra da nossa vida, e odeio a porra dos seus pais...
     ...mas no se importa que eles paguem o colgio das meninas...
     ...odeio ver voc se transformando no seu pai bem diante dos meus olhos...
     ...que nada, voc simplesmente no gosta de me ver feliz quando est...
     ...porque o meu querido marido no d a mnima para como estou me sentindo...
     ...tem tanta coisa para fazer por aqui, e voc prefere ficar sentada em casa, emburrada...
     ...no pretendo ficar sentada em casa nunca mais, Miles...
     ...no vou pedir desculpas por participar das questes da comunidade...
...bem, eu estava falando srio quando disse que voc era a pessoa menos indicada para ocupar o lugar dele.
     O qu? - perguntou Miles, levantando-se to bruscamente que a cadeira caiu para trs, mas Samantha j estava se dirigindo para a porta da cozinha.
     Isso mesmo que voc ouviu - respondeu ela, aos berros. - Como eu disse naquela carta, Miles, voc  a pessoa menos indicada para ocupar o lugar de Barry Fairbrother. 
Ele era sincero.
     A carta era sua?
     Isso mesmo - disse ela, ofegante, com a mo na maaneta da porta. - Fui eu que mandei aquela carta. Numa noite em que bebi demais enquanto voc estava no telefone 
com a sua me. E - acrescentou, abrindo a porta - tambm no votei em voc.
     A expresso dele a deixou furiosa. No corredor, ela calou uns tamancos, o primeiro par de sapatos que encontrou, e saiu porta afora, antes que ele pudesse 
alcan-la.
     
     IX
     
     A viagem levou Krystal de volta  infncia. Por anos a fio, fez aquele caminho de nibus sozinha para a St. Thomas. Sabia perfeitamente quando a velha abadia 
ia surgir, e mostrou as runas ao irmo.
     Olha l as runas daquele castelo bem grande!
     Robbie estava com fome, mas o entusiasmo de andar de nibus conseguiu distra-lo um pouco. Krystal continuava segurando firme a sua mo. Tinha prometido lhe 
dar alguma coisa para comer quando chegassem, mas no sabia como ia conseguir fazer isso. Talvez pudesse pedir dinheiro emprestado a Bola e comprar um saco de batatas 
fritas, alm,  claro, da passagem de volta.
     A minha escola era aqui - disse a garota. Robbie passava os dedos pelos vidros sujos da janela, criando umas formas abstratas. - Sua escola tambm vai ser aqui.
     Quando lhe dessem uma casa, por causa da gravidez, com toda a certeza ia ser l em Fields; ningum quer comprar casas naquele bairro, porque esto todas caindo 
aos pedaos. Mas Krystal achava que isso era at bom, porque, apesar do pssimo estado daquelas casas, Robbie e o beb ficariam na rea de abrangncia da St. Thomas. 
De qualquer modo, era quase certo que os pais de Bola lhe dessem dinheiro para comprar uma mquina de lavar, pois ela ia ser a me do neto deles. Quem sabe at no 
iam ter televiso?
     O nibus ia descendo a ladeira rumo a Pagford, e Krystal avistou o rio reluzente, que podia ser visto por um breve instante, antes que a estrada chegasse ao 
ponto mais baixo do trajeto. Quando entrou para a equipe de remo, ficou decepcionada ao ver que no iam treinar no rio Orr, mas naquele canal velho e sujo l de 
Yarvil.
     Chegamos - disse a Robbie, enquanto o nibus contornava lentamente a praa toda florida.
     Bola tinha esquecido que esperar na porta do Black Canon significava ficar bem em frente  Mollison & Lowe e ao Copper Kettle. Ainda faltava mais de uma hora 
para o meio-dia, quando o caf abria aos domingos, mas Bola no sabia com que antecedncia Andrew tinha que chegar ao trabalho. Hoje no estava com a menor vontade 
de encontrar o seu mais antigo amigo, ento ficou meio escondido na esquina do pub, e s apareceu quando o nibus chegou.
     O veculo foi embora, revelando Krystal e um menininho de aparncia meio suja.
     Sem entender nada, Bola se aproximou deles.
     Esse aqui  o meu irmo - disse Krystal em tom agressivo, respondendo a algo que percebeu na expresso de Bola.
     Ele teve que fazer mais um ajuste mental na sua concepo do que seria uma vida autntica e sem disfarces. Andava meio fascinado pela idia de engravidar Krystal 
(e mostrar a Pombinho o que os homens de verdade podem fazer de forma corriqueira e sem esforo), mas ver aquele garotinho agarrado  mo e  perna da irm o deixou 
desconcertado.
     Adoraria no ter concordado em se encontrar com Krystal. Ao lado dela, estava se sentindo ridculo. Quando a viu ali, no meio da praa, achou que seria mil 
vezes melhor estar naquela casa fedida e miservel.
     Tem um dinheiro pra me emprestar? - perguntou a garota.
     O qu? - replicou Bola, que estava lerdo de to cansado. J no lembrava por que quis passar a noite toda acordado, e a sua lngua chegava a latejar de tanto 
que tinha fumado.
     Dinheiro - repetiu Krystal. - Ele t com fome, e perdi uma nota de cinco. Depois eu pago.
     Bola enfiou a mo no bolso da cala jeans e encontrou uma nota toda amassada. De repente, no quis que ela achasse que ele era rico. Catou ento l no fundo 
todas as moedas que pde encontrar.
     Foram at a loja de convenincia, que ficava a dois quarteires da praa, e Bola esperou do lado de fora enquanto Krystal entrou para comprar um saco de batatas 
fritas e um chocolate. Ningum disse nada, nem mesmo Robbie, que parecia estar com medo de Bola. Finalmente, depois de dar as batatas ao irmo, Krystal perguntou:
     Pra onde a gente vai?
     Ele no estava achando que iriam trepar. No com o menininho ali. Pensou em lev-la at o Pombal, era um lugar mais escondido, e ainda por cima aquilo seria 
a dessacralizao definitiva da sua amizade com Andrew. Agora, j no devia nada a ningum. Mas desistiu porque no podia nem pensar em foder com ela na frente de 
uma criana de trs anos.
     Ele vai ficar direitinho - disse Krystal. - Vai ganhar chocolate. Agora no, mais tarde - acrescentou, dirigindo-se a Robbie, que choramingava pedindo o chocolate 
que estava na mo dela. - Depois de comer batata frita.
     Saram andando em direo  velha ponte de pedra.
     Ele vai ficar direitinho - repetiu a garota. - Ele  obediente. No , Robbie? - disse ela, um pouco mais alto, dirigindo-se ao irmo.
     Qu chocolate - pediu o menino.
     T, daqui a pouco.
     Sabia que ia precisar ser bem legal com Bola hoje. No nibus, percebeu que ter levado Robbie tornaria as coisas mais difceis, embora no houvesse outro jeito.
     O que aconteceu com voc?
     Teve uma festa ontem  noite - respondeu Bola.
     Ah, ? Quem tava l?
     Ela teve que esperar pela resposta porque o garoto bocejou, se espre- guiando.
     Arf Price. Sukhvinder Jawanda. Gaia Bawden.
     Ela mora em Pagford? - perguntou Krystal, agressiva.
     Mora, na Hope Street.
     Sabia onde ela morava porque Andrew tinha deixado escapar essa informao. O amigo nunca tinha lhe dito que gostava dela, mas, nas poucas matrias em que estavam 
na mesma turma, Bola reparou que ele passava quase o tempo todo olhando para a garota. Notou tambm que Andrew ficava bem atrapalhado quando estava perto de Gaia 
ou quando algum falava dela.
     Krystal, por sua vez, estava pensando na me de Gaia: a nica assistente social de quem j gostou, a nica que conseguiu alcanar a sua me. Ento ela morava 
na Hope Street, na mesma rua que a av Cath. E provavelmente estava l a essa hora. E se...
     Mas Kay no estava mais com elas. Mattie tinha voltado a ser a sua assistente social. De todo modo, sabia que no tinha nada que ir incomod-la em casa. Uma 
vez, Shane Tully seguiu a assistente social at a casa dela, e o juiz lhe deu ordem de restrio. Mas, antes, Shane j tinha tentado acertar um tijolo no para-brisa 
do carro da mulher...
     Alm disso, pensou Krystal, apertando os olhos quando, depois de uma curva, o rio quase a ofuscou com milhares de pontinhos brancos de luz, Kay continuava responsvel 
pelos relatrios, pelo dossi, e ainda detinha o poder de deciso. Ela parecia bem legal, mas nenhuma das solues que encontrasse poderia manter Krystal e Robbie 
juntos...
     Podamos ir l pra baixo - sugeriu a Bola, apontando para um local logo depois da ponte, onde a margem do rio ficava mais larga. - E Robbie podia ficar esperando 
aqui nesse banco.
     A garota achou que podia ficar de olho no irmo e ao mesmo tempo conseguir que ele no visse nada. No que ele nunca tivesse visto aquilo antes, naquela poca 
em que Terri levava estranhos para casa.
     No entanto, por mais cansado que estivesse, Bola no se conformava. No ia conseguir transar na grama, na frente de um menino de trs anos.
     No - disse ele, tentando parecer indiferente.
     Ele no vai atrapalhar - replicou Krystal. - Vai ficar comendo chocolate. Nem vai perceber - acrescentou, sabendo perfeitamente que no era verdade. Robbie 
conhecia aquilo tudo bem demais. Houve at um problema na escola quando ele ficou imitando a posio cachorrinho numa outra criana.
     Bola se lembrou de que a me de Krystal era prostituta. Detestava o que a garota estava sugerindo, mas isso no era demonstrar falta de autenticidade?
     Qual o problema? - perguntou Krystal, num tom meio agressivo.
     Nenhum - respondeu ele.
     Dane Tully faria isso. Pikey Pritchard tambm. Pombinho, nem em um milho de anos.
     Krystal levou Robbie at o banco. Bola se abaixou para verificar se dava para ver, por cima do encosto daquele banco, o local onde eles iam ficar e achou que 
o menino certamente no veria nada. Em todo caso, ia tratar de fazer tudo o mais rpido possvel.
     Toma - disse Krystal, dirigindo-se ao irmo e lhe entregando a barra de chocolate, que ele pegou todo animado. - Voc s vai poder comer tudo se ficar sentado 
aqui um pouquinho, t? Voc vai ficar sentado aqui, e eu vou ficar logo ali, perto das plantas. Entendeu, Robbie?
     Tendi - respondeu o menino, feliz da vida, com as bochechas j todas sujas de chocolate e caramelo.
     Krystal saiu de fininho e desceu at a margem do rio, na esperana de que Bola no criasse problema em transar sem camisinha.
     
     X
     
     Gavin saiu de culos escuros por causa do sol da manh, mas nem por isso conseguiu se esconder: Samantha Mollison reconheceu imediatamente o seu carro. Quando 
a viu andando pela calada sozinha com as mos nos bolsos e a cabea baixa, dobrou  esquerda bruscamente. Em vez de seguir em frente para chegar  casa de Mary, 
atravessou a velha ponte de pedra e estacionou numa alameda transversal do outro lado do rio.
     No queria que Samantha o visse parando diante da casa de Mary. Aquilo no tinha a menor importncia nos dias de semana, quando ele estava de terno, carregando 
sua pasta. Na verdade, no importava at ele admitir o que sentia por Mary. Mas agora importava, sim. Apesar de tudo, porm, a manh estava linda, e uma caminhada 
lhe daria mais tempo.
     No tenho que tomar nenhuma deciso definitiva, pensou ele, atravessando a ponte a p. Ali embaixo, viu um menininho sentado sozinho num banco, comendo chocolate. 
No preciso dizer nada... Vou danar conforme a msica...
     Mas as palmas das suas mos estavam midas. A idia de Gaia contando s gmeas Fairbrother que ele estava apaixonado pela me delas no lhe saiu da cabea durante 
toda aquela noite maldormida.
     Mary pareceu feliz ao v-lo.
     No veio de carro? - perguntou ela, olhando para a rua s suas costas.
     Estacionei l perto do rio - respondeu Gavin. - Est um dia to bonito que me deu vontade de andar a p, e ento me ocorreu que eu talvez pudesse aparar o seu 
gramado, se voc quiser...
     Ah, Graham j fez isso - disse ela -, mas  muita gentileza sua. Entre. Venha tomar um caf.
     Mary ficou falando enquanto circulava pela cozinha. Estava usando uma velha cala jeans cortada e uma camiseta. Aquela roupa deixava bem claro como ela tinha 
emagrecido, mas o seu cabelo brilhava de novo, exatamente como Gavin se lembrava dele. De onde estava, via as gmeas deitadas numa manta estendida sobre a grama 
recm-cortada, ambas com fone de ouvido ligado aos iPods.
     Como voc est? - indagou Mary, sentando-se ao lado dele.
     No podia imaginar por que ela parecia to preocupada. Lembrou ento que havia lhe contado na vspera que ele e Kay tinham terminado.
     Estou bem - respondeu ele. - Acho que foi melhor assim.
     Mary sorriu e lhe deu uns tapinhas no brao.
     Ontem  noite - disse ele, sentindo a boca ligeiramente seca - algum disse que talvez voc v embora daqui.
     As notcias correm rpido em Pagford - exclamou ela. - Por enquanto,  apenas uma idia. Theresa quer que eu volte para Liverpool.
     E o que os meninos esto achando disso?
     Bem, vou esperar at junho por causa das provas de Fergus e das meninas. Com Declan  tudo mais fcil.  claro que nenhum de ns quer ir embora...
     Ao dizer isso, comeou a chorar. Gavin ficou to feliz que estendeu o brao e ps a mo no seu pulso delicado.
      claro que no...
     ...o tmulo de Barry.
     Ah, claro - balbuciou Gavin, e a sua felicidade se apagou como uma vela.
     Mary enxugou os olhos cheios de lgrimas com o dorso da mo. Gavin a achou um pouco mrbida. Na sua famlia, os mortos eram cremados. O enterro de Barry foi 
o segundo a que ele compareceu na vida, e detestou cada detalhe daquela cerimnia. Na sua opinio, as sepulturas eram apenas marcos para o lugar onde um cadver 
estava se decompondo. Era uma idia repulsiva, e, no entanto, as pessoas achavam que deviam ir visit-las, levando flores, como se o morto pudesse se recuperar.
     Mary tinha se levantado para pegar lenos de papel. L fora, na grama, as gmeas usavam agora o mesmo fone de ouvido e balanavam a cabea ao ritmo da mesma 
msica.
     Ento Miles se elegeu para a vaga de Barry - comentou ela. - Daqui deu para ouvir as comemoraes a noite inteira.
     Bom, era a festa de... , isso mesmo - concordou Gavin.
     E Pagford est prestes a se ver livre de Fields - acrescentou ela.
     , parece que sim.
     E agora, com Miles no Conselho, vai ficar mais fcil fechar a Bellchapel - concluiu ela.
     Gavin, que no se interessava a mnima por essas histrias, sempre demorava um pouco para lembrar o que era a Bellchapel.
     , acho que sim.
     Ento tudo que Barry queria est acabado - acrescentou ela.
     As suas lgrimas tinham secado, e a indignao devolveu a cor ao seu rosto.
     Eu sei - admitiu Gavin. - Isso  muito triste realmente.
     No sei, no - disse ela, ainda zangada e vermelha de raiva. - Por que Pagford tem que arcar com as despesas de Fields? Barry s conseguia ver um lado da questo. 
Achava que todo mundo l em Fields era como ele. Achava que Krystal Weedon era como ele, mas no  verdade. Nunca lhe passou pela cabea que aquela gente de Fields 
pode ser feliz vivendo l.
     E - concordou Gavin, feliz da vida por ver que ela discordava de Barry, e sentindo como se a sombra do seu tmulo no estivesse mais ali entre eles. - Entendo 
o que quer dizer. Pelo que ouvi sobre Krystal Weedon...
     Ele dedicou a ela mais tempo e mais ateno do que dedicava s prprias filhas - disse Mary. - E ela no deu um centavo para a coroa do enterro dele. As garotas 
me contaram. Toda a equipe de remo contribuiu, menos Krystal. E nem foi ao enterro, depois de tudo o que ele fez por ela.
     , isso mostra...
     Desculpe, mas no consigo parar de pensar nessa histria toda - interrompeu ela, agitada. - No posso me impedir de pensar que ele ainda queria que eu me preocupasse 
com a maldita Krystal Weedon. No consigo esquecer isso. No seu ltimo dia de vida, no fez nada para melhorar aquela dor de cabea terrvel, porque ficou escrevendo 
a droga daquele artigo.
     Eu sei - disse Gavin. - Eu sei. Acho - principiou ele, com a sensao de estar pisando numa velha ponte de cordas - que essa  uma coisa tpica dos homens. 
Miles  igual. Samantha no queria que ele se candidatasse para o Conselho, mas ele se candidatou. Sabe, tem homens que gostam mesmo do poder...
     Barry no se interessava pelo poder - exclamou Mary, e Gavin rapidamente voltou atrs.
     No, no, claro que no. O que ele queria...
     Ele simplesmente no podia evitar - interrompeu Mary. - Achava que todo mundo era como ele, que bastava estender a mo para que as pessoas comeassem a melhorar.
 - disse Gavin -, o problema  que existem outras pessoas que podem precisar dessa mo... Na nossa prpria casa...
     Isso mesmo - concordou ela, recomeando a chorar.
     Mary - principiou Gavin, levantando da cadeira e se aproximando dela (agora estava naquela ponte de corda, sentindo um misto de pnico e ansiedade) -, olhe... 
eu sei que ainda  cedo... Quero dizer,  cedo demais... Mas voc vai encontrar algum.
     Aos quarenta - disse ela, soluando -, com quatro filhos...
     Muitos homens - prosseguiu ele, mas mudou de idia; no queria que ela achasse que tinha muitas opes. - O homem certo - corrigiu-se - no vai ligar para o 
fato de voc ter filhos. De todo modo, eles so timos... Qualquer um gostaria de conviver com eles.
     Ah, Gavin, voc  to bom - disse Mary, mais uma vez enxugando os olhos.
     Ele passou o brao pelos seus ombros, e ela no tentou se desvencilhar. Ficaram assim, em silncio, enquanto ela assoava o nariz, e depois ele percebeu que 
ela estava tentando se afastar.
     Mary... - disse ele.
     O qu?
     Tenho que... Mary, acho que estou apaixonado por voc.
     Por alguns segundos, Gavin sentiu o imenso orgulho de um paraquedista que deixa a terra firme para se lanar no espao infinito.
     Mas ela se afastou.
     Gavin. Eu...
     Desculpe - disse ele, percebendo, assustado, a expresso de repulsa que havia no seu rosto. - Queria que ficasse sabendo disso por mim. Disse a Kay que era 
por isso que queria me separar dela, e tive medo de que algum pudesse vir lhe contar isso. No teria dito nada por enquanto, poderia esperar meses, at anos - acrescentou, 
tentando trazer de volta o sorriso ao seu rosto e a disposio que ela demonstrou quando lhe disse que ele era to bom.
     Mas Mary fazia que no com a cabea, com os braos cruzados diante do peito magro.
     Gavin, eu nunca, jamais...
     Esquea o que eu disse - pediu ele, tolamente. - Vamos esquecer tudo isso.
     Achei que voc tivesse entendido - prosseguiu ela.
     Ele concluiu que devia saber que ela estava aprisionada na armadura invisvel da dor, e que aquilo devia proteg-la.
     Mas eu entendo - mentiu. - No teria lhe dito nada se...
     Barry sempre disse que voc tinha uma queda por mim.
     No - exclamou ele, aflito.
     Acho voc um homem to bacana - disse ela, ofegante. - Mas eu no... Quer dizer, mesmo que eu...
     No - disse ele bem alto, tentando abafar a voz dela. - Eu entendo. Oua,  melhor eu ir embora.
     No precisa...
Mas agora ele quase a odiava. Tinha entendido o que ela estava tentando dizer: Mesmo que eu no estivesse sofrendo pela morte do meu marido, no ia querer voc.
     Aquela visita de Gavin tinha sido to breve que, quando Mary, ligeiramente trmula, jogou fora o caf na pia, ele ainda estava quente.

XI
     
     Howard disse a Shirley que no estava se sentindo muito bem, que achava melhor ficar na cama e descansar e que o Copper Kettle poderia passar uma tarde sem 
ele. Acrescentou:
     Vou ligar para Mo.
     No, pode deixar que eu ligo - retrucou Shirley, prontamente. Quando fechou a porta do quarto, Shirley pensou: Ele est usando a desculpa do corao.
     Howard tinha dito ainda "No seja boba, Shirl", "Isso  bobagem, pura bobagem", e ela no insistiu. Todos aqueles anos evitando com cuidado os assuntos espinhosos 
(Shirley perdeu literalmente a fala quando a filha Patrcia, ento com vinte e trs anos, lhe disse: "Eu sou gay, me.") tinham feito algo se calar dentro dela. 
A campainha tocou. Lexie disse:
     Papai me mandou vir pra c. Ele e a mame tm que fazer alguma coisa. Cad o vov?
     Na cama - respondeu Shirley. - Ele exagerou um pouco ontem  noite.
     A festa tava tima, no tava? - perguntou a garota.
     Maravilhosa - concordou Shirley, sentindo uma tempestade se formar dentro dela.
     Depois de um tempo, Shirley j estava cansada da tagarelice da neta.
     Que tal almoar l no caf? - sugeriu. - Howard - disse, ento, aproximando-se da porta fechada do quarto -, estou levando Lexie para almoar no caf.
     Pela voz parecia que ele tinha ficado preocupado; ela estava contente. No tinha medo de Maureen. Encararia Maureen bem nos olhos...
     No caminho, porm, lhe ocorreu que Howard podia ter ligado para Maureen assim que ela saiu de casa. Como era boba... Chegou a pensar que, se tivesse ligado 
para Maureen dizendo que Howard no estava se sentindo bem, ia impedir que eles se comunicassem... Estava esquecendo...
     As ruas to conhecidas e to amadas pareciam diferentes, estranhas. Repassou os traos do retrato que exibia para aquele mundinho adorvel: esposa e me, voluntria 
do hospital, secretria do Conselho Distrital, primeira-dama do vilarejo. E Pagford sempre fora o seu espelho, refletindo naquele respeito polido o seu mrito e 
o seu valor. Mas o Fantasma tinha carimbado na superfcie cristalina da sua vida uma revelao que anularia aquilo tudo: "o seu marido dormia com a scia, e ela 
nunca desconfiou disso..."
     Era s o que iam dizer quando algum mencionasse o seu nome; era s disso que se lembrariam ao falar dela.
     Empurrou a porta do caf, a campainha tocou, e Lexie exclamou:
     Olha l, Amendoim Pricel
     Howard est bem? - grasnou Maureen.
     S um pouco cansado - respondeu Shirley, dirigindo-se a uma mesa e se sentando. O seu corao batia to depressa que ela se perguntava se no teria tambm um 
problema cardaco.
     Diga a ele que as garotas no apareceram - acrescentou Maureen, aborrecida, parada junto  sua mesa - e nem se deram o trabalho de avisar. Por sorte o movimento 
no est to grande.
     Lexie foi at o balco para conversar com Andrew, que estava trabalhando de garom. Sentada ali sozinha, consciente dessa solido pouco habitual, Shirley pensou 
em Mary Fairbrother, magra e empertigada no enterro de Barry, com a viuvez a envolvendo como o manto de uma rainha: a piedade, a admirao. Ao perder o marido, Mary 
tinha se tornado motivo, passivo e silencioso, da admirao de todos, ao passo que ela, ligada a um homem que a havia trado, tinha sido atirada  sordidez, virado 
motivo de deboche...
     (Tempos atrs, l em Yarvil, alguns homens tinham feito umas piadas grosseiras com ela por causa da reputao da sua me, muito embora ela prpria fosse a mais 
pura das criaturas.)
     -- Vov t meio doente - dizia Lexie, dirigindo-se a Andrew. - O que que tem nesses bolos?
     Ele se abaixou atrs do balco, escondendo o rosto vermelho.
Eu agarrei a sua me.
     Quase no veio trabalhar. Ficou com medo de que Howard fosse demiti-lo por ele ter beijado a sua nora, e ficou apavorado achando que Miles Mollison pudesse 
aparecer por l, procurando por ele. Ao mesmo tempo, no era to ingnuo a ponto de no saber que Samantha, que devia ter bem mais de quarenta,  que seria vista 
como a vil da histria. A sua defesa era simples: "Ela estava bbada e me atacou."
     Mas no seu constrangimento havia uma ligeira ponta de orgulho. Estava ansioso para ver Gaia, pois queria lhe contar que uma mulher adulta tinha ficado a fim 
dele. Esperava que pudessem rir juntos dessa histria, como haviam rido de Maureen, mas que, no fundo, ela ficasse impressionada; e enquanto estivessem rindo, tambm 
pudesse descobrir o que ela tinha feito com Bola; at onde os dois tinham ido. Estava disposto a perdo-la. Ela tambm estava bbada. Mas Gaia no apareceu.
     Foi buscar um guardanapo para Lexie e quase esbarrou na esposa do patro, que estava parada junto do balco, segurando a sua injeo de adrenalina.
     - Howard me pediu para verificar uma coisa - disse Shirley. - E essa seringa no devia ficar guardada aqui. Vou botar ela l nos fundos.

XII
     
     Quando j tinha comido mais da metade do chocolate, Robbie ficou com muita sede. Krystal no comprou nada para ele beber. Desceu do banco e se agachou na grama 
quentinha, de onde podia ver a irm no meio dos arbustos com aquele estranho. Pouco depois, saiu andando pela margem do rio, na direo dos dois.
     T com sede - choramingou o menino.
     Sai daqui, Robbie - gritou Krystal. - Volta l pro banco.
     Qu gua!
     Merda, Robbie... fica l no banco, daqui a pouquinho vou comprar alguma coisa pra voc beber. Sai daqui!
     Ele subiu de novo a margem escorregadia do rio, chorando. Estava acostumado a no ter o que queria, mas tambm a desobedecer, porque as regras e as broncas 
dos adultos eram absolutamente arbitrrias. Por isso, tinha aprendido a conquistar uns pequenos prazeres onde e quando pudesse.
     Como estava zangado com Krystal, afastou-se um pouco do banco e foi andando para a rua. Um homem de culos escuros veio pela calada na sua direo.
     (Gavin esqueceu onde tinha deixado o carro. Saiu s pressas da casa de Mary e desceu a Church Row. S percebeu que tinha virado para o lado errado quando chegou 
perto da casa de Miles e Samantha. Sem querer passar de novo pela casa dos Fairbrother, deu uma volta bem maior para chegar at a ponte.
     Viu o menino sujo de chocolate, malcuidado e repugnante, e passou direto. A sua felicidade estava em frangalhos, quase desejou ir at a casa de Kay para que 
ela o consolasse em silncio... Ela sempre era mais carinhosa quando ele estava triste. Alis, foi por isso que se interessou por ela no comeo.)
     O barulhinho da gua correndo s fez aumentar a sede de Robbie. Ele continuou chorando mais uns instantes, mudou de rumo e se afastou da ponte, voltando para 
o lugar onde Krystal estava escondida. Os arbustos tinham comeado a balanar. Continuou andando, querendo beber alguma coisa. De repente, percebeu um buraco na 
cerca que ficava  esquerda da rua. Chegando l, espiou pela brecha e viu um campo de futebol.
     Robbie se esgueirou pela tal brecha e ficou olhando todo aquele verde, com aquelas castanheiras altas e as traves dos gols. Sabia o que era aquilo porque o 
seu primo Dane havia lhe mostrado como chutar uma bola l no parquinho perto de casa. O menino nunca tinha visto tanto verde assim.
     Uma mulher estava atravessando o campo, de braos cruzados e cabea baixa.
     (Samantha saiu andando sem rumo. S queria andar, andar por qualquer lugar, desde que no fosse perto da Church Row. Estava se fazendo mil perguntas e tinha 
chegado a muito poucas respostas; e uma das coisas que se perguntou foi se no teria exagerado quando contou a Miles que havia escrito aquela carta idiota quando 
estava bbada, e que tinha mandado por puro despeito. Aquilo agora lhe parecia uma besteira muito grande...
     Ao erguer os olhos, avistou Robbie. Nos fins de semana, era comum as crianas passarem por aquele buraco da cerca para brincar no campo de futebol. At as suas 
filhas tinham feito isso quando eram mais novas.
     Dirigiu-se para o porto e se afastou do rio, seguindo em direo  praa. Por mais que tentasse, no conseguia se livrar da averso que sentia por si mesma.)
     Robbie passou de volta pelo buraco na cerca e por alguns instantes foi atrs daquela mulher que andava depressa, mas logo a perdeu de vista. No queria jogar 
fora o resto do chocolate que derretia na sua mo, mas estava com tanta sede... Talvez Krystal j tivesse acabado. Saiu andando, ento, na direo contrria.
     Ao se aproximar dos arbustos na margem do rio, percebeu que eles no estavam mais balanando e achou ento que podia ir at l.
     Krystal - chamou ele.
     Mas estava tudo vazio ali. Krystal tinha ido embora.
     Robbie comeou a chorar, chamando a irm aos gritos. Voltou l para cima e, desesperado, ficou olhando a rua para um lado e para o outro, mas no havia sinal 
dela.
     Krystal - gritou ele.
     Uma mulher de cabelo grisalho e curtinho, que seguia a passos rpidos pela outra calada, olhou para ele, franzindo as sobrancelhas.
     Shirley havia deixado Lexie no Copper Kettle, onde ela parecia estar contente, mas, no meio da praa, avistou Samantha, a ltima pessoa que gostaria de encontrar. 
Resolveu, ento, seguir na direo oposta.
     Apesar de estar andando depressa, continuou ouvindo o choro e os gritos do menino por um bom tempo. Ia segurando firme a seringa de adrenalina que levava no 
bolso. No ia ser motivo de brincadeiras srdidas. Queria ser pura e objeto de piedade, como Mary Fairbrother. A raiva que sentia era to grande, to perigosa, que 
Shirley no conseguia sequer pensar direito; queria agir, punir, pr um fim a tudo aquilo.
     Pouco antes de chegar  velha ponte de pedra, viu uns arbustos balanarem  sua esquerda. Deu uma olhada, e o que viu de relance foi algo repulsivo, desprezvel, 
e isso a deixou ainda mais decidida.

XIII
     
     Sukhvinder estava andando por Pagford h mais tempo que Samantha. Saiu da antiga casa paroquial logo depois que a sua me lhe disse que ela tinha que ir para 
o trabalho, e desde ento vagava pelas ruas, evitando as invisveis zonas proibidas prximas  Church Row,  Hope Street e  praa.
     Levava quase cinqenta libras no bolso, o que havia ganhado no caf e na festa, e tambm a gilete. Pensou em pegar tambm a caderneta da poupana, que ficava 
num arquivo no escritrio do seu pai, mas Vikram estava sentado na sua escrivaninha. Esperou um pouco no ponto do nibus para Yarvil, mas, quando viu Shirley e Lexie 
Mollison descendo a rua, tratou de sair dali.
     A traio de Gaia havia sido brutal e inesperada. Agarrando-se com Bola Wall... Agora que tinha Gaia, ele ia largar Krystal. Sabia perfeitamente que qualquer 
garoto largaria qualquer garota por Gaia. Mas no agentaria ir trabalhar e ficar ouvindo a sua nica aliada tentando convenc-la de que, na verdade, Bola era um 
cara legal.
     O seu celular vibrou. Gaia j tinha lhe mandado duas mensagens.
     
Eu tava mt doida ontem?
Vc vai pro trab?

     Nem uma palavra sobre Bola Wall. Nem uma palavra sobre se esfregar com o seu torturador. A nova mensagem perguntava: Vc t ok?
     Sukhvinder botou o celular no bolso novamente. Podia ir andando na direo de Yarvil e pegar o nibus j fora do vilarejo, onde ningum a veria. Os pais s 
dariam pela sua falta s cinco e meia, quando ela devia estar voltando do caf.
     Um plano desesperado foi se formando enquanto ela ia andando, cansada e com calor: se conseguisse um lugar para ficar por menos de cinqenta libras... Tudo 
o que queria era ficar sozinha e usar a gilete.
     Estava seguindo pela beira do rio; o Orr corria ao seu lado. Se atravessasse a ponte, poderia pegar a outra rua e chegar ao entroncamento da estrada.
     Robbie! Robbie! Cad voc?
     Era Krystal Weedon, correndo de um lado para o outro, na margem do rio. Bola Wall estava fumando, com uma das mos no bolso, observando Krystal.
     Sukhvinder dobrou  direita em direo  ponte, apavorada com a simples perspectiva de que um dos dois pudesse notar a sua presena. Os gritos de Krystal ecoavam 
na gua.
     Sukhvinder avistou alguma coisa um pouco mais abaixo, no rio.
     Antes mesmo de pensar no que fazia, as suas mos j estavam na pedra quente, e, dando impulso, a garota subiu na mureta da ponte.
     Ele est no rio, Krys! - gritou ela, e pulou na gua. Cortou a perna num monitor quebrado de um computador, quando a correnteza a puxou para o fundo.

XIV
     
     Ao abrir a porta do quarto, tudo o que Shirley viu foram duas camas vazias O seu plano de justia exigia um Howard adormecido; ia ter que sugeru que ele voltasse 
para a cama.
     Mas no se ouvia som algum vindo nem da cozinha, nem do banheiro. Shirley estava preocupada, achando que podia ter se desencontrado dele porque voltou para 
casa pela margem do rio. Vai ver que ele se vestiu e foi trabalhar; a essa altura podia estar com Maureen na salinha dos fundos, falando dela. Podia at estar planejando 
se divorciar dela para casar com Maureen, agora que o jogo tinha acabado e no havia mais por que fingir.
     Entrou na sala de estar quase correndo, com a inteno de ligar para o Copper Kettle. Howard estava de pijama, cado no cho. Tinha o rosto arroxeado e os olhos 
esbugalhados. Pela boca, fazia um barulho sibilante. Com uma das mos segurava o prprio peito quase sem foras. O palet do pijama tinha subido. Dava para ver perfeitamente 
o pedao de pele irritada onde ela planejava espetar a agulha.
     Os olhos de Howard encontraram os seus num apelo mudo.
     Shirley o encarou, aterrorizada, e saiu correndo da sala. A primeira coisa que fez foi esconder a seringa numa lata de biscoitos; depois a pegou de volta e 
a enfiou atrs dos livros de culinria.
     Voltou correndo para a sala, pegou o telefone e ligou para a emergncia.
     Pagford? Para o chal da margem do Orr. A ambulncia j est a caminho.
     Ah, muito obrigada, graas a Deus - disse Shirley, e estava quase desligando quando percebeu o que a mulher tinha dito e gritou: - No, no, no  o chal da 
margem do Orr...
     Mas a telefonista j tinha desligado, e ela teve que ligar novamente. Estava to apavorada que deixou cair o aparelho. No carpete, ao seu lado, aquele sibilar 
da respirao de Howard estava ficando cada vez mais fraco.
     No  o chal da margem do Orr - gritou ela. -  para o Evertree Crescent, nmero trinta e seis, em Pagford... O meu marido est tendo um ataque cardaco...

XV
     
     Na Church Row, Miles Mollison saiu correndo de casa, ainda de chinelo, e desceu a toda a ladeira ngreme at chegar  antiga casa paroquial, que ficava na esquina. 
Com a mo esquerda, comeou a esmurrar a grossa porta de carvalho, enquanto com a direita tentava digitar o nmero do celular da sua mulher.
     Sim? - disse Parminder, abrindo a porta.
 o meu pai - principiou Miles, ofegante - ...outro ataque cardaco... Mame ligou para a ambulncia... Voc pode vir? Por favor!
     Parminder j ia voltando para dentro de casa para pegar a sua maleta, mas se deteve.
     No posso - disse ela. - Estou impedida de exercer a medicina, Miles. No posso.
     Voc est brincando... Por favor... A ambulncia s vai chegar daqui a...
     No posso, Miles - repetiu ela.
     Ele deu meia-volta e saiu correndo pelo porto, que estava aberto. Logo adiante, viu Samantha atravessando o jardim de casa. Gritou o seu nome, com a voz embargada, 
e ela se virou, surpresa. A princpio, achou que aquele pnico era por sua causa.
     Papai... teve um ataque cardaco... A ambulncia est chegando... A maldita Parminder Jawanda no quis vir...
     Meu Deus - exclamou Samantha. - Ah, meu Deus.
     Entraram no carro s pressas e subiram a rua. Miles, de chinelo, Samantha, com aqueles tamancos que tinham feito vrias bolhas nos seus ps.
     Oua, Miles, uma sirene... A ambulncia j chegou...
     Mas quando entraram no Evertree Crescent, no havia nada ali, e o barulho da sirene j tinha sumido.
     Num gramado, a um quilmetro dali, Sukhvinder Jawanda vomitava a gua do rio debaixo de um salgueiro, enquanto uma senhora idosa a envolvia com umas mantas 
que j estavam quase to encharcadas quanto as roupas da garota. Ali perto, o homem que estava passeando com o cachorro e tirou Sukhvinder da gua, puxando-a pelo 
cabelo e pelo moletom, estava agachado junto a um corpo pequeno e inerte.
     Sukhvinder teve a impresso de sentir Robbie se debater quando ela o pegou, mas talvez tenha sido a correnteza cruel do rio que o puxou com fora, tentando 
arranc-lo dos seus braos. Ela era boa nadadora, mas o Orr a puxou para o fundo, arrastando-a para onde bem quis, sem que ela pudesse resistir. A gua a levou alm 
da curva mais abaixo e a empurrou para a terra. Sukhvinder conseguiu gritar. E foi ento que viu o homem com um cachorro correndo na sua direo.
     No tem jeito - disse o tal homem, que tinha passado vinte minutos tentando reanimar o corpinho de Robbie. - Ele se foi.
     Sukhvinder comeou a chorar e desabou no cho frio e mido, tremendo desesperadamente. Quando se ouviu o som da sirene, j era tarde demais.
     Enquanto isso, em Evertree Crescent, os paramdicos lutavam para deitar Howard na maca; Miles e Samantha tiveram que ajudar.
     Vamos atrs da ambulncia, voc vai com papai - gritou para Shirley, que parecia atordoada e nada disposta a entrar no veculo.
     Maureen, que acabara de despachar o ltimo cliente do Copper Kettle, estava parada na soleira da entrada.
     Quantas sirenes - disse ela, virando a cabea para trs para falar com Andrew, que estava limpando as mesas, exausto. - Deve ter acontecido alguma coisa.
     E respirou fundo, como se esperasse sentir o cheiro da tragdia no ar quente da tarde.
     
     Parte Seis
     
     Pontos fracos dos grupos de voluntrios
     
     22.23 (...) O principal ponto fraco de tais grupos  que so difceis de se constituir, propensos a se desintegrar (...).
     
     Charles Arnold-Baker 
     Administrao dos Conselhos Locais 
     7a edio
     
     
     I
     
     Muitas e muitas vezes Colin Wall imaginou a polcia batendo  sua porta. Isso finalmente aconteceu ao anoitecer de um domingo: uma mulher e um homem vieram 
 sua casa, no para prend-lo, mas procurando pelo seu filho.
     Houve um acidente fatal, e "Stuart, no  isso?" foi uma das testemunhas.
     Ele est?
     No - respondeu Tessa. - Ah, meu Deus... Robbie Weedon... Mas ele mora em Fields... Por que estava aqui?
     A policial explicou, com toda a delicadeza, o que acreditavam que tinha acontecido.
     Os adolescentes no ficaram de olho nele - foi a frase que usou.
     Tessa achou que ia desmaiar.
     Sabem onde ele est? - indagou o policial.
     No - respondeu Colin, abatido e com profundas olheiras. - Onde ele foi visto pela ltima vez?
     Quando o nosso colega chegou ao local, parece que ele... bem, parece que ele fugiu.
     Ah, meu Deus - exclamou Tessa novamente.
     Ningum atende - disse Colin com toda a calma; ele j tinha ligado para o celular de Bola. - Temos que ir procurar por ele.
     Colin passara a vida inteira se preparando para catstrofes. Estava pronto. Pegou o casaco.
     Vou tentar ligar para Arf - disse Tessa, correndo at o telefone.
     As notcias trgicas ainda no tinham chegado a Hilltop House, que ficava l no alto, isolada do vilarejo. O celular de Andrew tocou na cozinha.
     ...l? - atendeu ele, com a boca cheia de torrada.
     Andy? Aqui  Tessa Wall. Stu est com voc?
     No - respondeu ele. - Desculpa.
     Mas no lamentava que Bola no estivesse com ele.
     Uma coisa aconteceu, Andy. Stu estava na beira do rio com Krystal Weedon. Ela trouxe o irmozinho, e ele se afogou. Stu fugiu... fugiu para algum lugar. Tem 
idia de onde ele possa estar?
     No - respondeu Andrew automaticamente, porque essa era a combinao que havia entre os dois. Nunca dizer nada aos pais.
     Mas o horror do que ela tinha acabado de lhe contar se infiltrou pelo telefone como um nevoeiro pegajoso. De repente, tudo estava menos claro, menos certo. 
Tessa j ia desligar.
     Espera a, sra. Wall - disse ele. - Acho que sei... Tem um lugar l perto do rio...
     No acredito que ele esteja perto do rio agora - retrucou Tessa.
     Andrew pensou por alguns segundos e foi ficando cada vez mais convencido de que Bola estava no Pombal.
      o nico lugar que me passa pela cabea - insistiu o garoto.
     Ento, me diga onde fica...
     Tenho que levar a senhora l.
     Passo a em dez minutos - gritou ela.
     Colin j estava patrulhando as ruas de Pagford a p. Tessa pegou o seu Nissan, subiu a estrada sinuosa da colina e viu Andrew  sua espera na esquina onde normalmente 
pegava o nibus da escola. Ele foi lhe dando as indicaes, enquanto cruzavam o vilarejo. Ao crepsculo, as luzes da rua ficavam muito fracas.
     Estacionaram perto das rvores, naquele local onde Andrew geralmente deixava a bicicleta de Simon. Tessa saiu do carro e seguiu o garoto pela beira da gua, 
atnita e assustada.
     Ele no pode estar aqui - disse ela.
 mais para l - insistiu ele, apontando para a encosta escura e ngreme da colina Pargetter, que mergulhava no rio num ponto em que a margem se reduzia a uma estreita 
faixa de terra  beira da correnteza.
     Ali onde? - indagou Tessa, apavorada.
     Andrew sempre soube que, baixinha e gorducha como era, Tessa no conseguiria ir com ele.
     Vou ver se ele est l - disse Andrew. -  melhor a senhora esperar aqui.
     Mas  muito perigoso! - gritou ela, para suplantar o rudo do rio caudaloso.
     Sem prestar muita ateno ao que ela disse, Andrew comeou a andar, apoiando as mos e os ps nos lugares que j conhecia. Enquanto se esgueirava por aquela 
borda estreita, Tessa e ele tiveram a mesma idia: que Bola podia ter cado, ou pulado, no rio que corria ensurdecedor bem perto dos ps do garoto.
     Tessa ficou parada ali, na beira da gua, at no conseguir mais ver Andrew. Afastou-se, ento, tentando no chorar, pois afinal Stuart podia estar ali, e precisava 
conversar com ele com toda a calma. Pela primeira vez, pensou em Krystal. A polcia no tinha dito nada sobre a garota, e o pnico que sentiu por causa do filho 
superou qualquer outra preocupao...
Por favor, meu Deus, permita que eu encontre Stuart, pediu ela. Permita que eu encontre Stuart, por favor, meu Deus.
     Tirou ento o celular do bolso do casaco e ligou para Kay Bawden.
     No sei se voc j est sabendo - disse ela aos gritos por causa do barulho da correnteza, e lhe contou toda a histria.
     Mas eu no sou mais a assistente social deles - disse Kay.
     A alguns metros dali, Andrew chegou  entrada do Pombal. O buraco estava inteiramente s escuras; ele nunca tinha estado ali assim to tarde. Deu um impulso 
e pulou l para dentro.
     Bola? - Percebeu um movimento qualquer l no fundo. - Bola? Voc t a?
     Voc tem fogo, Arf? - disse uma voz irreconhecvel. - Deixei cair a porra dos fsforos.
     Andrew pensou em avisar Tessa, mas como ela no sabia quanto tempo demorava para se chegar ao Pombal, podia esperar mais um pouco.
     Estendeu o isqueiro. quela luz vacilante, viu que o rosto do amigo estava quase to mudado quanto a sua voz. Bola estava com os olhos vermelhos e o rosto todo 
inchado.
     A chama se apagou. A brasa do cigarro de Bola brilhava no escuro.
     Ele morreu? O irmo dela?
     Nem tinha passado pela cabea de Andrew que Bola no soubesse de nada.
     Morreu - respondeu ele, e logo acrescentou: - Acho que sim. Foi o que... o que disseram.
     Houve um momento de silncio, e ele ouviu um grito baixo, mas estridente, sado da escurido.
     Sra. Wall - gritou Andrew, espichando a cabea ao mximo para fora do buraco, pois assim o barulho do rio no deixava que ele ouvisse os soluos do amigo. - 
Sra. Wall, ele t aqui!
     
     II
     
     A policial foi muito gentil ali no pequeno chal abarrotado de coisas na margem do rio, onde a gua fria agora se espalhava por cobertores, cadeiras de chintz 
e tapetes gastos. A proprietria do lugar, uma senhora idosa, trouxe uma garrafa trmica com gua quente e uma xcara de ch fervente, que Sukhvinder no conseguiu 
segurar porque tremia como vara verde. Aos trancos e barrancos, conseguiu balbuciar umas poucas informaes: o seu nome, o de Krystal e o do menininho morto que 
estava sendo levado na ambulncia. O homem que passeava com o cachorro e que a tinha tirado do rio era praticamente surdo. Prestou depoimento aos policiais na sala 
ao lado, e Sukhvinder odiou ficar ouvindo o relato que ele fazia falando muito alto. Tinha prendido o cachorro, que gania sem parar, a uma rvore perto da janela.
     Depois a polcia telefonou para os pais dela. Quando eles chegaram, Parminder, que vinha trazendo roupas limpas para a filha, tropeou numa mesinha ao atravessar 
a sala e quebrou um dos enfeites da senhora. No minsculo banheiro, os dois viram o corte profundo e sujo na perna da garota, que sangrava e deixava manchas escuras 
no tapetinho. Vendo aquele ferimento, Parminder gritou para o marido, que estava agradecendo efusivamente a todos, e disse que tinham que levar Sukhvinder para o 
hospital.
     A garota vomitou outra vez no carro, e a me, que estava ao seu lado no banco de trs, a limpava. Durante todo o caminho, os dois no pararam de falar em voz 
alta. Vikram ficava repetindo coisas como "ela vai ter que tomar anestesia", "sem dvida alguma esse corte precisa levar pontos"; j Parminder, ali ao lado da filha, 
que tremia e ainda estava com vontade de vomitar, ficava dizendo "voc podia ter morrido, voc podia ter morrido".
     Era como se ainda estivesse debaixo d'gua, como se estivesse num lugar onde no podia respirar. Tentou interromper aquela ladainha e ser ouvida pelos pais.
     Krystal sabe que ele morreu? - perguntou ela, tremendo muito. E Parminder teve que pedir que repetisse a pergunta vrias vezes.
     No sei - respondeu ela enfim. - Voc podia ter morrido, Ris.
     No hospital, mandaram que ela se despisse novamente. Desta vez, porm, Parminder estava ao seu lado atrs das cortinas. E a garota s se deu conta do erro que 
tinha cometido quando viu a expresso horrorizada no rosto da me; mas a essa altura j era tarde demais.
     Meu Deus - exclamou Parminder, segurando o brao da filha. - Meu Deus. O que voc fez a si mesma?
     Sukhvinder no sabia o que dizer. Ento comeou a chorar e a tremer incontrolavelmente, e Vikram gritou que todo mundo, inclusive Parminder, a deixasse em paz, 
e que se apressassem, que o corte precisava ser limpo e costurado, que ela precisava de anestesia e de um raio X.
     Mais tarde, ela ficou deitada numa cama, com os pais, um de cada lado, acariciando as suas mos. Ela estava quente, meio zonza, e a perna j no doa mais. 
Do lado de fora da janela, o cu estava escuro.
     Howard Mollison teve outro ataque cardaco. - Ouviu a me dizer ao pai. - Miles queria que eu fosse at l.
     Que cara de pau! - exclamou Vikram.
     Mas, para a surpresa de Sukhvinder, os dois no falaram mais de Howard Mollison. Continuaram apenas acariciando as suas mos, at que, pouco depois, ela adormeceu.
     Do outro lado do prdio, numa salinha azul, com cadeiras de plstico e um aqurio num dos cantos, Miles e Samantha estavam sentados ao lado de Shirley, os trs 
aguardando notcias do centro cirrgico. Miles continuava de chinelos.
     No acredito que Parminder Jawanda tenha se recusado a vir - disse ele pela ensima vez, com a voz embargada. Samantha se levantou, passou por Shirley e abraou 
o marido, beijando o seu cabelo espesso, com fios grisalhos aqui e ali, e sentindo aquele cheiro familiar.
     Shirley comentou com uma voz aguda e entrecortada:
     No me espanta nada que ela no tenha vindo. No me espanta nada. Um absurdo.
     Da sua antiga vida e das suas antigas certezas, tudo o que lhe restava era a possibilidade de atacar alvos conhecidos. O choque lhe tirara praticamente tudo: 
j no sabia mais em que podia acreditar, nem em que podia depositar alguma esperana. O homem l no centro cirrgico no era aquele com quem achava que tinha se 
casado. Se pudesse voltar quele lugar feliz de segurana onde vivia antes de ler aquele post terrvel...
     Talvez devesse acabar com aquele site. Remover a rea de mensagens inteirinha. Tinha medo de que o Fantasma pudesse voltar e dizer de novo aquela coisa horrvel...
     Queria ir para casa agora mesmo e tirar o site do ar. Alm disso, assim que chegasse, poderia dar sumio  injeo de adrenalina de uma vez por todas...
Ele viu... Tenho certeza de que ele viu...
Mas, na verdade, eu nunca faria isso... No mesmo. Eu estava com raiva. Eu nunca faria isso...
     E se Howard sobrevivesse e as suas primeiras palavras fossem: "Ela saiu correndo da sala quando me viu. Ela no chamou a ambulncia imediatamente. Ela estava 
segurando uma seringa..."?
Mas ento eu vou dizer que o crebro dele tinha sido afetado, pensou Shirley, desafiadora.
     E se ele morrer...
     Ao seu lado, Samantha estava abraada a Miles. Shirley no gostava nada disso; ela  que tinha que ser o centro das atenes; era o marido dela que estava l 
em cima, lutando pela vida. Desejou ser como Mary Fairbrother, mimada e admirada, uma herona trgica. No era assim que ela tinha imaginado...
     Shirley?
     Ruth Price, com o uniforme de enfermeira, entrou correndo na sala, com uma expresso de solidariedade no rosto magro.
     Acabei de saber... No pude deixar de vir... Ah, Shirley, que horror, sinto muito.
     Ruth, querida - exclamou Shirley, se levantando e deixando que a outra a abraasse. - Quanta gentileza sua. Quanta gentileza.
     Shirley gostou de apresentar a amiga do hospital a Miles e Samantha, e receber a sua piedade e bondade na frente deles. Foi uma pequena prova do que ela tinha 
imaginado ser a viuvez...
     Mas Ruth precisava voltar ao trabalho, e Shirley se sentou novamente na sua cadeira de plstico, com aqueles pensamentos incmodos.
     Ele vai ficar bom - murmurava Samantha, dirigindo-se a Miles, que tinha apoiado a cabea no ombro da mulher. - Ele vai sair dessa. Como da outra vez.
     Shirley ficou olhando um peixinho, brilhante como neon, que ia muito rpido, de um lado para o outro dentro do aqurio. Era o passado que ela gostaria de poder 
mudar; o futuro era um vazio.
     Algum ligou para Mo? - perguntou Miles momentos depois, enxugando os olhos com o dorso de uma das mos e apertando com a outra a perna de Samantha. - Mame, 
quer que eu...
     No - interrompeu Shirley, rispidamente. - Vamos esperar... at termos alguma notcia.
     L em cima, no centro cirrgico, o corpo de Howard Mollison ultrapassava as bordas da mesa de cirurgia. O seu peito estava inteiramente aberto, exibindo as 
runas do trabalho realizado por Vikram Jawanda. Dezenove pessoas se dedicavam a consertar o estrago, enquanto as mquinas s quais Howard estava ligado continuavam 
a fazer um barulho baixo, contnuo e implacvel, confirmando que ele ainda vivia.
     E bem l embaixo, nas entranhas do hospital, o corpo de Robbie Weedon jazia branco e frio no necrotrio. Ningum tinha ido com ele at o hospital, e ningum 
tinha vindo v-lo naquela gaveta metlica.

III
     
     Andrew recusou a carona at Hilltop House. Tessa e Bola estavam, portanto, sozinhos no carro.
     No quero ir pra casa - disse Bola.
     Est bem - respondeu Tessa, e seguiu dirigindo, falando com Colin ao telefone. - Estou com ele aqui... Andy o encontrou. Daqui a pouco estamos de volta... E... 
E, vou, sim...
     As lgrimas escorriam pelo rosto de Bola; o seu corpo o estava traindo. Exatamente como daquela vez, quando ficou com tanto medo de Simon Price que fez xixi 
na cala e a urina quente escorreu pela sua perna, encharcando a sua meia. Agora o lquido quente e salgado escorria pelo seu rosto e caa no seu peito, deixando 
umas marquinhas que pareciam gotas de chuva.
     Ficava imaginando o enterro. Um caixozinho minsculo.
     Bem que no queria fazer aquilo com o menino ali to perto.
     Ser que algum dia ia se livrar do peso da morte dessa criana?
     Ento voc fugiu - disse Tessa, friamente, a despeito daquelas lgrimas.
     Tinha rezado para encontr-lo com vida, mas agora o seu sentimento mais forte era de repulsa. As lgrimas do filho no a comoviam. Estava acostumada a ver homens 
chorarem. Parte dela estava com vergonha por ele no ter, afinal, se atirado no rio.
     Krystal disse  polcia que vocs estavam juntos no meio dos arbustos. Vocs deixaram o menino sozinho, no foi?
     Bola ficou atnito. No podia acreditar na crueldade da me. Ser que ela no entendia o desespero que o devorava, o horror, a sensao de ter sido contaminado?
     Bom, espero que voc tenha engravidado essa garota - disse Tessa. - Isso lhe daria um motivo para viver.
     Sempre que dobrava uma esquina, Bola achava que ela o estava levando de volta para casa. Sempre teve mais medo de Pombinho, mas agora no via diferena alguma 
entre os seus pais. Queria sair do carro, mas ela tinha trancado as portas.
     Sem mais nem menos, ela saiu da pista e freou o carro. Agarrado s laterais do seu banco, Bola percebeu que eles estavam no acostamento prximo ao entroncamento 
que ia dar em Yarvil. Assustado, achando que a me ia mandar que ele descesse do carro, virou para ela com o rosto todo inchado.
     A sua me biolgica - principiou Tessa, olhando-o de um jeito que ele nunca tinha visto antes, sem pena ou bondade - tinha quatorze anos. Pelo que nos disseram, 
achamos que era uma garota de classe mdia, muito inteligente. Ela se recusou terminantemente a dizer quem era o seu pai. Ningum sabia se ela estava tentando proteger 
um namorado menor de idade ou se era coisa pior. Ficamos sabendo de tudo isso por garantia, no caso de voc apresentar algum distrbio mental ou fsico. No caso 
- prosseguiu ela, falando com toda a clareza, como uma professora que d nfase  parte da matria que vai cair na prova - de voc ser o resultado de um incesto.
     Bola olhou para o outro lado. Preferia mil vezes ter levado um tiro.
     Eu estava desesperada para adotar voc - acrescentou ela. - Desesperada. Mas papai estava muito doente. Ele me disse: "No posso fazer isso. Estou com medo 
de machucar o beb. Preciso melhorar antes de pensarmos em adoo. E no posso fazer isso lidando com um recm-nascido." Mas eu estava to decidida a adotar voc 
que pressionei o seu pai para que ele mentisse, dizendo s assistentes sociais que estava muito bem, e fingisse ser uma pessoa feliz e normal. Levamos ento voc 
para casa. Voc era muito pequeno, prematuro. Cinco dias depois da sua chegada, Colin saiu da cama no meio da noite sem eu perceber, foi at a garagem, enfiou uma 
mangueira no escapamento do carro e tentou se matar, porque estava convencido de que tinha sufocado voc. Ele quase morreu. Portanto, pode dizer que a culpa  minha 
- prosseguiu Tessa - se o comeo de tudo foi ruim tanto para voc quanto para o papai, e tambm pode me culpar por tudo o que aconteceu desde ento. Mas vou lhe 
dizer uma coisa, Stuart. O seu pai passou a vida toda enfrentando coisas que ele nunca fez. No espero que voc entenda a coragem que ele tem. Mas - e nesse ponto 
a voz dela finalmente falhou, e Bola ouviu a me que ele conhecia -- ele ama voc, Stuart.
     No conseguiu se impedir de acrescentar essa mentira. Hoje, pela primeira vez, teve certeza de que era mentira, e tambm de que tudo o que ela havia feito na 
vida, dizendo a si mesma que era o melhor caminho a tomar, no passou de um egosmo cego, que s provocou transtornos e confuso  sua volta. Mas quem pode suportar 
que algumas estrelas j morreram, pensou ela, piscando os olhos para o cu; quem pode suportar saber que todas elas j morreram?
     Virou a chave da ignio, engatou a marcha arranhando a caixa de cmbio e pegou a direo do entroncamento.
     No quero ir para Fields - exclamou Bola, apavorado.
     No estamos indo para Fields - disse ela. - Estou levando voc para casa.

IV
     
     A polcia conseguiu, finalmente, encontrar Krystal Weedon, que corria desamparada pela margem do rio, j nos limites do vilarejo, e continuava chamando o irmo 
com a voz rouca. A policial que se aproximou dela a chamou pelo nome, e tentou lhe dar a notcia da maneira mais delicada possvel. Mesmo assim, a garota se debateu, 
tentando afastar a mulher, que acabou levando-a quase  fora para o carro. Krystal nem percebeu quando Bola desapareceu entre as rvores; ele j no existia mais 
para ela.
     Os policiais a levaram para casa, mas, quando bateram  porta da frente, Terri se recusou a vir atender. Tinha visto o carro chegando por uma janela do andar 
de cima, e achou que a filha tivesse feito uma coisa impensvel e imperdovel: contado aos meganhas que aquelas sacolas com o haxixe de Obbo estavam l. Arrastou 
as tais sacolas l para cima, enquanto os policiais esmurravam a porta, e s veio abrir quando viu que no tinha mais jeito.
     Que que ? - gritou ela, por uma frestinha da porta.
     Por trs vezes a policial pediu para entrar, e Terri continuou recusando, perguntando insistentemente o que eles queriam. Alguns vizinhos comearam a espiar 
pelas janelas. Nem mesmo quando a policial lhe disse " sobre o seu filho, Robbie", Terri entendeu o que estava acontecendo.
     Ele t timo. No tem problema nenhum com ele. Ele t com Krystal.
     Nesse momento, porm, ela viu a filha, que se recusou a ficar dentro do carro e j estava andando pelo caminho do quintal. Os olhos de Terri desceram pelo corpo 
da garota at o ponto onde Robbie deveria estar, agarrado a ela, com medo daqueles homens estranhos.
     Saiu de casa como uma bala, com os braos esticados e as mos ossudas, abertas como garras, e a policial teve que segur-la pela cintura para afast-la de Krystal, 
cujo rosto ela tentava arranhar.
     Sua vaca! Sua vaca, que que voc fez com Robbie?
     Krystal se esquivou das duas mulheres, que praticamente lutavam, correu para dentro de casa e bateu a porta.
     Puta que pariu - murmurou o policial, bem baixinho.
     Longe dali, na Hope Street, Kay e Gaia Bawden se encaravam no corredor escuro. Nenhuma das duas era alta o bastante para trocar a lmpada que tinha queimado 
h alguns dias, e no tinham uma escada. Tinham passado o dia inteiro discutindo; quase chegavam a um acordo, mas voltavam a se desentender. Finalmente, no momento 
em que a reconciliao parecia bem prxima, com Kay dizendo que tambm detestava Pagford, que tudo aquilo tinha sido um erro e que ia tentar dar um jeito de voltarem 
para Londres, o seu celular tocou.
     O irmo de Krystal Weedon morreu afogado - disse ela, num sussurro, assim que desligou o telefone.
     Ah - exclamou Gaia. Sabendo que devia demonstrar compaixo, mas temendo que a discusso sobre Londres fosse deixada de lado antes que ela tivesse conseguido 
uma promessa mais consistente da me, a garota acrescentou com uma leve apreenso na voz: - Que triste!
     Aconteceu aqui em Pagford - disse Kay. - Perto da estrada. Krystal estava com o filho de Tessa Wall.
     Gaia ficou mais envergonhada ainda por ter deixado que Bola Wall a beijasse. Ele tinha um gosto horrvel na boca, uma mistura de cigarro e cerveja, e tentou 
se aproveitar da bebedeira dela. Sabia perfeitamente que merecia coisa melhor que Bola Wall. Se tivesse sido Andy Price, no estaria se sentindo to mal assim. Sukhvinder 
no tinha retornado as suas ligaes o dia todo.
     Ela vai desmoronar - disse Kay, com o olhar perdido.
     Mas voc no pode fazer nada, n? - retrucou Gaia.
     Bem... - principiou Kay.
     Ah, no, de novo no! - gritou Gaia. -  sempre, sempre a mesma coisa! Voc j no  mais a assistente social deles. E eu? - acrescentou ela, sempre aos berros, 
batendo o p no cho, como fazia quando era pequena.
     O policial que estava na Foley Road j tinha chamado a assistente social responsvel. Terri se debatia e berrava, tentando esmurrar a porta da frente. L de 
dentro vinha o barulho de mveis sendo arrastados para formar uma espcie de barricada. Os vizinhos j estavam chegando s portas das casas, assistindo fascinados 
ao ataque de Terri. De algum modo, o motivo daquilo tudo foi transmitido a esses espectadores pelos gritos incoerentes da mulher e pelo comportamento da polcia, 
que indicavam um mau pressgio.
     O menininho morreu - diziam uns aos outros. Ningum se aproximou para tentar acalm-la ou consol-la. Terri Weedon no tinha amigos.
     - Vem comigo? - implorou Kay  filha emburrada. - Vou at l ver se posso fazer alguma coisa. Quero saber como Krystal est. Ela no tem ningum.
     Aposto que ela tava trepando com Bola Wall quando isso aconteceu - exclamou Gaia, sempre gritando, mas este foi o seu ltimo protesto. Poucos minutos depois, 
ela estava prendendo o cinto de segurana no velho Vauxhall de Kay, feliz, apesar de tudo, porque a me tinha pedido que ela fosse junto.
     No momento em que chegavam ao entroncamento, Krystal tinha acabado de encontrar o que procurava: um saquinho com herona, escondido no armrio, do lado do aquecedor; 
era o ltimo dos dois que Obbo tinha dado a Terri em pagamento pelo relgio de Tessa Wall. A garota pegou aquele saquinho, junto com as coisas da me, e levou tudo 
para o banheiro, nico cmodo da casa que tinha tranca.
     A sua tia Cheryl deve ter ficado sabendo o que tinha acontecido, porque mesmo atravs de duas portas Krystal podia ouvir os seus gritos roucos misturados aos 
de Terri.
     - Abre essa porta, sua vaca! Deixa a sua me entrar!
     E os policiais tambm gritavam, tentando fazer as duas mulheres se calarem.
     Krystal nunca tinha se picado antes, mas j tinha visto pessoas fazendo isso inmeras vezes. Conhecia aqueles barcos compridos, sabia fazer um vulco em miniatura 
para a aula de cincias, e sabia tambm como esquentar a colher, e que era preciso usar uma bolinha de algodo para dissolver a herona e funcionar como filtro na 
hora de encher a seringa. Sabia que a dobra interna do cotovelo era o melhor lugar para se achar uma veia e sabia que a agulha tinha que ficar o mais deitada possvel 
sobre a pele. Sabia, porque tinha ouvido isso vrias vezes, que os principiantes no agentavam a mesma quantidade que os viciados podiam usar, e isso era bom, porque 
ela no estava mesmo querendo agentar.
     Robbie tinha morrido por sua culpa. Tentando salv-lo, ela o tinha matado. Vrias imagens entrecortadas lhe passavam pela cabea enquanto as suas mos tentavam 
fazer o que precisava ser feito. O sr. Fairbrother correndo pela margem do canal, com seu agasalho esportivo, acompanhando a equipe que remava. O rosto da av Cath, 
com aquela expresso feroz de dor e amor. Robbie esperando por ela, na janela da casa da famlia substituta, estranhamente limpo, pulando de felicidade ao v-la 
se aproximar da porta.
     Ouviu o policial chamando por ela pela abertura da caixa do correio, dizendo-lhe que no fizesse besteira, e a colega dele tentando acalmar Terri e Cheryl.
     A agulha entrou com facilidade na veia de Krystal. Ela pressionou o mbolo at o fundo, cheia de esperanas e sem remorso.
     Quando Kay e Gaia chegaram e a polcia resolveu arrombar a porta, Krystal Weedon j tinha alcanado a sua nica ambio: se juntar ao irmo num lugar onde ningum 
mais poderia separ-los.
     
     Parte Sete
     
     Combate  pobreza
     
     13.5 Doaes em benefcio dos pobres (...) so consideradas caridade, e uma doao para os pobres  caridade mesmo que acontea de ela vir a beneficiar os ricos 
(...).
     
     Charles Amold-Baker 
     Administrao dos Conselhos Locais 
     7a edio
     
     Quase trs semanas depois que as sirenes ecoaram pelo vilarejo sonolento, numa manh ensolarada de abril, Shirley Mollison estava sozinha no seu quarto, observando 
o prprio reflexo nas portas espelhadas do armrio embutido. Dava uma ltima ajustada no vestido antes de ir para o South West, coisa que fazia agora diariamente. 
O cinto estava mais apertado quinze dias atrs, o seu cabelo grisalho estava precisando de um corte, e a careta que fazia por causa do sol que entrava no quarto 
podia perfeitamente ser a expresso do estado de esprito em que se encontrava.
     Shirley havia passado um ano inteiro circulando pelas enfermarias do hospital, empurrando o carrinho dos livros, segurando pranchetas e flores, e nunca lhe 
passara pela cabea que poderia se tornar uma daquelas pobres mulheres encurvadas, ao lado de uma cama qualquer, com as vidas inteiramente despedaadas e os maridos 
abatidos e enfraquecidos. Howard no tinha se recuperado com a rapidez de sete anos atrs. Ainda estava ligado a vrios aparelhos que emitiam um bipe constante, 
todo encolhido, fraco, com uma cor horrorosa, completamente dependente e reclamando de tudo. s vezes ela fingia que precisava ir ao banheiro para escapar do seu 
olhar sinistro.
     Quando Miles a acompanhava ao hospital, podia deix-lo conversando com Howard, o que se limitava ao monlogo constante sobre as ltimas novidades de Pagford. 
Com o filho, alto como era, andando ao seu lado pelos corredores glidos, Shirley se sentia muito melhor, mais visvel e tambm mais protegida. Ele conversava gentilmente 
com as enfermeiras, estendia a mo para ela entrar e sair do carro e lhe devolvia aquela sensao de ser uma criatura rara, digna de cuidado e proteo. Mas Miles 
no podia vir todos os dias e, para a profunda irritao de Shirley, pedia a Samantha para lhe fazer companhia. O que no era absolutamente a mesma coisa, embora 
a nora fosse uma das poucas pessoas capazes de trazer um sorriso ao rosto arroxeado e vazio de Howard.
     Aparentemente ningum percebia como era assustador o silncio que reinava na casa. Quando os mdicos disseram  famlia que a recuperao de Howard levaria 
meses, Shirley teve esperanas de que o filho a chamasse para ficar no quarto de hspedes daquele casaro da Church Row, ou ento que ele viesse, de vez em quando, 
dormir ali no chal. Mas no: eles a deixaram sozinha, inteiramente s, a no ser por aqueles trs dias dificlimos em que teve de bancar a anfitri para Pat e Melly.
Eu nunca faria isso, repetia automaticamente para si mesma, no silncio da noite, quando no conseguia dormir. Na verdade, eu nunca faria isso... No mesmo. S estava 
com raiva. Eu nunca faria isso...
     Tinha enterrado a injeo de adrenalina de Andrew na terra macia debaixo do comedouro dos pssaros no jardim, como um pequeno cadver. Nem gostava de lembrar 
que ela estava ali. Na primeira oportunidade, numa noite escura, vspera do dia da coleta do lixo, desenterrou a seringa e a jogou na lixeira de um vizinho.
     Howard jamais falou sobre a seringa com ela nem com ningum. Tampouco lhe perguntou por que tinha sado correndo quando o viu.
     Shirley encontrava algum consolo desfiando acusaes enrgicas contra pessoas que, na sua opinio inabalvel, haviam provocado a desgraa que se abateu sobre 
a sua famlia.  claro que Parminder Jawanda era a primeira da lista, por sua recusa categrica em atender Howard. Em seguida vinham os dois adolescentes que, por 
sua irresponsabilidade abjeta, haviam desviado a ambulncia que, se no fosse assim, teria vindo buscar Howard mais cedo.
     Talvez esse argumento fosse um pouco fraco, mas era uma prazerosa maneira de denegrir Stuart Wall e Krystal Weedon, e Shirley encontrava, no seu crculo imediato, 
vrios conhecidos dispostos a lhe dar ouvidos. Alm disso, andavam dizendo que o garoto dos Wall era o Fantasma de Barry Fairbrother. Ele tinha confessado isso aos 
pais, que telefonaram pessoalmente s vtimas do filho para se desculpar. A identidade do Fantasma logo se espalhou pela comunidade, e isso, somado  notcia de 
que ele havia sido em parte responsvel pelo afogamento de uma criana de trs anos, fazia das acusaes contra Stuart tanto um dever quanto um prazer.
     Shirley era mais veemente em seus comentrios que qualquer outro. Havia uma certa ferocidade nas suas censuras, que funcionavam como um pequeno exorcismo da 
admirao e da afinidade que ela sentira pelo Fantasma, e um repdio daquele terrvel ltimo post que ningum, pelo menos at agora, admitira ter visto. Os Wall 
no haviam telefonado para Shirley pedindo desculpas, mas ela estava sempre pronta, no caso de o garoto contar aos pais, ou no caso de algum fazer algum comentrio, 
para desferir um golpe final e definitivo na reputao de Stuart.
     Ah, claro, Howard e eu ficamos sabendo disso - era o que pretendia dizer, com uma dignidade glacial -, e acredito que foi esse choque que provocou o seu ataque 
cardaco.
     Na verdade, j tinha ensaiado essa frase em voz alta, na cozinha.
     Descobrir se Stuart Wall de fato sabia alguma coisa sobre o seu marido e Maureen j no era to urgente, porque Howard estava evidentemente incapacitado de 
voltar a envergonh-la desse jeito, e talvez definitivamente; alm disso, ningum parecia estar comentando o assunto. E se o silncio que dedicava a Howard, quando 
no podia evitar ficar sozinha com ele, era marcado por um sentimento de mgoa de ambos os lados, ela agora estava mais preparada para encarar a perspectiva da sua 
invalidez prolongada e da sua ausncia no chal com mais serenidade do que imaginava ser possvel trs semanas atrs.
     A campainha soou, e Shirley correu para abrir a porta. Maureen estava parada ali, equilibrando-se em insensatos saltos altssimos, usando um vestido verde-azulado 
brilhante e vulgar.
     Entre, querida, como vai? - disse Shirley. - Vou pegar a minha bolsa.
     Era melhor ir ao hospital at com Maureen do que sozinha. Maureen
     no parecia se incomodar com a mudez de Howard. Falava e falava com aquele seu grasnido, e Shirley podia ficar sentada ali, em paz, envergando o seu sorrisinho 
meigo, e relaxar. De todo modo, como tinha assumido temporariamente o controle da parte de Howard nos negcios, Shirley vinha encontrando inmeras maneiras de dissipar 
as suas suspeitas mais persistentes, dando vrias bofetadas simblicas em Maureen, ao discordar de qualquer deciso que ela tomasse.
     Sabe o que est acontecendo l no fim da rua? - perguntou a viva de Ken. - L na Igreja de So Miguel? O enterro de Robbie e Krystal Weedon.
     Aqui? - retrucou Shirley, horrorizada.
     Dizem que as pessoas se cotizaram - prosseguiu Maureen, transbordando de fofocas que Shirley desconhecia porque vivia agora nesse vaivm entre a casa e o hospital. 
- No me pergunte quem. Mas eu no imaginava que a famlia fosse querer fazer o enterro assim to perto do rio, no  mesmo?
     (O menininho meio sujo e que dizia muito palavro, cuja existncia poucos conheciam e por quem s a me e a irm tinham algum afeto especial, havia sofrido 
tamanha transformao no imaginrio coletivo de Pagford depois de se afogar que agora, por todo lado, falava-se dele como o beb da gua, um querubim, um anjinho 
puro e delicado que todos ali teriam abraado com amor e compaixo, se ao menos tivessem conseguido salv-lo.
     Mas a agulha e a chama no exerceram nenhum efeito transformador sobre a reputao de Krystal; pelo contrrio, ela ficou definitivamente gravada na mente da 
velha Pagford como uma criatura desalmada, cuja busca por aquilo que os mais velhos gostavam de chamar de prazeres da carne havia provocado a morte de uma criana 
inocente.)
     Shirley estava vestindo o casaco.
     O incrvel  que eu os vi naquele dia - disse ela, enrubescendo ligeiramente. - O menininho berrando perto de uns arbustos, e Krystal Weedon e Stuart Wall num 
outro...
     Voc viu? E eles estavam mesmo...? - perguntou Maureen, vida.
     Ah, sim... - respondeu Shirley. - Em plena luz do dia. A cu aberto. E o menino estava pertinho do rio quando eu o vi. Mais uns passos, e ele j estaria l 
dentro.
     Algo no rosto de Maureen a perturbou.
     Eu estava com muita pressa - disse Shirley, em tom spero -, porque Howard tinha dito que estava se sentindo mal e fiquei muito preocupada. No queria nem sair 
de casa, mas Miles e Samantha mandaram Lexie para c... Sinceramente, acho que eles tinham brigado... E Lexie quis ir ao caf... Eu no estava com cabea para nada, 
tudo que conseguia pensar era: Tenho que voltar para ficar perto de Howard... S me dei conta de que os tinha visto bem mais tarde... E o mais assustador - prosseguiu 
Shirley, mais vermelha do que nunca, retomando o seu refro favorito -  que, se Krystal Weedon no tivesse deixado aquela criana sozinha enquanto estava se divertido 
l nos arbustos, a ambulncia teria chegado muito mais depressa para atender Howard. Porque, voc sabe, com dois chamados quase simultneos para Pagford, as coisas 
ficaram um pouco confusas...
 claro - disse Maureen, interrompendo-a, quando se dirigiam para o carro, afinal j ouvira tudo aquilo antes. - Sabe, no consigo imaginar por que o funeral est 
sendo aqui em Pagford...
     Adoraria propor que passassem pela igreja a caminho do hospital. Estava doida para ver como era essa tal famlia Weedon, e quem sabe at dar uma olhada naquela 
me viciada e degenerada, mas no conseguia achar um jeito de pedir isso.
     Sabe, Shirley, tem uma coisa boa nisso tudo - acrescentou ela, enquanto j estavam entrando no entroncamento. - Essa histria de Fields est definitivamente 
encerrada. Isso deve ser um consolo para Howard. Mesmo que ele no possa comparecer s reunies do Conselho por uns tempos, conseguiu o que pretendia.
     
     Andrew Price descia a toda a ladeira ngreme que levava a Hilltop House, com o sol quente batendo nas suas costas e o vento agitando o seu cabelo. O olho roxo 
que conseguira h uma semana estava agora de um tom amarelo-esverdeado, com uma aparncia, se  que isso  possvel, bem pior do que quando ele apareceu na escola 
com o olho todo fechado. Disse aos professores que lhe perguntaram o que tinha acontecido que havia cado da bicicleta.
     Estavam no recesso da Pscoa, e Gaia tinha lhe mandado uma mensagem de texto na vspera perguntando se ele ia ao enterro de Krystal no dia seguinte. Respondeu 
imediatamente que "sim" e agora, depois de muita indeciso, estava usando o seu melhor jeans e uma camisa cinza-escuro, porque no tinha terno.
     No sabia ao certo por que Gaia ia ao funeral, a menos que fosse para acompanhar Sukhvinder Jawanda, de quem ela parecia gostar mais do que nunca, agora que 
ia voltar para Londres com a me.
     Mame disse que nunca devia ter vindo pra Pagford - declarou Gaia, toda feliz, a Andrew e Sukhvinder, quando os trs estavam sentados na mureta ao lado da loja 
de convenincia na hora do almoo. - Ela sabe que o Gavin  o maior babaca.
     Deu a Andrew o nmero do seu celular e disse que os dois iam sair juntos quando ela fosse a Reading ver o pai, e at falou, como quem no quer nada, sobre a 
possibilidade de lev-lo para conhecer os seus lugares preferidos em Londres, se ele aparecesse por l. Ela estava distribuindo agrados a todos  sua volta, como 
um soldado prestes a voltar para casa, e as suas promessas, feitas de um jeito to descontrado, tornaram a perspectiva da sua prpria mudana mais atraente. Andrew 
recebeu a notcia de que os pais j tinham uma oferta por Hilltop House com um misto de empolgao e tristeza.
     A curva acentuada para a Church Row, que sempre o animava, hoje s o deixou mais triste. Viu gente caminhando pelo cemitrio e ficou se perguntando como seria 
aquele enterro. Pela primeira vez naquela manh, pensou em Krystal Weedon de uma forma mais concreta.
     Uma lembrana, h tempos enterrada nos recantos mais profundos da sua mente, veio  tona: aquele dia em que, no ptio da St. Thomas, Bola, pretendendo fazer 
uma investigao desinteressada, lhe deu um amendoim escondido num marshmallow... Ainda hoje podia sentir a garganta ardendo e se fechando inexoravelmente. Lembrava 
que tentou gritar, que suas pernas ficaram fracas e que todas as crianas ao seu redor ficaram s olhando, impassveis, estranhamente curiosas. Mas de repente ele 
ouviu o grito rouco de Krystal Weedon: "Andy Price t tendo uma ao alrgica!"
     Ela correu com aquelas pernas pequenas e fortes at a sala dos professores, e a diretora pegou Andrew e o levou s pressas  clnica que ficava nas redondezas, 
e l o dr. Crawford lhe aplicou uma injeo de adrenalina. Ela foi a nica que se lembrou do que a professora havia dito na aula, explicando aos alunos que Andrew 
tinha um problema de sade que poderia pr em risco a sua vida; ela foi a nica que reconheceu os seus sintomas.
     Krystal devia ter ganhado uma medalha de honra ao mrito, e talvez at um certificado de Aluna da Semana, mas, no dia seguinte (e Andrew se lembrava disso de 
forma to ntida quanto se lembrava da prpria crise), ela deu um soco to forte na boca de Lexie Mollison que arrancou dois dentes da menina.
     Com todo o cuidado, entrou com a bicicleta de Simon na garagem dos Wall e depois tocou a campainha com uma relutncia que nunca tinha sentido antes. Tessa Wall 
abriu a porta, usando o seu melhor casaco cinza. Andrew estava chateado com ela. Por causa dela ficou com aquele olho roxo.
     - Entre, Andy - disse Tessa, e o seu rosto estava tenso. - S um minutinho.
     Ele ficou esperando no corredor, onde o vitral da porta projetava no cho formas multicoloridas. Tessa foi at a cozinha, e Andrew avistou Bola, com o seu terno 
preto. O garoto estava todo encolhido numa cadeira, parecendo um bicho acuado, e tinha um dos braos erguido  frente da cabea, como se estivesse se defendendo 
de uma surra.
     Andrew virou de costas. Os dois no tinham voltado a se falar desde que ele levou Tessa at o Pombal. H quinze dias Bola no ia  aula. Andrew lhe mandou uma 
ou duas mensagens de texto, mas ele no respondeu. A sua pgina do Facebook estava exatamente igual desde o dia da festa de aniversrio de Howard.
     H uma semana, Tessa telefonou para os Price dizendo-lhes que Bola tinha confessado que havia postado as mensagens sob o pseudnimo O_ Fantasma_de_Barry_Fairbrother, 
e pediu mil desculpas por todos os problemas que aquilo lhes causou.
     Como  que ele sabia que eu tinha aquele computador? - vociferou Simon, avanando na direo de Andrew. - Como a porra do Bola Wall podia saber que eu fazia 
trabalhos depois do expediente l na grfica?
     O nico consolo de Andrew era que, se o pai soubesse a verdade, ignoraria os protestos de Ruth e continuaria a esmurr-lo at ele perder a conscincia.
     Andrew no sabia por que Bola tinha decidido fingir que era o autor de todos aqueles posts. Talvez por causa do seu eterno ego, da sua determinao em ser o 
crebro por trs de tudo, o mais destrutivo, o mais cruel de todos. Ou talvez ele tenha pensado que estava tendo uma atitude nobre, assumindo a culpa por eles dois. 
De um jeito ou de outro, Bola tinha causado muito mais problemas do que imaginava; ele nunca soube exatamente, pensou Andrew, esperando ali no corredor, o que era 
viver com um pai como Simon Price, pois estava em segurana naquele quarto do sto, com pais sensatos e civilizados.
     Dava para ouvir que o casal Wall conversava em voz baixa, j que no tinham fechado a porta da cozinha.
     Temos que sair agora - dizia Tessa. - Ele tem obrigao moral de ir, e vai.
     Ele j foi bem castigado - retrucou a voz de Pombinho.
     No estou pedindo para ele ir como...
     No? - perguntou Pombinho, em tom rspido. - Pelo amor de Deus, Tessa. Acha que querem ele por l? Voc vai. Stu pode ficar aqui comigo.
     Um minuto depois, Tessa saiu da cozinha, puxando a porta com fora.
     Stu no vai, Andy - disse Tessa, e o garoto percebeu que ela estava furiosa. - Sinto muito.
     Nenhum problema - murmurou ele. Na verdade, ficou contente com a notcia. No achava que eles ainda tivessem o que dizer um ao outro. E assim ele poderia sentar 
perto de Gaia.
     
     Um pouco mais abaixo na Church Row, Samantha Mollison estava na janela da sala de estar, com um caf na mo, olhando as pessoas passando na direo da Igreja 
de So Miguel e Todos os Santos. Quando viu Tessa Wall e um garoto ao seu lado, que achou que fosse Bola, ela quase engasgou.
     Ah, meu Deus, ele est indo ao enterro - disse em voz alta, falando sozinha.
     Ento reconheceu Andrew, ficou vermelha e saiu da janela rapidamente.
     Samantha havia ficado trabalhando em casa, o notebook estava aberto em cima do sof. Mas, de manh, ela tinha colocado um velho vestido preto, se perguntando 
se devia ou no ir ao enterro de Krystal e Robbie Weedon. Achava que tinha poucos minutos para se decidir.
     Nunca tinha dito uma palavra gentil sobre Krystal Weedon. No seria ento meio hipcrita ir ao enterro, s porque tinha chorado ao ler a notcia da sua morte 
na Gazeta de Yarvil e Adjacncias, e porque o rosto bochechudo da garota aparecia sorrindo em todas as fotos da turma de Lexie na St. Thomas?
     Deixou o caf sobre a mesa, correu para o telefone e ligou para Miles, que estava no escritrio.
     Oi, meu bem - disse ele.
     (Ela esteve sempre ao seu lado enquanto ele chorava de alvio ao lado do leito do hospital, onde Howard estava deitado, ligado a vrios aparelhos, mas ainda 
vivo.)
     Oi - disse ela. - Tudo bem?
     Tudo. A manh foi bem difcil. Que bom que voc ligou - acrescentou Miles. - Est tudo bem?
     (Tinham feito amor na noite passada, e ela no fingiu que o marido era outra pessoa.)
     O enterro vai comear - respondeu Samantha. - As pessoas esto passando...
     Vinha guardando o que queria dizer havia quase trs semanas, porque Howard estava no hospital, e no queria que Miles se lembrasse da briga terrvel que tiveram. 
Mas j no estava agentando mais.
     ...Miles, eu vi esse menino. Robbie Weedon. Vi, sim. - Samantha parecia em pnico, falava em tom de splica. - Ele estava no campo de futebol da St. Thomas 
quando passei por l naquela manh.
     No campo de futebol?
     Pelo visto ele ficou vagando, enquanto os dois estavam... Ele estava sozinho - acrescentou ela, lembrando-se do menino sujo e mal-cuidado. Vinha se perguntando 
se teria ficado mais preocupada se a criana fosse mais limpinha, se de alguma forma inconsciente no teria confundido aqueles sinais evidentes de negligncia com 
a desenvoltura, a dureza e a capacidade de se virar sozinho. - Achei que ele tinha ido brincar ali, mas no havia ningum com ele. Robbie Weedon tinha apenas trs 
anos e meio, Miles. Por que no perguntei a ele com quem estava?
     Ei, ei - exclamou Miles, num tom que significava alguma coisa como "espere a, no  bem assim", e ela sentiu um alvio imediato: Miles estava cuidando dela, 
e os seus olhos se encheram de lgrimas. - Voc no tem culpa de nada. Como poderia saber? Deve ter achado que a me dele estava ali por perto, em algum lugar.
     (Quer dizer que ele no a odiava; no achava que ela era m. Nos ltimos tempos, vinha se comovendo com a capacidade que o marido tinha de perdoar.)
     No sei, no - retrucou ela, sem foras. - Quem sabe se eu tivesse falado com ele, Miles...
     Ele nem estava perto do rio quando voc o viu.
Mas estava perto da rua, pensou Samantha.
     Nas ltimas trs semanas, um desejo de se dedicar a algo maior do que ela mesma vinha crescendo dentro dela. Dia aps dia, ficava esperando que aquela nova 
necessidade to estranha passasse ( assim que as pessoas se tornam religiosas, pensou Samantha, tentando rir de si mesma), mas, na verdade, ela parecia at ter 
se intensificado.
     Miles - principiou ela -, o Conselho... Com o seu pai... E ainda por cima com a renncia de Parminder Jawanda... Vocs vo ter que indicar dois nomes, no vo? 
- Conhecia perfeitamente aquele jargo; h anos que ouvia conversas sobre o assunto. - Quer dizer, no vo querer convocar mais uma eleio, a essa altura dos acontecimentos, 
no ?
     De jeito nenhum.
     Acho que Colin Wall podia ser um deles - disse ela, num mpeto -, e andei pensando... e agora s com a loja on-line, tenho mais tempo... Eu talvez pudesse ser 
o outro.
     Voc? - perguntou Miles, perplexo.
     Gostaria de participar mais - replicou Samantha.
     Krystal Weedon morreu aos dezesseis anos, trancada no banheiro daquela casa pequena e imunda na Foley Road... Samantha no tinha bebido nem uma taa de vinho 
nas ltimas duas semanas. Achava que talvez fosse bom conhecer os argumentos em defesa da Clnica de Reabilitao Bellchapel.
     O telefone estava tocando no nmero dez da Hope Street. Kay e Gaia j estavam atrasadas para o enterro de Krystal. Quando a garota perguntou quem estava falando, 
o seu rosto adorvel se endureceu: ela parecia muito mais velha.
      Gavin - disse, dirigindo-se  me.
     Eu no liguei para ele - sussurrou Kay, pegando o telefone nervosa como uma garota de escola.
     Oi - disse Gavin. - Como  que voc est?
     Indo para o enterro - respondeu Kay, olhando fixo para a filha. - De Krystal e Robbie Weedon. Como pode imaginar, no estou l muito bem.
     Ah - exclamou Gavin. - Meu Deus,  verdade, me desculpe. Tinha me esquecido.
     Teve a impresso de reconhecer aquele sobrenome na manchete da Gazeta de Yarvil e Adjacncias e acabou afinal comprando um exemplar, com certa curiosidade. 
Achou que devia ter passado bem perto do lugar onde estavam os adolescentes e o menino, mas no se lembrava efetivamente de ter visto Robbie Weedon.
     As ltimas semanas foram bem estranhas. Andava sentindo muita falta de Barry. No estava entendendo mais nada: quando devia estar mergulhado na tristeza porque 
Mary o tinha dispensado, tudo o que queria era tomar uma cerveja com o homem cuja mulher ele quis ter para si.
     (Quando saiu da casa dela naquele dia, disse a si mesmo: "Est vendo,  nisso que d querer roubar a vida do seu melhor amigo", e nem reparou que tinha cometido 
um ato falho.)
     Olhe - disse ele -, ser que voc no gostaria de ir beber alguma coisa mais tarde?
     Kay quase caiu na gargalhada.
     Ela no quis saber de voc, no foi?
     E deu o telefone para Gaia desligar. Saram de casa s pressas e seguiram para a praa quase correndo. Por alguns instantes, quando estavam passando na frente 
do Black Canon, Gaia segurou a mo da me.
     Chegaram no momento em que os carros fnebres despontavam no alto da rua, e se apressaram em entrar no cemitrio enquanto os caixes vinham sendo transportados 
pela calada.
     (- Saia dessa janela, Stu - ordenou Colin Wall.
     Mas Bola, que vinha tendo que conviver com a conscincia da prpria covardia, se debruou ainda mais, tentando provar que era capaz de agentar ao menos aquilo...
     Os caixes passaram naqueles carros grandes, de janelas pretas: o primeiro era rosa-choque, e ao v-lo o garoto perdeu o flego; e o segundo, minsculo, de 
um branco brilhante...
     Colin ficou na frente do filho para proteg-lo daquela viso, mas era tarde demais. Mesmo assim, resolveu fechar as cortinas. Na penumbra daquela sala de estar, 
onde o garoto confessou que tinha exposto a fraqueza do pai para todos; onde fez essa confisso na esperana de ser considerado por eles louco e doente; onde tentou 
assumir o mximo de culpa possvel para que eles acabassem por espanc-lo, xing-lo ou fazer com ele tudo aquilo que tinha conscincia de merecer, Colin ps a mo 
nas costas do filho com todo o carinho e o afastou da janela, levando-o para a cozinha ensolarada.)
     Na frente da So Miguel e Todos os Santos, as pessoas que carregariam os caixes estavam se preparando para atravessar o ptio. Dane Tully era uma delas, com 
os seus brincos, a tatuagem de teia de aranha que ele prprio tinha feito no pescoo, e usando um sobretudo preto e pesado.
     Os Jawanda esperaram com Kay e Gaia Bawden  sombra do teixo. Andrew Price circulava ali por perto, e Tessa Wall ficou um pouco mais afastada, com o rosto plido 
e impassvel. As outras pessoas reunidas formavam um grupo  parte junto das portas da igreja. Algumas delas tinham um ar atrevido, desafiador; outras pareciam resignadas 
e abatidas; outras ainda usavam roupas pretas baratas, mas a maioria estava de jeans ou agasalhos de moletom; uma garota estava com uma camiseta cortada e um piercing 
no umbigo, que refletia a luz do sol quando ela se mexia. Os caixes vieram entrando pelo ptio, reluzindo ao sol da manh.
     Foi Sukhvinder Jawanda que escolheu o caixo rosa para Krystal, porque tinha certeza de que ela teria adorado. Alis, foi Sukhvinder que fez quase tudo: organizou, 
escolheu, persuadiu. Parminder ficou olhando a filha disfaradamente, procurando pretextos para tocar nela: afastar os cabelos que lhe caam nos olhos, ajeitar a 
gola do casaco.
     Assim como Robbie saiu das guas do rio purificado e redimido aos olhos de Pagford, Sukhvinder Jawanda, que havia arriscado a vida tentando salvar o menino, 
tornou-se uma herona. Graas ao artigo publicado sobre ela na Gazeta de Yarvil e Adjacncias,  declarao pblica de Maureen Lowe indicando o nome da garota para 
receber o prmio especial da polcia, alm do discurso que a diretora fez para toda a escola reunida, Sukhvinder soube, pela primeira vez na vida, o que era ofuscar 
os seus irmos.
     E odiou cada minuto de tudo isso.  noite voltava a sentir nos braos o peso do corpo do menino, arrastando-a para o fundo do rio; lembrava-se da tentao que 
sentiu de solt-lo e poder se salvar, e se perguntava por quanto tempo teria resistido. A cicatriz na sua perna coava e doa, se se mexesse ou ficasse parada. A 
notcia da morte de Krystal Weedon a deixou to abalada que os seus pais decidiram lev-la a um terapeuta. Sukhvinder, porm, nunca mais voltou a se cortar desde 
que foi resgatada do rio; o afogamento iminente parecia ter expurgado aquela necessidade.
     Ento, no primeiro dia de volta s aulas depois de tudo o que aconteceu, com Bola Wall ainda ausente e com todos aqueles olhares de admirao que a acompanhavam 
pelos corredores, a garota ouviu dizer que Terri Weedon no tinha dinheiro para enterrar os filhos, que as sepulturas no teriam lpide e que os caixes seriam os 
mais baratos possveis.
 muito triste mesmo, Ris - concordou Parminder naquela noite, quando a famlia estava reunida, jantando, diante da parede coberta de fotos. O tom da sua voz foi 
to delicado quanto o daquela policial; agora no havia mais vestgio de rispidez quando Parminder falava com a filha.
     Quero tentar convencer as pessoas a dar dinheiro - disse Sukhvinder.
     Parminder e Vikram se entreolharam, sentados  mesa da cozinha.
     Ambos se opunham  idia de sair pelo vilarejo pedindo doaes aos moradores para uma causa dessas, mas nenhum dos dois disse nada. Agora que tinham visto os 
braos da filha, temiam aborrec-la, e a sombra do tal terapeuta ainda desconhecido parecia pairar sobre o convvio daquela famlia.
 - acrescentou Sukhvinder, com uma energia febril, que lembrava at a da prpria Parminder - acho que o enterro deveria ser aqui na Igreja de So Miguel. Como o 
do sr. Fairbrother. Krys sempre participava das cerimnias religiosas aqui, quando estvamos na St. Thomas. Aposto que nunca entrou em outra igreja na vida.
     A luz de Deus brilha em todas as almas, pensou Parminder e, para surpresa de Vikram, rapidamente aceitou.
     - Claro. Vamos ver o que podemos fazer.
     A maior parte das despesas foi paga pelos Jawanda e pelos Wall, mas Kay Bawden, Samantha Mollison e algumas das mes das integrantes da equipe de remo tambm 
contriburam. Sukhvinder ento fez questo de ir pessoalmente a Fields para dizer a Terri o que tinha feito e por qu; contou tudo sobre a equipe de remo e explicou 
por que o enterro de Krystal e Robbie devia ser na Igreja de So Miguel.
     Parminder ficou particularmente preocupada, o que no era do seu feitio, com a idia de Sukhvinder ir sozinha a Fields e ainda por cima naquela casa deplorvel, 
mas a garota tinha certeza de que ia dar tudo certo. Os Weedon e os Tully sabiam que ela tinha tentado salvar a vida de Robbie. Dane Tully at parou de grunhir para 
ela na aula de ingls e mandou os amigos pararem tambm.
     Terri concordou com tudo o que Sukhvinder sugeriu. Estava muito magra, suja, inteiramente passiva, falando apenas por monosslabos. E a garota ficou assustada 
com a aparncia daquela mulher com os braos cheios de marcas e a boca desdentada; parecia que falava com um cadver.
     Dentro da igreja, a diviso foi ntida: os moradores de Fields ficaram nos bancos  esquerda, e os de Pagford,  direita. Shane e Cheryl Tully entraram junto 
com Terri e a levaram at o primeiro banco. Com um casaco que tinha o dobro do seu tamanho, a mulher mal parecia se dar conta de onde estava.
     Um ao lado do outro, os dois caixes foram depositados em mesas diante do altar. Em cima do de Krystal havia um remo todo feito de crisntemos alaranjados; 
sobre o de Robbie, um ursinho de crisntemos brancos.
     Kay Bawden se lembrou do quarto de Robbie, com aqueles poucos brinquedinhos vagabundos de plstico, e as suas mos tremeram segurando o folheto do servio fnebre. 
Com toda a certeza ia haver um inqurito, porque o jornal local vinha fazendo uma campanha nesse sentido. Chegou a publicar uma matria de capa sugerindo que o menino 
tinha sido deixado sob os cuidados de duas viciadas e que a sua morte poderia ter sido evitada, se no fosse pela negligncia das assistentes sociais, que deveriam 
ter removido a criana para um lugar mais seguro. Mattie entrou de licena novamente, sob alegao de estresse, e a reavaliao do caso comandada por Kay estava 
sendo investigada. Ela se perguntava se isso pioraria ainda mais as suas chances de conseguir trabalho em Londres, j que todos os governos locais estavam reduzindo 
os seus quadros de assistentes sociais. E qual seria a reao de Gaia se tivessem que ficar em Pagford...? Ainda no tinha tido coragem de conversar sobre isso com 
a filha.
     Andrew olhou de relance para Gaia, e trocaram sorrisos tmidos. L em Hilltop House, Ruth j estava arrumando as coisas para a mudana. Andrew podia jurar que, 
com aquele seu jeito eternamente otimista, a me estava cheia de esperanas, achando que, ao se sacrificar abrindo mo daquela casa e da beleza das colinas, a sua 
famlia seria recompensada com um verdadeiro renascimento. Definitivamente presa a uma imagem de Simon que no levava em conta os seus acessos de fria e as falcatruas, 
esperava que tudo aquilo ficasse para trs, como caixas esquecidas na mudana... Mas, pelo menos, pensava Andrew, quando fossem para Reading, ele ficaria mais perto 
de Londres. Gaia tinha lhe garantido que estava to bbada que nem percebeu o que estava fazendo com Bola... Quem sabe ela no ia convidar ele e Sukhvinder para 
irem  sua casa, depois do enterro, para comer alguma coisa...
     Gaia, que nunca tinha estado na Igreja de So Miguel, ouvia distraidamente a ladainha do padre, deixando os olhos vagarem por aquele teto alto e estrelado e 
pelos vitrais coloridos e brilhantes. Havia coisas bonitas ali em Pagford. E agora que sabia que ia embora, estava achando que talvez fosse at sentir saudade...
     Tessa Wall resolveu se sentar mais atrs, sozinha. Isso a deixou exatamente sob o olhar tranqilo de so Miguel, que tinha o p eternamente pousado naquele 
demnio de chifres e rabo, que se contorcia. Estava chorando desde que avistou os dois caixes brilhantes, e por mais que tentasse se conter, todos os que estavam 
por perto podiam ouvida soluando baixinho. Temia que algum da famlia Weedon pudesse identific-la como a me de Bola e viesse lhe fazer acusaes, mas nada disso 
aconteceu.
     (A sua vida familiar estava de cabea para baixo. Colin andava furioso com ela.
- O que voc disse a Stu?
     Ele queria um gostiuho da vida real - respondeu ela, chorando -, queria ver como era o lado srdido da vida... Ser que voc no percebe o que isso tudo significa?
     E ento voc resolveu lhe dizer que ele pode ser fruto de um incesto e que eu tentei me matar quando ns o adotamos?
     Tessa passou anos tentando reconcili-los, mas foi a morte de uma criana e o profundo conhecimento que Colin tinha do que era sentir culpa que conseguiram 
fazer isso. Na noite anterior, ouviu os dois conversando l no quarto de Bola e parou ao p da escada para saber do que estavam falando.
     ...voc pode tirar da cabea essa histria que a mame lhe contou - dizia Colin, em tom aborrecido. - Voc no tem nenhuma anomalia mental nem fsica, no  
mesmo? Ento... pare de se preocupar. O terapeuta vai ajud-lo com tudo isso...)
     Tessa chorava e assoava o nariz no leno j encharcado, pensando que no tinha feito nada por Krystal, encontrada morta no cho do banheiro... Ficaria aliviada 
se so Miguel descesse do seu vitral reluzente e viesse julg-los a todos, decretando exatamente qual era a sua parcela de culpa naquelas mortes, naquelas vidas 
destrudas, naquele caos... Um dos filhos dos Tully, um menino irrequieto, l do outro lado do corredor, pulou do banco em que estava, e o brao forte e tatuado 
de uma mulher o pegou, puxando-o de volta. O choro de Tessa foi interrompido por uma espcie de exclamao de surpresa. Tinha certeza de ter visto o relgio que 
havia perdido no pulso grosso daquela mulher.
     Sukhvinder, que estava ouvindo Tessa chorar, ficou com pena dela, mas no teve coragem de se virar. Parminder estava com dio de Tessa. No houve como explicar 
 me sobre as cicatrizes no brao sem falar de Bola Wall. A garota implorou que ela no ligasse para os Wall, mas ento Tessa ligou para Parminder, dizendo que 
Bola tinha assumido a culpa pelos posts com o pseudnimo O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother no site do Conselho. A mdica ficou to furiosa que as duas no voltaram 
a se falar depois disso.
     Sukhvinder achou to estranho Bola assumir a culpa pela mensagem que ela prpria tinha postado... Considerou aquilo quase como um pedido de desculpas. Sempre 
teve a impresso de que o garoto lia os seus pensamentos: ser que ele sabia que ela tinha atacado a prpria me? Sukhvinder se perguntava se seria capaz de dizer 
a verdade ao terapeuta, em quem os seus pais pareciam confiar tanto, e se algum dia conseguiria contar tudo a essa Parminder agora to amvel e arrependida...
     Tentava acompanhar o servio fnebre, mas nada daquilo a estava ajudando como tinha esperado. Ficou contente com o ursinho e o remo de crisntemos que a me 
de Lauren tinha feito; ficou contente por Gaia e Andy terem vindo, e tambm as garotas da equipe de remo, mas adoraria que as gmeas Fairbrother no tivessem se 
recusado a comparecer.
     (- Mame vai ficar chateada - disse-lhe Siobhan. - Sabe, ela acha que o papai se dedicava demais a Krystal.
     Ah... - exclamou Sukhvinder, espantada.
     E, ainda por cima - acrescentou Niamh -, mame no gostou nada da idia de ser obrigada a ver o tmulo de Krystal sempre que a gente for visitar o do papai. 
Os dois provavelmente vo ficar bem, um perto do outro.
     Sukhvinder achou que esses motivos eram mesquinhos e cruis, mas parecia at um sacrilgio usar esses termos com relao  sra. Fairbrother. As gmeas se afastaram, 
abraadas sempre como andavam. Nos ltimos tempos, tratavam Sukhvinder friamente por ela ter se bandeado para o lado daquela forasteira, Gaia Bawden.)
     Sukhvinder esperou que algum se levantasse para dizer quem era realmente Krystal Weedon e o que ela tinha feito na vida, como o tio de Niamh e Siobhan tinha 
feito no funeral do sr. Fairbrother, mas a no ser pela breve meno s "vidas tragicamente ceifadas to cedo" e  "famlia da nossa comunidade, com razes profundas 
em Pagford", o padre parecia determinado a pular os fatos.
     Sukhvinder, ento, voltou os seus pensamentos para aquele dia em que elas tinham disputado a final regional. O sr. Fairbrother levou a equipe toda de micro-nibus 
para enfrentar as garotas da St. Anne. O canal atravessava o terreno do colgio particular, e ficou decidido que elas iam se trocar no ginsio de esportes da St. 
Anne e que a regata comearia l.
     Isso  conduta antiesportiva - disse o sr. Fairbrother durante o trajeto. - Elas vo ter a vantagem de competir em casa. Tentei mudar isso, mas eles no aceitaram. 
No se deixem intimidar, certo?
     T nem a pra por...
     Krys...
     T nem a pra vantagem delas.
     Mas, quando chegaram l, Sukhvinder ficou com medo. Aquele gramado imenso, verdinho e bem-cuidado, e aquele prdio grande, todo de pedra clara, com torrees 
e milhares de janelas: nunca tinha visto nada assim, a no ser em cartes-postais.
 igual ao Palcio de Buckingham! - gritou Lauren, l de trs do nibus. Krystal estava de boca aberta; s vezes ela era espontnea como uma criana.
     Onde quer que elas fossem competir, os pais de todas as garotas e a bisav de Krystal ficavam esperando na linha de chegada. Sukhvinder tinha certeza de que 
no era a nica a se sentir pequena, assustada, inferior, quando se aproximaram dos portes daquele prdio lindo.
     Uma mulher com uma toga acadmica veio cumprimentar o sr. Fair- brother, que estava com o seu indefectvel agasalho de moletom.
     Voc deve ser a Winterdown!
     Claro que no, porra! Ele tem cara de prdio por acaso? - exclamou Krystal bem alto.
     Era bvio que a professora da St. Anne tinha ouvido aquilo, e o sr. Fairbrother se virou, tentando fazer cara feia para Krystal, mas as garotas podiam jurar 
que, na verdade, ele tinha achado engraado. Todas comearam a rir e ainda estavam rindo quando o sr. Fairbrother as levou at a porta dos vestirios.
     Rpido! - gritou ele, quando elas entraram.
     As garotas da St. Anne j estavam l dentro com a sua treinadora. As duas equipes se olharam de alto a baixo separadas pelos bancos. Sukhvinder ficou impressionada 
com o cabelo das adversrias. Todas tinham cabelo comprido e naturalmente brilhante; poderiam perfeitamente fazer anncio de xampu. J no time delas, Siobhan e Niamh 
tinham o cabelo cortado na altura do pescoo. O de Lauren era bem curtinho. Krystal fazia sempre um rabo, bem apertado e no alto da cabea. E ela tinha o cabelo 
grosso e difcil de pentear, como a crina de um cavalo.
     Achou que tinha visto duas das garotas da St. Anne rindo e cochichando, e teve certeza disso quando Krystal se levantou para encar-las e disse:
     Pelo visto a merda de vocs tem cheiro de rosa, n?
     O que foi que voc disse?! - exclamou a treinadora.
     S pra saber - respondeu Krystal, com um arzinho doce, e virou de costas para tirar a cala de moletom.
     A vontade de rir foi to grande que ningum conseguiu segurar. A equipe da Winterdown trocou de roupa rindo s gargalhadas. Krystal continuou fazendo palhaadas 
e ficou debochando quando a equipe da St. Anne saiu do vestirio.
     Que gracinha - disse a ltima das garotas da fila.
     Muito obrigada - respondeu Krystal. - Se quiser, deixo voc dar uma olhadinha de novo mais tarde. Sei que vocs so um bando de sapatas - gritou ela -, enfiadas 
aqui sem nenhum garoto por perto!
     Holly se dobrou de tanto rir e acabou batendo com a cabea na porta do armrio que estava aberta.
     Olha a porra da porta, Hol - exclamou Krystal, encantada com a reao das colegas de equipe. - Sua cabea vai fazer falta.
     Enquanto desciam at o canal, Sukhvinder entendeu por que o sr. Fairbrother queria mudar o local da competio. Ele era o nico torcendo por elas ali na largada. 
J as suas adversrias contavam com o apoio de um monte de amigas gritando, aplaudindo e pulando, todas com o mesmo cabelo comprido e brilhante.
     Olha l! - gritou Krystal, apontando para o grupo. -  Lexie Mollison! Lembra quando eu arranquei os seus dentes, Lex?
     Sukhvinder teve um acesso de riso. Estava feliz e orgulhosa, andando ali ao lado de Krystal, e percebia que as outras garotas tambm estavam. Alguma coisa no 
modo como Krystal enfrentava o mundo as protegia dos olhares curiosos, dos ataques sutis e daquele prdio ao fundo que mais parecia um palcio.
     Mas, quando entraram no barco, sabia que at Krystal estava sentindo a presso. Ela se virou para Sukhvinder, que sempre se sentava s suas costas. Estava segurando 
alguma coisa.
     Meu amuleto da sorte - disse ela, e mostrou o que era.
     Um coraozinho de plstico vermelho, preso a um chaveiro, com a foto do irmozinho dela.
     Prometi que vou levar uma medalha pra ele - disse Krystal.
      - retrucou Sukhvinder, tomada de f e medo. - Vamos ganhar.
     Verdade - concordou Krystal, virando de novo para a frente e enfiando o tal coraozinho dentro do suti. - Elas no so preo pra ns, gente! - gritou ela 
bem alto, para que toda a equipe a ouvisse. - E um bando de mosca-morta. Vamos l!
     Sukhvinder se lembrou do tiro de largada, da multido entusiasmada, dos seus msculos ardendo. Ela se lembrou da sensao maravilhosa ao ver o ritmo perfeito 
daqueles oito remos e do prazer daquela seriedade profunda depois de terem rido tanto. Krystal venceu a prova por elas. Krystal anulou a tal vantagem que a St. Anne 
teria por competir em casa. Sukhvinder quis ser como ela: engraada e durona, impossvel de intimidar, sempre pronta para a briga.
     Pediu duas coisas a Terri Weedon, que concordou com as duas, porque Terri sempre concordava com todo mundo. A medalha que ganharam naquele dia estava no pescoo 
de Krystal na hora do enterro. O outro pedido veio no final do servio fnebre, e, dessa vez, o padre pareceu resignado ao anunci-lo.
     
Good girl gone bad - 
Take three - 
Action.
No clouds in my storms...
Let it rain, I hydroplane into fame
Comin' down with the Dow Jones...
     
     "Garota boazinha que virou m... Tomada trs. Ao. No existem nuvens nas minhas tempestades... Pode chover, que eu hidroplano para a fama... Caindo junto 
com o Dow Jones..."
     
     A famlia de Terri a conduziu at a porta, pelo tapete azul-royal do corredor central da igreja, e todas as pessoas ali evitaram olh-la.
